Wednesday, May 14, 2008

Morte por excesso de anéis

Quem é vivo morre. Morre-se cedo, morre-se por acidente, doença, "causas naturais", mas nunca ouvi falar que alguém pudesse morrer por excesso de anéis. E não é que um papa morreu assim?

Pesquisando sobre Rodrigo Bórgia, descobri que o papa Paulo II, Eugênio Barbo, cujo papado durou de 1464 a 1471, morreu em decorrência de uma pneumonia causada pela quantidade exagerada de anéis que usava em clima frio.

Devíamos elevá-lo à categoria de "mártir dos anéis", ao menos pela originalidade. É difícil superar essa marca.

Talvez não. Talvez deva ser o mártir dos anéis pelo excesso de zelo com a tradição. Também é difícil superar essa marca.

Sunday, May 11, 2008

Richter , ou a arte da provocação

Ouvi outro dia, a respeito dos filmes de Hans Richter, precursor do cinema de vanguarda, o argumento de que a verdadeira arte é a que fica. A prova de que o cinema de Richter tem valor reside no fato de que até hoje nos sentimos afetados por ele de algum modo, já que até hoje falamos sobre ele e elaboramos teses e dissertações acerca de seus filmes (ainda que em círculos restritos).

Bem, eu faço uma outra leitura dessa "permanência" de Richter no cenário intelectual: nós ainda falamos sobre ele porque até hoje não compreendemos o que quis dizer (se é que quis dizer alguma coisa). Continua obscuro. Logo, continua instigante.

A afirmação da relevância com base na duração é legítima, sem dúvida. Cristo está aí até hoje, assim como Buda, Maomé e Elvis Presley. Mas não creio que o argumento da relevância histórica possa ir além disso e permitir inferir dela a qualidade do que é avaliado. Isto não significa, claro, afirmar que o cinema de Richter não tem valor. A ressalva é quanto à natureza da defesa deste valor.

Thursday, May 08, 2008

Parmênides critica Sócrates

Platão conta, no diálogo Parmênides, que o próprio e seu discípulo Zenão encontraram-se com Sócrates. O filósofo ateniense, para se opor à tese de Parmênides defendida por Zenão, apresenta a sua Teoria das Formas.

A teoria é inaceitável para Parmênides porque supõe a unidade e a multiplicidade (ou a contradição, ainda que apenas para o múltiplo).

Eis o primeiro argumento do filósofo de Eléia:

Se as coisas particulares participam da forma da beleza, ou da semelhança, ou da extensão, elas são ou bonitas, ou semelhantes, ou extensas. Cada coisa particular deve receber ou o todo da forma de que participar, ou uma parte. De um modo ou de outro, a forma se torna múltipla. No primeiro caso, por multiplicação. No segundo, por divisão. Em qualquer dos casos, não será una.

A resposta de Sócrates, embora tímida, é ótima e se resume na afirmação de que as formas são paradigmas, não coisas sensíveis, que podem ser divididas ou multiplicadas.

Ow, Parmênides, quer medir idéia com esquadro?

O mais interessante no diálogo entre Sócrates e Parmênides é a imagem do jovenzinho promissor, mas ainda ingênuo e incipiente, apresentando problemas para gente grande pensar. Lembrei-me de Cristo conversando com os doutores do templo.

Monday, May 05, 2008

Apareceu o oportunismo

Uma tal Teresa de Lisieux é uma santa esperta. Começou a aparecer poucos dias antes do ataque terrorista ao World Trade Center. Alguns moradores de Nova Iorque garantem ter visto a santa na noite de 4 de setembro e nas cinco noites seguintes, até o dia do ataque, avisando que coisas terríveis iriam acontecer muito em breve.

Cá entre nós: de que vale a santa aparecer para dizer que coisas horríveis vão acontecer? Quem é que pode se precaver com um aviso tão vago assim?

Bem, eu vou participar da festa e prever que coisas terríveis vão acontecer brevemente.

Se for um terremoto em qualquer parte do mundo, está valendo.

Se for um ciclone, igualmente.

Um desabamento? Acertei.

Um tsunami? idem.

A morte de uma figura da política internacional? Acertei.

Um ator? Uma atriz? Um cantor? Acertei também (pode ser terrível, sim. Até hoje não superamos Elvis).

Como disse, a santa é esperta. Sua previsão é infalível.

Sobretudo, porque foi feita dois anos depois do 11 de setembro.

Saturday, May 03, 2008

Relevo selvagem

"Quem quereria denominar sublimes também massas informes de cordilheiras amontoadas umas sobre outras em desordem selvagem com suas pirâmides de gelo, ou o sombrio mar furioso etc.?"

Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 26.

Thursday, May 01, 2008

Diversão não

"As pessoas querem divertir-se. Uma experiência plenamente concentrada e consciente de arte só é possível para aqueles cujas vidas não colocam um tal stress, não impõem tanta solicitação, a ponto de, em seu tempo livre, eles só quererem alívio simultaneneamente do tédio e do esforço." (Theodor Adorno, Sobre a Música Popular)

A julgar pelo que Adorno diz no parágrafo acima, querer diversão, querer alívio do tédio e do esforço é condição de impossibilidade de apreciação da arte.

A medida de avaliação da arte (se boa ou não) deve ser externa a ela?

Wednesday, April 30, 2008

Espíritos da antiguidade

Sabe aquelas almas penadas que rondam os cemitérios à noite?

Pois é, na Grécia Antiga elas também davam sinal de vida: rondavam monumentos funerários e sepulturas.

Platão explica: os espectros vistos vagando por aí nada mais são que almas desencarnadas que, quando em vida, estavam presas ao mundo visível. Logo, após a morte do corpo continuam ligadas à matéria e são, portanto, visíveis.

Já reparou que nenhum vidente alega ter visto o espírito de um filósofo?

Não, não. Isso não tem nada a ver com o desinteresse dos videntes (e dos viventes) pelas almas filosóficas, e menos ainda com a pouca cultura dos videntes. A explicação é muito mais profunda: as almas dos filósofos vão para o paraíso das idéias, viver a vida eterna do pensamento. E ficam por lá.

