Descobri que Francis Bacon, o filósofo cientista, era chamado pela rainha Elizabeth de "Baby Salomon", Salomão bebê ("querido Salomão" é altamente improvável).
Parece que a rainha percebeu que o Baconzinho tinha grande inteligência e sabedoria.
Estava certa.
Entre outras façanhas, Bacon foi o primeiro a trabalhar na idéia que depois viraria geladeira.
Para preservar o bacon.
Friday, March 27, 2009
Thursday, March 19, 2009
Afogados na lama
Lendo Michael Walzer, Guerras Justas e Injustas, encontrei esta passagem, uma citação de Maquiavel (História de Florença):
Assim, a grande derrota dos florentinos em Zagonara: "nenhuma morte ocorreu [na batalha]", conta-nos Maquiavel, "exceto as de Lodovico degli Obizi e dois de seus homens, que, tendo caído do cavalo, morreram afogados na lama".
Fiquei me perguntando como três pessoas podem morrer afogadas na lama.
É verdade que a tecnologia, o aquecimento global e o aumento da população humana devem ter exercido algum efeito sobre a lama nos últimos séculos. A lama de antigamente devia ter mais de um metro e meio de profundidade.
Ou talvez o cuidado com o saneamento urbano, que na época de Maquiavel não existia, tenha impedido a lama de crescer. Ou a tenha feito encolher. Sei lá.
Dá prá imaginar um soldado caindo do cavalo, perdendo a consciência e morrendo afogado na lama. Mas três? Não é exagero?
Podia ser areia movediça, claro. Maquiavel talvez só conhecesse o termo "lama".
Mesmo assim, fiquei curiosa para saber como era a lama de antigamente.
Como meu tempo para cultura inútil infelizmente é zero, vou continuar sem saber.
Assim, a grande derrota dos florentinos em Zagonara: "nenhuma morte ocorreu [na batalha]", conta-nos Maquiavel, "exceto as de Lodovico degli Obizi e dois de seus homens, que, tendo caído do cavalo, morreram afogados na lama".
Fiquei me perguntando como três pessoas podem morrer afogadas na lama.
É verdade que a tecnologia, o aquecimento global e o aumento da população humana devem ter exercido algum efeito sobre a lama nos últimos séculos. A lama de antigamente devia ter mais de um metro e meio de profundidade.
Ou talvez o cuidado com o saneamento urbano, que na época de Maquiavel não existia, tenha impedido a lama de crescer. Ou a tenha feito encolher. Sei lá.
Dá prá imaginar um soldado caindo do cavalo, perdendo a consciência e morrendo afogado na lama. Mas três? Não é exagero?
Podia ser areia movediça, claro. Maquiavel talvez só conhecesse o termo "lama".
Mesmo assim, fiquei curiosa para saber como era a lama de antigamente.
Como meu tempo para cultura inútil infelizmente é zero, vou continuar sem saber.
Monday, March 16, 2009
Sócrates furioso
Antes tarde do que nunca.
Sócrates tinha uma paciência invejável, a julgar pelo testemunho de Platão e, claro, pelo modo como lidava com a mulher, Xantipa. Nem quando foi sentenciado, dizem as más línguas, Sócrates perdeu a paciência.
Exceto por uma vezinha só, momentos antes da morte, porque o mandaram calar.
Ninguém manda Sócrates calar, né?
Imagine. Se não escrevia, só podia filosofar falando.
No Fédon (63c), Críton explica a Sócrates que o homem responsável por lhe dar o veneno recomendou que não falasse muito, para não retardar a ação do veneno.
Sócrates respondeu, furioso:
- Dize-lhe que vá às favas! Ele que me dê o veneno duas ou três vezes, se for preciso!
Não foi preciso, mas devem ter descoberto que a fala não é tão poderosa assim.
Sócrates tinha uma paciência invejável, a julgar pelo testemunho de Platão e, claro, pelo modo como lidava com a mulher, Xantipa. Nem quando foi sentenciado, dizem as más línguas, Sócrates perdeu a paciência.
Exceto por uma vezinha só, momentos antes da morte, porque o mandaram calar.
Ninguém manda Sócrates calar, né?
Imagine. Se não escrevia, só podia filosofar falando.
No Fédon (63c), Críton explica a Sócrates que o homem responsável por lhe dar o veneno recomendou que não falasse muito, para não retardar a ação do veneno.
Sócrates respondeu, furioso:
- Dize-lhe que vá às favas! Ele que me dê o veneno duas ou três vezes, se for preciso!
Não foi preciso, mas devem ter descoberto que a fala não é tão poderosa assim.
Wednesday, March 11, 2009
Estratégia eficaz
"A afeição e ódio mudam a face da justiça; e quanto um advogado bem pago antecipadamente acha mais justa a causa que defende!" Pascal, Ensaios, 104.
A justiça é cega.
A justiça é cega.
Tuesday, March 03, 2009
Monarquia universal
Eis os argumentos de Dante a favor da monarquia universal (leia-se: império romano revivido):
"É pertinente ao povo mais nobre governar os outros, assim como é justo e conveniente que o homem mais nobre comande os demais. Toda supremacia é uma honra, então toda supremacia é recompensa da virtude".
