Sunday, October 23, 2005

Era uma vez

Era uma vez um homem bom, simples, honesto, fiel, sincero e desejoso de se dar bem.

Era uma vez um deus bom, simples, honesto, fiel, sincero e desejoso de se dar bem.

Um dia eles se encontraram. Foi amor à primeira vista. Uniram-se para nunca mais se separar.

Fizeram um pacto de amor eterno e ajuda mútua.

Disse o homem: "Amigo, livre-me do diabo, da dor, de toda sorte de infelicidade, da má fortuna e principalmente de mim mesmo. Se fizer isso, prometo continuar sendo seu amigo".

Disse o deus: "Amigo, livre-se de si mesmo, e serei sempre seu melhor amigo".

Eles se abraçaram e selaram o acordo. Combinaram que o pagamento seria feito assim que a compra fosse efetivada.

Mas eis que algo aconteceu, o homem foi preso e condenado. O negócio não vingou.

Enganado, aviltado, chorando a inocência perdida, o homem foi à justiça e processou o deus por quebra de contrato, traição, abuso e tráfico de influência. O acusado ainda se encontra foragido.

E assim viveram, condenados à infelicidade eterna. O homem e o deus.

Friday, October 21, 2005

Após a orgia

Se fosse caracterizar o atual estado de coisas, eu diria que é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da criança, das pulsões inconscientes, liberação da arte. Assunção de todos os modelos de representação e de todos os modelos de anti-representação. Total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento. Percorremos todos os caminhos da produção e da superprodução virtual de objetivos, de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres. Hoje, tudo está liberado, o jogo está feito e encontramo-nos coletivamente diante da pergunta crucial: o que fazer depois da orgia?

Jean Baudrillard, A Transparência do Mal, p. 9.

Thursday, October 20, 2005

Você é obsessivo?

Uma em cada cinquenta pessoas sofre com alguma espécie de comportamento obsessivo. Teste para saber se este é o seu caso.

Não, não tenho nenhuma obsessão. Nem mesmo com testes.

Imagine.

Wednesday, October 19, 2005

Mas que ela se move, move

Em Nápoles uma estátua da Virgem Maria está atraindo peregrinos: ela se move. Milagrosamente.

A idéia é a seguinte: Maria "se torna carne" e move as perninhas "como se quisesse se aproximar dos fiéis".

Só não sei por que ela ainda não saiu andando livremente, ao invés de só ensaiar o passo. Vai ver que a corda é curta.

Tuesday, October 18, 2005

Adivinhe quem veio para o café da manhã

Era uma vez um domingo de manhã, uma família feliz e uma panqueca. Tudo ia muito bem, até que a panqueca foi servida... e ficou melhor ainda.

Adivinhe quem veio para o café da manhã.

Sim, ele mesmo. O Bento. O XVI. O penúltimo papa antes do juízo final. Bento XVI em pessoa, visitando os lares dos fiéis... em forma de panqueca.

E que ninguém duvide do milagre.

Monday, October 17, 2005

Reticências...

Sempre achei... que o excesso de pontuação... dá um tom histérico... ao texto... mas se há algo... realmente irritante... e sem sentido... é o excesso de reticências...

A primeira impressão que tenho... diante de um texto... cheio de reticências... é que o autor... sofre de asma...

Depois penso... que se trata de alguém... que nunca diz nada... diretamente... que gosta de evasivas... de meias-palavras... de segredos...

Insinua um pensamento... que só pode ser... sugerido... nunca dito... ou abre... possibilidades... de interpretação... que supostamente... enriqueceriam... o sentido original...

Mas a verdade... a verdade nua... é que um texto... cheio... de reticências... é apenas... tolo.

Ponto.

Sunday, October 16, 2005

Liberdade ilusória

Todo mundo se considera, a priori, perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e acha que pode começar outra maneira de viver, o que apenas significa que pode se tornar outra pessoa. Mas a posteriori, através da experiência, verifica, para surpresa sua, que não é livre, mas está sujeito à necessidade; que, apesar de todas as suas resoluções e reflexões, não altera a sua conduta e que, do começo ao fim da vida, deverá pôr em prática as características que ele próprio condena e, por assim dizer, representar o papel que assumiu, até o fim.

Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e Representação.

