Já dizia o grande filósofo Jean-Jacques Rousseau, em um de seus vários momentos delirantemente românticos:
"Nada há de mais meigo que o homem em seu estado primitivo" (Segundo Discurso).
Será que Rousseau considera meigos os canibais? Ou será que nunca ouviu falar deles?
Acho pouco provável.
Mais esperto foi Kant, ao comparar os selvagens europeus com os selvagens dos outros. Disse que os selvagens europeus são mais civilizados porque se utilizam dos conquistados como mão de obra, soldados etc., enquanto os demais só pensam em comê-los.
Desperdício, né?
Monday, January 05, 2009
Thursday, January 01, 2009
Esqueça o ciúmes
Ouço tanto falar em "ciúmes", em "ter ciúmes de", que fiquei curiosa em saber o que vem a ser isso.
Será o mesmo que "ter saudades", "sentir vergonhas", "deixar-se levar pela invejas" ou "Deus de misericórdias"?
É que no Aurélio não existe "ciúmes", não com o artigo no singular, entende?
Então fiquei me perguntando se já é uma antecipação da novíssima reforma ortográfica.
Deve ser.
O Aurélio já era.
Será o mesmo que "ter saudades", "sentir vergonhas", "deixar-se levar pela invejas" ou "Deus de misericórdias"?
É que no Aurélio não existe "ciúmes", não com o artigo no singular, entende?
Então fiquei me perguntando se já é uma antecipação da novíssima reforma ortográfica.
Deve ser.
O Aurélio já era.
Tuesday, December 30, 2008
Welles e o fim do mundo
Que Orson Welles tenha sido um grande diretor, Cidadão Kane é prova suficiente. Mas nunca achei que, como ator, passasse do medíocre ou do aceitável. Mesmo para uma época em que os atores agiam diante da câmera como se estivessem no teatro, Welles me parece inexpressivo.
Mas há um episódio que contradiz essa minha impressão: em outubro de 1938, quando ainda era desconhecido, Welles narrou, pelo rádio, "A Guerra dos Mundos", de H.G. Welles, que contava a invasão da Terra por Marcianos.
A dramatização foi tão perfeita que gerou pânico na audiência. O povo refugiou-se em abrigos ou saiu para comprar armas. Muitos tentaram se proteger do gás letal com toalhas.
No fim das contas, era só um bom narrador e um livro não tão bom assim.
Mas há um episódio que contradiz essa minha impressão: em outubro de 1938, quando ainda era desconhecido, Welles narrou, pelo rádio, "A Guerra dos Mundos", de H.G. Welles, que contava a invasão da Terra por Marcianos.
A dramatização foi tão perfeita que gerou pânico na audiência. O povo refugiou-se em abrigos ou saiu para comprar armas. Muitos tentaram se proteger do gás letal com toalhas.
No fim das contas, era só um bom narrador e um livro não tão bom assim.
Tuesday, December 23, 2008
John Gray e a Al-Qaeda (2)
"O que a al-Qaeda destruiu
Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova York em 11 de setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Eles destruíram o mito dominador do Ocidente.
As sociedades ocidentais são dominadas pela crença de que a modernidade é uma condição única, por toda parte a mesma e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, ficam mais parecidas. Ao mesmo tempo, tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar nossos valores — os valores do Iluminismo, como gostamos de pensar.
Nenhum lugar-comum é mais espantoso do que o que descreve a al-Qaeda como uma revivescência da época medieval. Ela é um subproduto da globalização. Assim como os cartéis mundiais das drogas e as grandes empresas de comércio virtual que se desenvolveram nos anos 1990, evoluiu numa época em que a desregulamentação financeira criou grandes reservatórios de riqueza no estrangeiro e o crime organizado tornou-se global. Sua característica mais distintiva — planejar uma forma privatizada de violência organizada no mundo inteiro — seria impossível no passado. Do mesmo modo, a crença de que um mundo novo pode ser apressado por atos espetaculares de destruição não se encontra em parte alguma na época medieval. Os precursores mais próximos da al-Qaeda são os anarquistas revolucionários da Europa do final do século XIX.
