Sabe aquelas almas penadas que rondam os cemitérios à noite?
Pois é, na Grécia Antiga elas também davam sinal de vida: rondavam monumentos funerários e sepulturas.
Platão explica: os espectros vistos vagando por aí nada mais são que almas desencarnadas que, quando em vida, estavam presas ao mundo visível. Logo, após a morte do corpo continuam ligadas à matéria e são, portanto, visíveis.
Já reparou que nenhum vidente alega ter visto o espírito de um filósofo?
Não, não. Isso não tem nada a ver com o desinteresse dos videntes (e dos viventes) pelas almas filosóficas, e menos ainda com a pouca cultura dos videntes. A explicação é muito mais profunda: as almas dos filósofos vão para o paraíso das idéias, viver a vida eterna do pensamento. E ficam por lá.
Ow, não precisa ter medo de estudar filosofia. Pode até ser que você fique preso no mundo das idéias e não encontre emprego, mas garanto que não vai começar a ver fantasmas. Isso não. Filósofo não volta prá assombrar ninguém.
Talvez porque não acredite muito na vida, vá saber.
E depois, já virou idéia.
-----------------
Eis a passagem:
"E uma vez que é este o conteúdo de tal alma, por ele é que ela se torna pesada, atraída e arrastada para o lugar visível, devido ao medo que lhe inspira o que é invisível e o que chamamos de país do Hades; essa alma ronda os monumentos funerários e as sepulturas, ao redor dos quais de fato foram vistos certos espectros sombrios, de almas, imagens apropriadas das almas de que falamos. Elas, por terem sido libertadas, em estado de impureza e de participação com o visível, são assim também elas visíveis!" (Fédon, 81a)
Wednesday, April 30, 2008
Sunday, April 27, 2008
Tudo sobre macacos
Em um desses canais educativos da TV a Cabo, vi hoje um documentário sobre macacos para crianças (o documentário).
É, eu vi.
Desejando saber o que são macacos, a criança vai ao computador, faz a pesquisa e assiste a um video.
Ao final ela diz: "Obrigado, computador. Agora já sabemos tudo sobre macacos."
Pronto. Eis o conhecimento absoluto sobre os símios.
Eis que vejo também um professor plantando batatas.
É, eu vi.
Desejando saber o que são macacos, a criança vai ao computador, faz a pesquisa e assiste a um video.
Ao final ela diz: "Obrigado, computador. Agora já sabemos tudo sobre macacos."
Pronto. Eis o conhecimento absoluto sobre os símios.
Eis que vejo também um professor plantando batatas.
Tuesday, April 22, 2008
Expectativa frustrada
O riso é um afeto resultante da súbita transformação de uma tensa expectativa em nada.
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 54, 225.
Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 54, 225.
Saturday, April 19, 2008
O segredo do umbigo
Já ouviu falar em cordão umbilical?
Esqueça.
Platão tem uma explicação muito melhor para a existência do umbigo, mas como não é bobo nem nada, a atribui a seu desafeto Aristófanes: trata-se de uma espécie de nó na ponta de uma trouxinha.
Imagine um lençol aberto.
Imagine que você colocou algo dentro dele, para carregar. Roupas, por exemplo.
Agora junte as pontas e amarre-as com um nó.
Pronto, eis o umbigo.
Esclareço: os deuses, por uma razão que explicarei qualquer dia destes, modela os homens (favor não confundir com a história do barro). Como eles eram grandes e são divididos em dois, sobra muita pele. Apolo então estica a pele da barriga, junta as pontas e dá um nó. Ou qualquer coisa que o valha. E assim passamos a ter o que chamamos "umbigo".
Veja a passagem:
"Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo." (Platão, O Banquete, 190e)
Esqueça.
Platão tem uma explicação muito melhor para a existência do umbigo, mas como não é bobo nem nada, a atribui a seu desafeto Aristófanes: trata-se de uma espécie de nó na ponta de uma trouxinha.
Imagine um lençol aberto.
Imagine que você colocou algo dentro dele, para carregar. Roupas, por exemplo.
Agora junte as pontas e amarre-as com um nó.
Pronto, eis o umbigo.
Esclareço: os deuses, por uma razão que explicarei qualquer dia destes, modela os homens (favor não confundir com a história do barro). Como eles eram grandes e são divididos em dois, sobra muita pele. Apolo então estica a pele da barriga, junta as pontas e dá um nó. Ou qualquer coisa que o valha. E assim passamos a ter o que chamamos "umbigo".
