Comprei esta semana uma tradução do Livro dos Mortos, dos antigos egípcios (O livro egípcio dos mortos, E.A. Wallis Budge, Editora Pensamento). Não dá nem prá pensar em ler agora. Estou ocupadíssima com outras leituras. Em todo caso, sempre tive muito interesse em ler esse material, para saber exatamente do que se trata, e não resisti de folhear o livro. Encontrei títulos no mínimo curiosos, sob um olhar alheio. Eis alguns desses títulos:
- De como fazer retroceder o comedor do burro
- De como acabar com as matanças levadas a cabo no mundo inferior
- De como não perecer e tornar-se vivo no mundo inferior
- De como não sofrer corrupção no mundo inferior
- De como não entrar para o cepo
- De como aspirar o ar entre as águas no mundo inferior
- De como beber água no mundo inferior
- De como não ser escaldado com água
- De como sair à luz no mundo inferior
- De como receber os pés e sair sobre a terra
- De como viajar para anu (heliópolis) e ali receber um trono
- De como operar a transformação num falcão
- De como conduzir um barco no céu
- De como chegar ao porto
- De como fazer recuar o crocodilo que vem buscar as palavras mágicas da alma imortal no mundo inferior
- De como sair da rede
- De como não morrer pela segunda vez
Eu até tentei ler alguma coisa das passagens relativas a esses títulos, mas não entendi lhufas. Quem sabe, quando começar do começo, venha a entender.
Por ora, tudo isso me parece o que o sofista Lícofron disse da nobreza: "Excelência imaginária".
Saturday, May 31, 2008
Wednesday, May 28, 2008
Hê pornê
Quem leu Platão sabe bem que os sofistas eram prostitutas do saber, já que vendiam conhecimento.
Mas, como bem observou o historiador Grote (e Bertrand Russell, em sua História da Filosofia), o que ninguém parece perceber é que um professor moderno, ao cobrar para ensinar, e sobretudo repetir que quem recebe para ensinar não passa de pornê do saber, está afirmando que ele próprio, o douto imitador de Platão, é uma prostituta (ou prostituto, tanto faz).
Se cobrar para ensinar é prostituição, então quem ensina sob pagamento é o quê, fio?
Lembrei daquele político americano que disse, indignado com um adversário: "Esse idiota devia ser escoiceado até a morte por um asno, e eu sou o indicado para fazer isso".
Bastante reflexivo, sem dúvida.
No sentido mais puro.
De espelho, quero dizer.
Mas, como bem observou o historiador Grote (e Bertrand Russell, em sua História da Filosofia), o que ninguém parece perceber é que um professor moderno, ao cobrar para ensinar, e sobretudo repetir que quem recebe para ensinar não passa de pornê do saber, está afirmando que ele próprio, o douto imitador de Platão, é uma prostituta (ou prostituto, tanto faz).
Se cobrar para ensinar é prostituição, então quem ensina sob pagamento é o quê, fio?
Lembrei daquele político americano que disse, indignado com um adversário: "Esse idiota devia ser escoiceado até a morte por um asno, e eu sou o indicado para fazer isso".
Bastante reflexivo, sem dúvida.
No sentido mais puro.
De espelho, quero dizer.
Saturday, May 24, 2008
Riso falso
O diabólico no riso falso está justamente em que ele é forçosamente uma paródia até mesmo daquilo que há de melhor: a reconciliação.
Theodor Adorno
Theodor Adorno
Tuesday, May 20, 2008
Kantianamente falando
Kantianamente falando, tenho observado ultimamente a frequência irritante com que nomes próprios de pensadores têm sido transformados em advérbios por intelectuais.
Será que platonicamente falando, ou cartesianamente falando, ou hegelianamente falando, ou espinosianamente falando, ou husserlianamente falando, ou sartreanamente falando, ou aristotelicamente falando, ou o-raio-que-o-partamente falando, esse modo de falar adverbianamente de modo quer dizer que intelectualmente falando está-se falando de modo crítico, douto e reflexivo?
Ou melhor, será que kantianamente falando está-se falando doutamente, criticamente e reflexivamente... falando?