Quem duvidar que o terror revolucionário é uma invenção moderna resolveu esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de corporificar o ideal iluminista de um mundo sem poder nem conflitos. Em busca deste ideal, matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazista cometeu o pior ato de genocídio da história. E o fez com a meta de criar um novo tipo de ser humano. Nenhuma era anterior abrigou projetos assim. As câmaras de gás e os gulags são modernos.
(...)
Sempre houve desacordo sobre a natureza deste mundo novo. Para Marx e Lenin, seria uma anarquia igualitária e sem classes; para Fukuyama e os neoliberais, um livre-mercado universal. Tais visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas de forma alguma isso enfraqueceu o domínio da fé que expressam.
Por meio de sua influência profunda sobre Marx, as idéias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética de planejamento econômico centralizado. Quando o sistema soviético entrou em colapso, elas ressurgiram no culto do livre-mercado. Passou-se a acreditar que apenas o “capitalismo democrático” de estilo norte-americano é verdadeiramente moderno e que se destina a espalhar-se por toda parte. Quando isso acontecer passará a existir uma civilização universal e a história chegará ao fim.
Isso pode parecer um credo fantástico, e é. O mais fantástico é ainda ter o crédito de muita gente. Configura os programas dos principais partidos políticos de todo o mundo. Guia as políticas de instituições como o Fundo Monetário Internacional. Anima a “guerra ao terror”, na qual a al-Qaeda é vista como relíquia do passado.
Esta visão é, simplesmente, errada. Como o comunismo e o nazismo, o islamismo radical é moderno. Embora alegue ser antiocidental, é configurado tanto pela ideologia do Ocidente quanto pelas tradições islâmicas. Como os marxistas e os neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como o prelúdio de um mundo novo. Todos estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se há um mito exclusivamente moderno, é esse."
(...)
-----
GRAY, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. Rio : Record, 2004.
Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova York em 11 de setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Eles destruíram o mito dominador do Ocidente.
As sociedades ocidentais são dominadas pela crença de que a modernidade é uma condição única, por toda parte a mesma e sempre benigna. À medida que as sociedades se tornam mais modernas, ficam mais parecidas. Ao mesmo tempo, tornam-se melhores. Ser moderno significa realizar nossos valores — os valores do Iluminismo, como gostamos de pensar.
Nenhum lugar-comum é mais espantoso do que o que descreve a al-Qaeda como uma revivescência da época medieval. Ela é um subproduto da globalização. Assim como os cartéis mundiais das drogas e as grandes empresas de comércio virtual que se desenvolveram nos anos 1990, evoluiu numa época em que a desregulamentação financeira criou grandes reservatórios de riqueza no estrangeiro e o crime organizado tornou-se global. Sua característica mais distintiva — planejar uma forma privatizada de violência organizada no mundo inteiro — seria impossível no passado. Do mesmo modo, a crença de que um mundo novo pode ser apressado por atos espetaculares de destruição não se encontra em parte alguma na época medieval. Os precursores mais próximos da al-Qaeda são os anarquistas revolucionários da Europa do final do século XIX.
Quem duvidar que o terror revolucionário é uma invenção moderna resolveu esquecer a história recente. A União Soviética foi uma tentativa de corporificar o ideal iluminista de um mundo sem poder nem conflitos. Em busca deste ideal, matou e escravizou dezenas de milhões de seres humanos. A Alemanha nazista cometeu o pior ato de genocídio da história. E o fez com a meta de criar um novo tipo de ser humano. Nenhuma era anterior abrigou projetos assim. As câmaras de gás e os gulags são modernos.
(...)
Sempre houve desacordo sobre a natureza deste mundo novo. Para Marx e Lenin, seria uma anarquia igualitária e sem classes; para Fukuyama e os neoliberais, um livre-mercado universal. Tais visões de um futuro alicerçado na ciência são muito diferentes; mas de forma alguma isso enfraqueceu o domínio da fé que expressam.