Veja a passagem:
"Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo." (Platão, O Banquete, 190e)
Thursday, April 17, 2008
Coisa horrorosa
No "Banquete", Sócrates compara o sofista Górgias à medusa, aquela figura tétrica, que nos transforma em pedras só de olhar para ela (e que Perseu matou usando o escudo como espelho):
"Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vinha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que, concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz." (198 c).
Sócrates expressa o medo de que o sofista possa tornar vazio o discurso do filósofo.
Ironia, claro.
Pelo menos não se pode acusá-lo de modéstia, coisa tão fora de moda.
Em tempo: o sofista Górgias era tão popular em Atenas e arredores que os gregos chegaram a criar um neologismo para se referir às tentativas de imitá-lo: gorgianizar.
"Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vinha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que, concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz." (198 c).
Sócrates expressa o medo de que o sofista possa tornar vazio o discurso do filósofo.
Ironia, claro.
Pelo menos não se pode acusá-lo de modéstia, coisa tão fora de moda.
Em tempo: o sofista Górgias era tão popular em Atenas e arredores que os gregos chegaram a criar um neologismo para se referir às tentativas de imitá-lo: gorgianizar.
Tuesday, April 15, 2008
Ateus idiotas (3)
Kierkegaard dizia que a escolha fundamental de Adão (quer tenha ele existido ou seja apenas historinha prá boi dormir) é entre o "eu" (o homem) e o "outro" (Deus), isto é, entre a humanidade e a divindade. Essa escolha não é histórica, feita no passado e, por isso, concluída. É uma escolha de instante, que volta sempre, e nos obriga a refazê-la insistentamente, seja qual for. Somos Adão, na medida em que a todo momento somos convocados pelas circunstâncias a fazer escolhas.
O mesmo se pode dizer da saída do mito (não absoluta): a razão nasce da recusa de uma explicação de mundo; a racionalidade é, por excelência, uma recusa do mito, uma saída progressiva, não completa, de um raciocínio mítico para uma visão de mundo que não se assente na vontade, na necessidade psicológica, na fantasia, na verdade do "dito" ou no sonho.
O conhecimento nos leva necessariamente para longe do mito. Se isto não acontece, é porque criamos cataplasmas para cobrir os furos no sistema, porque não há como refletir com coragem sobre os fundamentos da crença e permanecer inabalável.
Sem o confronto com esses furos no sistema a razão vira técnica: serve à vaidade, serve aos valores individuais, serve às verdades prontas e acabadas.
Serve bem, mas é só.
O mesmo se pode dizer da saída do mito (não absoluta): a razão nasce da recusa de uma explicação de mundo; a racionalidade é, por excelência, uma recusa do mito, uma saída progressiva, não completa, de um raciocínio mítico para uma visão de mundo que não se assente na vontade, na necessidade psicológica, na fantasia, na verdade do "dito" ou no sonho.
O conhecimento nos leva necessariamente para longe do mito. Se isto não acontece, é porque criamos cataplasmas para cobrir os furos no sistema, porque não há como refletir com coragem sobre os fundamentos da crença e permanecer inabalável.
Sem o confronto com esses furos no sistema a razão vira técnica: serve à vaidade, serve aos valores individuais, serve às verdades prontas e acabadas.
Serve bem, mas é só.
Saturday, April 12, 2008
Ateus idiotas (2)
Depois da experiência descrita no post anterior, que aconteceu onde não deveria acontecer (dentro da academia, com pessoas no mínimo supostamente esclarecidas), fiquei me perguntando qual é o problema com o ateísmo.
Se sou atéia, é arbítrio meu. Isso não muda ninguém, não vou levar ninguém comigo para o inferno, não estou interferindo na liberdade de escolha de ninguém, não estou lesando ninguém etc etc.
Por que é tão difícil entender isso?
Que eu creia em papai noel, coelhinho da páscoa, astrologia, runas, tarot, I-Ching, umbanda, espíritos esvoaçantes, vampiros e o diabo-a-quatro. Tudo é preferível a ser atéia.
Ow, isso cansa!
Se sou atéia, é arbítrio meu. Isso não muda ninguém, não vou levar ninguém comigo para o inferno, não estou interferindo na liberdade de escolha de ninguém, não estou lesando ninguém etc etc.
Por que é tão difícil entender isso?
Que eu creia em papai noel, coelhinho da páscoa, astrologia, runas, tarot, I-Ching, umbanda, espíritos esvoaçantes, vampiros e o diabo-a-quatro. Tudo é preferível a ser atéia.
Ow, isso cansa!
