Friday, June 20, 2008

Meteorosofista

Você sabe o que é um meteorosofista?

Confesso que não fazia idéia, até encontrar em Kerfeld (O movimento sofista), a explicação: trata-se de um sofista superior.


Meu problema agora é saber que sofistas são superiores, superiores em quê, e quem é que decide que sofistas são superiores.

E eu que pensava que eram todos inferiores.

Friday, June 13, 2008

Você pode ver fantasmas?

Aproveitando que deixei todas as minhas obrigações de lado para me ocupar com fantasmas, encontrei sem muito esforço um website em que fiz o teste para saber se tenho competência espiritual para ver fantasmas.

Clique no título deste post e faça o teste você também.

Isto, se não formos todos espiritualmente incompetentes.

Mas vá lá. As perguntas são no mínimo divertidas:

1. Você se recusaria a passar uma noite numa casa assombrada?
-- Ow, o que um possível medo de casa assombrada tem a ver com o fato de ver um fantasma? Ah... é porque eles estão lá! Dãããã!
Se for preciso ter medo de casa assombrada para ver fantasma, estou perdida. Não tenho medo de casas.

2. Você medita?
-- Não, fio. Mas o que isso tem a ver com fantasma?

3. Você usa preto 90% (ou mais) do tempo?
-- Ué, não. Por que? O preto atrai fantasmas?

Bem, chega.

O resultado?

Minhas habilidades psíquicas não estão inteiramente desenvolvidas.

Que novidade.

Cá entre nós: alguém precisa realmente fazer esse teste?

Só se for mesmo para fugir das obrigações.

Wednesday, June 11, 2008

Como falar com fantasmas

Ops! Outro website interessantíssimo!

Ouvir fantasmas requer método.

Ver fantasmas requer método.

Consequentemente, falar com fantasmas requer método.

Com uma lógica como essa, que posso fazer?

Pensar no que dizer ao fantasma quando o ouvir ou vir, claro!

Então.

Que posso dizer a um fantasma?

Perguntar se levou um mapa do inferno?

Se passou por uma terapia espiritual?

Se ficou internado no hospital dos espíritos?

Se já aprendeu a não ser escaldado?

Se já recebeu pés?

Se já entrou no cepo?

Se já aprendeu a beber água?

Acho que seria melhor simplesmente dizer "xô!". Se ele ouvir, resolve logo o assunto.

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No mundo da técnica, só faltava mesmo a técnica para contactar o imaginário.

Como se fosse preciso.

Tuesday, June 10, 2008

Como ver e ouvir fantasmas

Encontrei por acaso o site linkado no título que ajuda a ver fantasmas. Pensei: oba, finalmente!

Mas o site envia o esperançoso para outros websites, e não tive paciência para fazer a jornada. Queria ver fantasmas sem fazer esforço, sem ter de ler páginas e páginas de instruções. Queria ver e pronto.

Mas vai ficar para outra vez.

Vai ver que ainda não estou pronta.

Quem sabe quando aposentar eu tenha tempo para estudar a técnica.

Sunday, June 08, 2008

Farejador de plágios

Para ladrão de galinha, cerca. Para ladrão de carros, alarme. Para ladrão de casas (ops! assaltante), tranca.

E agora, senhoras e senhores, para ladrão de idéias, o magnífico, supreendente farejador de plágio!

Clique no link, baixe o programa e seja um feliz farejador de plágio.

Ou um infeliz plagiador farejado, se não farejar antes de plagiar.

Brincadeiras à parte, esta é uma nova ferramenta da internet. Ao menos, nova para mim.

Sem dúvida, de grande utilidade para professores.

E uma péssima idéia para quem não tem idéia.

Friday, June 06, 2008

Ode à preguiça

Sabemos que boa parte das fábulas infantis são gregas. Muitas são inspiradas em Esopo, especialmente as que têm animais falantes. Outra parte é inspirada nas histórias da mitologia (Eros e Psyché, p. ex., virou A bela e a fera).

Mas, olha que gracinha, Platão quase conta, no Fedro (259c), a história da cigarra e da formiga:

"Diz-se que outrora, antes do nascimento das Musas, as cigarras eram homens. Mas, quando as Musas surgiram e apareceu o canto, alguns dos homens dessa época sentiram-se de tal maneira arrebatados pelo prazer da música que, à força de cantar, descuidaram o alimento e a bebida e morreram sem dar por isso. Deles nasce, então, a raça das cigarras... Por muitas razões, portanto, devemos conversar, e não dormir, na hora do meio-dia".

A hora do meio-dia aqui, é claro, refere-se à idade adulta, entre a manhã (infância) e a tarde (velhice).

Então.