É bem verdade que o entendimento de política, no período anterior a Maquiavel, associa a vitória e o poder à dignidade moral, mas isto é um equívoco, porque ignora as relações políticas, sociais e o mero exercício da força como condições que estão na base do poder.
"O ser cujo crescimento recebe o auxílio de Deus é querido de Deus e legítimo. O Império Romano recebeu ajuda de milagres para chegar à perfeição. Portanto, o Império Romano foi legítimo e querido de Deus".
Não sei a que milagres Dante se refere, mas nenhuma das afirmações acima pode ser demonstrada. É fácil imaginar sua validade para quem acredita na primeira premissa, mas é exatamente por apresentar razões religiosas para justificar uma tese política que como teórico político Dante foi bom soldado.
"Todo aquele que deseja o bem da República procura o fim do Direito. O fim da sociedade é o bem comum. Quem visa o bem comum visa também o Direito. O Império Romano visava o bem comum, porque suas guerras e conquistas acabaram com as hostilidades. Logo, o Império Romano visava o Direito".
Esse argumento é péssimo, porque usa o sucesso do imperalismo militar como prova de sua moralidade. As guerras e conquistas do império romano podem até ter acabado com as hostilidades, mas pela força.
"Quem se propõe o fim do Direito intenta subir legitimamente. Assim, o povo romano, sujeitando o orbe, procedeu legitimamente".
Mesmo argumento do anterior.
"A natureza hierarquiza os seres conforme suas aptidões. O fundamento do Direito se liga a esta ordem. O povo romano foi destinado ao comando pela natureza, nos moldes do já havia dito Aristóteles sobre as diferenças sociais entre os homens".
É verdade que o império romano foi bem sucedido devido à sua habilidade militar, mas daí concluir que a natureza, que diferenciaria os seres humanos em mais aptos e menos aptos militarmente, é um pouco demais.
"As intenções divinas são ora evidentes, ora ocultas e se dão a conhecer pela razão e pela fé. Neste caso, a salvação e a justiça. Mas há juízos de Deus que a razão humana não pode conhecer senão pela revelação, pela oração e pela prova. A prova pode se dar por sorte ou por combate (duelos), de onde podemos tirar duas teses:
a) Deus se interessa mais pela luta coletiva que pela individual. O triunfo é conseqüência do juízo de Deus. O povo que triunfou na luta pelo Império do mundo triunfou por juízo divino. b) O que se adquire em duelo se adquire legitimamente, desde que o duelo aconteça no desejo de se fazer justiça. O povo romano adquiriu o Império por duelo. Portanto, o fez legitimamente".
A crença de que a vitória no duelo é expressão da justiça (porque a vontade de Deus atuaria, e esta vontade é pela justiça) é própria deste período, e de épocas posteriores. Vá lá. É uma falácia, mas obedece à lógica do período.
"Cristo nasceu sob o Império Romano. Se este Império não foi legítimo, também não o foi o nascimento de Cristo. Como o nascimento de Cristo foi legítimo, segue-se que também o foi o Império".
Mesmo que o nascimento de Cristo tenha sido legítimo, seja lá o que isso quer dizer, não se segue que o império sob o qual ele nasceu seja também legítimo.
"Se o Império Romano foi legítimo, o pecado de Adão não foi punido em Cristo. Ora, sabemos que o pecado de Adão foi punido em Cristo. Logo, o Império Romano foi legítimo".
Esse argumento também é um assassinato à lógica. Não há relação necessária entre a legitimidade do império e o pecado de Adão punido em Cristo, ainda que aceitemos as duas afirmações em separado.
Ergo...
A posteridade fez bem em esquecer o livro A Monarquia. Nada acrescenta.
Mas, cá entre nós, acho que devíamos esquecer o poeta também.
"É pertinente ao povo mais nobre governar os outros, assim como é justo e conveniente que o homem mais nobre comande os demais. Toda supremacia é uma honra, então toda supremacia é recompensa da virtude".
É bem verdade que o entendimento de política, no período anterior a Maquiavel, associa a vitória e o poder à dignidade moral, mas isto é um equívoco, porque ignora as relações políticas, sociais e o mero exercício da força como condições que estão na base do poder.
"O ser cujo crescimento recebe o auxílio de Deus é querido de Deus e legítimo. O Império Romano recebeu ajuda de milagres para chegar à perfeição. Portanto, o Império Romano foi legítimo e querido de Deus".
Não sei a que milagres Dante se refere, mas nenhuma das afirmações acima pode ser demonstrada. É fácil imaginar sua validade para quem acredita na primeira premissa, mas é exatamente por apresentar razões religiosas para justificar uma tese política que como teórico político Dante foi bom soldado.
"Todo aquele que deseja o bem da República procura o fim do Direito. O fim da sociedade é o bem comum. Quem visa o bem comum visa também o Direito. O Império Romano visava o bem comum, porque suas guerras e conquistas acabaram com as hostilidades. Logo, o Império Romano visava o Direito".
Esse argumento é péssimo, porque usa o sucesso do imperalismo militar como prova de sua moralidade. As guerras e conquistas do império romano podem até ter acabado com as hostilidades, mas pela força.
"Quem se propõe o fim do Direito intenta subir legitimamente. Assim, o povo romano, sujeitando o orbe, procedeu legitimamente".
Mesmo argumento do anterior.