Será que academicamente falando ninguém pára pra pensar que adverbianamente falando está-se apenas repetindo chavões tolos e sem sentido, que negam justamente aquilo que popperianamente falando querem, adverbianamente falando, fazer parecer?
Mas sei lá. Vai ver que estou estupidamente falando e devo sim, inteligentemente falando, aderir à moda do advérbio de modo, ainda que isto signifique, rigorosamente falando, logicamente falando, rigorosamente nada.
Marcuseanamente falando, eis aí o fechamento do universo da locução.
Minimamente falando.
Será que platonicamente falando, ou cartesianamente falando, ou hegelianamente falando, ou espinosianamente falando, ou husserlianamente falando, ou sartreanamente falando, ou aristotelicamente falando, ou o-raio-que-o-partamente falando, esse modo de falar adverbianamente de modo quer dizer que intelectualmente falando está-se falando de modo crítico, douto e reflexivo?
Ou melhor, será que kantianamente falando está-se falando doutamente, criticamente e reflexivamente... falando?
Será que academicamente falando ninguém pára pra pensar que adverbianamente falando está-se apenas repetindo chavões tolos e sem sentido, que negam justamente aquilo que popperianamente falando querem, adverbianamente falando, fazer parecer?
Mas sei lá. Vai ver que estou estupidamente falando e devo sim, inteligentemente falando, aderir à moda do advérbio de modo, ainda que isto signifique, rigorosamente falando, logicamente falando, rigorosamente nada.
Marcuseanamente falando, eis aí o fechamento do universo da locução.
Minimamente falando.
Sunday, May 18, 2008
Filosofia da brevidade
Comentei aqui, há algum tempo atrás, que Aristóteles afirmava terem sido os Lacedemônios (os espartanos) os inventores da comédia. A afirmação de Aristóteles me causou estranheza porque conhecemos os espartanos, descendentes dos dórios, como um povo que abolia o cultivo do espírito. Hoje, encontrei em Platão (Protágoras) a afirmação de que os Lacedemônios são grandes filósofos, e que a alma desta filosofia é a brevidade.
Ainda bem que é a filosofia da brevidade. Caso contrário, o termo "lacônico" terá de sair do dicionário.
Lacônico significa quem fala muito pouco ou quase nada (designava quem é oriundo da Lacônia, planície onde estava Esparta e, por essa razão, significa quem é monossilábico, já que os espartanos eram treinados para expressar-se com o mínimo possível de palavras).
Só não sei como é possível filosofar em poucas palavras.
Pensando bem, é possível. Os discípulos de Sócrates dialogavam com ele em pouquíssimas palavras:
Sim.
Exatamente.
Bem o dizes, ó Sócrates.
Que queres dizer?
Absolutamente correto.
É verdade.
Tens razão, Sócrates.
Perfeitamente justo.
Só não dá para divergir em poucas palavras. Neste caso não se trata de filosofar, e sim de dizer "não porque não". Ou seja, quando divirjo em poucas palavras, afirmo minha subjetividade, e é só (porque não posso argumentar somente com um "não"). Quando confirmo com poucas palavras, filosofo.
Faz sentido. Para os lacedemônios.
Ainda bem que é a filosofia da brevidade. Caso contrário, o termo "lacônico" terá de sair do dicionário.
Lacônico significa quem fala muito pouco ou quase nada (designava quem é oriundo da Lacônia, planície onde estava Esparta e, por essa razão, significa quem é monossilábico, já que os espartanos eram treinados para expressar-se com o mínimo possível de palavras).
Só não sei como é possível filosofar em poucas palavras.
Pensando bem, é possível. Os discípulos de Sócrates dialogavam com ele em pouquíssimas palavras:
Sim.
Exatamente.
Bem o dizes, ó Sócrates.
Que queres dizer?
Absolutamente correto.
É verdade.
Tens razão, Sócrates.
Perfeitamente justo.
Só não dá para divergir em poucas palavras. Neste caso não se trata de filosofar, e sim de dizer "não porque não". Ou seja, quando divirjo em poucas palavras, afirmo minha subjetividade, e é só (porque não posso argumentar somente com um "não"). Quando confirmo com poucas palavras, filosofo.