Ow, não precisa ter medo de estudar filosofia. Pode até ser que você fique preso no mundo das idéias e não encontre emprego, mas garanto que não vai começar a ver fantasmas. Isso não. Filósofo não volta prá assombrar ninguém.

Talvez porque não acredite muito na vida, vá saber.

E depois, já virou idéia.

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Eis a passagem:

"E uma vez que é este o conteúdo de tal alma, por ele é que ela se torna pesada, atraída e arrastada para o lugar visível, devido ao medo que lhe inspira o que é invisível e o que chamamos de país do Hades; essa alma ronda os monumentos funerários e as sepulturas, ao redor dos quais de fato foram vistos certos espectros sombrios, de almas, imagens apropriadas das almas de que falamos. Elas, por terem sido libertadas, em estado de impureza e de participação com o visível, são assim também elas visíveis!" (Fédon, 81a)

Sunday, April 27, 2008

Tudo sobre macacos

Em um desses canais educativos da TV a Cabo, vi hoje um documentário sobre macacos para crianças (o documentário).

É, eu vi.

Desejando saber o que são macacos, a criança vai ao computador, faz a pesquisa e assiste a um video.

Ao final ela diz: "Obrigado, computador. Agora já sabemos tudo sobre macacos."

Pronto. Eis o conhecimento absoluto sobre os símios.

Eis que vejo também um professor plantando batatas.

Tuesday, April 22, 2008

Expectativa frustrada

O riso é um afeto resultante da súbita transformação de uma tensa expectativa em nada.

Kant, Crítica da Faculdade de Julgar, 54, 225.

Saturday, April 19, 2008

O segredo do umbigo

Já ouviu falar em cordão umbilical?

Esqueça.

Platão tem uma explicação muito melhor para a existência do umbigo, mas como não é bobo nem nada, a atribui a seu desafeto Aristófanes: trata-se de uma espécie de nó na ponta de uma trouxinha.

Imagine um lençol aberto.

Imagine que você colocou algo dentro dele, para carregar. Roupas, por exemplo.

Agora junte as pontas e amarre-as com um nó.

Pronto, eis o umbigo.

Esclareço: os deuses, por uma razão que explicarei qualquer dia destes, modela os homens (favor não confundir com a história do barro). Como eles eram grandes e são divididos em dois, sobra muita pele. Apolo então estica a pele da barriga, junta as pontas e dá um nó. Ou qualquer coisa que o valha. E assim passamos a ter o que chamamos "umbigo".

Veja a passagem:

"Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo." (Platão, O Banquete, 190e)

Thursday, April 17, 2008

Coisa horrorosa

No "Banquete", Sócrates compara o sofista Górgias à medusa, aquela figura tétrica, que nos transforma em pedras só de olhar para ela (e que Perseu matou usando o escudo como espelho):

"Eu por mim, considerando que eu mesmo não seria capaz de nem de perto proferir algo tão belo, de vergonha quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vinha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homero: temia que, concluindo, Agatão em seu discurso enviasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz."
(198 c).

Sócrates expressa o medo de que o sofista possa tornar vazio o discurso do filósofo.

Ironia, claro.

Pelo menos não se pode acusá-lo de modéstia, coisa tão fora de moda.

Em tempo: o sofista Górgias era tão popular em Atenas e arredores que os gregos chegaram a criar um neologismo para se referir às tentativas de imitá-lo: gorgianizar.

Tuesday, April 15, 2008

Ateus idiotas (3)

Kierkegaard dizia que a escolha fundamental de Adão (quer tenha ele existido ou seja apenas historinha prá boi dormir) é entre o "eu" (o homem) e o "outro" (Deus), isto é, entre a humanidade e a divindade. Essa escolha não é histórica, feita no passado e, por isso, concluída. É uma escolha de instante, que volta sempre, e nos obriga a refazê-la insistentamente, seja qual for. Somos Adão, na medida em que a todo momento somos convocados pelas circunstâncias a fazer escolhas.

O mesmo se pode dizer da saída do mito (não absoluta): a razão nasce da recusa de uma explicação de mundo; a racionalidade é, por excelência, uma recusa do mito, uma saída progressiva, não completa, de um raciocínio mítico para uma visão de mundo que não se assente na vontade, na necessidade psicológica, na fantasia, na verdade do "dito" ou no sonho.

O conhecimento nos leva necessariamente para longe do mito. Se isto não acontece, é porque criamos cataplasmas para cobrir os furos no sistema, porque não há como refletir com coragem sobre os fundamentos da crença e permanecer inabalável.

Sem o confronto com esses furos no sistema a razão vira técnica: serve à vaidade, serve aos valores individuais, serve às verdades prontas e acabadas.

Serve bem, mas é só.

Saturday, April 12, 2008

Ateus idiotas (2)

Depois da experiência descrita no post anterior, que aconteceu onde não deveria acontecer (dentro da academia, com pessoas no mínimo supostamente esclarecidas), fiquei me perguntando qual é o problema com o ateísmo.

Se sou atéia, é arbítrio meu. Isso não muda ninguém, não vou levar ninguém comigo para o inferno, não estou interferindo na liberdade de escolha de ninguém, não estou lesando ninguém etc etc.

Por que é tão difícil entender isso?

Que eu creia em papai noel, coelhinho da páscoa, astrologia, runas, tarot, I-Ching, umbanda, espíritos esvoaçantes, vampiros e o diabo-a-quatro. Tudo é preferível a ser atéia.

Ow, isso cansa!

Thursday, April 10, 2008

Ateus idiotas (1)

Recentemente, em uma aula de que participo como estudante, escutei argumentos bastante elaborados, oriundos de pessoas diversas, contra o ateísmo:

1. Um amigo ateu me explicou que não crê em Deus por que, quando tinha cinco anos, jogou uma pedra numa janela. A janela quebrou, e o menino pediu a Deus que não deixasse ninguém saber que ele era o autor da façanha. Deus não ouviu o pedido e ele foi castigado. Desde então não crê mais em Deus. E acrescento, por minha conta e risco: "Deus não existe porque não faz a minha vontade."

Argumentei: "Isto não é ateísmo; é ressentimento".

Veio a resposta: "Do ressentimento vem o ateísmo".