Thursday, April 10, 2008
Ateus idiotas (1)
Recentemente, em uma aula de que participo como estudante, escutei argumentos bastante elaborados, oriundos de pessoas diversas, contra o ateísmo:
1. Um amigo ateu me explicou que não crê em Deus por que, quando tinha cinco anos, jogou uma pedra numa janela. A janela quebrou, e o menino pediu a Deus que não deixasse ninguém saber que ele era o autor da façanha. Deus não ouviu o pedido e ele foi castigado. Desde então não crê mais em Deus. E acrescento, por minha conta e risco: "Deus não existe porque não faz a minha vontade."
Argumentei: "Isto não é ateísmo; é ressentimento".
Veio a resposta: "Do ressentimento vem o ateísmo".
A conversa prosseguiu, com outro participante:
"Pior é um ateu que diz 'Graças a Deus'"
Ow, se eu tropeçar em uma pedra e disser "mas que diabo!" estou invocando o capeta?
Então o argumento seguinte: "Mas há bons ateus, que são mais corretos que muitos cristãos".
Isto é, há ateus que são até bons cristãos, apesar de negarem o cristianismo.
E, por fim: "Ateísmo é recusa do pai".
Então tá. Tudo se resume em uma dificuldade psicológica com figuras de autoridade (que o "denunciante" não tem, claro).
Não resisti, meti o bedelho na discussão e ouvi a máxima a respeito de minha interferência: "Isto sim é ressentimento!"
Festival de ad hominem.
Que é isso, gente?
Argumentei contra o ad hominem, ou seja, contra argumentos, e não contra crenças.
Que invoquem papai noel o quanto quiserem, mas encontrem argumentos mais razoáveis contra quem não coloca mais o sapatinho na janela. Pelo amor de Deus.
1. Um amigo ateu me explicou que não crê em Deus por que, quando tinha cinco anos, jogou uma pedra numa janela. A janela quebrou, e o menino pediu a Deus que não deixasse ninguém saber que ele era o autor da façanha. Deus não ouviu o pedido e ele foi castigado. Desde então não crê mais em Deus. E acrescento, por minha conta e risco: "Deus não existe porque não faz a minha vontade."
Argumentei: "Isto não é ateísmo; é ressentimento".
Veio a resposta: "Do ressentimento vem o ateísmo".
A conversa prosseguiu, com outro participante:
"Pior é um ateu que diz 'Graças a Deus'"
Ow, se eu tropeçar em uma pedra e disser "mas que diabo!" estou invocando o capeta?
Então o argumento seguinte: "Mas há bons ateus, que são mais corretos que muitos cristãos".
Isto é, há ateus que são até bons cristãos, apesar de negarem o cristianismo.
E, por fim: "Ateísmo é recusa do pai".
Então tá. Tudo se resume em uma dificuldade psicológica com figuras de autoridade (que o "denunciante" não tem, claro).
Não resisti, meti o bedelho na discussão e ouvi a máxima a respeito de minha interferência: "Isto sim é ressentimento!"
Festival de ad hominem.
Que é isso, gente?
Argumentei contra o ad hominem, ou seja, contra argumentos, e não contra crenças.
Que invoquem papai noel o quanto quiserem, mas encontrem argumentos mais razoáveis contra quem não coloca mais o sapatinho na janela. Pelo amor de Deus.
Tuesday, April 08, 2008
O Banquete (5): Pausânias
Ainda sobre o Banquete de Platão, vamos ao segundo discurso sobre o amor (tema bastante apropriado, já que Fedro ama Eurixímaco, Pausânias ama Agatão, Alcibíades ama Sócrates, Sócrates ama a filosofia, o homem, a humanidade e a morte e Aristófanes não ama ninguém).
Pausânias não fala sobre Eros, o deus do amor, mas sobre Afrodite, a deusa, e entende que há dois tipos de amor: o amor de Afrodite Pandêmia, e o amor de Afrodite Urânia.
Pandêmia é a deusa do amor físico. Urânia é a deusa do amor, digamos, celestial: amor pelo espírito, pela inteligência, pelo bem etc e tal.
Pausânias esclarece que o amor pelo jovenzinho sem barba é menor. O amor que realmente conta é o aquele que tem como alvo jovens já começando a mostrar inteligência, ou seja, os jovens que já começam a ter barba (mas não os bodes de Erasmo de Roterdã, bem entendido. Estes já são adultos e não gostam de beber com ouvintes de memória fiel).
Digressões à parte, o argumento é: o amante deve visar no amado a possibilidade de encorajá-lo a ser virtudo e sábio. O jovem amado, por sua vez, deve esperar aprender com seu amante a - novamente - ser sábio e virtuoso.
Muito bem.
Então o que estava fazendo Pausânias na feliz companhia de Agatão? Provavelmente Agatão era o imberbe e Pausânias era o bode. Ou o contrário, sei lá.