Faz sentido. Para os lacedemônios.
Friday, May 16, 2008
Problema com o problema
Li em Guthrie (Os Sofistas, Ed. Paulus, p. 233, em nota de rodapé para a palavrinha meritocracia):
"Temo que seja tarde demais para eliminar este termo bastardo e feio [meritocracia], substituindo-o por seu meio-irmão 'axiocracia'."
Filura de intelectual. Aliás, de intelectualíssimo, caso contrário isso não seria um problema.
Eu não sabia que há termos bastardos. Feios, vá lá. "Afoito" é uma palavra no mínimo engraçada. O mesmo para "Faminto". Há cacofonias também, como em "uma mala" e "ser do ente", assim como há expressões que simplesmente soam mal, como "bom dia". Mas bastardos? O que isso quer dizer?
Mas vá lá. Abaixo a meritocracia! Abaixo os termos bastardos! Abaixo o governo do mérito! Governo do 'axio' já! Ditadura do 'axio' já!
Fica muito mais bonito dizer 'axiocracia", ainda que seja 'cracia', 'kratos', governo, do mesmo jeito. Mas que sejam abolidos os termos feios!
Isso tudo é muuuuito importante!
E tenho dito.
Sem mérito algum.
"Temo que seja tarde demais para eliminar este termo bastardo e feio [meritocracia], substituindo-o por seu meio-irmão 'axiocracia'."
Filura de intelectual. Aliás, de intelectualíssimo, caso contrário isso não seria um problema.
Eu não sabia que há termos bastardos. Feios, vá lá. "Afoito" é uma palavra no mínimo engraçada. O mesmo para "Faminto". Há cacofonias também, como em "uma mala" e "ser do ente", assim como há expressões que simplesmente soam mal, como "bom dia". Mas bastardos? O que isso quer dizer?
Mas vá lá. Abaixo a meritocracia! Abaixo os termos bastardos! Abaixo o governo do mérito! Governo do 'axio' já! Ditadura do 'axio' já!
Fica muito mais bonito dizer 'axiocracia", ainda que seja 'cracia', 'kratos', governo, do mesmo jeito. Mas que sejam abolidos os termos feios!
Isso tudo é muuuuito importante!
E tenho dito.
Sem mérito algum.
Wednesday, May 14, 2008
Morte por excesso de anéis
Quem é vivo morre. Morre-se cedo, morre-se por acidente, doença, "causas naturais", mas nunca ouvi falar que alguém pudesse morrer por excesso de anéis. E não é que um papa morreu assim?
Pesquisando sobre Rodrigo Bórgia, descobri que o papa Paulo II, Eugênio Barbo, cujo papado durou de 1464 a 1471, morreu em decorrência de uma pneumonia causada pela quantidade exagerada de anéis que usava em clima frio.
Devíamos elevá-lo à categoria de "mártir dos anéis", ao menos pela originalidade. É difícil superar essa marca.
Talvez não. Talvez deva ser o mártir dos anéis pelo excesso de zelo com a tradição. Também é difícil superar essa marca.
Pesquisando sobre Rodrigo Bórgia, descobri que o papa Paulo II, Eugênio Barbo, cujo papado durou de 1464 a 1471, morreu em decorrência de uma pneumonia causada pela quantidade exagerada de anéis que usava em clima frio.
Devíamos elevá-lo à categoria de "mártir dos anéis", ao menos pela originalidade. É difícil superar essa marca.
Talvez não. Talvez deva ser o mártir dos anéis pelo excesso de zelo com a tradição. Também é difícil superar essa marca.
Sunday, May 11, 2008
Richter , ou a arte da provocação
Ouvi outro dia, a respeito dos filmes de Hans Richter, precursor do cinema de vanguarda, o argumento de que a verdadeira arte é a que fica. A prova de que o cinema de Richter tem valor reside no fato de que até hoje nos sentimos afetados por ele de algum modo, já que até hoje falamos sobre ele e elaboramos teses e dissertações acerca de seus filmes (ainda que em círculos restritos).