Tuesday, June 03, 2008

Escrita assassina

No Fedro de Platão, Sócrates é contrário à escrita, porque entende que ela mata o pensamento. A escrita é estática, enquanto o pensamento é dinâmico. Logo, uma vez escrito, o pensamento estratifica e morre.

Trocando em miúdos, a escrita é rigor mortis do pensamento.

Ainda bem que ninguém deu ouvidos a ele.

O legislador Sólon, que tornou compulsório o ensino da leitura e da escrita, devia estar se revirando na cova.

Veja a passagem, resumida:

"Uma vez escrito, todo o discurso rola por todos os lugares, apresentando-se sempre do mesmo modo, tanto a quem o deseja ouvir, quanto a quem não mostra interesse algum, e não sabe a quem deve falar e a quem não deve (Fedro 275d-e)."

Na sequência, Sócrates argumenta que a escrita faz com que a leitura aliene o pensamento: ninguém é capaz de pensar por conta própria, já que opiniões prontas estão à disposição de qualquer um. Isto acontece com frequência, mas o problema não está na escrita, e sim em quem se serve dela para alimentar sua preguiça intelectual e escondê-la até de si mesmo.

Menos, Pratão. Menos.

Sunday, June 01, 2008

Professor reflexivo?

Ouvi de uma colega que a nova moda entre os professores é a figura do "professor reflexivo".

Segundo a explicação, trata-se de um novo modo de conceber o educador: ele tem de pensar criticamente sua prática, sua escola e a educação como um todo. Tem de levantar dúvidas sobre seu trabalho de modo crítico e autônomo, o que é feito em reuniões em que o professor apresenta aos colegas o plano de aula, a abordagem escolhida, a metodologia empregada e os problemas que surgirem, de modo a ouvir críticas e sugestões dos colegas, e de ser capaz de elaborar, ele mesmo, críticas a seu trabalho e à sua atividade.

Não creio que essa razão, que me parece ser meramente instrumental, vá além da técnica e de um conceito de crítica que não ultrapassa o "como fazer" e se mede por resultados não qualitativos, mas quantitativos.

Ser reflexivo, no melhor sentido, significa bem mais que um exercício de crítica e auto-crítica mecânico.

Saturday, May 31, 2008

De como se dar bem no mundo inferior

Comprei esta semana uma tradução do Livro dos Mortos, dos antigos egípcios (O livro egípcio dos mortos, E.A. Wallis Budge, Editora Pensamento). Não dá nem prá pensar em ler agora. Estou ocupadíssima com outras leituras. Em todo caso, sempre tive muito interesse em ler esse material, para saber exatamente do que se trata, e não resisti de folhear o livro. Encontrei títulos no mínimo curiosos, sob um olhar alheio. Eis alguns desses títulos:

- De como fazer retroceder o comedor do burro
- De como acabar com as matanças levadas a cabo no mundo inferior
- De como não perecer e tornar-se vivo no mundo inferior
- De como não sofrer corrupção no mundo inferior
- De como não entrar para o cepo
- De como aspirar o ar entre as águas no mundo inferior
- De como beber água no mundo inferior
- De como não ser escaldado com água
- De como sair à luz no mundo inferior
- De como receber os pés e sair sobre a terra
- De como viajar para anu (heliópolis) e ali receber um trono
- De como operar a transformação num falcão
- De como conduzir um barco no céu
- De como chegar ao porto
- De como fazer recuar o crocodilo que vem buscar as palavras mágicas da alma imortal no mundo inferior
- De como sair da rede
- De como não morrer pela segunda vez

Eu até tentei ler alguma coisa das passagens relativas a esses títulos, mas não entendi lhufas. Quem sabe, quando começar do começo, venha a entender.

Por ora, tudo isso me parece o que o sofista Lícofron disse da nobreza: "Excelência imaginária".

Wednesday, May 28, 2008

Hê pornê

Quem leu Platão sabe bem que os sofistas eram prostitutas do saber, já que vendiam conhecimento.

Mas, como bem observou o historiador Grote (e Bertrand Russell, em sua História da Filosofia), o que ninguém parece perceber é que um professor moderno, ao cobrar para ensinar, e sobretudo repetir que quem recebe para ensinar não passa de pornê do saber, está afirmando que ele próprio, o douto imitador de Platão, é uma prostituta (ou prostituto, tanto faz).

Se cobrar para ensinar é prostituição, então quem ensina sob pagamento é o quê, fio?

Lembrei daquele político americano que disse, indignado com um adversário: "Esse idiota devia ser escoiceado até a morte por um asno, e eu sou o indicado para fazer isso".

Bastante reflexivo, sem dúvida.

No sentido mais puro.

De espelho, quero dizer.

