Sunday, May 24, 2009

Escárnio dos filósofos pagãos

Alguns trechos de Escárnio dos Filósofos Pagãos, de Hérmias, o filósofo (séc I de nossa era):

Anaxágoras me toma consigo e me dá a seguinte lição: “O princípio do universo é o nous ou inteligência. Ele é o autor e senhor de todas as coisas, que põem ordem no que é desordenado, movimento no que está imóvel, distinção no confuso e beleza no que não é belo”. Gosto de ouvir Anaxágoras dizer isso e adiro ao seu ensinamento. Mas contra ele se levantam Melisso e Parmênides. Parmênides anuncia poeticamente que a essência é coisa única, eterna, imóvel e em tudo semelhante. Sem saber como, eu me transfiro para esse dogma. Parmênides expulsou Anaxágoras da minha mente. Mas, quando penso estar em posse de um dogma estável, Anaxímenes se intromete, gritando: “Eu, porém, te digo: o universo é ar, e este, condensando-se e solidificando-se, transforma-se em água e terra e, rarefazendo-se e espalhando-se em éter e fogo e, voltando de novo à sua natureza, em ar...” Também me acomodo com isso e torno-me amigo de Anaxímenes.
Mas aí está frente a frente Empédocles, resmungando e gritando em alta voz a partir do Etna: “Os princípios do universo são o ódio e a amizade, esta unindo e aquele separando, e a luta entre os dois realiza tudo. Eu os defino como semelhantes e dessemelhantes ilimitados e com limites, como eternos e que têm começo”.
- Bravo, Empédocles! Estou disposto a seguir-te até a cratera do vulcão.
Mas aí está agora Protágoras, puxando-me para outro lado, quando diz: “O limite e o critério das coisas é o homem; o que lhe cai sob os sentidos são coisas, e o que não cai não se encontra entre as espécies da essência.” Lisonjeado com esse raciocínio, fico gostando de Protágoras, pois ele atribui tudo o mais ao homem. Tales, porém, me desvia para outro lado com a verdade, definindo a água como princípio do universo: “Do úmido tudo se compõe e nele tudo se dissolve, e a terra se sustenta sobre a água”. E por que não acreditar em Tales, o mais velho dos jônios? Todavia, o seu concidadão Anaximandro afirma que o movimento eterno é um princípio mais antigo que o úmido, e que por ele algumas coisas nascem e outras perecem. Deve-se, portanto, acreditar em Anaximandro.
Mas também não é famoso Arquelau, que afirma que os princípios do universo são o calor e o frio? Todavia o grandiloquente Platão não está de acordo com ele, pois afirma que os princípios do universo são Deus, a matéria e o modelo. Agora sim eu fiquei convencido. Com efeito, como não hei de acreditar no filósofo que inventou o carro de Zeus? Atrás dele, porém, vem o seu discípulo Aristóteles, invejoso do seu mestre pela construção do carro, e define outros princípios: a ação e a passividade. O princípio ativo, que é o éter, é impassível; o passivo tem quatro qualidades: secura, umidade, calor e frio. Com efeito, tudo nasce e morre pela transformação desses princípios. Já estou cansado de ir para cima e para baixo com opiniões diferentes; vou ficar com o que Aristóteles pensa, e que ninguém venha me incomodar com os seus discursos.


Mas não fica com Aristóteles, não.

E la nave va.

Friday, May 22, 2009

Hérmias, o filósofo

E por falar em religião filosófica, ou filosofia religiosa, ou muito pelo contrário, lembrei de Hérmias, o filósofo, que escreveu Escárnio dos filósofos pagãos no começo de nossa era.

Nada sei sobre o autor, mas não importa. O que interessa saber está no texto: Hérmias faz uma passagem bem humorada pela filosofia grega, procurando a verdade. Cada filósofo com que se depara o convence da verdade, mas logo encontra outro e então concorda com uma posição contrária à anterior, e assim sucessivamente.

No fim das contas, está confuso, "sem saber em quem acreditar", e encontra Jesus. Pronto. Eis a verdade.

Considero este registro o melhor exemplo da diferença entre filosofia e religião: Hérmias procura a quem seguir. Como ele próprio diz, quer acreditar em alguém. Tenta acredita em todos os filósofos, mas percebe que isto é impossível, porque as doutrinas são rivais e mutuamente excludentes. Então fixa-se na doutrina cristã, que julga ser verdadeira por não ter oposição real. Em alguns momentos, chega a dizer que "acreditou no dogma" do filósofo tal, e que quase se atirou no Etna junto com Empédocles.