Bem, eu faço uma outra leitura dessa "permanência" de Richter no cenário intelectual: nós ainda falamos sobre ele porque até hoje não compreendemos o que quis dizer (se é que quis dizer alguma coisa). Continua obscuro. Logo, continua instigante.
A afirmação da relevância com base na duração é legítima, sem dúvida. Cristo está aí até hoje, assim como Buda, Maomé e Elvis Presley. Mas não creio que o argumento da relevância histórica possa ir além disso e permitir inferir dela a qualidade do que é avaliado. Isto não significa, claro, afirmar que o cinema de Richter não tem valor. A ressalva é quanto à natureza da defesa deste valor.
Bem, eu faço uma outra leitura dessa "permanência" de Richter no cenário intelectual: nós ainda falamos sobre ele porque até hoje não compreendemos o que quis dizer (se é que quis dizer alguma coisa). Continua obscuro. Logo, continua instigante.
A afirmação da relevância com base na duração é legítima, sem dúvida. Cristo está aí até hoje, assim como Buda, Maomé e Elvis Presley. Mas não creio que o argumento da relevância histórica possa ir além disso e permitir inferir dela a qualidade do que é avaliado. Isto não significa, claro, afirmar que o cinema de Richter não tem valor. A ressalva é quanto à natureza da defesa deste valor.
Thursday, May 08, 2008
Parmênides critica Sócrates
Platão conta, no diálogo Parmênides, que o próprio e seu discípulo Zenão encontraram-se com Sócrates. O filósofo ateniense, para se opor à tese de Parmênides defendida por Zenão, apresenta a sua Teoria das Formas.
A teoria é inaceitável para Parmênides porque supõe a unidade e a multiplicidade (ou a contradição, ainda que apenas para o múltiplo).
Eis o primeiro argumento do filósofo de Eléia:
Se as coisas particulares participam da forma da beleza, ou da semelhança, ou da extensão, elas são ou bonitas, ou semelhantes, ou extensas. Cada coisa particular deve receber ou o todo da forma de que participar, ou uma parte. De um modo ou de outro, a forma se torna múltipla. No primeiro caso, por multiplicação. No segundo, por divisão. Em qualquer dos casos, não será una.
A resposta de Sócrates, embora tímida, é ótima e se resume na afirmação de que as formas são paradigmas, não coisas sensíveis, que podem ser divididas ou multiplicadas.
Ow, Parmênides, quer medir idéia com esquadro?
O mais interessante no diálogo entre Sócrates e Parmênides é a imagem do jovenzinho promissor, mas ainda ingênuo e incipiente, apresentando problemas para gente grande pensar. Lembrei-me de Cristo conversando com os doutores do templo.
A teoria é inaceitável para Parmênides porque supõe a unidade e a multiplicidade (ou a contradição, ainda que apenas para o múltiplo).
Eis o primeiro argumento do filósofo de Eléia:
Se as coisas particulares participam da forma da beleza, ou da semelhança, ou da extensão, elas são ou bonitas, ou semelhantes, ou extensas. Cada coisa particular deve receber ou o todo da forma de que participar, ou uma parte. De um modo ou de outro, a forma se torna múltipla. No primeiro caso, por multiplicação. No segundo, por divisão. Em qualquer dos casos, não será una.
A resposta de Sócrates, embora tímida, é ótima e se resume na afirmação de que as formas são paradigmas, não coisas sensíveis, que podem ser divididas ou multiplicadas.
Ow, Parmênides, quer medir idéia com esquadro?
O mais interessante no diálogo entre Sócrates e Parmênides é a imagem do jovenzinho promissor, mas ainda ingênuo e incipiente, apresentando problemas para gente grande pensar. Lembrei-me de Cristo conversando com os doutores do templo.
Monday, May 05, 2008
Apareceu o oportunismo
Uma tal Teresa de Lisieux é uma santa esperta. Começou a aparecer poucos dias antes do ataque terrorista ao World Trade Center. Alguns moradores de Nova Iorque garantem ter visto a santa na noite de 4 de setembro e nas cinco noites seguintes, até o dia do ataque, avisando que coisas terríveis iriam acontecer muito em breve.