Saturday, May 24, 2008

Riso falso

O diabólico no riso falso está justamente em que ele é forçosamente uma paródia até mesmo daquilo que há de melhor: a reconciliação.

Theodor Adorno

Tuesday, May 20, 2008

Kantianamente falando

Kantianamente falando, tenho observado ultimamente a frequência irritante com que nomes próprios de pensadores têm sido transformados em advérbios por intelectuais.

Será que platonicamente falando, ou cartesianamente falando, ou hegelianamente falando, ou espinosianamente falando, ou husserlianamente falando, ou sartreanamente falando, ou aristotelicamente falando, ou o-raio-que-o-partamente falando, esse modo de falar adverbianamente de modo quer dizer que intelectualmente falando está-se falando de modo crítico, douto e reflexivo?

Ou melhor, será que kantianamente falando está-se falando doutamente, criticamente e reflexivamente... falando?

Será que academicamente falando ninguém pára pra pensar que adverbianamente falando está-se apenas repetindo chavões tolos e sem sentido, que negam justamente aquilo que popperianamente falando querem, adverbianamente falando, fazer parecer?

Mas sei lá. Vai ver que estou estupidamente falando e devo sim, inteligentemente falando, aderir à moda do advérbio de modo, ainda que isto signifique, rigorosamente falando, logicamente falando, rigorosamente nada.

Marcuseanamente falando, eis aí o fechamento do universo da locução.

Minimamente falando.

Sunday, May 18, 2008

Filosofia da brevidade

Comentei aqui, há algum tempo atrás, que Aristóteles afirmava terem sido os Lacedemônios (os espartanos) os inventores da comédia. A afirmação de Aristóteles me causou estranheza porque conhecemos os espartanos, descendentes dos dórios, como um povo que abolia o cultivo do espírito. Hoje, encontrei em Platão (Protágoras) a afirmação de que os Lacedemônios são grandes filósofos, e que a alma desta filosofia é a brevidade.

Ainda bem que é a filosofia da brevidade. Caso contrário, o termo "lacônico" terá de sair do dicionário.

Lacônico significa quem fala muito pouco ou quase nada (designava quem é oriundo da Lacônia, planície onde estava Esparta e, por essa razão, significa quem é monossilábico, já que os espartanos eram treinados para expressar-se com o mínimo possível de palavras).

Só não sei como é possível filosofar em poucas palavras.

Pensando bem, é possível. Os discípulos de Sócrates dialogavam com ele em pouquíssimas palavras:

Sim.

Exatamente.

Bem o dizes, ó Sócrates.


Que queres dizer?

Absolutamente correto.

É verdade.

Tens razão, Sócrates.

Perfeitamente justo.


Só não dá para divergir em poucas palavras. Neste caso não se trata de filosofar, e sim de dizer "não porque não". Ou seja, quando divirjo em poucas palavras, afirmo minha subjetividade, e é só (porque não posso argumentar somente com um "não"). Quando confirmo com poucas palavras, filosofo.

Faz sentido. Para os lacedemônios.

Friday, May 16, 2008

Problema com o problema

Li em Guthrie (Os Sofistas, Ed. Paulus, p. 233, em nota de rodapé para a palavrinha meritocracia):

"Temo que seja tarde demais para eliminar este termo bastardo e feio [meritocracia], substituindo-o por seu meio-irmão 'axiocracia'."

Filura de intelectual. Aliás, de intelectualíssimo, caso contrário isso não seria um problema.

Eu não sabia que há termos bastardos. Feios, vá lá. "Afoito" é uma palavra no mínimo engraçada. O mesmo para "Faminto". Há cacofonias também, como em "uma mala" e "ser do ente", assim como há expressões que simplesmente soam mal, como "bom dia". Mas bastardos? O que isso quer dizer?

Mas vá lá. Abaixo a meritocracia! Abaixo os termos bastardos! Abaixo o governo do mérito! Governo do 'axio' já! Ditadura do 'axio' já!

Fica muito mais bonito dizer 'axiocracia", ainda que seja 'cracia', 'kratos', governo, do mesmo jeito. Mas que sejam abolidos os termos feios!

Isso tudo é muuuuito importante!

E tenho dito.

Sem mérito algum.

Wednesday, May 14, 2008

Morte por excesso de anéis

Quem é vivo morre. Morre-se cedo, morre-se por acidente, doença, "causas naturais", mas nunca ouvi falar que alguém pudesse morrer por excesso de anéis. E não é que um papa morreu assim?

Pesquisando sobre Rodrigo Bórgia, descobri que o papa Paulo II, Eugênio Barbo, cujo papado durou de 1464 a 1471, morreu em decorrência de uma pneumonia causada pela quantidade exagerada de anéis que usava em clima frio.