Hérmias não entendeu o que leu. Estava procurando a quem seguir, queria um dogma em que pudesse acreditar, e procurou no lugar errado. Passou pela filosofia, se é que passou, mas não entendeu nada. A contradição, a oposição de idéias, ele julga que são sinais de falsidade, de inverdade. O que ele entende como não-contraditório, a doutrina cristã, é verdadeiro exatamente por isso.

Não conheço outro texto tão expressivo, do ponto de vista da separação entre filosofia e pensamento mítico, como esse.

Hérmias queria uma verdade pela qual pudesse viver. Encontrou.

Vaya con dios.

Com a minha benção.

Tuesday, May 19, 2009

MacIntyre

Alasdair MacIntyre é, sem dúvida, um grande filósofo. Li Depois da Virtude, que achei excelente, e a parte sobre os gregos em Breve História da Ética, mas estou tendo alguma dificuldade com a leitura de Justiça de Quem? Qual racionalidade?

Ex-marxista, MacIntyre se deixou converter a Tomás de Aquino nos anos 80 e é hoje um católico fervoroso. Nada contra, mas quando a sua religiosidade se confunde com sua filosofia, a coisa fica complicada. Pela via de Tomás de Aquino ele retornou a Aristóteles e defende uma tese pra lá de utópica: quer o retorno à polis, às pequenas comunidades, porque somente nelas o telos do homem, associado à ética das virtudes, é possível. Certo. Entendo a proposta, mas não entendo o sentido de defender o retorno ao passado, sobretudo no que diz respeito ao Estado, quando o mundo caminha para a superpopulação e, em consequência, para megacidades.

MacIntyre é um pensador estranho. Moderno, com propostas de retorno ao passado. Tem matizes analíticos, mas recusa o projeto iluminista. Sua filosofia é em parte religião. E, diferentemente de tudo que já li em filosofia, discute seriamente a obra de Jane Austen, uma escritora considerada menor. É claro que não o faz como crítico de arte. Seu propósito é mostrar a moralidade subjacente à obra. Em todo caso, só o fato de ter lido Jane Austen e analisar cinco de suas obras (acho que Austen escreveu apenas seis) já é algo inusitado.

Fico no meio do caminho. É interessante, perspicaz, culto e inteligente, mas algo não vai bem. Por tudo que disse, considero MacIntyre um legítimo sucessor de Kierkegaard. O único, talvez. Mas ainda prefiro Kierkegaard.

Saturday, May 16, 2009

Deadwood

Para quem gosta do gênero western, a série Deadwood, da HBO (que também produziu Roma) é uma excelente opção. Ainda acho que Roma é melhor, mas Deadwood tem muitas qualidades. A principal e, creio, também seu defeito, é o realismo.

Enquanto o oeste selvagem é visto no cinema com romantismo, saudosismo e maniqueísmo, Deadwood tem cenários feios, sujos e, embora haja uma tendência ao maniqueísmo, a trama e os personagens acabam se revelando mais complexos do que inicialmente pareciam ser. A proposta de realismo é o grande mérito da série, mas há excessos, que revelam muito mais um olhar moderno e cínico do oeste que propriamente fidelidade histórica.

É claro que se trata de uma obra de ficção, mas a proposta, que se baseia em eventos, contexto e personagens históricos, pretende ser realista. A violência, a falta de higiene e os conflitos de poder em uma terra sem lei, em que não se morre de causas naturais, parecem historicamente adequados. Mesmo assim, ainda acho que há exagero na apresentação dos personagens, na violência (em quase todo episódio alguém morre assassinado) e na superexposição do sexo. Moderno demais, ou pagão demais.