De todo modo, os discursos caminham de uma descrição do amor, digamos, mais ao gosto de Cicciolina, para algo mais fundamental e mais etéreo. Há no diálogo uma ascensão não muito linear da agnosía (ignorância) para a doxa (opinião) e, enfim, para a episteme (conhecimento), representada pela filosofia e pela figura de Sócrates.
Pausânias não fala sobre Eros, o deus do amor, mas sobre Afrodite, a deusa, e entende que há dois tipos de amor: o amor de Afrodite Pandêmia, e o amor de Afrodite Urânia.
Pandêmia é a deusa do amor físico. Urânia é a deusa do amor, digamos, celestial: amor pelo espírito, pela inteligência, pelo bem etc e tal.
Pausânias esclarece que o amor pelo jovenzinho sem barba é menor. O amor que realmente conta é o aquele que tem como alvo jovens já começando a mostrar inteligência, ou seja, os jovens que já começam a ter barba (mas não os bodes de Erasmo de Roterdã, bem entendido. Estes já são adultos e não gostam de beber com ouvintes de memória fiel).
Digressões à parte, o argumento é: o amante deve visar no amado a possibilidade de encorajá-lo a ser virtudo e sábio. O jovem amado, por sua vez, deve esperar aprender com seu amante a - novamente - ser sábio e virtuoso.
Muito bem.
Então o que estava fazendo Pausânias na feliz companhia de Agatão? Provavelmente Agatão era o imberbe e Pausânias era o bode. Ou o contrário, sei lá.
De todo modo, os discursos caminham de uma descrição do amor, digamos, mais ao gosto de Cicciolina, para algo mais fundamental e mais etéreo. Há no diálogo uma ascensão não muito linear da agnosía (ignorância) para a doxa (opinião) e, enfim, para a episteme (conhecimento), representada pela filosofia e pela figura de Sócrates.
Friday, April 04, 2008
Teoria x Prática
Estou concluindo um curso virtual sobre curso virtual - pela terceira vez. E, pela terceira vez, confesso que não aprendi rigorosamente nada. O curso é para treinar professores para ministrar cursos à distância, e no fim das contas trata-se apenas do aprendizado do uso de um programa bem simples. Em todo caso, há um fórum de debates sobre o virtual que nos obriga a refletir sobre o assunto.
Bem, ocorreu-me que estamos acostumados a pensar que a prática depende da teoria, e não é errado pensar assim, mas me parece que o mundo virtual rompe também com esse paradigma. Nele, a prática se faz sem a teoria; é o saber-fazer que interessa, e não por que é assim. Interessa ao usuário do computador apenas saber usar as ferramentas disponíveis, e nada além disso. É claro que há uma teoria que valida essa prática, mas o meu ponto é que, para o usuário, essa teoria é irrelevante. Esse modo de pensar, é claro, não fica restrito ao uso do computador; ele se estende para outras áreas do conhecimento. Isso, penso, acaba alimentando a idéia de que disciplinas teóricas são, via de regra, perda de tempo.
Talvez amanhã pense de outro modo. Por hoje, é isso.
Bem, ocorreu-me que estamos acostumados a pensar que a prática depende da teoria, e não é errado pensar assim, mas me parece que o mundo virtual rompe também com esse paradigma. Nele, a prática se faz sem a teoria; é o saber-fazer que interessa, e não por que é assim. Interessa ao usuário do computador apenas saber usar as ferramentas disponíveis, e nada além disso. É claro que há uma teoria que valida essa prática, mas o meu ponto é que, para o usuário, essa teoria é irrelevante. Esse modo de pensar, é claro, não fica restrito ao uso do computador; ele se estende para outras áreas do conhecimento. Isso, penso, acaba alimentando a idéia de que disciplinas teóricas são, via de regra, perda de tempo.
Talvez amanhã pense de outro modo. Por hoje, é isso.
Tuesday, April 01, 2008
O Banquete (4): Fedro
Fedro é o primeiro a falar (lembre-se que na sequência temos Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates e Alcibíades). Ele afirma, citando Hesíodo, um certo Acusilau e Pamênides, que Eros é o mais antigo dos deuses, o mais poderoso e o mais digno.
Este Eros a que Fedro se refere é o Eros primordial, que surge quando a terra, Gaia, se une ao Céu, Urano. O outro Eros, o garotinho com uma flecha, é filho de Afrodite e Ares.