"A natureza hierarquiza os seres conforme suas aptidões. O fundamento do Direito se liga a esta ordem. O povo romano foi destinado ao comando pela natureza, nos moldes do já havia dito Aristóteles sobre as diferenças sociais entre os homens".
É verdade que o império romano foi bem sucedido devido à sua habilidade militar, mas daí concluir que a natureza, que diferenciaria os seres humanos em mais aptos e menos aptos militarmente, é um pouco demais.
"As intenções divinas são ora evidentes, ora ocultas e se dão a conhecer pela razão e pela fé. Neste caso, a salvação e a justiça. Mas há juízos de Deus que a razão humana não pode conhecer senão pela revelação, pela oração e pela prova. A prova pode se dar por sorte ou por combate (duelos), de onde podemos tirar duas teses:
a) Deus se interessa mais pela luta coletiva que pela individual. O triunfo é conseqüência do juízo de Deus. O povo que triunfou na luta pelo Império do mundo triunfou por juízo divino. b) O que se adquire em duelo se adquire legitimamente, desde que o duelo aconteça no desejo de se fazer justiça. O povo romano adquiriu o Império por duelo. Portanto, o fez legitimamente".
A crença de que a vitória no duelo é expressão da justiça (porque a vontade de Deus atuaria, e esta vontade é pela justiça) é própria deste período, e de épocas posteriores. Vá lá. É uma falácia, mas obedece à lógica do período.
"Cristo nasceu sob o Império Romano. Se este Império não foi legítimo, também não o foi o nascimento de Cristo. Como o nascimento de Cristo foi legítimo, segue-se que também o foi o Império".
Mesmo que o nascimento de Cristo tenha sido legítimo, seja lá o que isso quer dizer, não se segue que o império sob o qual ele nasceu seja também legítimo.
"Se o Império Romano foi legítimo, o pecado de Adão não foi punido em Cristo. Ora, sabemos que o pecado de Adão foi punido em Cristo. Logo, o Império Romano foi legítimo".
Esse argumento também é um assassinato à lógica. Não há relação necessária entre a legitimidade do império e o pecado de Adão punido em Cristo, ainda que aceitemos as duas afirmações em separado.
Ergo...
A posteridade fez bem em esquecer o livro A Monarquia. Nada acrescenta.
Mas, cá entre nós, acho que devíamos esquecer o poeta também.
Monday, February 09, 2009
Paz, ainda que pela força
Estou lendo atualmente "Um só mundo; a ética da globalização", de Peter Singer, o que me leva à idéia de unidade.
Lembrei de Dante Alighieri e sua Monarquia. Sim, é o mesmo Dante da Divina Comédia, que também fez incursões pela filosofia política. Devia ter continuado escrevendo poesia, se é que o paraíso e o purgatório são tão interessantes quanto o inferno. Não sei dizer, porque desisti logo nos primeiros versos.
Bem, o que interessa é a Monarquia. A idéia de unidade política nunca abandonou a Europa, após a queda da Roma Ocidental. Vieram os bárbaros, a fragmentação em unidades políticas e econômicas, a ausência de governo central. Neste período, a Igreja alimentava o desejo de unidade pela coesão sob o poder espiritual. Com a formação de estados nacionais e o consequente declínio da Igreja, fosse interna, fosse externamente, a unidade perdeu-se de vez, mas não o sonho.
Frederico Barba Ruiva considerava-se descendente e herdeiro legítimo dos antigos imperadores romanos. Seu desejo era reviver o império romano. Mais de um século depois, na época de Dante, o imperador Henrique acalentava o mesmo sonho: transformar a Germânia em uma nova Roma.
Dante não somente admirava o imperador Henrique, como acalantava o mesmo sonho e a mesma convicção: só haverá paz quando toda a terra for governada por um único senhor. Literalmente.
Na sequência, apresentarei os argumentos de Dante a favor da monarquia universal.
Lembrei de Dante Alighieri e sua Monarquia. Sim, é o mesmo Dante da Divina Comédia, que também fez incursões pela filosofia política. Devia ter continuado escrevendo poesia, se é que o paraíso e o purgatório são tão interessantes quanto o inferno. Não sei dizer, porque desisti logo nos primeiros versos.
Bem, o que interessa é a Monarquia. A idéia de unidade política nunca abandonou a Europa, após a queda da Roma Ocidental. Vieram os bárbaros, a fragmentação em unidades políticas e econômicas, a ausência de governo central. Neste período, a Igreja alimentava o desejo de unidade pela coesão sob o poder espiritual. Com a formação de estados nacionais e o consequente declínio da Igreja, fosse interna, fosse externamente, a unidade perdeu-se de vez, mas não o sonho.
Frederico Barba Ruiva considerava-se descendente e herdeiro legítimo dos antigos imperadores romanos. Seu desejo era reviver o império romano. Mais de um século depois, na época de Dante, o imperador Henrique acalentava o mesmo sonho: transformar a Germânia em uma nova Roma.
Dante não somente admirava o imperador Henrique, como acalantava o mesmo sonho e a mesma convicção: só haverá paz quando toda a terra for governada por um único senhor. Literalmente.
Na sequência, apresentarei os argumentos de Dante a favor da monarquia universal.
Friday, February 06, 2009
Qual é o sexo do seu cérebro?