A conversa prosseguiu, com outro participante:

"Pior é um ateu que diz 'Graças a Deus'"

Ow, se eu tropeçar em uma pedra e disser "mas que diabo!" estou invocando o capeta?

Então o argumento seguinte: "Mas há bons ateus, que são mais corretos que muitos cristãos".

Isto é, há ateus que são até bons cristãos, apesar de negarem o cristianismo.


E, por fim: "Ateísmo é recusa do pai".


Então tá. Tudo se resume em uma dificuldade psicológica com figuras de autoridade (que o "denunciante" não tem, claro).


Não resisti, meti o bedelho na discussão e ouvi a máxima a respeito de minha interferência: "Isto sim é ressentimento!"

Festival de ad hominem.

Que é isso, gente?

Argumentei contra o ad hominem, ou seja, contra argumentos, e não contra crenças.

Que invoquem papai noel o quanto quiserem, mas encontrem argumentos mais razoáveis contra quem não coloca mais o sapatinho na janela. Pelo amor de Deus.

Tuesday, April 08, 2008

O Banquete (5): Pausânias

Ainda sobre o Banquete de Platão, vamos ao segundo discurso sobre o amor (tema bastante apropriado, já que Fedro ama Eurixímaco, Pausânias ama Agatão, Alcibíades ama Sócrates, Sócrates ama a filosofia, o homem, a humanidade e a morte e Aristófanes não ama ninguém).

Pausânias não fala sobre Eros, o deus do amor, mas sobre Afrodite, a deusa, e entende que há dois tipos de amor: o amor de Afrodite Pandêmia, e o amor de Afrodite Urânia.

Pandêmia é a deusa do amor físico. Urânia é a deusa do amor, digamos, celestial: amor pelo espírito, pela inteligência, pelo bem etc e tal.

Pausânias esclarece que o amor pelo jovenzinho sem barba é menor. O amor que realmente conta é o aquele que tem como alvo jovens já começando a mostrar inteligência, ou seja, os jovens que já começam a ter barba (mas não os bodes de Erasmo de Roterdã, bem entendido. Estes já são adultos e não gostam de beber com ouvintes de memória fiel).

Digressões à parte, o argumento é: o amante deve visar no amado a possibilidade de encorajá-lo a ser virtudo e sábio. O jovem amado, por sua vez, deve esperar aprender com seu amante a - novamente - ser sábio e virtuoso.

Muito bem.

Então o que estava fazendo Pausânias na feliz companhia de Agatão? Provavelmente Agatão era o imberbe e Pausânias era o bode. Ou o contrário, sei lá.

De todo modo, os discursos caminham de uma descrição do amor, digamos, mais ao gosto de Cicciolina, para algo mais fundamental e mais etéreo. Há no diálogo uma ascensão não muito linear da agnosía (ignorância) para a doxa (opinião) e, enfim, para a episteme (conhecimento), representada pela filosofia e pela figura de Sócrates.

Friday, April 04, 2008

Teoria x Prática

Estou concluindo um curso virtual sobre curso virtual - pela terceira vez. E, pela terceira vez, confesso que não aprendi rigorosamente nada. O curso é para treinar professores para ministrar cursos à distância, e no fim das contas trata-se apenas do aprendizado do uso de um programa bem simples. Em todo caso, há um fórum de debates sobre o virtual que nos obriga a refletir sobre o assunto.

Bem, ocorreu-me que estamos acostumados a pensar que a prática depende da teoria, e não é errado pensar assim, mas me parece que o mundo virtual rompe também com esse paradigma. Nele, a prática se faz sem a teoria; é o saber-fazer que interessa, e não por que é assim. Interessa ao usuário do computador apenas saber usar as ferramentas disponíveis, e nada além disso. É claro que há uma teoria que valida essa prática, mas o meu ponto é que, para o usuário, essa teoria é irrelevante. Esse modo de pensar, é claro, não fica restrito ao uso do computador; ele se estende para outras áreas do conhecimento. Isso, penso, acaba alimentando a idéia de que disciplinas teóricas são, via de regra, perda de tempo.

Talvez amanhã pense de outro modo. Por hoje, é isso.

Tuesday, April 01, 2008

O Banquete (4): Fedro

Fedro é o primeiro a falar (lembre-se que na sequência temos Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates e Alcibíades). Ele afirma, citando Hesíodo, um certo Acusilau e Pamênides, que Eros é o mais antigo dos deuses, o mais poderoso e o mais digno.

Este Eros a que Fedro se refere é o Eros primordial, que surge quando a terra, Gaia, se une ao Céu, Urano. O outro Eros, o garotinho com uma flecha, é filho de Afrodite e Ares.

Bem, o Eros primordial, segundo Fedro, faz com que cada homem cuide de si mesmo, seja corajoso, honesto e honrado. A lógica é simples: quem ama quer a admiração da pessoa amada, então se esforça para se conduzir de modo correto. É capaz até de sacrificar sua vida pelo amado. Logo, o amor torna os homens melhores.

Aposto que Foucault se inspirou no discurso de Fedro para escrever o livro 2 da História da Sexualidade.

Monday, March 31, 2008

O Banquete (3): o debate

Em banquete grego, bebe-se.

Bebe-se, bebe-se.

E depois de beber, claro, há uma farrinha com hetárias, ou com as flautistas, ou com as serviçais, ou com as dançarinas, ou, sei lá, entre os convivas, ou tudo isso junto, mas isso realmente não interessa, né?

Bem, Fedro e Aristófanes estavam de ressaca. Já haviam bebido demais na noite anterior, e não estavam muito dispostos a repetir a façanha. Sócrates, por sua vez, não gostava de beber muito.

Fedro então sugere que todos bebam moderadamente, e que conversem a respeito de um tema de interesse geral. Como Agatão havia ganho um prêmio literário com uma tragédia que obviamente envolvia o deus Eros, ou amantes, o tema escolhido é o amor.

Cada um deve falar sobre o amor, obedecendo à disposição dos lugares à "mesa", a começar pelo próprio Fedro.

(Viu como eu tinha razão? Para ler O Banquete, é preciso saber onde cada um estava sentado. Tá lembrado? Então vamos em frente.)