Cá entre nós: de que vale a santa aparecer para dizer que coisas horríveis vão acontecer? Quem é que pode se precaver com um aviso tão vago assim?
Bem, eu vou participar da festa e prever que coisas terríveis vão acontecer brevemente.
Se for um terremoto em qualquer parte do mundo, está valendo.
Se for um ciclone, igualmente.
Um desabamento? Acertei.
Um tsunami? idem.
A morte de uma figura da política internacional? Acertei.
Um ator? Uma atriz? Um cantor? Acertei também (pode ser terrível, sim. Até hoje não superamos Elvis).
Como disse, a santa é esperta. Sua previsão é infalível.
Sobretudo, porque foi feita dois anos depois do 11 de setembro.
Cá entre nós: de que vale a santa aparecer para dizer que coisas horríveis vão acontecer? Quem é que pode se precaver com um aviso tão vago assim?
Bem, eu vou participar da festa e prever que coisas terríveis vão acontecer brevemente.
Se for um terremoto em qualquer parte do mundo, está valendo.
Se for um ciclone, igualmente.
Um desabamento? Acertei.
Um tsunami? idem.
A morte de uma figura da política internacional? Acertei.
Um ator? Uma atriz? Um cantor? Acertei também (pode ser terrível, sim. Até hoje não superamos Elvis).
Como disse, a santa é esperta. Sua previsão é infalível.
Sobretudo, porque foi feita dois anos depois do 11 de setembro.
Saturday, May 03, 2008
Relevo selvagem
"Quem quereria denominar sublimes também massas informes de cordilheiras amontoadas umas sobre outras em desordem selvagem com suas pirâmides de gelo, ou o sombrio mar furioso etc.?"
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 26.
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 26.
Thursday, May 01, 2008
Diversão não
"As pessoas querem divertir-se. Uma experiência plenamente concentrada e consciente de arte só é possível para aqueles cujas vidas não colocam um tal stress, não impõem tanta solicitação, a ponto de, em seu tempo livre, eles só quererem alívio simultaneneamente do tédio e do esforço." (Theodor Adorno, Sobre a Música Popular)
A julgar pelo que Adorno diz no parágrafo acima, querer diversão, querer alívio do tédio e do esforço é condição de impossibilidade de apreciação da arte.
A medida de avaliação da arte (se boa ou não) deve ser externa a ela?
A julgar pelo que Adorno diz no parágrafo acima, querer diversão, querer alívio do tédio e do esforço é condição de impossibilidade de apreciação da arte.
A medida de avaliação da arte (se boa ou não) deve ser externa a ela?
Wednesday, April 30, 2008
Espíritos da antiguidade
Sabe aquelas almas penadas que rondam os cemitérios à noite?
Pois é, na Grécia Antiga elas também davam sinal de vida: rondavam monumentos funerários e sepulturas.
Platão explica: os espectros vistos vagando por aí nada mais são que almas desencarnadas que, quando em vida, estavam presas ao mundo visível. Logo, após a morte do corpo continuam ligadas à matéria e são, portanto, visíveis.
Já reparou que nenhum vidente alega ter visto o espírito de um filósofo?
Não, não. Isso não tem nada a ver com o desinteresse dos videntes (e dos viventes) pelas almas filosóficas, e menos ainda com a pouca cultura dos videntes. A explicação é muito mais profunda: as almas dos filósofos vão para o paraíso das idéias, viver a vida eterna do pensamento. E ficam por lá.
Ow, não precisa ter medo de estudar filosofia. Pode até ser que você fique preso no mundo das idéias e não encontre emprego, mas garanto que não vai começar a ver fantasmas. Isso não. Filósofo não volta prá assombrar ninguém.
Talvez porque não acredite muito na vida, vá saber.
E depois, já virou idéia.
-----------------
Eis a passagem:
"E uma vez que é este o conteúdo de tal alma, por ele é que ela se torna pesada, atraída e arrastada para o lugar visível, devido ao medo que lhe inspira o que é invisível e o que chamamos de país do Hades; essa alma ronda os monumentos funerários e as sepulturas, ao redor dos quais de fato foram vistos certos espectros sombrios, de almas, imagens apropriadas das almas de que falamos. Elas, por terem sido libertadas, em estado de impureza e de participação com o visível, são assim também elas visíveis!" (Fédon, 81a)
Pois é, na Grécia Antiga elas também davam sinal de vida: rondavam monumentos funerários e sepulturas.