Por meio de sua influência profunda sobre Marx, as idéias positivistas inspiraram a desastrosa experiência soviética de planejamento econômico centralizado. Quando o sistema soviético entrou em colapso, elas ressurgiram no culto do livre-mercado. Passou-se a acreditar que apenas o “capitalismo democrático” de estilo norte-americano é verdadeiramente moderno e que se destina a espalhar-se por toda parte. Quando isso acontecer passará a existir uma civilização universal e a história chegará ao fim.
Isso pode parecer um credo fantástico, e é. O mais fantástico é ainda ter o crédito de muita gente. Configura os programas dos principais partidos políticos de todo o mundo. Guia as políticas de instituições como o Fundo Monetário Internacional. Anima a “guerra ao terror”, na qual a al-Qaeda é vista como relíquia do passado.
Esta visão é, simplesmente, errada. Como o comunismo e o nazismo, o islamismo radical é moderno. Embora alegue ser antiocidental, é configurado tanto pela ideologia do Ocidente quanto pelas tradições islâmicas. Como os marxistas e os neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como o prelúdio de um mundo novo. Todos estão convencidos de que podem refazer a condição humana. Se há um mito exclusivamente moderno, é esse."
(...)
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GRAY, John. Al-Qaeda e o que significa ser moderno. Rio : Record, 2004.
Monday, December 22, 2008
Salve-se quem puder
Ainda sobre Paul Virilio, encontrei algumas informações na Wikipedia (que não é lá a melhor referência, eu sei). Eis uma lista parcial dos livros publicados por este filósofo:
* City of Panic. Cidade do pânico.
* The Accident of Art. O acidente da arte.
* Negative Horizon: An Essay in Dromoscopy. Não sei o que é dromoscopia, mas Horizonte Negativo já está de bom tamanho.
* Art and Fear. Arte e medo.
* Crepuscular Dawn. Aurora crespuscular.
* The Information Bomb. A bomba informática.
* Strategy of Deception. Estratégia de Engano.
* Politics of the Very Worst. Política do pior.
* Polar Inertia. Inércia polar.
* The Aesthetics of Disappearance. A estética da desaparição.
* Lost Dimension. Dimensão perdida.
* War and Cinema: The Logistics of Perception. Guerra e cinema.
Cruzes!
Ainda não li este senhor, mas já estou preocupada.
Será o benedito?
* City of Panic. Cidade do pânico.
* The Accident of Art. O acidente da arte.
* Negative Horizon: An Essay in Dromoscopy. Não sei o que é dromoscopia, mas Horizonte Negativo já está de bom tamanho.
* Art and Fear. Arte e medo.
* Crepuscular Dawn. Aurora crespuscular.
* The Information Bomb. A bomba informática.
* Strategy of Deception. Estratégia de Engano.
* Politics of the Very Worst. Política do pior.
* Polar Inertia. Inércia polar.
* The Aesthetics of Disappearance. A estética da desaparição.
* Lost Dimension. Dimensão perdida.
* War and Cinema: The Logistics of Perception. Guerra e cinema.
Cruzes!
Ainda não li este senhor, mas já estou preocupada.
Será o benedito?
Sunday, December 21, 2008
Perigo! Perigo!
Tolos, incautos, incipientes, insipientes e infiéis de todo o mundo: arrependam-se antes que seja tarde.
Ainda é tempo.
Fujam da tentação da máquina. Salvem suas almas.
Você pode. Você deve. Mas seja rápido porque o anticristo está chegando.
A besta do apocalipse, a máquina humana, marcará a todos com seu número: 666 (mas pode ser também identidade, cpf, telefone fixo, celular, ID, login, senha, cartão de crédito, cartão de débito, ou até mesmo pis/pasep).
Quem avisa amigo é.
O amigo, no caso, é um certo Paul Virilio, o profeta da destruição do homem pela máquina, o filósofo que fez de 2001 - Uma Odisséia no Espaço um cult de ação.
O livro, A Bomba Informática, explica o que acontecerá a todos nós se deixarmos que HAL domine nossas vidas e roube nossa identidade.
Não, ainda não li. Mas juro que vou tentar.
Será que ele sabe enviar e-mails?
Ainda é tempo.