Fedro é o primeiro a discursar. Em seguida, Pausânias. Na sequência, era a vez de Aristófanes, mas ele começa a soluçar. Erixímaco, o quarto da esquerda para a direita (lembre-se disso), toma a palavra, a pedido de Aristófanes.

A partir daí, a sequência é mantida: Agatão, Sócrates e Alcibíades.

Então tá.

Amanhã continuo.

Saturday, March 29, 2008

O Banquete (2): os convivas

Estavam presentes ao banquete Agatão, o anfitrião, Pausânias, Fedro, Sócrates, Erixímaco, Alcibíades e Aristófanes.

A disposição dos convivas era a seguinte, da esquerda para a direita:

Fedro, que tinha a seu lado Pausânias, próximo a Aristófanes, que estava sentado ao lado de Erixímaco, que sentou-se ao lado de Agatão, que fez questão de sentar-se próximo a Sócrates (para aprender por osmose), que estava sentado ao lado de Alcibíades, que sentou-se ao lado de Fedro.

Prestou atenção?

Ow, isso é muito importante!

A boa compreensão do diálogo depende imensamente de saber onde cada um dos participantes estava sentado, viu?

Confie em mim.

Se esqueceu, releia.

Desenhar uma mesa redonda e dispor todos os convivas em seus lugares ajuda a memorizar, tá?

Então vamos revisar?

Fedro, ao lado de Pausânias, ao lado de Aristófanes, ao lado de Erixímaco, ao lado de Agatão, ao lado de Sócrates, ao lado de Alcibíades, ao lado de Fedro.

Ihh, acho que eu já decorei.

Ainda bem que a memória é seletiva.

Tuesday, March 25, 2008

O Banquete (1): a trama

Estou relendo O Banquete, de Platão. Já havia me esquecido de como é interessante.

A trama é a seguinte: em 416 a.C. a tragédia que um tal Agatão, o bom, escreveu foi a vencedora em um concurso de literatura, a Dionísia. Satisfeitíssimo, resolveu convidar alguns amigos para um banquete em sua casa, dois dias depois.

Quinze anos se passaram. Agatão já não morava mais em Atenas, e Sócrates estava a dois anos de sua sentença de morte. Certo dia, um tal Apolodoro encontra casualmente um conhecido, que lhe pergunta sobre o evento. Apolodoro esclarece que não estava presente, e nem poderia, pois ainda era muito jovem na ocasião, mas esclarece que ouviu de um certo Fênix histórias sobre o banquete, que por sua vez ouvira de um certo Aristodemo, que não chegou a acompanhar o debate. Curioso, Apolodoro procurou Sócrates para saber dele o que havia acontecido, e Sócrates confirmou a história contada por Fênix.

Apolodoro aceita, por fim, contar ao conhecido o que ouvira de Sócrates, que confirmava o que Apolodoro ouvira de Fênix, que ouvira a mesma história de Aristodemo, que não acompanhara o debate.

E eu agora contarei o que não ouvi de ninguém, nem presenciei.

Mas pode confiar em mim.

Sunday, March 23, 2008

Mito e razão

"Só o pensamento que faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos".

Theodor Adorno, Conceito de Esclarecimento.

Thursday, March 20, 2008

Dórios comediantes

Diz Aristóteles na Poética V, 1448 (29): "Os dórios para si reclamam a invenção da tragédia e da comédia".

Fiquei por entender. Os dórios não são aquele povo nômade que chegou à Grécia, vindo do norte mais ou menos em 1.200 a.C. e derrotou os micênios? Não eram eles que tinham armas de ferro e se instalaram no Peloponeso, mais precisamente em Esparta? Esse povo não era inteiramente voltado para a guerra, brutal e inculto?

Ao menos é isso o que os livros de história dizem.

A palavra "lacônico" não vem justamente da planície onde ficava Esparta (a Lacônia) e significa aquele que fala pouco? Não aprendemos que Esparta via o interesse de Atenas pela filosofia e pela literatura como frescura e não escreveu praticamente nada? A chegada dos dórios não marcou o início da "Idade das Trevas" grega, ou seja, um período em que a escrita praticamente desapareceu?

Como é que um povo assim pode ser o "inventor" da comédia?

Catarse? Em Esparta? Sei não.

Em todo caso é mais provável que Aristóteles tenha razão e a história esteja ligeiramente equivocada.

Monday, March 17, 2008

Saudades de Mu

Ah, Mu! Continente maravilhoso, perdido no fundo do mar.

Mu, com suas montanhas, seus rios, seus lagos, sua brisa!

Ah, Mu, que o mar levou!

Mu, o querido Mu, que abrigava o grande país de Mu!

Ah, Mu, que não volta mais!

Mas Mu há de voltar. Será a volta dos que não foram, o retorno dos que nunca vieram.

É o que dizem os adeptos de Mu.

Ai, ai.

Mu foi embora. O país e o continente. Mas voltará um dia, em todo seu esplendor. Os habitantes de Mu, arianos, inteligentíssimos, avançadíssimos, voltarão um dia, talvez na cauda de um cometa, talvez em uma nave extraterrestre.

E nos ensinarão o Mu.

Mu-çulmano? Mu-queca? Mú-sica? Mu-stafá? Mu-ro? Mu-ralha? Mu-lher? Mu-ndinho?

Mu-gido?

Mu-la?

Apenas Mu.

Aguarde e verá.

Saturday, March 15, 2008

O zel da merda

Que William Waack seja um de nossos melhores jornalistas, ninguém discute.

O que ninguém sabia é que ele fala merda com muita frequência.

No Jornal Nacional, ao chamar a repórter Zelda Melo, acabou dizendo "Zelda Merda". Veja o vídeo linkado no título.

Só quem fala muita merda no dia-a-dia pode fazê-lo também na TV.

Friday, March 14, 2008

"I" de iscola e "e" de esquero

Sempre achei a fama de burra de Carla Perez exagerada, mas não há exagero algum. Carla Perez fugiu mesmo da iscola, mas isqueceu o esquero por lá.

Veja o vídeo.

Wednesday, March 12, 2008

Juju, Rita Lee e o trance

Aposto que você não sabe quem é o Juju.

Tente adivinhar: Juju tem barba, bigode, é magrin, gostava de falar de amor e passou alguns dias vendo o mundo do alto.