Platão explica: os espectros vistos vagando por aí nada mais são que almas desencarnadas que, quando em vida, estavam presas ao mundo visível. Logo, após a morte do corpo continuam ligadas à matéria e são, portanto, visíveis.
Já reparou que nenhum vidente alega ter visto o espírito de um filósofo?
Não, não. Isso não tem nada a ver com o desinteresse dos videntes (e dos viventes) pelas almas filosóficas, e menos ainda com a pouca cultura dos videntes. A explicação é muito mais profunda: as almas dos filósofos vão para o paraíso das idéias, viver a vida eterna do pensamento. E ficam por lá.
Ow, não precisa ter medo de estudar filosofia. Pode até ser que você fique preso no mundo das idéias e não encontre emprego, mas garanto que não vai começar a ver fantasmas. Isso não. Filósofo não volta prá assombrar ninguém.
Talvez porque não acredite muito na vida, vá saber.
E depois, já virou idéia.
-----------------
Eis a passagem:
"E uma vez que é este o conteúdo de tal alma, por ele é que ela se torna pesada, atraída e arrastada para o lugar visível, devido ao medo que lhe inspira o que é invisível e o que chamamos de país do Hades; essa alma ronda os monumentos funerários e as sepulturas, ao redor dos quais de fato foram vistos certos espectros sombrios, de almas, imagens apropriadas das almas de que falamos. Elas, por terem sido libertadas, em estado de impureza e de participação com o visível, são assim também elas visíveis!" (Fédon, 81a)
Sunday, April 27, 2008
Tudo sobre macacos
Em um desses canais educativos da TV a Cabo, vi hoje um documentário sobre macacos para crianças (o documentário).
É, eu vi.
Desejando saber o que são macacos, a criança vai ao computador, faz a pesquisa e assiste a um video.
Ao final ela diz: "Obrigado, computador. Agora já sabemos tudo sobre macacos."
Pronto. Eis o conhecimento absoluto sobre os símios.
Eis que vejo também um professor plantando batatas.
É, eu vi.
Desejando saber o que são macacos, a criança vai ao computador, faz a pesquisa e assiste a um video.
Ao final ela diz: "Obrigado, computador. Agora já sabemos tudo sobre macacos."
Pronto. Eis o conhecimento absoluto sobre os símios.
Eis que vejo também um professor plantando batatas.
Tuesday, April 22, 2008
Expectativa frustrada
O riso é um afeto resultante da súbita transformação de uma tensa expectativa em nada.
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 54, 225.
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 54, 225.
Saturday, April 19, 2008
O segredo do umbigo
Já ouviu falar em cordão umbilical?
Esqueça.
Platão tem uma explicação muito melhor para a existência do umbigo, mas como não é bobo nem nada, a atribui a seu desafeto Aristófanes: trata-se de uma espécie de nó na ponta de uma trouxinha.
Imagine um lençol aberto.
Imagine que você colocou algo dentro dele, para carregar. Roupas, por exemplo.
Agora junte as pontas e amarre-as com um nó.
Pronto, eis o umbigo.
Esclareço: os deuses, por uma razão que explicarei qualquer dia destes, modela os homens (favor não confundir com a história do barro). Como eles eram grandes e são divididos em dois, sobra muita pele. Apolo então estica a pele da barriga, junta as pontas e dá um nó. Ou qualquer coisa que o valha. E assim passamos a ter o que chamamos "umbigo".
Veja a passagem:
"Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo." (Platão, O Banquete, 190e)
Esqueça.
Platão tem uma explicação muito melhor para a existência do umbigo, mas como não é bobo nem nada, a atribui a seu desafeto Aristófanes: trata-se de uma espécie de nó na ponta de uma trouxinha.
Imagine um lençol aberto.
Imagine que você colocou algo dentro dele, para carregar. Roupas, por exemplo.
Agora junte as pontas e amarre-as com um nó.
Pronto, eis o umbigo.