Fujam da tentação da máquina. Salvem suas almas.
Você pode. Você deve. Mas seja rápido porque o anticristo está chegando.
A besta do apocalipse, a máquina humana, marcará a todos com seu número: 666 (mas pode ser também identidade, cpf, telefone fixo, celular, ID, login, senha, cartão de crédito, cartão de débito, ou até mesmo pis/pasep).
Quem avisa amigo é.
O amigo, no caso, é um certo Paul Virilio, o profeta da destruição do homem pela máquina, o filósofo que fez de 2001 - Uma Odisséia no Espaço um cult de ação.
O livro, A Bomba Informática, explica o que acontecerá a todos nós se deixarmos que HAL domine nossas vidas e roube nossa identidade.
Não, ainda não li. Mas juro que vou tentar.
Será que ele sabe enviar e-mails?
Saturday, December 20, 2008
Perfume de Cristo (2)
E não é que Cristo era mesmo cheiroso?
Arqueólogos [franciscanos] encontraram, na cidade de Magdala, em Israel, vasos de perfume similares aos usados por Maria Madalena, na época de Cristo.
O capeta pergunta: como é que sabem disso?
Ah, o carbono 14! E depois, o perfume e os cremes são similares aos usados na época.
O capeta ainda quer saber: o que isso tem a ver com Cristo?
É que Maria Madalena lavou os pés de Jesus, entende?
Pelo menos já sabemos que os pés cheiravam bem. Isso já representa um grande avanço.
Científico e religioso, se se considerar que o cientista em questão é um padre.
Arqueólogos [franciscanos] encontraram, na cidade de Magdala, em Israel, vasos de perfume similares aos usados por Maria Madalena, na época de Cristo.
O capeta pergunta: como é que sabem disso?
Ah, o carbono 14! E depois, o perfume e os cremes são similares aos usados na época.
O capeta ainda quer saber: o que isso tem a ver com Cristo?
É que Maria Madalena lavou os pés de Jesus, entende?
Pelo menos já sabemos que os pés cheiravam bem. Isso já representa um grande avanço.
Científico e religioso, se se considerar que o cientista em questão é um padre.
Friday, December 19, 2008
Perfume de Cristo (1)
A freira queniana Anna Hadija Ali sempre foi noiva de Cristo, mas nunca tinha visto o noivo, exceto por imagens. Mais importante, já que ela pretende se casar com ele quando Deus assim o permitir, ela não sabia dizer se ele era um homem perfumado ou se cheirava mal.
De qualquer forma, não teve de esperar tanto assim.
Não, ela não morreu. Jesus é que veio vê-la. Perfumado.
Anna Ali contou recentemente que desde 1987 Jesus a visita todas as quintas-feiras.
É sério. Ela chegou até a fotografá-lo com lágrimas de sangue. E logo passou também a derramar lágrimas de sangue.
Lembrei daquela musiquinha horrorosa:
É o amor, é o amor...
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim...
Para completar, o vale de lágrimas derramado pela feliz noiva de Cristo exala um "extraordinário aroma de frescor".
Hã-hã.
Ela garante que é o perfume de Cristo. Que ficou impregnado nela.
Hã?
Já não se fazem mais noivas como antigamente. Fim dos tempos.
Mas fim dos tempos mesmo é adultos acreditando nessa história. Os fiéis, claro, porque os superiores da superiora, aposto que não acreditam. Apenas acham a história útil.
E não é?
De qualquer forma, não teve de esperar tanto assim.
Não, ela não morreu. Jesus é que veio vê-la. Perfumado.
Anna Ali contou recentemente que desde 1987 Jesus a visita todas as quintas-feiras.
É sério. Ela chegou até a fotografá-lo com lágrimas de sangue. E logo passou também a derramar lágrimas de sangue.
Lembrei daquela musiquinha horrorosa:
É o amor, é o amor...
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim...
Para completar, o vale de lágrimas derramado pela feliz noiva de Cristo exala um "extraordinário aroma de frescor".
Hã-hã.
Ela garante que é o perfume de Cristo. Que ficou impregnado nela.
Hã?