Ah, os testes! Nada como um bom teste online para me fazer deixar o trabalho e escrever novamente. A vida anda impossível com trabalho em excesso e muita, mas muita leitura.
Enfim. O teste agora é sobre o sexo de meu cérebro. Masculino, 7 pontos.
Será por isso que detesto poesia? :-)))
Enfim. O teste agora é sobre o sexo de meu cérebro. Masculino, 7 pontos.
Será por isso que detesto poesia? :-)))
Saturday, January 17, 2009
Prédios moralmente deficientes
Lendo Adorno, descobri que ter uma finalidade prática é, no fim das contas, uma vergonha. Sobretudo, descobri que até prédios devem ser mais recatados e esconder sua verdadeira utilidade.
"Os prédios que sobrevivem do século dezenove e cuja arquitetura ainda revela vergonhosamente a utilidade como bem de consumo, ou seja, sua finalidade habitacional, estão recobertos do andar térreo ao telhado de painéis e anúncios luminosos; a paisagem torna-se um mero pano de fundo para letreiros e logotipos" (Adorno, Dialética do Esclarecimento, Indústria Cultural).
Sei não, mas acho que já gostei de Adorno.
"Os prédios que sobrevivem do século dezenove e cuja arquitetura ainda revela vergonhosamente a utilidade como bem de consumo, ou seja, sua finalidade habitacional, estão recobertos do andar térreo ao telhado de painéis e anúncios luminosos; a paisagem torna-se um mero pano de fundo para letreiros e logotipos" (Adorno, Dialética do Esclarecimento, Indústria Cultural).
Sei não, mas acho que já gostei de Adorno.
Saturday, January 10, 2009
O ethos da ética
Há quem pense - e escreva a respeito, como Vazquez - que ethos significa, originalmente, caráter (ver Ética, publicado pela Martins Fontes, cap. 1).
Errado. Caráter é uma palavra que aparece na língua grega, e frequentemente na Poética de Aristóteles, mas significando neste caso temperamento, inclinação. Nada a ver com caráter moral. Este sentido só aparece com a filosofia moral, de que Sócrates é o pai, mas só se firma neste campo semântico mais tarde.
Ainda que eu tenha deixado passar alguma coisa (leia-se Platão), "caráter" certamente não é o sentido original da palavra ethos.
Há quem pense que ethos significa, originalmente, costume, hábito. Errado. Com certeza estes são significados da palavra na Grécia Clássica, mas nem de longe seu sentido original.
Então tá. Qual é o sentido original de ethos, afinal de contas? Em Homero, a palavra indicava o lugar onde os animais geralmente se abrigam. Não abrigos feitos pelo homem, porque dificilmente isso acontecia na ocasião, mas todo e qualquer lugar que os animais, quaisquer animais, usassem para se abrigar do frio, da chuva, dos predadores etc.
Como é que deste sentido original chegamos a caráter moral?
Bem, acho que sei, mas vou deixar isso para outra ocasião.
Errado. Caráter é uma palavra que aparece na língua grega, e frequentemente na Poética de Aristóteles, mas significando neste caso temperamento, inclinação. Nada a ver com caráter moral. Este sentido só aparece com a filosofia moral, de que Sócrates é o pai, mas só se firma neste campo semântico mais tarde.
Ainda que eu tenha deixado passar alguma coisa (leia-se Platão), "caráter" certamente não é o sentido original da palavra ethos.
Há quem pense que ethos significa, originalmente, costume, hábito. Errado. Com certeza estes são significados da palavra na Grécia Clássica, mas nem de longe seu sentido original.
Então tá. Qual é o sentido original de ethos, afinal de contas? Em Homero, a palavra indicava o lugar onde os animais geralmente se abrigam. Não abrigos feitos pelo homem, porque dificilmente isso acontecia na ocasião, mas todo e qualquer lugar que os animais, quaisquer animais, usassem para se abrigar do frio, da chuva, dos predadores etc.
Como é que deste sentido original chegamos a caráter moral?
Bem, acho que sei, mas vou deixar isso para outra ocasião.
Monday, January 05, 2009
Meiguice primitiva, burrice primitiva
Já dizia o grande filósofo Jean-Jacques Rousseau, em um de seus vários momentos delirantemente românticos:
"Nada há de mais meigo que o homem em seu estado primitivo" (Segundo Discurso).
Será que Rousseau considera meigos os canibais? Ou será que nunca ouviu falar deles?
Acho pouco provável.
Mais esperto foi Kant, ao comparar os selvagens europeus com os selvagens dos outros. Disse que os selvagens europeus são mais civilizados porque se utilizam dos conquistados como mão de obra, soldados etc., enquanto os demais só pensam em comê-los.
Desperdício, né?
"Nada há de mais meigo que o homem em seu estado primitivo" (Segundo Discurso).
Será que Rousseau considera meigos os canibais? Ou será que nunca ouviu falar deles?
Acho pouco provável.
Mais esperto foi Kant, ao comparar os selvagens europeus com os selvagens dos outros. Disse que os selvagens europeus são mais civilizados porque se utilizam dos conquistados como mão de obra, soldados etc., enquanto os demais só pensam em comê-los.
Desperdício, né?
Thursday, January 01, 2009
Esqueça o ciúmes
Ouço tanto falar em "ciúmes", em "ter ciúmes de", que fiquei curiosa em saber o que vem a ser isso.