Adivinhou? Não?

Quer mais dicas?

Juju tinha mãe, mas não tinha pai. Morreu, mas não foi enterrado.

E agora, adivinhou? Claro, né? Juju é Jesus Cristo.

Ao menos, é esse o nome carinhoso com que os malucos da Igreja do Trance Divino se referem ao Cristo.

A Igreja do Transe é uma seita dedicada... ao trance! Os adeptos pregam uma religiosidade dançante, sem sofrimentos, sem essa de morrer para renascer, pecado e quetais. E sobretudo sem dízimo. Você só precisa pagar a entrada para as festas e se divertir a valer.

Ah, sim: para fazer parte da seita, precisará ter um nome indiano. Um daqueles nomes enormes, impronunciáveis, que ninguém quer ter.

Mas vou logo avisando: se quiser ser pastor da Igreja do Transe e mudar sua vida em uma boa farra de sexta-feira, terá de ser DJ.

Depois de Jesus?

Não, não.

Disc-Jóquei mesmo.

Para ser pastor também é imprescindível tocar bem, claro. Mas se você for um tipo humilde e preferir ser uma coisinha de nada na seita, basta ter um bom conhecimento de música eletrônica e adorar Rita Lee, a santa da seita.

Isso, mesmo. Rita Lee e trance. E daí? O que você tem a ver com isso?

Vá lá, vá. Alto Paraíso, Goiás. O que você tem a perder?

Leve um cd de trance para garantir a entrada.

Se não está acreditando em mim, espie a reportagem linkada no título deste post e acredite na ministra Anirit Kuyana: “Nossa religião é basicamente musical... Ela te leva num ritmo enorme e te solta lá em cima sozinho. E aí nisso a mente esvazia, você fica no nirvana, você fica sem o pensamento. É essa a delícia do trance: É misturar o básico ‘bate estaca’ da animal, do bicho que somos, com o espírito, com divindade”.

É... Quem nasceu jaburu nunca será cotovia. Mas que tenta, tenta.

Sunday, March 09, 2008

Homem-peixe

Anaximandro de Mileto (século VI a.C.), discípulo de Tales de Mileto, era uma figura extraordinária. Afirmava que a terra era redonda, fez o primeiro mapa de que se tem notícia e, pasmem!, resolveu o problema da origem do homem.

Como?

Simples: o homem veio do peixe, com catorze anos.

O raciocínio deve ter sido o seguinte:

O homem só pode ter vindo do mesmo ou do outro.

Do mesmo não pode ser, porque jamais chegaríamos ao primeiro homem; haveria sempre outro anterior que o gerou.

Se veio do outro, terá sido do outro natural ou do outro não-natural?

A hipótese de que o homem veio de um ser não-natural é descartada; já tivemos deuses demais.

É certo, então, que o homem originou-se de outro ser, natural. Logo, o homem antes de ser homem era outra coisa.

De onde vem a vida? Do mar, claro.

Então o homem veio do mar.

Se vivia no mar, então era peixe.

Por alguma razão desconhecida, houve uma transformação: um peixe gerou um ser diferente em alguns aspectos de si mesmo.

Ao fim de catorze anos de gestação, o peixe-mãe pariu seu filhote estranho próximo da terra (esse peixe era mamífero, obviamente).

Por que catorze anos?

Porque o homem, segundo Anaximandro, só é capaz de sobreviver sozinho aos catorze anos. Antes disso se for abandonado, morre.

Então.

O homem-peixe foi parido na praia.

Ainda tinha escamas, ainda era mais peixe que homem.

Com o passar do tempo e a adaptação à terra, perdeu as escamas, aprendeu a respirar pelos pulmões e ganhou pernas para se locomover.

Novas mudanças aconteceram, até se transformar no que é hoje.


Agora me diga: isto é ou não é uma espécie de teoria da evolução?

Quem foi mesmo que disse que na ciência nada se cria, nada se perde; tudo se transforma?

Laplace?

Saturday, March 08, 2008

Ex-donos do saber

O saber, antes nas mãos de mestres e pais, está mudando de dono: a criança que deseja criar um perfil no Orkut jamais pedirá ao pai ou ao professor para ajudá-lo; pedirá a um coleguinha. O adulto não sabe o bastante para ajudá-la (se isto é verdade ou não, pouca importa).

Este sintoma revela algumas tendências: a de deslocamento do saber que interessa às novas gerações (pragmático, técnico, instrumental, fragmentado, e que responda apenas às exigências do momento) para as mãos dos jovens; a formação de autodidatas e, por fim, o declínio do ofício de ensinar.

Quando aprende-se a aprender (e isto a internet ensina; se bem ou mal é outra história), qual é, de fato, a necessidade de professores? Bastam tutores multimídia, que coordenem os trabalhos em um ensino teleguiado, confortável, divertido e sobretudo dinâmico. Estas caracteríticas são apropriadas a uma cultura de superfície, mas também é preciso perguntar se, para as novas gerações, faz sentido ser de outro modo.

O perfil deste novo profissional do saber deve ser o de um bom comunicador, que tenha sempre o cuidado de não cansar o aluno e de manter viva sua atenção, porque o valor de um profissional de qualquer área está para a capacidade de atrair e manter a atenção.

Mas nada disso é negativo; uma geração autodidata deve ser melhor que uma geração que terceiriza o pensamento; a lógica interna à utilização dos recursos de informática, cuja compreensão é necessária para a imersão no mundo virtual, forja um novo modo de pensar e uma nova inteligência.

O problema, se há, não é das novas gerações. O conhecimento que deterão terá como suporte o autodidatismo e a inteligência, continuamente testada no uso diário do computador.

Problema temos nós, que ainda estamos raciocinando e funcionando em uma outra lógica, quando o mundo, quer queiramos, quer não, já mudou.