Esclareço: os deuses, por uma razão que explicarei qualquer dia destes, modela os homens (favor não confundir com a história do barro). Como eles eram grandes e são divididos em dois, sobra muita pele. Apolo então estica a pele da barriga, junta as pontas e dá um nó. Ou qualquer coisa que o valha. E assim passamos a ter o que chamamos "umbigo".
Veja a passagem:
"Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo." (Platão, O Banquete, 190e)
Thursday, April 17, 2008
Coisa horrorosa
No "Banquete", Sócrates compara o sofista Górgias à medusa, aquela figura tétrica, que nos transforma em pedras só de olhar para ela (e que Perseu matou usando o escudo como espelho):
"Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vinha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que, concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz." (198 c).
Sócrates expressa o medo de que o sofista possa tornar vazio o discurso do filósofo.
Ironia, claro.
Pelo menos não se pode acusá-lo de modéstia, coisa tão fora de moda.
Em tempo: o sofista Górgias era tão popular em Atenas e arredores que os gregos chegaram a criar um neologismo para se referir às tentativas de imitá-lo: gorgianizar.
"Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vinha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que, concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz." (198 c).
Sócrates expressa o medo de que o sofista possa tornar vazio o discurso do filósofo.
Ironia, claro.
Pelo menos não se pode acusá-lo de modéstia, coisa tão fora de moda.
Em tempo: o sofista Górgias era tão popular em Atenas e arredores que os gregos chegaram a criar um neologismo para se referir às tentativas de imitá-lo: gorgianizar.
Tuesday, April 15, 2008
Ateus idiotas (3)
Kierkegaard dizia que a escolha fundamental de Adão (quer tenha ele existido ou seja apenas historinha prá boi dormir) é entre o "eu" (o homem) e o "outro" (Deus), isto é, entre a humanidade e a divindade. Essa escolha não é histórica, feita no passado e, por isso, concluída. É uma escolha de instante, que volta sempre, e nos obriga a refazê-la insistentamente, seja qual for. Somos Adão, na medida em que a todo momento somos convocados pelas circunstâncias a fazer escolhas.
O mesmo se pode dizer da saída do mito (não absoluta): a razão nasce da recusa de uma explicação de mundo; a racionalidade é, por excelência, uma recusa do mito, uma saída progressiva, não completa, de um raciocínio mítico para uma visão de mundo que não se assente na vontade, na necessidade psicológica, na fantasia, na verdade do "dito" ou no sonho.
O conhecimento nos leva necessariamente para longe do mito. Se isto não acontece, é porque criamos cataplasmas para cobrir os furos no sistema, porque não há como refletir com coragem sobre os fundamentos da crença e permanecer inabalável.
Sem o confronto com esses furos no sistema a razão vira técnica: serve à vaidade, serve aos valores individuais, serve às verdades prontas e acabadas.
Serve bem, mas é só.
O mesmo se pode dizer da saída do mito (não absoluta): a razão nasce da recusa de uma explicação de mundo; a racionalidade é, por excelência, uma recusa do mito, uma saída progressiva, não completa, de um raciocínio mítico para uma visão de mundo que não se assente na vontade, na necessidade psicológica, na fantasia, na verdade do "dito" ou no sonho.
O conhecimento nos leva necessariamente para longe do mito. Se isto não acontece, é porque criamos cataplasmas para cobrir os furos no sistema, porque não há como refletir com coragem sobre os fundamentos da crença e permanecer inabalável.
Sem o confronto com esses furos no sistema a razão vira técnica: serve à vaidade, serve aos valores individuais, serve às verdades prontas e acabadas.
Serve bem, mas é só.
Saturday, April 12, 2008
Ateus idiotas (2)
Depois da experiência descrita no post anterior, que aconteceu onde não deveria acontecer (dentro da academia, com pessoas no mínimo supostamente esclarecidas), fiquei me perguntando qual é o problema com o ateísmo.
Se sou atéia, é arbítrio meu. Isso não muda ninguém, não vou levar ninguém comigo para o inferno, não estou interferindo na liberdade de escolha de ninguém, não estou lesando ninguém etc etc.
Por que é tão difícil entender isso?