Será o mesmo que "ter saudades", "sentir vergonhas", "deixar-se levar pela invejas" ou "Deus de misericórdias"?
É que no Aurélio não existe "ciúmes", não com o artigo no singular, entende?
Então fiquei me perguntando se já é uma antecipação da novíssima reforma ortográfica.
Deve ser.
O Aurélio já era.
Será o mesmo que "ter saudades", "sentir vergonhas", "deixar-se levar pela invejas" ou "Deus de misericórdias"?
É que no Aurélio não existe "ciúmes", não com o artigo no singular, entende?
Então fiquei me perguntando se já é uma antecipação da novíssima reforma ortográfica.
Deve ser.
O Aurélio já era.
Tuesday, December 30, 2008
Welles e o fim do mundo
Que Orson Welles tenha sido um grande diretor, Cidadão Kane é prova suficiente. Mas nunca achei que, como ator, passasse do medíocre ou do aceitável. Mesmo para uma época em que os atores agiam diante da câmera como se estivessem no teatro, Welles me parece inexpressivo.
Mas há um episódio que contradiz essa minha impressão: em outubro de 1938, quando ainda era desconhecido, Welles narrou, pelo rádio, "A Guerra dos Mundos", de H.G. Welles, que contava a invasão da Terra por Marcianos.
A dramatização foi tão perfeita que gerou pânico na audiência. O povo refugiou-se em abrigos ou saiu para comprar armas. Muitos tentaram se proteger do gás letal com toalhas.
No fim das contas, era só um bom narrador e um livro não tão bom assim.
Mas há um episódio que contradiz essa minha impressão: em outubro de 1938, quando ainda era desconhecido, Welles narrou, pelo rádio, "A Guerra dos Mundos", de H.G. Welles, que contava a invasão da Terra por Marcianos.
A dramatização foi tão perfeita que gerou pânico na audiência. O povo refugiou-se em abrigos ou saiu para comprar armas. Muitos tentaram se proteger do gás letal com toalhas.
No fim das contas, era só um bom narrador e um livro não tão bom assim.
Tuesday, December 23, 2008
John Gray e a Al-Qaeda (2)
"O que a al-Qaeda destruiu
Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova York em 11 de setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Eles destruíram o mito dominador do Ocidente.
As sociedades ocidentais são dominadas pela crença de que a modernidade é uma condição única, por toda parte a mesma e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, ficam mais parecidas. Ao mesmo tempo, tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar nossos valores — os valores do Iluminismo, como gostamos de pensar.
Nenhum lugar-comum é mais espantoso do que o que descreve a al-Qaeda como uma revivescência da época medieval. Ela é um subproduto da globalização. Assim como os cartéis mundiais das drogas e as grandes empresas de comércio virtual que se desenvolveram nos anos 1990, evoluiu numa época em que a desregulamentação financeira criou grandes reservatórios de riqueza no estrangeiro e o crime organizado tornou-se global. Sua característica mais distintiva — planejar uma forma privatizada de violência organizada no mundo inteiro — seria impossível no passado. Do mesmo modo, a crença de que um mundo novo pode ser apressado por atos espetaculares de destruição não se encontra em parte alguma na época medieval. Os precursores mais próximos da al-Qaeda são os anarquistas revolucionários da Europa do final do século XIX.
Quem duvidar que o terror revolucionário é uma invenção moderna resolveu esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de corporificar o ideal iluminista de um mundo sem poder nem conflitos. Em busca deste ideal, matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazista cometeu o pior ato de genocídio da história. E o fez com a meta de criar um novo tipo de ser humano. Nenhuma era anterior abrigou projetos assim. As câmaras de gás e os gulags são modernos.
(...)
Sempre houve desacordo sobre a natureza deste mundo novo. Para Marx e Lenin, seria uma anarquia igualitária e sem classes; para Fukuyama e os neoliberais, um livre-mercado universal. Tais visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas de forma alguma isso enfraqueceu o domínio da fé que expressam.
Por meio de sua influência profunda sobre Marx, as idéias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética de planejamento econômico centralizado. Quando o sistema soviético entrou em colapso, elas ressurgiram no culto do livre-mercado. Passou-se a acreditar que apenas o “capitalismo democrático” de estilo norte-americano é verdadeiramente moderno e que se destina a espalhar-se por toda parte. Quando isso acontecer passará a existir uma civilização universal e a história chegará ao fim.
Isso pode parecer um credo fantástico, e é. O mais fantástico é ainda ter o crédito de muita gente. Configura os programas dos principais partidos políticos de todo o mundo. Guia as políticas de instituições como o Fundo Monetário Internacional. Anima a “guerra ao terror”, na qual a al-Qaeda é vista como relíquia do passado.
Esta visão é, simplesmente, errada. Como o comunismo e o nazismo, o islamismo radical é moderno. Embora alegue ser antiocidental, é configurado tanto pela ideologia do Ocidente quanto pelas tradições islâmicas. Como os marxistas e os neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como o prelúdio de um mundo novo. Todos estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se há um mito exclusivamente moderno, é esse."
(...)
-----
GRAY, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. Rio : Record, 2004.
Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova York em 11 de setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Eles destruíram o mito dominador do Ocidente.