Comparada a Roma, Deadwood é bem mais contida nos aspectos que mencionei. Mas Roma é pagã. Deadwood, uma cidade sem lei do final do século XIX, é cristã. Embora se situasse, literalmente, no limite da civilização, ainda é cristã. Por isso, o tom me parece um tanto exagerado. A figura de Calamity Jane, que de fato existiu, é bem caricata. Wild Bill é retratado como um homem de grande caráter e uma certa docilidade, apesar de matar para viver. Seu assassino, o "covarde Jack MacCall" é um sujeitinho medíocre e cretino, o Eróstrato do oeste. Seth Bullock é o bom moço - o clássico tipo um dos eneagramas - que quer consertar o mundo mas esconde uma ira assassina e se deixa corromper aqui e ali. E Al Swearengen, um tipo conhecido pela virulência e pelas atrocidades que cometeu, na série aparece mais humanizado, apesar de matar ou mandar matar em quase todos os episódios. Há um certo fatalismo no personagem, que em vários momentos afirma não gostar do que faz. É um tipo trágico, que segue seu destino "de homem", como diz, e de menino criado em bordel. Seu rival no negócio de bordéis, Cy Tolliver (um dos personagem fictícios, até onde posso saber) é mais refinado, mas bem mais linear na vilania.

A oposição entre o bom moço Seth Bullock (que organizou e moralizou a cidade histórica) e o vilão Al Swearengen (dono do bordel Gem Theater), ambos figuras históricas, em alguns momentos caminha em sentido contrário: Al tem suas razões para agir como age (a história de vida infeliz e a obsessão com o lucro) que quase justificam sua crueldade, enquanto o bom moço é dominado pela fúria, muito mais que pelo desejo de justiça.

De qualquer modo, a série é mesmo muito boa, especialmente na primeira temporada. A partir da segunda o tom exagerado fica ainda mais evidente, mas há coerência na história. É interessante também acompanhar o desenvolvimento da cidade, permeado por acontecimentos históricos como a epidemia de varíola, o assassinato de Wild Bill e os conchavos, assassinatos e subornos para conseguir a legalização (já que o vilarejo se encontrava em território indígena, e não fazia parte da União).

Para quem gosta do gênero, é imperdível.

Friday, May 15, 2009

Cuidado

Não, não são spoilers desta vez. Este post é para alertar sobre um novo golpe com telefones.

Se estão ligando insistentemente para seu celular, desconfie.

Se seu telefone fixo toca sem parar, mas fica mudo quando atende, desconfie.

Não sei como isso é feito, mas estas são tentativas de clonar seu número (no caso do celular) e de ativar o siga-me (no caso do fixo).

Fique atento, para não ter surpresas desagradáveis.

Wednesday, May 13, 2009

E por falar em Tim Roth...

Acabei de ver a primeira temporada de Lie to me, com Tim Roth. Não é uma série especial, mas tem seus atrativos. Na verdade, um só: Cal Lightman, personagem de Tim Roth, é um cientista especializado em identificar sinais inconscientes e involuntários de mentira. Ou melhor, ele é capaz de ler gestos e expressões e descobrir verdades que tentam encobrir.

Vale pela informação, embora haja, claro, um certo exagero.

O ponto fraco da série está nas histórias contadas. Via de regra não são interessantes, mas pelo menos há reviravoltas capazes de manter a atenção do espectador.

De qualquer forma, vale a pena ver um bom ator em cena, além de ser possível extrair algum conhecimento da série.

Tuesday, May 12, 2009

Ars gratia artis

Sabe o leão da Metro Goldwyn-Mayer? Aquele que ruge, no começo de cada filme?

Pois é. Acima do leão há uma frase em latim: ars gratia artis: arte pela arte.

A frase é de Edgar Allan Poe e ilustra seu entendimento de que a criação artística deve ser autônoma, espontânea e livre de moralidade, utilidade e inspiração.

Sim, inspiração. Allan Poe acreditava que, para escrever, o artista não deve se prender nem mesmo à inspiração. Deve apenas escrever. Como ele diz, o poema deve ser escrito pelo poema e para o poema, e isso é tudo.

Muito bem. Só não entendi o que a frase está fazendo na logo da Metro.

Arte pela arte?

Sei não.

Vai ver que é por isso que está em latim: nada a ver, mas a esmagadora maioria nem vai perceber.

Monday, May 11, 2009

Funny games

Assisti hoje ao filme "Funny Games" (em português, "Violência gratuita"). Confesso que inicialmente pensei se tratar de mais um desses filmes B em que há um torturador e um ou mais torturados, que no final viram o jogo e tudo acaba bem com a morte do bandido.

Se alguém pensa que acabei de contar o final do filme, se engana.

Isso eu vou fazer em seguida.