Que eu creia em papai noel, coelhinho da páscoa, astrologia, runas, tarot, I-Ching, umbanda, espíritos esvoaçantes, vampiros e o diabo-a-quatro. Tudo é preferível a ser atéia.
Ow, isso cansa!
Se sou atéia, é arbítrio meu. Isso não muda ninguém, não vou levar ninguém comigo para o inferno, não estou interferindo na liberdade de escolha de ninguém, não estou lesando ninguém etc etc.
Por que é tão difícil entender isso?
Que eu creia em papai noel, coelhinho da páscoa, astrologia, runas, tarot, I-Ching, umbanda, espíritos esvoaçantes, vampiros e o diabo-a-quatro. Tudo é preferível a ser atéia.
Ow, isso cansa!
Thursday, April 10, 2008
Ateus idiotas (1)
Recentemente, em uma aula de que participo como estudante, escutei argumentos bastante elaborados, oriundos de pessoas diversas, contra o ateísmo:
1. Um amigo ateu me explicou que não crê em Deus por que, quando tinha cinco anos, jogou uma pedra numa janela. A janela quebrou, e o menino pediu a Deus que não deixasse ninguém saber que ele era o autor da façanha. Deus não ouviu o pedido e ele foi castigado. Desde então não crê mais em Deus. E acrescento, por minha conta e risco: "Deus não existe porque não faz a minha vontade."
Argumentei: "Isto não é ateísmo; é ressentimento".
Veio a resposta: "Do ressentimento vem o ateísmo".
A conversa prosseguiu, com outro participante:
"Pior é um ateu que diz 'Graças a Deus'"
Ow, se eu tropeçar em uma pedra e disser "mas que diabo!" estou invocando o capeta?
Então o argumento seguinte: "Mas há bons ateus, que são mais corretos que muitos cristãos".
Isto é, há ateus que são até bons cristãos, apesar de negarem o cristianismo.
E, por fim: "Ateísmo é recusa do pai".
Então tá. Tudo se resume em uma dificuldade psicológica com figuras de autoridade (que o "denunciante" não tem, claro).
Não resisti, meti o bedelho na discussão e ouvi a máxima a respeito de minha interferência: "Isto sim é ressentimento!"
Festival de ad hominem.
Que é isso, gente?
Argumentei contra o ad hominem, ou seja, contra argumentos, e não contra crenças.
Que invoquem papai noel o quanto quiserem, mas encontrem argumentos mais razoáveis contra quem não coloca mais o sapatinho na janela. Pelo amor de Deus.
1. Um amigo ateu me explicou que não crê em Deus por que, quando tinha cinco anos, jogou uma pedra numa janela. A janela quebrou, e o menino pediu a Deus que não deixasse ninguém saber que ele era o autor da façanha. Deus não ouviu o pedido e ele foi castigado. Desde então não crê mais em Deus. E acrescento, por minha conta e risco: "Deus não existe porque não faz a minha vontade."
Argumentei: "Isto não é ateísmo; é ressentimento".
Veio a resposta: "Do ressentimento vem o ateísmo".
A conversa prosseguiu, com outro participante:
"Pior é um ateu que diz 'Graças a Deus'"
Ow, se eu tropeçar em uma pedra e disser "mas que diabo!" estou invocando o capeta?
Então o argumento seguinte: "Mas há bons ateus, que são mais corretos que muitos cristãos".
Isto é, há ateus que são até bons cristãos, apesar de negarem o cristianismo.
E, por fim: "Ateísmo é recusa do pai".
Então tá. Tudo se resume em uma dificuldade psicológica com figuras de autoridade (que o "denunciante" não tem, claro).
Não resisti, meti o bedelho na discussão e ouvi a máxima a respeito de minha interferência: "Isto sim é ressentimento!"
Festival de ad hominem.
Que é isso, gente?
Argumentei contra o ad hominem, ou seja, contra argumentos, e não contra crenças.
Que invoquem papai noel o quanto quiserem, mas encontrem argumentos mais razoáveis contra quem não coloca mais o sapatinho na janela. Pelo amor de Deus.
Subscribe to:
Posts (Atom)