As sociedades ocidentais são dominadas pela crença de que a modernidade é uma condição única, por toda parte a mesma e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, ficam mais parecidas. Ao mesmo tempo, tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar nossos valores — os valores do Iluminismo, como gostamos de pensar.
Nenhum lugar-comum é mais espantoso do que o que descreve a al-Qaeda como uma revivescência da época medieval. Ela é um subproduto da globalização. Assim como os cartéis mundiais das drogas e as grandes empresas de comércio virtual que se desenvolveram nos anos 1990, evoluiu numa época em que a desregulamentação financeira criou grandes reservatórios de riqueza no estrangeiro e o crime organizado tornou-se global. Sua característica mais distintiva — planejar uma forma privatizada de violência organizada no mundo inteiro — seria impossível no passado. Do mesmo modo, a crença de que um mundo novo pode ser apressado por atos espetaculares de destruição não se encontra em parte alguma na época medieval. Os precursores mais próximos da al-Qaeda são os anarquistas revolucionários da Europa do final do século XIX.
Quem duvidar que o terror revolucionário é uma invenção moderna resolveu esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de corporificar o ideal iluminista de um mundo sem poder nem conflitos. Em busca deste ideal, matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazista cometeu o pior ato de genocídio da história. E o fez com a meta de criar um novo tipo de ser humano. Nenhuma era anterior abrigou projetos assim. As câmaras de gás e os gulags são modernos.
(...)
Sempre houve desacordo sobre a natureza deste mundo novo. Para Marx e Lenin, seria uma anarquia igualitária e sem classes; para Fukuyama e os neoliberais, um livre-mercado universal. Tais visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas de forma alguma isso enfraqueceu o domínio da fé que expressam.
Por meio de sua influência profunda sobre Marx, as idéias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética de planejamento econômico centralizado. Quando o sistema soviético entrou em colapso, elas ressurgiram no culto do livre-mercado. Passou-se a acreditar que apenas o “capitalismo democrático” de estilo norte-americano é verdadeiramente moderno e que se destina a espalhar-se por toda parte. Quando isso acontecer passará a existir uma civilização universal e a história chegará ao fim.
Isso pode parecer um credo fantástico, e é. O mais fantástico é ainda ter o crédito de muita gente. Configura os programas dos principais partidos políticos de todo o mundo. Guia as políticas de instituições como o Fundo Monetário Internacional. Anima a “guerra ao terror”, na qual a al-Qaeda é vista como relíquia do passado.
Esta visão é, simplesmente, errada. Como o comunismo e o nazismo, o islamismo radical é moderno. Embora alegue ser antiocidental, é configurado tanto pela ideologia do Ocidente quanto pelas tradições islâmicas. Como os marxistas e os neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como o prelúdio de um mundo novo. Todos estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se há um mito exclusivamente moderno, é esse."
(...)
-----
GRAY, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. Rio : Record, 2004.
Monday, December 22, 2008
Salve-se quem puder
Ainda sobre Paul Virilio, encontrei algumas informações na Wikipedia (que não é lá a melhor referência, eu sei). Eis uma lista parcial dos livros publicados por este filósofo:
* City of Panic. Cidade do pânico.
* The Accident of Art. O acidente da arte.
* Negative Horizon: An Essay in Dromoscopy. Não sei o que é dromoscopia, mas Horizonte Negativo já está de bom tamanho.
* Art and Fear. Arte e medo.
* Crepuscular Dawn. Aurora crespuscular.
* The Information Bomb. A bomba informática.
* Strategy of Deception. Estratégia de Engano.
* Politics of the Very Worst. Política do pior.
* Polar Inertia. Inércia polar.
* The Aesthetics of Disappearance. A estética da desaparição.
* Lost Dimension. Dimensão perdida.
* War and Cinema: The Logistics of Perception. Guerra e cinema.
Cruzes!
Ainda não li este senhor, mas já estou preocupada.
Será o benedito?
* City of Panic. Cidade do pânico.
* The Accident of Art. O acidente da arte.
* Negative Horizon: An Essay in Dromoscopy. Não sei o que é dromoscopia, mas Horizonte Negativo já está de bom tamanho.
* Art and Fear. Arte e medo.
* Crepuscular Dawn. Aurora crespuscular.
* The Information Bomb. A bomba informática.
* Strategy of Deception. Estratégia de Engano.
* Politics of the Very Worst. Política do pior.
* Polar Inertia. Inércia polar.
* The Aesthetics of Disappearance. A estética da desaparição.
* Lost Dimension. Dimensão perdida.
* War and Cinema: The Logistics of Perception. Guerra e cinema.
Cruzes!
Ainda não li este senhor, mas já estou preocupada.
Será o benedito?
Sunday, December 21, 2008
Perigo! Perigo!
Tolos, incautos, incipientes, insipientes e infiéis de todo o mundo: arrependam-se antes que seja tarde.
Ainda é tempo.
Fujam da tentação da máquina. Salvem suas almas.
Você pode. Você deve. Mas seja rápido porque o anticristo está chegando.
A besta do apocalipse, a máquina humana, marcará a todos com seu número: 666 (mas pode ser também identidade, cpf, telefone fixo, celular, ID, login, senha, cartão de crédito, cartão de débito, ou até mesmo pis/pasep).