Thursday, March 06, 2008

Adorno, sobre a internet

Os reis não controlam a técnica mais diretamente do que os comerciantes: ela é tão democrática quanto o sistema econômico com o qual se desenvolve. A técnica é a essência desse saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital... O que importa não é aquela satisfação que, para os homens, se chama "verdade", mas a "operation", o procedimento eficaz. Pois não é nos "discursos plausíveis, capazes de proporcionar deleite, de inspirar respeito ou de impressionar de uma maneira qualquer, nem em quaisquer argumentos verossímeis, mas em obrar e trabalhar e na descoberta de particularidades antes desconhecidas, para melhor prover e auxiliar a vida, que reside "o verdadeiro objetivo e função da ciência". Não deve haver nenhum mistério, mas tampouco o desejo de sua revelação.

O Conceito de Esclarecimento. In: Dialética do Esclarecimento.

Wednesday, March 05, 2008

Leite corrompido

"Seria preciso uma ama tão sadia de coração quanto de corpo: a intempérie das paixões pode, assim como a dos humores, alterar seu leite".

Jean-Jacques Rousseau, Emílio, p. 37.

Tuesday, March 04, 2008

Hoje não são 4

Francamente, não entendo isso de dizer "Hoje são 4".

Verbo combina com sujeito, certo?

O sujeito é "hoje", certo?

Singular, certo?

Então por que o verbo não combina com o sujeito, ora?

Será por que "hoje" é advérbio? Mas não funciona como sujeito na frase?

Ihh. Sei lá.

Saturday, March 01, 2008

Maravilha

Hoje estava disposta a fazer algo diferente, sair da rotina, e assisti ao Mulher Maravilha.

Experiência única, que não viverei novamente, por isso tem de ser partilhada.

Então.

A mulher maravilha encontrou uma menina de outra dimensão, outro planeta, outra coisinha qualquer, e tem um problema prá resolver: devolver a menina a seu lugar de origem sã e salva.

Não é pouca coisa, não. Imagine. A mulher maravilha nem sabe onde fica o portal para o outro mundo.

Enquanto isso, um cidadão de meia-idade (confesso que não prestei atenção suficiente para saber quem é), um sujeito que sofreu um trauma no passado e ficou ranzinza, encontra a menina e... olhe só, começa a dizer que sua vida mudou; agora é capaz de perceber a doçura de um sorriso infantil, a candura de uma criança. Agora é capaz de ser feliz novamente. Quer até adotar a menina de outro planeta, no mais genuíno amor filial e reencontro de seu antigo eu.

Procure ver a situação com bons olhos, tá? Afinal, é a Mulher Maravilha.

O homem reencontrou sua infância perdida, reconciliou-se com a imagem da mãe austera que o perseguiu até a maturidade, e nasceu de novo.

Não é lindo? Fiquei até me perguntando quanto o ator terá recebido para fazer esse papel.

Mas belo mesmo é o fato de que ele próprio diz tudo isso.

Ao final, a menina não consegue voltar para seu planeta, então diz ao homem que quer ser filha dele.

Ele, com lágrimas nos olhos, responde: "Jura?"

Juro.

Vi mesmo.

Friday, February 29, 2008

kkkkkkk...!!!!

Eu sei, eu sou chata, implicante, coisa e tal, mas há algumas expressões que não dá prá encarar. Uma delas é o "meu caro". Se em um debate surgir um "meu caro", é hora de sartar fora. Outra é o "veja bem". Então para "ver bem" é preciso escutar o que o outro vai dizer? Tô fora.

Vamos combinar. Tem algo mais infantil que o kkkkkkkk? kkkkkkkk! Admito que 15 anos e kkkkkk estejam de acordo, mas passou disso é ridículo.

Agora triste mesmo é o "meu caro, veja bem... kkkkkkk!" Não creio que possa sair algo decente de uma frase como essa.

Tá certo. É chatice minha mesmo. Vamos combinar.

Tuesday, February 26, 2008

Turismo intelectual (2)

Ainda sobre Bayard e sua tese genial.

As restrições que ele enumera merecem uma consideração, né? Então vamos lá.

a) Vivemos em uma sociedade em que a leitura ainda é sacralizada.

Isto não é verdade. Vivemos em uma época de turistas intelectuais, isto sim. O livro, assim como a academia, deixaram de ser sagrados. Agora, dentro da academia e em círculos intelectuais, é claro que a leitura é sacralizada. Mas é fácil livrar-se desta "opressão social": se não quer ler, saia da academia, mané.

b) É praticamente proibido não ler certos livros;

Sim, para um professor de literatura é obrigatório conhecer a boa literatura. Não necessariamente uma obra em particular, ou um autor em particular, mas tem sim de conhecer aquilo de que fala. Por que um médico tem de conhecer bem o que diz respeito à sua profissão e um professor de literatura não precisa ler? Será apenas por que o médico pode matar e a ignorância não mata necessariamente?

c) É necessário ter lido um livro para ser capaz de falar sobre ele.

É necessário sim, mané. A não ser que queiramos transformar qualidade em espetáculo.

Por fim, o que mais me incomoda na tese de Bayard é o fato de que ela carrega nas entrelinhas a afirmação de que um profissional de ciências humanas não precisa dominar o conteúdo com o qual trabalha; basta o conhecimento superficial e a boa retórica, porque afinal de contas as humanidades não passam disso. As demais ciências é que são sérias.

Monday, February 25, 2008

Turismo intelectual (1)

Um certo Pierre Bayard publicou recentemente o livro "Comment parler des livres que l'on n'a plus lus" (como falar de livros que nunca lemos) e está vendendo bem.

Ele explica, segundo a reportagem clicada no título, que não gosta muito de ler e que nem tem tempo prá isso. Mesmo assim, é obrigado frequentemente a comentar livros que não leu, porque

a) Vivemos em uma sociedade em que a leitura ainda é sacralizada;
b) É praticamente proibido não ler certos livros;
c) É necessário ter lido um livro para ser capaz de falar sobre ele.

Bayard discorda dos três pontos assinalados acima. Tratam-se de restrições à "não-leitura" impostas pelo social que apenas promovem a falta de abertura no contato pessoal, além de gerar sentimentos desnecessários de culpa. Bayard também acha que é perfeitamente possível discutir um livro sem tê-lo lido, mesmo com quem também não o leu.

Sobretudo com quem também não leu, né?

Certo. Então posso comentar este livro que não li, já que o autor não só me autoriza, como me encoraja a fazer isso.