Já não se fazem mais noivas como antigamente. Fim dos tempos.
Mas fim dos tempos mesmo é adultos acreditando nessa história. Os fiéis, claro, porque os superiores da superiora, aposto que não acreditam. Apenas acham a história útil.
E não é?
Thursday, December 18, 2008
Difícil é eufemismo
Procurando algo sobre "paradigmas" no Youtube, encontrei o video "Mudar paradigmas é difícil".
Perfeito.
Quem já ensinou um neófito a usar o computador vai se deliciar com este video.
Clique no título deste post.
Perfeito.
Quem já ensinou um neófito a usar o computador vai se deliciar com este video.
Clique no título deste post.
Tuesday, December 16, 2008
John Gray e a Al-Qaeda (1)
Junto com Peter Singer, John Gray é um dos filósofos que mais tenho apreciado ultimamente.
Nada a ver com o escritor de livrinhos de auto-ajuda, tá? Aquele de "Mulheres são de Vênus e etc". Estou me referindo ao filósofo britânico autor de "Cachorros de Palha".
Então. Li recentemente "Al-Qaeda e o que significa ser moderno". Apesar de ser um tanto repetitivo, para quem já tinha lido "Cachorros de Palha", este livro é um achado. Assim como Peter Singer em "Um só mundo: a ética da globalização", John Gray trabalha insistentemente com a idéia de unidade. Para rebatê-la.
A premissa básica é que a Al-Qaeda não é medieval, como muitos gostam de pensar. Não se trata, no entendimento de Gray, de uma mentalidade bárbara, ultrapassada, que insiste em lutar contra a civilização e a modernidade. É difícil não pensar assim, quando Osama mais parece um ícone vivo do estilo de vida e da visão de mundo de um beduíno autêntico, ou a desastrosa reencarnação daquele velhinho da montanha, do século XII, que ordenava a seus homens que pulassem da montanha para a morte simplesmente para provar que tinha poder. Mas John Gray tem razão.
Para ele, a Al-Qaeda é tão moderna em seus princípios e métodos quanto o nazismo e o comunismo. Todos eles queriam (ou querem) reformar o mundo com base na idéia de que é preciso salvar o homem, e que só é possível fazê-lo pela unidade de discurso.
Nossa herança positivista nos faz acreditar que só há um modo de ser "moderno". Gray mostra que há outros modos, mas que todos eles trazem em seu bojo o desejo de um mundo melhor e de um homem melhor que só pode ser obtido pela eliminação da diferença.
O livro é claro, bem escrito e bem fundamentado. Vale a pena ler.
Nada a ver com o escritor de livrinhos de auto-ajuda, tá? Aquele de "Mulheres são de Vênus e etc". Estou me referindo ao filósofo britânico autor de "Cachorros de Palha".
Então. Li recentemente "Al-Qaeda e o que significa ser moderno". Apesar de ser um tanto repetitivo, para quem já tinha lido "Cachorros de Palha", este livro é um achado. Assim como Peter Singer em "Um só mundo: a ética da globalização", John Gray trabalha insistentemente com a idéia de unidade. Para rebatê-la.
A premissa básica é que a Al-Qaeda não é medieval, como muitos gostam de pensar. Não se trata, no entendimento de Gray, de uma mentalidade bárbara, ultrapassada, que insiste em lutar contra a civilização e a modernidade. É difícil não pensar assim, quando Osama mais parece um ícone vivo do estilo de vida e da visão de mundo de um beduíno autêntico, ou a desastrosa reencarnação daquele velhinho da montanha, do século XII, que ordenava a seus homens que pulassem da montanha para a morte simplesmente para provar que tinha poder. Mas John Gray tem razão.
Para ele, a Al-Qaeda é tão moderna em seus princípios e métodos quanto o nazismo e o comunismo. Todos eles queriam (ou querem) reformar o mundo com base na idéia de que é preciso salvar o homem, e que só é possível fazê-lo pela unidade de discurso.
Nossa herança positivista nos faz acreditar que só há um modo de ser "moderno". Gray mostra que há outros modos, mas que todos eles trazem em seu bojo o desejo de um mundo melhor e de um homem melhor que só pode ser obtido pela eliminação da diferença.