Bem, o Eros primordial, segundo Fedro, faz com que cada homem cuide de si mesmo, seja corajoso, honesto e honrado. A lógica é simples: quem ama quer a admiração da pessoa amada, então se esforça para se conduzir de modo correto. É capaz até de sacrificar sua vida pelo amado. Logo, o amor torna os homens melhores.
Aposto que Foucault se inspirou no discurso de Fedro para escrever o livro 2 da História da Sexualidade.
Este Eros a que Fedro se refere é o Eros primordial, que surge quando a terra, Gaia, se une ao Céu, Urano. O outro Eros, o garotinho com uma flecha, é filho de Afrodite e Ares.
Bem, o Eros primordial, segundo Fedro, faz com que cada homem cuide de si mesmo, seja corajoso, honesto e honrado. A lógica é simples: quem ama quer a admiração da pessoa amada, então se esforça para se conduzir de modo correto. É capaz até de sacrificar sua vida pelo amado. Logo, o amor torna os homens melhores.
Aposto que Foucault se inspirou no discurso de Fedro para escrever o livro 2 da História da Sexualidade.
Monday, March 31, 2008
O Banquete (3): o debate
Em banquete grego, bebe-se.
Bebe-se, bebe-se.
E depois de beber, claro, há uma farrinha com hetárias, ou com as flautistas, ou com as serviçais, ou com as dançarinas, ou, sei lá, entre os convivas, ou tudo isso junto, mas isso realmente não interessa, né?
Bem, Fedro e Aristófanes estavam de ressaca. Já haviam bebido demais na noite anterior, e não estavam muito dispostos a repetir a façanha. Sócrates, por sua vez, não gostava de beber muito.
Fedro então sugere que todos bebam moderadamente, e que conversem a respeito de um tema de interesse geral. Como Agatão havia ganho um prêmio literário com uma tragédia que obviamente envolvia o deus Eros, ou amantes, o tema escolhido é o amor.
Cada um deve falar sobre o amor, obedecendo à disposição dos lugares à "mesa", a começar pelo próprio Fedro.
(Viu como eu tinha razão? Para ler O Banquete, é preciso saber onde cada um estava sentado. Tá lembrado? Então vamos em frente.)
Fedro é o primeiro a discursar. Em seguida, Pausânias. Na sequência, era a vez de Aristófanes, mas ele começa a soluçar. Erixímaco, o quarto da esquerda para a direita (lembre-se disso), toma a palavra, a pedido de Aristófanes.
A partir daí, a sequência é mantida: Agatão, Sócrates e Alcibíades.
Então tá.
Amanhã continuo.
Bebe-se, bebe-se.
E depois de beber, claro, há uma farrinha com hetárias, ou com as flautistas, ou com as serviçais, ou com as dançarinas, ou, sei lá, entre os convivas, ou tudo isso junto, mas isso realmente não interessa, né?
Bem, Fedro e Aristófanes estavam de ressaca. Já haviam bebido demais na noite anterior, e não estavam muito dispostos a repetir a façanha. Sócrates, por sua vez, não gostava de beber muito.
Fedro então sugere que todos bebam moderadamente, e que conversem a respeito de um tema de interesse geral. Como Agatão havia ganho um prêmio literário com uma tragédia que obviamente envolvia o deus Eros, ou amantes, o tema escolhido é o amor.
Cada um deve falar sobre o amor, obedecendo à disposição dos lugares à "mesa", a começar pelo próprio Fedro.
(Viu como eu tinha razão? Para ler O Banquete, é preciso saber onde cada um estava sentado. Tá lembrado? Então vamos em frente.)
Fedro é o primeiro a discursar. Em seguida, Pausânias. Na sequência, era a vez de Aristófanes, mas ele começa a soluçar. Erixímaco, o quarto da esquerda para a direita (lembre-se disso), toma a palavra, a pedido de Aristófanes.
A partir daí, a sequência é mantida: Agatão, Sócrates e Alcibíades.
Então tá.
Amanhã continuo.
Saturday, March 29, 2008
O Banquete (2): os convivas
Estavam presentes ao banquete Agatão, o anfitrião, Pausânias, Fedro, Sócrates, Erixímaco, Alcibíades e Aristófanes.
A disposição dos convivas era a seguinte, da esquerda para a direita:
Fedro, que tinha a seu lado Pausânias, próximo a Aristófanes, que estava sentado ao lado de Erixímaco, que sentou-se ao lado de Agatão, que fez questão de sentar-se próximo a Sócrates (para aprender por osmose), que estava sentado ao lado de Alcibíades, que sentou-se ao lado de Fedro.
Prestou atenção?
Ow, isso é muito importante!
A boa compreensão do diálogo depende imensamente de saber onde cada um dos participantes estava sentado, viu?
Confie em mim.