Bayard é professor de literatura da Universidade de Paris. Concordo que ele não precisa ler Proust para ser professor de literatura, desde que a aula não seja sobre Proust. O que não dá prá aceitar é que um professor de literatura afirme que não gosta de ler, que não tem tempo para isso e mais, que não precisa ler.

Ow, isso é má-fé e preguiça intelectual. Para esconder a preguiça até de si mesmo, Bayard inventa uma teoria sobre constrangimento social, como se fossemos obrigados a ler. Não somos, não. Um professor de literatura tem, sim, de ler. Um tradutor tem de gostar de ler. Um professor de filosofia tem de gostar de ler. Mas é só.

Hoje há filmes de boa parte da literatura de porte. Ver o filme e discutir as idéias que estão nele é uma coisa. Apenas ver o filme e/ou ler comentários acerca do livro e discutir com ares de grande entendedor é outra bem diferente. A preguiça intelectual é bem alimentada e a reputação idem.

Não estamos mais em uma era de grandes leitores. Não conheço uma só pessoa da nova geração que tenha lido uma única peça de Shakespeare e se sinta culpado por isso. Não conheço absolutamente ninguém desta nova geração que tenha lido Faulkner, ou alguém que se interesse em ler os clássicos. Onde está a culpa? A interação social de qualidade é prejudicada pelo preconceito contra não-leitores? C'mon.

É claro que a leitura de bons livros humaniza, nos torna mais capazes de enxergar o outro, amplia a cognição, torna o raciocínio melhor articulado, aprimora nossa leitura de mundo etc e tal. Mas Bayard não tem nada disso em vista. Ele apenas acha que teve uma sacada genial ao criar a teoria da opressão dos não-leitores contra os não-leitores para justificar o fato de que ele próprio, apesar de ser professor de literatura de uma das melhores universidades do mundo, simplesmente não lê.

Sunday, February 24, 2008

Vampiros (5): Espíritos anti-democráticos

Depois de escrever o último post, me ocorreu a brilhante idéia de escrever um manual de sobrevivência de mortos-vivos.

Olhe só. Com toda essa expertise em vampirologia e defesa contra mortos-vivos tornada pública e acessível a qualquer mortal, os vampiros não têm como sobreviver. Alguém precisa fazer alguma coisa. Se os vampiros desaparecerem da face da terra, o que será dos vampirólogos? Sobretudo, o que será de nós, meros mortais? Vamos simplesmente morrer e pronto? Desaparecer? Assim, c'est fini? Nãnãnãnão!

Melhor ser um cadáver vivo que um cadáver morto, né não?

Puxa, será que ninguém pensa nisso?

Não temos o direito de escolha? Prefiro ser zumbi a carniça. Dá licença?

E depois, há uma ambição totalitária por trás da caça implacável aos zumbis. É genocídio, promove o desequilíbrio ecológico dos cemitérios e a eliminação da diferença. Como fica a democracia, santa?

Eitcha. Minha idéia é mesmo muito boa. Só não sei se vai vender. Matar vampiros dá mais ibope que proteger vampiros.

Wednesday, February 20, 2008

Vampiros (4): Van Helsing strikes again

É preciso reconhecer: o padre Seán Manchester está fazendo escola. Depois do Guia Conciso de Vampirologia, você pode adquirir também o "Guia de Sobrevivência aos Zumbis: Proteção Completa contra os Mortos-Vivos", de um tal Max Brooks, pela bagatela de 7 dólares, se for usado. Se não for, e tiver uma encadernação bem acabadinha, por sair por até 55 doláres.

Pague. Sua vida vale muito mais.

Outras maravilhas das editoras, imagino que classificadas no gênero "humor":

- "Enciclopédia dos Mortos-Vivos: um guia para compreender as criaturas que não descansam em paz", de Bob Curran. Sai por até 49,55 dólares.
- "Manual de exorcismo", de H. A. Maxwell Whyte. Compre por até 44.99 dólares.
- "Como ver fantasmas", de Peter Underwood. O preço varia entre 5.75 e 50.63 dólares. Ow, esse eu quero! Sempre desejei ver fantasmas. A vida fica mais emocionante com eles.

Outra de Manchester:
- "Manual de Caça ao Vampiro" (com a recomendação expressa de esquecer tudo sobre Buffy, a caça-vampiros). Pode sair por até 72,52 dólares. Caro, né? Mas sua vida vale ou não vale o esforço? Hein?

Dê uma espiada na página da editora Abe Books que linkei no título. Há outras pérolas para quem não tem nada mais a fazer na vida a não ser proteger sua vida daqueles que já perderam a vida.

Não sei quanto aos outros autores, mas posso garantir que os livros do padre Manchester são sérios, ao menos para ele. O homem já tem uns trinta anos de estrada caçando e matando vampiros. Como é que ele consegue passar a vida perseguindo o imaginário é um mistério até para Allan Poe.

Verdade seja dita: ele bem que merece ganhar uma graninha depois de tanto esforço.

Thursday, February 14, 2008

Bife com batatas fritas

Como o problema com o Blogspot parece resolvido, sigo em frente.

Folheando "Mitologias", de Roland Barthes, encontrei esta pérola:

Associado geralmente às batatas fritas, o bife transmite-lhes o seu renome: a batata frita é nostálgica e patriótica como o bife (DIFEL, p. 55).

O que ele terá querido dizer?

Friday, February 08, 2008

Blog fora do ar

Lamentavelmente, este blog terá de ser desativado. Não é mais seguro nem para mim, nem para qualquer pessoa que o visite. De algum modo, e não sei explicar como, um código malicioso foi associado a ele. Se não puder resolver o problema, ele será fechado definitivamente. Abrirei outro, em outro espaço. Espero rever em um novo blog todos os que escreveram comentários.

Wednesday, January 23, 2008

Vampiros (3): Van Helsing

Seán Manchester é um padre britânico que dedica 100% de seu tempo à caça aos vampiros.

Jura que esteve frente a frente com um deles, e tratou de mandá-lo para o inferno antes que alguém mais o visse. Foi uma experiência terrível. Assustadora, mesmo. Felizmente ele é corajoso e equilibrado.

Com peninha dos incautos, resolveu escrever um manual de instruções para que se protejam do mal. Diz o anúncio que se trata de um Guia Conciso de Vampirologia.