O livro é claro, bem escrito e bem fundamentado. Vale a pena ler.
Sunday, December 14, 2008
Lesbos e lésbicas
Os moradores de Lesbos, ilha grega do Egeu, consideram um insulto o termo "lésbica".
Nada contra o homossexualismo, suponho. O problema é a associação do homossexualismo com a ilha, pátria da poetisa Safo, que sabidamente preferia mulheres a homens. Aliás, a maior parte das mulheres de Mitilene, capital de Lesbos. Mas isso não devia ser problema, já que os homens preferiam os homens.
O resto é família.
De qualquer forma, entraram na justiça contra o uso do termo. Causa perdida. Pura perda de tempo. Mesmo que ganhassem, seria preciso muito mais que um veredito da justiça grega para mudar um termo tão corrente e, digamos, internacional.
Bem, perderam e agora têm de pagar os custos do processo.
Agora, cá entre nós: quem é que pensa na ilha de Lesbos, ao falar em lesbianismo? Pelo menos fora da Grécia isso é absolutamente irrelevante.
Nada contra o homossexualismo, suponho. O problema é a associação do homossexualismo com a ilha, pátria da poetisa Safo, que sabidamente preferia mulheres a homens. Aliás, a maior parte das mulheres de Mitilene, capital de Lesbos. Mas isso não devia ser problema, já que os homens preferiam os homens.
O resto é família.
De qualquer forma, entraram na justiça contra o uso do termo. Causa perdida. Pura perda de tempo. Mesmo que ganhassem, seria preciso muito mais que um veredito da justiça grega para mudar um termo tão corrente e, digamos, internacional.
Bem, perderam e agora têm de pagar os custos do processo.
Agora, cá entre nós: quem é que pensa na ilha de Lesbos, ao falar em lesbianismo? Pelo menos fora da Grécia isso é absolutamente irrelevante.
Saturday, December 13, 2008
Boa sorte no além
Já dizia Platão (Fédon 64a):
"O homem que realmente consagrou sua vida à filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, possui esperança de ir encontrar para si, no além, excelentes bens quando estiver morto".
Só se for quando estiver morto. Mas será uma morte gloriosa e sorridente, passagem para um além-vida melhor ainda.
E o melhor de tudo é que não terá de reencarnar. Viverá eternamente na glória, ao lado de outros anjos-filósofos.
Que beleza!
Alguém ainda gostaria de matar vampiros?
Ow, eles descobriram a chave para a imortalidade!
"O homem que realmente consagrou sua vida à filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, possui esperança de ir encontrar para si, no além, excelentes bens quando estiver morto".
Só se for quando estiver morto. Mas será uma morte gloriosa e sorridente, passagem para um além-vida melhor ainda.
E o melhor de tudo é que não terá de reencarnar. Viverá eternamente na glória, ao lado de outros anjos-filósofos.
Que beleza!
Alguém ainda gostaria de matar vampiros?
Ow, eles descobriram a chave para a imortalidade!
Thursday, December 11, 2008
O juramento de Hipócrates
Em tempos de maus médicos e estudantes de medicina piores ainda, não faz mal lembrar o juramento de Hipócrates:
"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.
Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."
"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.
Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."
Thursday, December 04, 2008
Quem inventou a dieta?
Segundo Jean-Jacques Rousseau (Segundo Discurso, col. Os Pensadores, p. 12), foi Hipócrates (460-377 a.C.), aquele grego descendente de Asclépio, o deus da medicina, e que criou o juramento proferido por todo formando de medicina, mesmo os baderneiros.
Hipócrates acreditava que o organismo humano é composto de quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta. A medicina, então, consistiria em manter o equilíbrio destes humores. A dieta teria um papel importante neste equilíbrio.
Como parece que só repetimos o que há muito já se julgava saber, fico me perguntando se não estamos eternizando um erro. Mas vá saber.
Hipócrates acreditava que o organismo humano é composto de quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta. A medicina, então, consistiria em manter o equilíbrio destes humores. A dieta teria um papel importante neste equilíbrio.