Portanto, se não quer saber, pare a leitura aqui.

Cuidado: spoilers!

Aviso feito, voltemos ao filme.

Como dizia, o início sugere ser um filme B, embora tenha a presença de Tim Roth, excelente ator, que sabe escolher os contratos que assina (ou seu empresário, tanto faz). Naomi Watts também está lá, mas desde King Kong não confio mais nela. E ainda há Michael Pitt, o adolescente especializado em psicopatas (vide Cálculo Mortal). Ainda não deu prá saber se é bom ator, mas psicopatas ele faz bem.

Enfim. A história é sobre dois adolescentes que aterrorizam uma família feliz, equilibrada, amorosa, classe média para alta, gente boa, casa limpa, música clássica, blá-blá-blá.

A violência dos rapazes é gratuita, absoluta, cheia de maneirismos e lúdica. É a violência pela violência. Lá pelas tantas, quando George, o pai, pergunta por que estão fazendo aquilo, Paul (o mais velho dos rapazes, Michael Pitt) começa a desfilar uma série de razões clássicas, o primeiro ponto alto do filme: infância perdida, família destruída etc. etc. A sua primeira resposta é a que vale: "não sei". Não há explicação para o que fazem, a não ser o fato de que gostam do que fazem. A razão, se existe, é a diversão. É, portanto, estética. Não moral, não social. Puramente estética.

A maneira educada com que se dirigem às vítimas, com uma fala lenta, estudada, é parte da estética da violência e de sua gratuidade: faz parte do jogo parecer outra coisa, encenar a polidez, o refinamento nas palavras e nas atitudes, assim como eles próprios são imaculadamente limpos, vestidos de branco, como jogadores de golfe. Matam, e continuam limpos. Este fato aponta para seu distanciamento dos eventos: embora sejam os protagonistas da violência, eles não estão de fato lá, nem emocionalmente, nem fisicamente.

Após mais ou menos dois terços do filme, um segundo evento importante acontece: Ann, a vítima, consegue se apropriar da arma e matar um dos rapazes, o mais jovem, Puddy ou Peter.

E então entendemos o filme.

Cuidado! Mais spoilers!

A morte de Peter faz Paul procurar desesperadamente um controle remoto que até então não havia aparecido na trama, até onde me lembre. Quando encontra o controle remoto, ele faz a cena recuar, até retornar ao momento anterior à reação da vítima. Feito isso, o filme continua, mas agora ele já sabe o que a mulher vai fazer, e a impede de agir. Tudo está bem novamente, e ele alerta a vítima de que não pode quebrar as regras.

Bem, vou poupar quem ainda lê este brogue dos eventos que se seguem. O que me interessa está aqui (e já contei o principal): é um jogo realmente. A conversa entre os dois rapazes, no barco, sobre realidade e virtualidade, apesar de rápida, retoma o fio condutor: a violência é real, mas é real no virtual.

Bom filme. Se entendi bem (e não importa se não entendi), o filme é uma crítica não somente à violência (real e virtual), mas também uma crítica à nossa indiferença diante da violência - o que o final sugere, quando tudo acontece como deve acontecer no jogo: zeramos este jogo. Vamos ao próximo.

Ou talvez não seja nada disso.

Quem se importa?

Monday, April 20, 2009

Me fez de um cavalo um asno

Encontrei em Alasdair MacIntyre, Depois da Virtude, p. 212:

"Na saga da batalha de Clontarf em 1014, quando Brian Boru derrotou um exército de víquingues [sic], um dos nórdicos, Thorstein, não fugiu quando o resto do exército se acovardou e fugiu, mas continuou onde estava, amarrando o cadarço do sapato. Um líder irlandês, Kerthialfad, perguntou-lhe por que não estava fugindo. - Eu não conseguiria chegar em casa hoje - disse Thorstein - Moro na Islândia".

Ah, bom. Pensei que queria morrer nas mãos no inimigo.

Agora está explicado.

Ele queria mesmo morrer nas mãos do inimigo, mas encontrou um modo criativo de fazer isso: amarrando o cadarço.

Como disse alguém, recentemente, "muita criatividade nessa hora".

Friday, April 10, 2009

Aristóteles e a tragédia

Platão escrevia em forma literária e condenava a arte.

Platão não foi o único mestre de Aristóteles, felizmente. Antes de Platão, Aristóteles havia sido aprendiz do pai, médico do rei da Macedônia, Amintas, pai de Felipe.