Quem avisa amigo é.
O amigo, no caso, é um certo Paul Virilio, o profeta da destruição do homem pela máquina, o filósofo que fez de 2001 - Uma Odisséia no Espaço um cult de ação.
O livro, A Bomba Informática, explica o que acontecerá a todos nós se deixarmos que HAL domine nossas vidas e roube nossa identidade.
Não, ainda não li. Mas juro que vou tentar.
Será que ele sabe enviar e-mails?
Ainda é tempo.
Fujam da tentação da máquina. Salvem suas almas.
Você pode. Você deve. Mas seja rápido porque o anticristo está chegando.
A besta do apocalipse, a máquina humana, marcará a todos com seu número: 666 (mas pode ser também identidade, cpf, telefone fixo, celular, ID, login, senha, cartão de crédito, cartão de débito, ou até mesmo pis/pasep).
Quem avisa amigo é.
O amigo, no caso, é um certo Paul Virilio, o profeta da destruição do homem pela máquina, o filósofo que fez de 2001 - Uma Odisséia no Espaço um cult de ação.
O livro, A Bomba Informática, explica o que acontecerá a todos nós se deixarmos que HAL domine nossas vidas e roube nossa identidade.
Não, ainda não li. Mas juro que vou tentar.
Será que ele sabe enviar e-mails?
Saturday, December 20, 2008
Perfume de Cristo (2)
E não é que Cristo era mesmo cheiroso?
Arqueólogos [franciscanos] encontraram, na cidade de Magdala, em Israel, vasos de perfume similares aos usados por Maria Madalena, na época de Cristo.
O capeta pergunta: como é que sabem disso?
Ah, o carbono 14! E depois, o perfume e os cremes são similares aos usados na época.
O capeta ainda quer saber: o que isso tem a ver com Cristo?
É que Maria Madalena lavou os pés de Jesus, entende?
Pelo menos já sabemos que os pés cheiravam bem. Isso já representa um grande avanço.
Científico e religioso, se se considerar que o cientista em questão é um padre.
Arqueólogos [franciscanos] encontraram, na cidade de Magdala, em Israel, vasos de perfume similares aos usados por Maria Madalena, na época de Cristo.
O capeta pergunta: como é que sabem disso?
Ah, o carbono 14! E depois, o perfume e os cremes são similares aos usados na época.
O capeta ainda quer saber: o que isso tem a ver com Cristo?
É que Maria Madalena lavou os pés de Jesus, entende?
Pelo menos já sabemos que os pés cheiravam bem. Isso já representa um grande avanço.
Científico e religioso, se se considerar que o cientista em questão é um padre.
Friday, December 19, 2008
Perfume de Cristo (1)
A freira queniana Anna Hadija Ali sempre foi noiva de Cristo, mas nunca tinha visto o noivo, exceto por imagens. Mais importante, já que ela pretende se casar com ele quando Deus assim o permitir, ela não sabia dizer se ele era um homem perfumado ou se cheirava mal.
De qualquer forma, não teve de esperar tanto assim.
Não, ela não morreu. Jesus é que veio vê-la. Perfumado.
Anna Ali contou recentemente que desde 1987 Jesus a visita todas as quintas-feiras.
É sério. Ela chegou até a fotografá-lo com lágrimas de sangue. E logo passou também a derramar lágrimas de sangue.
Lembrei daquela musiquinha horrorosa:
É o amor, é o amor...
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim...
Para completar, o vale de lágrimas derramado pela feliz noiva de Cristo exala um "extraordinário aroma de frescor".
Hã-hã.
Ela garante que é o perfume de Cristo. Que ficou impregnado nela.
Hã?
Já não se fazem mais noivas como antigamente. Fim dos tempos.
Mas fim dos tempos mesmo é adultos acreditando nessa história. Os fiéis, claro, porque os superiores da superiora, aposto que não acreditam. Apenas acham a história útil.
E não é?
De qualquer forma, não teve de esperar tanto assim.
Não, ela não morreu. Jesus é que veio vê-la. Perfumado.
Anna Ali contou recentemente que desde 1987 Jesus a visita todas as quintas-feiras.
É sério. Ela chegou até a fotografá-lo com lágrimas de sangue. E logo passou também a derramar lágrimas de sangue.
Lembrei daquela musiquinha horrorosa:
É o amor, é o amor...
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim...
Para completar, o vale de lágrimas derramado pela feliz noiva de Cristo exala um "extraordinário aroma de frescor".
Hã-hã.
Ela garante que é o perfume de Cristo. Que ficou impregnado nela.
Hã?
Já não se fazem mais noivas como antigamente. Fim dos tempos.
Mas fim dos tempos mesmo é adultos acreditando nessa história. Os fiéis, claro, porque os superiores da superiora, aposto que não acreditam. Apenas acham a história útil.
E não é?
Thursday, December 18, 2008
Difícil é eufemismo
Procurando algo sobre "paradigmas" no Youtube, encontrei o video "Mudar paradigmas é difícil".
Perfeito.
Quem já ensinou um neófito a usar o computador vai se deliciar com este video.
Clique no título deste post.
Perfeito.
Quem já ensinou um neófito a usar o computador vai se deliciar com este video.