Como parece que só repetimos o que há muito já se julgava saber, fico me perguntando se não estamos eternizando um erro. Mas vá saber.
Sunday, November 30, 2008
Cuidado com as festas
Uma tal Mary Sanford, de 39 anos, bebeu vinho e dançou em volta de uma fogueira. Nada de mais, se isso não tivesse acontecido em 1662 em Connecticut. O resultado foi a condenação por bruxaria e o consequente enforcamento.
O problema, claro, não era o vinho, mas a dança. Afinal, Cristo também bebia vinho. É verdade que ele também dançou, mas uma vez só. De qualquer forma, as mulheres ciosas de seus maridos devem ter-se sentido ameaçadas pela dança. Ou os homens, ciosos de sua respeitabilidade. Ou vai ver que a dança era só o pretexto, e que outras atitudes dela já estavam incomodando os homens respeitáveis e suas esposas cuidadosas. Vá saber.
Bem. O fato é que a Assembléia Legislativa do estado de Connecticut deve absolver Sanford do "crime". Devia era indenizar os descendentes.
À parte esta história absurdamente trágica, fico me perguntando como as pessoas podem achar que a religião é capaz de tornar os homens melhores, quando o que menos importa a um fanático religioso é a vida. A sua, e a dos outros.
O problema, claro, não era o vinho, mas a dança. Afinal, Cristo também bebia vinho. É verdade que ele também dançou, mas uma vez só. De qualquer forma, as mulheres ciosas de seus maridos devem ter-se sentido ameaçadas pela dança. Ou os homens, ciosos de sua respeitabilidade. Ou vai ver que a dança era só o pretexto, e que outras atitudes dela já estavam incomodando os homens respeitáveis e suas esposas cuidadosas. Vá saber.
Bem. O fato é que a Assembléia Legislativa do estado de Connecticut deve absolver Sanford do "crime". Devia era indenizar os descendentes.
À parte esta história absurdamente trágica, fico me perguntando como as pessoas podem achar que a religião é capaz de tornar os homens melhores, quando o que menos importa a um fanático religioso é a vida. A sua, e a dos outros.
Tuesday, November 25, 2008
Sabá é logo ali
Então.
A rainha de Sabá não só existiu, como tinha um palácio também.
Lembra-se da rainha de Sabá, aquela que seduziu Salomão, ou foi seduzida por ele, e de quebra levou para sua terra um filho e a arca da aliança e ainda virou filme de Hollywood, na pele de Gina Lollobrigida?
Pois é. O lendário palácio da lendária rainha da lendária Sabá foi encontrado, claro, na Etiópia (quem ainda não sabia que ela era sabatiana-etíope?). Bem, não é que ele foi encontrado exatamente, entende? Foram encontradas, isto sim, ruínas de um antigo palácio por aqueles que estavam procurando o palácio da lendária Sabá e queriam muito encontrar o palácio da lendária Sabá. Logo, encontraram o lendário palácio da lendária rainha de Sabá. Na Etiópia.
Por enquanto é isso. É verdade que há uma relação estreita entre mitos e realidade histórica, e a rainha deve ter mesmo existido, já que alguns relatos bíblicos foram comprovados pela ciência (vide E a Bíblia tinha razão). Mas, a não ser que indícios fortes comecem a relacionar o palácio encontrado com a mãe de um dos mil filhos de Salomão, o que acho bastante improvável, o que existe por enquanto é apenas o efeito Schleimann.
A rainha de Sabá não só existiu, como tinha um palácio também.
Lembra-se da rainha de Sabá, aquela que seduziu Salomão, ou foi seduzida por ele, e de quebra levou para sua terra um filho e a arca da aliança e ainda virou filme de Hollywood, na pele de Gina Lollobrigida?
Pois é. O lendário palácio da lendária rainha da lendária Sabá foi encontrado, claro, na Etiópia (quem ainda não sabia que ela era sabatiana-etíope?). Bem, não é que ele foi encontrado exatamente, entende? Foram encontradas, isto sim, ruínas de um antigo palácio por aqueles que estavam procurando o palácio da lendária Sabá e queriam muito encontrar o palácio da lendária Sabá. Logo, encontraram o lendário palácio da lendária rainha de Sabá. Na Etiópia.