Se esqueceu, releia.
Desenhar uma mesa redonda e dispor todos os convivas em seus lugares ajuda a memorizar, tá?
Então vamos revisar?
Fedro, ao lado de Pausânias, ao lado de Aristófanes, ao lado de Erixímaco, ao lado de Agatão, ao lado de Sócrates, ao lado de Alcibíades, ao lado de Fedro.
Ihh, acho que eu já decorei.
Ainda bem que a memória é seletiva.
A disposição dos convivas era a seguinte, da esquerda para a direita:
Fedro, que tinha a seu lado Pausânias, próximo a Aristófanes, que estava sentado ao lado de Erixímaco, que sentou-se ao lado de Agatão, que fez questão de sentar-se próximo a Sócrates (para aprender por osmose), que estava sentado ao lado de Alcibíades, que sentou-se ao lado de Fedro.
Prestou atenção?
Ow, isso é muito importante!
A boa compreensão do diálogo depende imensamente de saber onde cada um dos participantes estava sentado, viu?
Confie em mim.
Se esqueceu, releia.
Desenhar uma mesa redonda e dispor todos os convivas em seus lugares ajuda a memorizar, tá?
Então vamos revisar?
Fedro, ao lado de Pausânias, ao lado de Aristófanes, ao lado de Erixímaco, ao lado de Agatão, ao lado de Sócrates, ao lado de Alcibíades, ao lado de Fedro.
Ihh, acho que eu já decorei.
Ainda bem que a memória é seletiva.
Tuesday, March 25, 2008
O Banquete (1): a trama
Estou relendo O Banquete, de Platão. Já havia me esquecido de como é interessante.
A trama é a seguinte: em 416 a.C. a tragédia que um tal Agatão, o bom, escreveu foi a vencedora em um concurso de literatura, a Dionísia. Satisfeitíssimo, resolveu convidar alguns amigos para um banquete em sua casa, dois dias depois.
Quinze anos se passaram. Agatão já não morava mais em Atenas, e Sócrates estava a dois anos de sua sentença de morte. Certo dia, um tal Apolodoro encontra casualmente um conhecido, que lhe pergunta sobre o evento. Apolodoro esclarece que não estava presente, e nem poderia, pois ainda era muito jovem na ocasião, mas esclarece que ouviu de um certo Fênix histórias sobre o banquete, que por sua vez ouvira de um certo Aristodemo, que não chegou a acompanhar o debate. Curioso, Apolodoro procurou Sócrates para saber dele o que havia acontecido, e Sócrates confirmou a história contada por Fênix.
Apolodoro aceita, por fim, contar ao conhecido o que ouvira de Sócrates, que confirmava o que Apolodoro ouvira de Fênix, que ouvira a mesma história de Aristodemo, que não acompanhara o debate.
E eu agora contarei o que não ouvi de ninguém, nem presenciei.
Mas pode confiar em mim.
A trama é a seguinte: em 416 a.C. a tragédia que um tal Agatão, o bom, escreveu foi a vencedora em um concurso de literatura, a Dionísia. Satisfeitíssimo, resolveu convidar alguns amigos para um banquete em sua casa, dois dias depois.
Quinze anos se passaram. Agatão já não morava mais em Atenas, e Sócrates estava a dois anos de sua sentença de morte. Certo dia, um tal Apolodoro encontra casualmente um conhecido, que lhe pergunta sobre o evento. Apolodoro esclarece que não estava presente, e nem poderia, pois ainda era muito jovem na ocasião, mas esclarece que ouviu de um certo Fênix histórias sobre o banquete, que por sua vez ouvira de um certo Aristodemo, que não chegou a acompanhar o debate. Curioso, Apolodoro procurou Sócrates para saber dele o que havia acontecido, e Sócrates confirmou a história contada por Fênix.
Apolodoro aceita, por fim, contar ao conhecido o que ouvira de Sócrates, que confirmava o que Apolodoro ouvira de Fênix, que ouvira a mesma história de Aristodemo, que não acompanhara o debate.
E eu agora contarei o que não ouvi de ninguém, nem presenciei.
Mas pode confiar em mim.
Sunday, March 23, 2008
Mito e razão
"Só o pensamento que faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos".
Theodor Adorno, Conceito de Esclarecimento.
Theodor Adorno, Conceito de Esclarecimento.
Thursday, March 20, 2008
Dórios comediantes
Diz Aristóteles na Poética V, 1448 (29): "Os dórios para si reclamam a invenção da tragédia e da comédia".