Quando Platão ficou dois anos em viagem, Aristóteles estudou com um discípulo dele que era em essência mais um biólogo que um filósofo.

Por isso, era também um cientista, escrevia como cientista, mas valorizava a arte (por razões que não vem ao caso aqui).

Para Aristóteles, uma boa tragédia (aquela que cumpre a função catártica da arte), deve cumprir certos requisitos:

1. não deve começar nem terminar ao acaso;
2. todas as ações devem ter nexo causal;
3. não deve ser nem breve demais, nem longa demais;
4. a ação deve ser una;
5. deve ter peripécia, reconhecimento e catástrofe;
6. a ação deve se desenvolver entre amigos (ou seja, as personagens principais devem se conhecer);
7. o caráter deve ser coerente;
8. a beleza da linguagem e o uso de metáforas devem ser moderados para não distrair a atenção do espectador;
9. o desenlace deve resultar da estrutura do mito;
10. é preferível o impossível mas crível que o possível mas incrível.

O que estão fazendo os artistas, que não lêem Aristóteles?

Thursday, April 02, 2009

Anão e gigante

Schopenhauer faz menção à metáfora do anão e do gigante em suas obras: o anão enxerga mais longe apenas porque está sentado nos ombros do gigante. No caso, a vontade é o gigante.

Até onde posso me lembrar, ele não faz referência à fonte. Achei que a metáfora era dele.

Não é.

Então descobri que Newton disse a mesma coisa: só pôde chegar onde chegou porque era um anão sentado nos ombros de gigantes (seus antecessores).

Pensei que a metáfora era dele.

Não é.

Descobri que o primeiro a falar em anão e gigante foi um tal Honório de Autun, filósofo medieval (1090-1152), ligado à Escola de Chartres.

Penso que a metáfora é criação dele, copiada depois por Newton e Schopenhauer.

Se não, fica assim mesmo.

Assunto resolvido.

Friday, March 27, 2009

Baby Salomon

Descobri que Francis Bacon, o filósofo cientista, era chamado pela rainha Elizabeth de "Baby Salomon", Salomão bebê ("querido Salomão" é altamente improvável).

Parece que a rainha percebeu que o Baconzinho tinha grande inteligência e sabedoria.

Estava certa.

Entre outras façanhas, Bacon foi o primeiro a trabalhar na idéia que depois viraria geladeira.

Para preservar o bacon.

Thursday, March 19, 2009

Afogados na lama

Lendo Michael Walzer, Guerras Justas e Injustas, encontrei esta passagem, uma citação de Maquiavel (História de Florença):

Assim, a grande derrota dos florentinos em Zagonara: "nenhuma morte ocorreu [na batalha]", conta-nos Maquiavel, "exceto as de Lodovico degli Obizi e dois de seus homens, que, tendo caído do cavalo, morreram afogados na lama".

Fiquei me perguntando como três pessoas podem morrer afogadas na lama.

É verdade que a tecnologia, o aquecimento global e o aumento da população humana devem ter exercido algum efeito sobre a lama nos últimos séculos. A lama de antigamente devia ter mais de um metro e meio de profundidade.

Ou talvez o cuidado com o saneamento urbano, que na época de Maquiavel não existia, tenha impedido a lama de crescer. Ou a tenha feito encolher. Sei lá.

Dá prá imaginar um soldado caindo do cavalo, perdendo a consciência e morrendo afogado na lama. Mas três? Não é exagero?

Podia ser areia movediça, claro. Maquiavel talvez só conhecesse o termo "lama".

Mesmo assim, fiquei curiosa para saber como era a lama de antigamente.

Como meu tempo para cultura inútil infelizmente é zero, vou continuar sem saber.

Monday, March 16, 2009

Sócrates furioso

Antes tarde do que nunca.

Sócrates tinha uma paciência invejável, a julgar pelo testemunho de Platão e, claro, pelo modo como lidava com a mulher, Xantipa. Nem quando foi sentenciado, dizem as más línguas, Sócrates perdeu a paciência.

Exceto por uma vezinha só, momentos antes da morte, porque o mandaram calar.

Ninguém manda Sócrates calar, né?

Imagine. Se não escrevia, só podia filosofar falando.