Por enquanto é isso. É verdade que há uma relação estreita entre mitos e realidade histórica, e a rainha deve ter mesmo existido, já que alguns relatos bíblicos foram comprovados pela ciência (vide E a Bíblia tinha razão). Mas, a não ser que indícios fortes comecem a relacionar o palácio encontrado com a mãe de um dos mil filhos de Salomão, o que acho bastante improvável, o que existe por enquanto é apenas o efeito Schleimann.
Saturday, November 15, 2008
Livros raros
Quer um site onde pode encontrar - e baixar - livros raros, sejam acadêmicos ou literários? Clique no título desde post. O site é o gigapedia, com livros sobretudo em inglês. Terá de se cadastrar, mas é coisa pouca. Só email, login e senha.
Faça a pesquisa marcando o "item search". Você ficará surpreso com o que pode encontrar.
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Saturday, November 08, 2008
Vá trabalhar, vagabundo
Para festejar meu retorno:
TV ligada não é só prá quem vê; é também prá quem ouve.
Ouvi outro dia, em uma novelinha teen, a diretora de uma escola dizer a um grupo de estudantes que conversava no pátio da escola, no horário da aula:
"Vá estudar, cambada. Vocês vieram aqui prá estudar, não para filosofar!".
Puxa. E eu que pensava que filosofia exige estudo, disciplina, esforço pessoal. E trabalho, muito trabalho.
Pensava também que a filosofia exigia investimento de tempo, de muito tempo.
Parece que me enganei. Filosofia é prá quem não tem o que fazer.
Ou para quem quer fugir das obrigações.
TV ligada não é só prá quem vê; é também prá quem ouve.
Ouvi outro dia, em uma novelinha teen, a diretora de uma escola dizer a um grupo de estudantes que conversava no pátio da escola, no horário da aula:
"Vá estudar, cambada. Vocês vieram aqui prá estudar, não para filosofar!".
Puxa. E eu que pensava que filosofia exige estudo, disciplina, esforço pessoal. E trabalho, muito trabalho.
Pensava também que a filosofia exigia investimento de tempo, de muito tempo.
Parece que me enganei. Filosofia é prá quem não tem o que fazer.
Ou para quem quer fugir das obrigações.
Saturday, November 01, 2008
A quem interessar possa
Se houver ainda quem leia este brogue, informo que estou de volta.
As razões para o afastamento do mundo virtual durante alguns meses são muitas, mas vou resumir todas em uma só: apelos da vida real impossíveis de ignorar. Mas como a vida não se faz apenas de realidade, eis-me de volta. Espero continuar ainda por um bom tempo me divertindo por aqui.
E vamo que vamo!
Viva o virtual!
O resto... é o que resta.
As razões para o afastamento do mundo virtual durante alguns meses são muitas, mas vou resumir todas em uma só: apelos da vida real impossíveis de ignorar. Mas como a vida não se faz apenas de realidade, eis-me de volta. Espero continuar ainda por um bom tempo me divertindo por aqui.
E vamo que vamo!
Viva o virtual!
O resto... é o que resta.
Thursday, June 26, 2008
O canto do bode
Descobri que "tragédia" em grego significa "canto do bode" (Jacqueline de Romilly, A tragédia grega, p. 17).
A autora apresenta a hipótese, recusada por ela, de que "bode" se refira aos sátiros, associados ao culto a Dioniso que, por sua vez, é um deus ligado às artes.
Lembrei da piada do bode.
Ter um bode morando na sala de casa é a verdadeira tragédia.
O resto é bobagem.
A autora apresenta a hipótese, recusada por ela, de que "bode" se refira aos sátiros, associados ao culto a Dioniso que, por sua vez, é um deus ligado às artes.
Lembrei da piada do bode.
Ter um bode morando na sala de casa é a verdadeira tragédia.
O resto é bobagem.
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