Fiquei por entender. Os dórios não são aquele povo nômade que chegou à Grécia, vindo do norte mais ou menos em 1.200 a.C. e derrotou os micênios? Não eram eles que tinham armas de ferro e se instalaram no Peloponeso, mais precisamente em Esparta? Esse povo não era inteiramente voltado para a guerra, brutal e inculto?
Ao menos é isso o que os livros de história dizem.
A palavra "lacônico" não vem justamente da planície onde ficava Esparta (a Lacônia) e significa aquele que fala pouco? Não aprendemos que Esparta via o interesse de Atenas pela filosofia e pela literatura como frescura e não escreveu praticamente nada? A chegada dos dórios não marcou o início da "Idade das Trevas" grega, ou seja, um período em que a escrita praticamente desapareceu?
Como é que um povo assim pode ser o "inventor" da comédia?
Catarse? Em Esparta? Sei não.
Em todo caso é mais provável que Aristóteles tenha razão e a história esteja ligeiramente equivocada.
Fiquei por entender. Os dórios não são aquele povo nômade que chegou à Grécia, vindo do norte mais ou menos em 1.200 a.C. e derrotou os micênios? Não eram eles que tinham armas de ferro e se instalaram no Peloponeso, mais precisamente em Esparta? Esse povo não era inteiramente voltado para a guerra, brutal e inculto?
Ao menos é isso o que os livros de história dizem.
A palavra "lacônico" não vem justamente da planície onde ficava Esparta (a Lacônia) e significa aquele que fala pouco? Não aprendemos que Esparta via o interesse de Atenas pela filosofia e pela literatura como frescura e não escreveu praticamente nada? A chegada dos dórios não marcou o início da "Idade das Trevas" grega, ou seja, um período em que a escrita praticamente desapareceu?
Como é que um povo assim pode ser o "inventor" da comédia?
Catarse? Em Esparta? Sei não.
Em todo caso é mais provável que Aristóteles tenha razão e a história esteja ligeiramente equivocada.
Monday, March 17, 2008
Saudades de Mu
Ah, Mu! Continente maravilhoso, perdido no fundo do mar.
Mu, com suas montanhas, seus rios, seus lagos, sua brisa!
Ah, Mu, que o mar levou!
Mu, o querido Mu, que abrigava o grande país de Mu!
Ah, Mu, que não volta mais!
Mas Mu há de voltar. Será a volta dos que não foram, o retorno dos que nunca vieram.
É o que dizem os adeptos de Mu.
Ai, ai.
Mu foi embora. O país e o continente. Mas voltará um dia, em todo seu esplendor. Os habitantes de Mu, arianos, inteligentíssimos, avançadíssimos, voltarão um dia, talvez na cauda de um cometa, talvez em uma nave extraterrestre.
E nos ensinarão o Mu.
Mu-çulmano? Mu-queca? Mú-sica? Mu-stafá? Mu-ro? Mu-ralha? Mu-lher? Mu-ndinho?
Mu-gido?
Mu-la?
Apenas Mu.
Aguarde e verá.
Mu, com suas montanhas, seus rios, seus lagos, sua brisa!
Ah, Mu, que o mar levou!
Mu, o querido Mu, que abrigava o grande país de Mu!
Ah, Mu, que não volta mais!
Mas Mu há de voltar. Será a volta dos que não foram, o retorno dos que nunca vieram.
É o que dizem os adeptos de Mu.
Ai, ai.
Mu foi embora. O país e o continente. Mas voltará um dia, em todo seu esplendor. Os habitantes de Mu, arianos, inteligentíssimos, avançadíssimos, voltarão um dia, talvez na cauda de um cometa, talvez em uma nave extraterrestre.
E nos ensinarão o Mu.
Mu-çulmano? Mu-queca? Mú-sica? Mu-stafá? Mu-ro? Mu-ralha? Mu-lher? Mu-ndinho?
Mu-gido?
Mu-la?
Apenas Mu.
Aguarde e verá.
Saturday, March 15, 2008
O zel da merda
Que William Waack seja um de nossos melhores jornalistas, ninguém discute.
O que ninguém sabia é que ele fala merda com muita frequência.
No Jornal Nacional, ao chamar a repórter Zelda Melo, acabou dizendo "Zelda Merda". Veja o vídeo linkado no título.
Só quem fala muita merda no dia-a-dia pode fazê-lo também na TV.
O que ninguém sabia é que ele fala merda com muita frequência.
No Jornal Nacional, ao chamar a repórter Zelda Melo, acabou dizendo "Zelda Merda". Veja o vídeo linkado no título.
Só quem fala muita merda no dia-a-dia pode fazê-lo também na TV.