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Tuesday, December 16, 2008
John Gray e a Al-Qaeda (1)
Junto com Peter Singer, John Gray é um dos filósofos que mais tenho apreciado ultimamente.
Nada a ver com o escritor de livrinhos de auto-ajuda, tá? Aquele de "Mulheres são de Vênus e etc". Estou me referindo ao filósofo britânico autor de "Cachorros de Palha".
Então. Li recentemente "Al-Qaeda e o que significa ser moderno". Apesar de ser um tanto repetitivo, para quem já tinha lido "Cachorros de Palha", este livro é um achado. Assim como Peter Singer em "Um só mundo: a ética da globalização", John Gray trabalha insistentemente com a idéia de unidade. Para rebatê-la.
A premissa básica é que a Al-Qaeda não é medieval, como muitos gostam de pensar. Não se trata, no entendimento de Gray, de uma mentalidade bárbara, ultrapassada, que insiste em lutar contra a civilização e a modernidade. É difícil não pensar assim, quando Osama mais parece um ícone vivo do estilo de vida e da visão de mundo de um beduíno autêntico, ou a desastrosa reencarnação daquele velhinho da montanha, do século XII, que ordenava a seus homens que pulassem da montanha para a morte simplesmente para provar que tinha poder. Mas John Gray tem razão.
Para ele, a Al-Qaeda é tão moderna em seus princípios e métodos quanto o nazismo e o comunismo. Todos eles queriam (ou querem) reformar o mundo com base na idéia de que é preciso salvar o homem, e que só é possível fazê-lo pela unidade de discurso.
Nossa herança positivista nos faz acreditar que só há um modo de ser "moderno". Gray mostra que há outros modos, mas que todos eles trazem em seu bojo o desejo de um mundo melhor e de um homem melhor que só pode ser obtido pela eliminação da diferença.
O livro é claro, bem escrito e bem fundamentado. Vale a pena ler.
Nada a ver com o escritor de livrinhos de auto-ajuda, tá? Aquele de "Mulheres são de Vênus e etc". Estou me referindo ao filósofo britânico autor de "Cachorros de Palha".
Então. Li recentemente "Al-Qaeda e o que significa ser moderno". Apesar de ser um tanto repetitivo, para quem já tinha lido "Cachorros de Palha", este livro é um achado. Assim como Peter Singer em "Um só mundo: a ética da globalização", John Gray trabalha insistentemente com a idéia de unidade. Para rebatê-la.
A premissa básica é que a Al-Qaeda não é medieval, como muitos gostam de pensar. Não se trata, no entendimento de Gray, de uma mentalidade bárbara, ultrapassada, que insiste em lutar contra a civilização e a modernidade. É difícil não pensar assim, quando Osama mais parece um ícone vivo do estilo de vida e da visão de mundo de um beduíno autêntico, ou a desastrosa reencarnação daquele velhinho da montanha, do século XII, que ordenava a seus homens que pulassem da montanha para a morte simplesmente para provar que tinha poder. Mas John Gray tem razão.
Para ele, a Al-Qaeda é tão moderna em seus princípios e métodos quanto o nazismo e o comunismo. Todos eles queriam (ou querem) reformar o mundo com base na idéia de que é preciso salvar o homem, e que só é possível fazê-lo pela unidade de discurso.
Nossa herança positivista nos faz acreditar que só há um modo de ser "moderno". Gray mostra que há outros modos, mas que todos eles trazem em seu bojo o desejo de um mundo melhor e de um homem melhor que só pode ser obtido pela eliminação da diferença.
O livro é claro, bem escrito e bem fundamentado. Vale a pena ler.
Sunday, December 14, 2008
Lesbos e lésbicas
Os moradores de Lesbos, ilha grega do Egeu, consideram um insulto o termo "lésbica".
Nada contra o homossexualismo, suponho. O problema é a associação do homossexualismo com a ilha, pátria da poetisa Safo, que sabidamente preferia mulheres a homens. Aliás, a maior parte das mulheres de Mitilene, capital de Lesbos. Mas isso não devia ser problema, já que os homens preferiam os homens.
O resto é família.
De qualquer forma, entraram na justiça contra o uso do termo. Causa perdida. Pura perda de tempo. Mesmo que ganhassem, seria preciso muito mais que um veredito da justiça grega para mudar um termo tão corrente e, digamos, internacional.
Bem, perderam e agora têm de pagar os custos do processo.
Agora, cá entre nós: quem é que pensa na ilha de Lesbos, ao falar em lesbianismo? Pelo menos fora da Grécia isso é absolutamente irrelevante.
Nada contra o homossexualismo, suponho. O problema é a associação do homossexualismo com a ilha, pátria da poetisa Safo, que sabidamente preferia mulheres a homens. Aliás, a maior parte das mulheres de Mitilene, capital de Lesbos. Mas isso não devia ser problema, já que os homens preferiam os homens.
O resto é família.
De qualquer forma, entraram na justiça contra o uso do termo. Causa perdida. Pura perda de tempo. Mesmo que ganhassem, seria preciso muito mais que um veredito da justiça grega para mudar um termo tão corrente e, digamos, internacional.
Bem, perderam e agora têm de pagar os custos do processo.
Agora, cá entre nós: quem é que pensa na ilha de Lesbos, ao falar em lesbianismo? Pelo menos fora da Grécia isso é absolutamente irrelevante.
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