Devíamos elevá-lo à categoria de "mártir dos anéis", ao menos pela originalidade. É difícil superar essa marca.

Talvez não. Talvez deva ser o mártir dos anéis pelo excesso de zelo com a tradição. Também é difícil superar essa marca.

Sunday, May 11, 2008

Richter , ou a arte da provocação

Ouvi outro dia, a respeito dos filmes de Hans Richter, precursor do cinema de vanguarda, o argumento de que a verdadeira arte é a que fica. A prova de que o cinema de Richter tem valor reside no fato de que até hoje nos sentimos afetados por ele de algum modo, já que até hoje falamos sobre ele e elaboramos teses e dissertações acerca de seus filmes (ainda que em círculos restritos).

Bem, eu faço uma outra leitura dessa "permanência" de Richter no cenário intelectual: nós ainda falamos sobre ele porque até hoje não compreendemos o que quis dizer (se é que quis dizer alguma coisa). Continua obscuro. Logo, continua instigante.

A afirmação da relevância com base na duração é legítima, sem dúvida. Cristo está aí até hoje, assim como Buda, Maomé e Elvis Presley. Mas não creio que o argumento da relevância histórica possa ir além disso e permitir inferir dela a qualidade do que é avaliado. Isto não significa, claro, afirmar que o cinema de Richter não tem valor. A ressalva é quanto à natureza da defesa deste valor.

Thursday, May 08, 2008

Parmênides critica Sócrates

Platão conta, no diálogo Parmênides, que o próprio e seu discípulo Zenão encontraram-se com Sócrates. O filósofo ateniense, para se opor à tese de Parmênides defendida por Zenão, apresenta a sua Teoria das Formas.

A teoria é inaceitável para Parmênides porque supõe a unidade e a multiplicidade (ou a contradição, ainda que apenas para o múltiplo).

Eis o primeiro argumento do filósofo de Eléia:

Se as coisas particulares participam da forma da beleza, ou da semelhança, ou da extensão, elas são ou bonitas, ou semelhantes, ou extensas. Cada coisa particular deve receber ou o todo da forma de que participar, ou uma parte. De um modo ou de outro, a forma se torna múltipla. No primeiro caso, por multiplicação. No segundo, por divisão. Em qualquer dos casos, não será una.

A resposta de Sócrates, embora tímida, é ótima e se resume na afirmação de que as formas são paradigmas, não coisas sensíveis, que podem ser divididas ou multiplicadas.

Ow, Parmênides, quer medir idéia com esquadro?

O mais interessante no diálogo entre Sócrates e Parmênides é a imagem do jovenzinho promissor, mas ainda ingênuo e incipiente, apresentando problemas para gente grande pensar. Lembrei-me de Cristo conversando com os doutores do templo.

Monday, May 05, 2008

Apareceu o oportunismo

Uma tal Teresa de Lisieux é uma santa esperta. Começou a aparecer poucos dias antes do ataque terrorista ao World Trade Center. Alguns moradores de Nova Iorque garantem ter visto a santa na noite de 4 de setembro e nas cinco noites seguintes, até o dia do ataque, avisando que coisas terríveis iriam acontecer muito em breve.

Cá entre nós: de que vale a santa aparecer para dizer que coisas horríveis vão acontecer? Quem é que pode se precaver com um aviso tão vago assim?

Bem, eu vou participar da festa e prever que coisas terríveis vão acontecer brevemente.

Se for um terremoto em qualquer parte do mundo, está valendo.

Se for um ciclone, igualmente.

Um desabamento? Acertei.

Um tsunami? idem.

A morte de uma figura da política internacional? Acertei.

Um ator? Uma atriz? Um cantor? Acertei também (pode ser terrível, sim. Até hoje não superamos Elvis).

Como disse, a santa é esperta. Sua previsão é infalível.

Sobretudo, porque foi feita dois anos depois do 11 de setembro.

Saturday, May 03, 2008

Relevo selvagem

"Quem quereria denominar sublimes também massas informes de cordilheiras amontoadas umas sobre outras em desordem selvagem com suas pirâmides de gelo, ou o sombrio mar furioso etc.?"

Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 26.

Thursday, May 01, 2008

Diversão não

"As pessoas querem divertir-se. Uma experiência plenamente concentrada e consciente de arte só é possível para aqueles cujas vidas não colocam um tal stress, não impõem tanta solicitação, a ponto de, em seu tempo livre, eles só quererem alívio simultaneneamente do tédio e do esforço." (Theodor Adorno, Sobre a Música Popular)

A julgar pelo que Adorno diz no parágrafo acima, querer diversão, querer alívio do tédio e do esforço é condição de impossibilidade de apreciação da arte.

A medida de avaliação da arte (se boa ou não) deve ser externa a ela?