Friday, March 14, 2008
"I" de iscola e "e" de esquero
Sempre achei a fama de burra de Carla Perez exagerada, mas não há exagero algum. Carla Perez fugiu mesmo da iscola, mas isqueceu o esquero por lá.
Veja o vídeo.
Veja o vídeo.
Wednesday, March 12, 2008
Juju, Rita Lee e o trance
Aposto que você não sabe quem é o Juju.
Tente adivinhar: Juju tem barba, bigode, é magrin, gostava de falar de amor e passou alguns dias vendo o mundo do alto.
Adivinhou? Não?
Quer mais dicas?
Juju tinha mãe, mas não tinha pai. Morreu, mas não foi enterrado.
E agora, adivinhou? Claro, né? Juju é Jesus Cristo.
Ao menos, é esse o nome carinhoso com que os malucos da Igreja do Trance Divino se referem ao Cristo.
A Igreja do Transe é uma seita dedicada... ao trance! Os adeptos pregam uma religiosidade dançante, sem sofrimentos, sem essa de morrer para renascer, pecado e quetais. E sobretudo sem dízimo. Você só precisa pagar a entrada para as festas e se divertir a valer.
Ah, sim: para fazer parte da seita, precisará ter um nome indiano. Um daqueles nomes enormes, impronunciáveis, que ninguém quer ter.
Mas vou logo avisando: se quiser ser pastor da Igreja do Transe e mudar sua vida em uma boa farra de sexta-feira, terá de ser DJ.
Depois de Jesus?
Não, não.
Disc-Jóquei mesmo.
Para ser pastor também é imprescindível tocar bem, claro. Mas se você for um tipo humilde e preferir ser uma coisinha de nada na seita, basta ter um bom conhecimento de música eletrônica e adorar Rita Lee, a santa da seita.
Isso, mesmo. Rita Lee e trance. E daí? O que você tem a ver com isso?
Vá lá, vá. Alto Paraíso, Goiás. O que você tem a perder?
Leve um cd de trance para garantir a entrada.
Se não está acreditando em mim, espie a reportagem linkada no título deste post e acredite na ministra Anirit Kuyana: “Nossa religião é basicamente musical... Ela te leva num ritmo enorme e te solta lá em cima sozinho. E aí nisso a mente esvazia, você fica no nirvana, você fica sem o pensamento. É essa a delícia do trance: É misturar o básico ‘bate estaca’ da animal, do bicho que somos, com o espírito, com divindade”.
É... Quem nasceu jaburu nunca será cotovia. Mas que tenta, tenta.
Tente adivinhar: Juju tem barba, bigode, é magrin, gostava de falar de amor e passou alguns dias vendo o mundo do alto.
Adivinhou? Não?
Quer mais dicas?
Juju tinha mãe, mas não tinha pai. Morreu, mas não foi enterrado.
E agora, adivinhou? Claro, né? Juju é Jesus Cristo.
Ao menos, é esse o nome carinhoso com que os malucos da Igreja do Trance Divino se referem ao Cristo.
A Igreja do Transe é uma seita dedicada... ao trance! Os adeptos pregam uma religiosidade dançante, sem sofrimentos, sem essa de morrer para renascer, pecado e quetais. E sobretudo sem dízimo. Você só precisa pagar a entrada para as festas e se divertir a valer.
Ah, sim: para fazer parte da seita, precisará ter um nome indiano. Um daqueles nomes enormes, impronunciáveis, que ninguém quer ter.
Mas vou logo avisando: se quiser ser pastor da Igreja do Transe e mudar sua vida em uma boa farra de sexta-feira, terá de ser DJ.
Depois de Jesus?
Não, não.
Disc-Jóquei mesmo.
Para ser pastor também é imprescindível tocar bem, claro. Mas se você for um tipo humilde e preferir ser uma coisinha de nada na seita, basta ter um bom conhecimento de música eletrônica e adorar Rita Lee, a santa da seita.
Isso, mesmo. Rita Lee e trance. E daí? O que você tem a ver com isso?
Vá lá, vá. Alto Paraíso, Goiás. O que você tem a perder?
Leve um cd de trance para garantir a entrada.
Se não está acreditando em mim, espie a reportagem linkada no título deste post e acredite na ministra Anirit Kuyana: “Nossa religião é basicamente musical... Ela te leva num ritmo enorme e te solta lá em cima sozinho. E aí nisso a mente esvazia, você fica no nirvana, você fica sem o pensamento. É essa a delícia do trance: É misturar o básico ‘bate estaca’ da animal, do bicho que somos, com o espírito, com divindade”.
É... Quem nasceu jaburu nunca será cotovia. Mas que tenta, tenta.
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