Saturday, October 15, 2005

Não-Abduzidos Anônimos

Você já foi abduzido por um ET? Não? Então deve estar experimentando o gosto amargo da rejeição. Você é diferente. Por que os aliens não haveriam de querê-lo? O que há de errado com você?

Tudo bem. Agora existe o N-AA (Não-Abduzidos Anônimos) para cuidar de pessoas como você. É uma espécie de AA, mas voltada para a cura dos efeitos psicológicos danosos de ver um disco voador ignorá-lo completamente. Ninguém merece, né?

Esquenta não. Nos Não-Abduzidos Anônimos você pode mostrar toda sua dor e receber o carinho e o apoio de seus iguais. Conte quantas noites passou no telhado, esperando por um pouco de atenção. Conte há quantos anos espera por um olhar, um gesto, um sinal de que você pode ser o próximo.

Acha pouco? Pois aí vem o melhor: você poderá participar da dinâmica de grupo com dramatização para que faça a catarse dizendo a um falso ET tudo o que sempre quis.

Como não sair de lá leve, leve e se achando o máximo?

Se você nunca foi abduzido, azar dos ET´s. Perderam você.

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Sossegue, é tudo uma brincadeira. Hilária, por sinal. Veja o filme no endereço indicado no título.

Friday, October 14, 2005

Relativista, muito pelo contrário

..."A palavra 'relativismo', como muitos termos filosóficos, é ambígua e, conquanto confesse ser um fervoroso relativista em algum sentido, certamente não o sou em outros. Além do mais, mudei de opinião".

Paul Feyerabend, Diálogos sobre o conhecimento, p. 93.

Thursday, October 13, 2005

De novo?

Ai. Acho que estou ficando cansada disso. Jesus, Maria e o diabo a quatro, com todo o respeito, apareceram de novo. E de novo. E outra vez.

Não posso negar que eles são ótimos em se manter na mídia.

Desta vez, apareceram nas pedras do jardim de um tal Robert Hartman. A mãe do fulano chegou a ser surpreendida por uma luz na noite anterior à aparição. A mulher, imagine, reza 15 vezes por dia. Por isso é que anda vendo luz.

Se você quiser ver as imagens, ou se duvida de mim, vá lá. Veja por si mesmo.

Wednesday, October 12, 2005

Burrinhas, mas abençoadas

Que país maravilhoso é o nosso.

Formigas desenharam imagens da Virgem e de seu filho em uma palmeira. O trabalho levou cerca de duas horas e, dizem, elas desenham até bem, mas são muito fraquinhas no português. Escreveram "pas" ao invés de "paz".

Um país em que as formigas pedem paz vai muito mal, mas quando elas pedem "pas", a coisa é desesperadora. Alarmante.

Mas nem tudo está perdido. A falsificação era tão grosseira que não convenceu. As formigas ainda não estão desenhando a Virgem e o Filho do Homem, mas sobretudo ainda não estão pedindo "paz" nem "pás". Elas estão trabalhando. E rezando.

Ah, bom.

Tuesday, October 11, 2005

Urucubaka

Bem disse o maior pensador de todos os tempos, o genial Edob ed Abrab: quando seu cachorro ficar borocochô e chutar a trave, é tudo urucubaka. Com k.

Amém.

Monday, October 10, 2005

Feitiço danado de bom

Feiticeira boa é assim: faz um feitiço que faz qualquer feitiço render lucro.

Uma tal Spooky Margarita Roland, que se diz feiticeira, reclamou e conseguiu a façanha de poder deduzir vassouras e aulas de feitiçaria do imposto a pagar. A dedução será de 2.210 euros, valor relativo aos supostos custos do curso de feitiçaria (que inclui bolas de cristal, poções mágicas e a indefectível vassoura de piaçaba - para varrer o lixo, claro).

Mas o importante nessa história bizarra é que a corte holandesa, país de Roland, reconhece a bruxaria, admite que há custos inerentes ao ofício e, pior ainda, que estes custos devem ser pagos pelo estado.

O que é isso? A virada Idade Média/Idade Moderna ao contrário?

Sunday, October 09, 2005

Hebesta

A entrevista da Veja desta semana é com Hebe Camargo. Não sei explicar porque li, mas valeu a pena. Encontrei estas pérolas:

-- Apesar de liberal, sou muito antiga na maneira de pensar.

-- Minha história é parecida com a da maioria dos brasileiros. Papai tocava música de Bach e Chopin ao violino para me acordar. Mamãe tocava piano de ouvido.