No Fédon (63c), Críton explica a Sócrates que o homem responsável por lhe dar o veneno recomendou que não falasse muito, para não retardar a ação do veneno.

Sócrates respondeu, furioso:

- Dize-lhe que vá às favas! Ele que me dê o veneno duas ou três vezes, se for preciso!

Não foi preciso, mas devem ter descoberto que a fala não é tão poderosa assim.

Wednesday, March 11, 2009

Estratégia eficaz

"A afeição e ódio mudam a face da justiça; e quanto um advogado bem pago antecipadamente acha mais justa a causa que defende!" Pascal, Ensaios, 104.

A justiça é cega.

Tuesday, March 03, 2009

Monarquia universal

Eis os argumentos de Dante a favor da monarquia universal (leia-se: império romano revivido):

"É pertinente ao povo mais nobre governar os outros, assim como é justo e conveniente que o homem mais nobre comande os demais. Toda supremacia é uma honra, então toda supremacia é recompensa da virtude".

É bem verdade que o entendimento de política, no período anterior a Maquiavel, associa a vitória e o poder à dignidade moral, mas isto é um equívoco, porque ignora as relações políticas, sociais e o mero exercício da força como condições que estão na base do poder.

"O ser cujo crescimento recebe o auxílio de Deus é querido de Deus e legítimo. O Império Romano recebeu ajuda de milagres para chegar à perfeição. Portanto, o Império Romano foi legítimo e querido de Deus".

Não sei a que milagres Dante se refere, mas nenhuma das afirmações acima pode ser demonstrada. É fácil imaginar sua validade para quem acredita na primeira premissa, mas é exatamente por apresentar razões religiosas para justificar uma tese política que como teórico político Dante foi bom soldado.

"Todo aquele que deseja o bem da República procura o fim do Direito. O fim da sociedade é o bem comum. Quem visa o bem comum visa também o Direito. O Império Romano visava o bem comum, porque suas guerras e conquistas acabaram com as hostilidades. Logo, o Império Romano visava o Direito".

Esse argumento é péssimo, porque usa o sucesso do imperalismo militar como prova de sua moralidade. As guerras e conquistas do império romano podem até ter acabado com as hostilidades, mas pela força.

"Quem se propõe o fim do Direito intenta subir legitimamente. Assim, o povo romano, sujeitando o orbe, procedeu legitimamente".

Mesmo argumento do anterior.

"A natureza hierarquiza os seres conforme suas aptidões. O fundamento do Direito se liga a esta ordem. O povo romano foi destinado ao comando pela natureza, nos moldes do já havia dito Aristóteles sobre as diferenças sociais entre os homens".

É verdade que o império romano foi bem sucedido devido à sua habilidade militar, mas daí concluir que a natureza, que diferenciaria os seres humanos em mais aptos e menos aptos militarmente, é um pouco demais.

"As intenções divinas são ora evidentes, ora ocultas e se dão a conhecer pela razão e pela fé. Neste caso, a salvação e a justiça. Mas há juízos de Deus que a razão humana não pode conhecer senão pela revelação, pela oração e pela prova. A prova pode se dar por sorte ou por combate (duelos), de onde podemos tirar duas teses:
a) Deus se interessa mais pela luta coletiva que pela individual. O triunfo é conseqüência do juízo de Deus. O povo que triunfou na luta pelo Império do mundo triunfou por juízo divino. b) O que se adquire em duelo se adquire legitimamente, desde que o duelo aconteça no desejo de se fazer justiça. O povo romano adquiriu o Império por duelo. Portanto, o fez legitimamente".

A crença de que a vitória no duelo é expressão da justiça (porque a vontade de Deus atuaria, e esta vontade é pela justiça) é própria deste período, e de épocas posteriores. Vá lá. É uma falácia, mas obedece à lógica do período.

"Cristo nasceu sob o Império Romano. Se este Império não foi legítimo, também não o foi o nascimento de Cristo. Como o nascimento de Cristo foi legítimo, segue-se que também o foi o Império".

Mesmo que o nascimento de Cristo tenha sido legítimo, seja lá o que isso quer dizer, não se segue que o império sob o qual ele nasceu seja também legítimo.

"Se o Império Romano foi legítimo, o pecado de Adão não foi punido em Cristo. Ora, sabemos que o pecado de Adão foi punido em Cristo. Logo, o Império Romano foi legítimo".

Esse argumento também é um assassinato à lógica. Não há relação necessária entre a legitimidade do império e o pecado de Adão punido em Cristo, ainda que aceitemos as duas afirmações em separado.

Ergo...

A posteridade fez bem em esquecer o livro A Monarquia. Nada acrescenta.

Mas, cá entre nós, acho que devíamos esquecer o poeta também.

Monday, February 09, 2009

Paz, ainda que pela força

Estou lendo atualmente "Um só mundo; a ética da globalização", de Peter Singer, o que me leva à idéia de unidade.

Lembrei de Dante Alighieri e sua Monarquia. Sim, é o mesmo Dante da Divina Comédia, que também fez incursões pela filosofia política. Devia ter continuado escrevendo poesia, se é que o paraíso e o purgatório são tão interessantes quanto o inferno. Não sei dizer, porque desisti logo nos primeiros versos.

Bem, o que interessa é a Monarquia. A idéia de unidade política nunca abandonou a Europa, após a queda da Roma Ocidental. Vieram os bárbaros, a fragmentação em unidades políticas e econômicas, a ausência de governo central. Neste período, a Igreja alimentava o desejo de unidade pela coesão sob o poder espiritual. Com a formação de estados nacionais e o consequente declínio da Igreja, fosse interna, fosse externamente, a unidade perdeu-se de vez, mas não o sonho.

Frederico Barba Ruiva considerava-se descendente e herdeiro legítimo dos antigos imperadores romanos. Seu desejo era reviver o império romano. Mais de um século depois, na época de Dante, o imperador Henrique acalentava o mesmo sonho: transformar a Germânia em uma nova Roma.

Dante não somente admirava o imperador Henrique, como acalantava o mesmo sonho e a mesma convicção: só haverá paz quando toda a terra for governada por um único senhor. Literalmente.

Na sequência, apresentarei os argumentos de Dante a favor da monarquia universal.

Friday, February 06, 2009

Qual é o sexo do seu cérebro?

Ah, os testes! Nada como um bom teste online para me fazer deixar o trabalho e escrever novamente. A vida anda impossível com trabalho em excesso e muita, mas muita leitura.

Enfim. O teste agora é sobre o sexo de meu cérebro. Masculino, 7 pontos.

Será por isso que detesto poesia? :-)))

Saturday, January 17, 2009

Prédios moralmente deficientes

Lendo Adorno, descobri que ter uma finalidade prática é, no fim das contas, uma vergonha. Sobretudo, descobri que até prédios devem ser mais recatados e esconder sua verdadeira utilidade.

"Os prédios que sobrevivem do século dezenove e cuja arquitetura ainda revela vergonhosamente a utilidade como bem de consumo, ou seja, sua finalidade habitacional, estão recobertos do andar térreo ao telhado de painéis e anúncios luminosos; a paisagem torna-se um mero pano de fundo para letreiros e logotipos" (Adorno, Dialética do Esclarecimento, Indústria Cultural).

Sei não, mas acho que já gostei de Adorno.

Saturday, January 10, 2009

O ethos da ética

Há quem pense - e escreva a respeito, como Vazquez - que ethos significa, originalmente, caráter (ver Ética, publicado pela Martins Fontes, cap. 1).

Errado. Caráter é uma palavra que aparece na língua grega, e frequentemente na Poética de Aristóteles, mas significando neste caso temperamento, inclinação. Nada a ver com caráter moral. Este sentido só aparece com a filosofia moral, de que Sócrates é o pai, mas só se firma neste campo semântico mais tarde.

Ainda que eu tenha deixado passar alguma coisa (leia-se Platão), "caráter" certamente não é o sentido original da palavra ethos.

Há quem pense que ethos significa, originalmente, costume, hábito. Errado. Com certeza estes são significados da palavra na Grécia Clássica, mas nem de longe seu sentido original.

Então tá. Qual é o sentido original de ethos, afinal de contas? Em Homero, a palavra indicava o lugar onde os animais geralmente se abrigam. Não abrigos feitos pelo homem, porque dificilmente isso acontecia na ocasião, mas todo e qualquer lugar que os animais, quaisquer animais, usassem para se abrigar do frio, da chuva, dos predadores etc.

Como é que deste sentido original chegamos a caráter moral?

Bem, acho que sei, mas vou deixar isso para outra ocasião.