-- (Respondendo se assinaria contrato com a Record): A Record é da Igreja Universal. A minha Nossa Senhora de Fátima (sic) não poderia entrar lá, assim como a minha Nossa Senhora Aparecida (sic). E eu sou muito amiga delas. Não poderia deixá-las na porta. Eu às vezes me pergunto como as igrejas evangélicas conseguem fazer lavagem cerebral em milhares de pessoas.

Minha nossa? Lavagem cerebral?

Imagine. Tá tudo bem.

Friday, October 07, 2005

Teste sua saúde filosófica

Anda estressado? Deprimido? Desinteressado da vida?

Sinto muito, mas este teste não vai te ajudar. Só o deixará ainda mais estressado.

Em todo caso, se seu problema estiver relacionado à saúde filosófica, vá em frente.

Inofensivo.

O teste avaliará seu nível de tensão filosófica em três tempos, e você só terá de dizer "sim" ou "não" a coisas como "Acredito que todos devem ser livres" e "Não pise na grama".

Experimentei e consegui a extraordinária marca de 50% no nível de tensão filosófica. Isto é, a cada duas afirmações que faço, uma está em contradição com outra qualquer.

Puxa. Sinto-me muito melhor agora que sei disso.

Refiz o teste, para ter certeza. Desta vez consegui, com muito esforço, atenção e principalmente cuidado para não me contradizer, meros 55%.

Agora já posso dizer com certeza: há alguma coisa errada com o teste.

Faça o que digo: responda sim a "Acredito que todos devem ser livres" e não a " Não pise na grama".

E então? Coerente?

Thursday, October 06, 2005

Os filósofos e os cães (1)

O cão é o mais ignóbil dos quadrúpedes (...), uma verdadeira imundície de vícios.

Charles Fourier, um homem que conhecia si mesmo.

Wednesday, October 05, 2005

Medo de errar

Descartes: Seria impossível pensar no vazio sem incorrer em algum erro.

É vero.

Tuesday, October 04, 2005

Lizzie Borden

Tente resolver este mistério.

1892. Um comerciante abastado, mas sovina, vive em um sobrado com as duas filhas do casamento anterior e a atual mulher, com quem as filhas não se dão. Além deles, há a empregada e o cunhado que eventualmente se hospeda na casa.

Como fazia costumeiramente, o comerciante saiu para o trabalho de manhãzinha no dia 4 de agosto daquele ano. Logo após, a filha mais velha saiu para visitar uma amiga, em um bairro distante. Pouco depois o cunhado também saía.

Ficaram na casa, naquela manhã, a filha mais nova, Lizzie, a esposa e a empregada. Quando retornou à casa para almoçar, o homem foi morto a machadadas. Há cerca de uma hora sua mulher encontrava-se morta, também a machadadas, em um dos quartos.

A empregada passara a manhã fora da casa, lavando as janelas. Não ouvira coisa alguma, não vira coisa alguma.

A filha mais nova passara a manhã dentro do quarto. Também não ouvira coisa alguma e não vira coisa alguma.

Ambas não tinham vestígios de sangue nas roupas, ou qualquer outro indício de envolvimento nos assassinatos.

Os vizinhos não ouviram nada.

Lizzie Borden foi acusada das mortes, julgada e inocentada por falta de provas.

O que teria acontecido?

.....
Detalhes do novo filme sobre o tema em http://www.imdb.com/title/tt0819363/

Monday, October 03, 2005

Lana caprina

Encontrei um problema absolutamente irrelevante: saber de onde vêm os buracos dos queijos.

Esta é uma questão metafísica que ainda não estou apta a responder, mas já sei que eles são resultado empírico, digamos assim, da atuação de uma bactéria chamada propionibacteria.

No meio do caminho, descobri que "turofilia" significa apreço ao queijo e "turofobia" se refere ao medo de queijo. Será possível?

Saturday, October 01, 2005

Cadê o mar?

Aristóteles, filósofo grego, tinha um argumento muito interessante para provar que a terra é imóvel: um carro de boi, ou coisa que o valha, ao passar por uma poça de lama, espalha a água que carrega com o movimento. Ora, a terra é redonda, como a roda. Logo, se a terra se movesse (novamente, como a roda ao passar pela poça de lama), espirraria a água do mar pelo espaço. Como não há água voando sem rumo pelo céu, é certo que a terra não se move.