Ainda bem que é conciso. O leitor poderia topar com um vampiro antes de concluir a leitura do guia completo e aí, babau leitura.

De qualquer forma, você pode comprá-lo pela internet, por 12 libras.

Faça a conversão para o Euro antes de encomendar o guia, tá?

Prá não se sentir roubado depois.

Eu não vou comprar o manual porque já vi filmes demais sobre o conde Drácula. Já tenho todas as informações de que preciso para me defender, caso seja necessário.

Tuesday, January 08, 2008

Vampiros (2): Há gente prá tudo

Vampiros têm dentes caninos bem afiados, unhas enormes, gostam de sangue, de rock, do estilo gótico e, claro, da noite. Vampiros modernos também.

Vampiros dormem em caixões. Vampiros modernos também.

Mas vampiros modernos são, digamos, bem modernos. Não gostam de matar, só bebem sangue doado, saem à luz do dia, não têm medo de estacas e alho, trabalham e não vivem em castelos, mas sim em apartamentos de dois quartos e sala.

Ah, sim. Vampiros modernos escovam os dentes antes de encontrar um feliz doador. E retiram os dentes postiços antes de dormir.

Seja como for, há vampiros por aí. Mortais, mas não mortais, se é que me entende.

Veja o vídeo linkado no título deste post: almas procurando dar sentido às suas vidas e descobrindo um meio de virar documentário.

Monday, December 17, 2007

Vampiros (1): Mercy Brown

Já ouviu falar de Mercy Lena Brown?

Não?

Pois não está perdendo nada.

Mercy Brown é a vampira norte-americana mais famosa, e a última de sua linhagem.

Vampira mesmo.

Em janeiro de 1892, aos 19 anos, Mercy faleceu. Dois meses depois seu irmão Edwin estava à beira da morte.

Explicação? Vampirismo, claro.

Solução? Desenterrar o cadáver para matá-lo.

E assim fizeram. Mas não adiantou nada, porque Edwin morreu logo depois da segunda morte de Mercy. Por fim, o pai, que já havia perdido a mulher e duas filhas para o vampiro, morreu também.

De tuberculose, como os demais.

Mas que Mercy era vampira, lá isso era.

Sunday, December 02, 2007

Imaginário

Que Pascal trouxe a filosofia para o mundo da vida, é inegável; que tenha escrito a bela frase de que só se vê bem com o coração, também é inegável.

Eu só não compreendo muito bem porque alguém tão convicto de que o essencial é invisível para os olhos tem tanto medo do imaginário.

Para ele, o imaginário leva ao erro, à mentira e ao pecado. No campo da ciência, ao erro. No campo da ética, à mentira. No campo da moral, ao pecado.

A louca da casa não era a sensação?

Tuesday, November 20, 2007

A poética do espaço de Bachelard

De tanto ouvir falar no Bachelard noturno (o diurno eu já conheço), resolvi dar uma espiada na Poética do Espaço.

Tudo bem, eu sei que é uma grande obra, e estou bastante ciente da qualidade de Bachelard como epistemólogo, mas realmente não é prá mim. Há devaneios demais, fico com a sensação de que estou perdendo tempo, que não vou aprender nada com as caraminholas que passaram pela cabeça dele a respeito de cantos, miniaturas e casas. Prefiro realmente um ensaio mais enxuto, em que eu possa identificar a tese e as premissas.

Fico com o Bachelard diurno. É preciso ser poeta para apreciar o outro, e eu não sou.

Monday, October 29, 2007

Platão e as almas (2)

Uma solução possível para o problema apresentado no post anterior é:

A alma é imutável, mas guarda lembranças. A maiêutica tem a finalidade de reconduzir a alma por um caminho que a faça se lembrar daquilo que sabe, mas não sabe que sabe. A sofística, com seus subterfúgios, desviaria a alma desse percurso. Então, mesmo que a alma seja imutável, encarnada ela pode ser confundida pelo imediato.

Ah, bom.

Mas ora. Se a alma não muda, que efeito poderia ter a encarnação sobre ela? Se a encarnação tem algum efeito, estamos falando de evolução (ou involução), certo? Neste caso, a alma não é imutável, certo?

Bem, então falta considerar a hipótese de que a sofística tem efeito negativo apenas sobre a alma dos filósofos, porque as impede de alcançar a verdadeira sabedoria.

Se é assim, o filósofo-alma precisaria de outra encarnação para ser filósofo encarnado, e isso significa evolução (não da própria alma, mas de sua condição no cárcere do corpo).

Hmmm. Acho que acabei, sem querer, de resolver o problema.

Alma imortal = imutável
Alma mortal = mutável

Está bem, mas prá quê encarnar? Prá mudar?

Não. É que a alma pecou no paraíso.

Mas vou deixar o orfismo prá outro dia. Minha alma cansou.

Saturday, October 27, 2007

Platão e as almas (1)

Falando sério, me apareceu recentemente uma dificuldade com o sistema de Platão, que ainda não consegui resolver. O problema é: se a alma é imutável (sim, em Platão ela é), e não se ensina coisa alguma (daí a maiêutica), por que, afinal de contas, os sofistas são um problema?

Por que?

Segundo o Fédon, filósofo é filósofo, bonzinho é formiga e mauzinho é lobo, certo? A alma é o que é, não muda. Logo, os sofistas não podem tornar os bons maus, nem os maus bons, nem desviar os filósofos de seu caminho iluminado.

Então, ora essa, que perigo a sofística pode representar para almas imutáveis?

Sei não, mas acho que Platão andou mudando de opinião ao longo do caminho.

Nem adianta vir com a tal teoria da divisão da alma. Nem pense em explicar o problema alegando que em alguns prevalece a alma racional, em outros a irascível, em outros ainda a concupiscente. O problema permanece, e não se acrescenta nada ao que a -- presumo -- alegoria do Fédon já havia apresentado.

Aparentemente o sistema de Platão não é tão bem fechadinho assim.

Alguém me ajuda?

Não sem debate, claro.

Reservo-me o direito de prolongar o assunto o máximo possível.

Friday, October 19, 2007

Última teoria sobre Lost

Depois de tanto tempo sem assistir à série, confesso que já perdi o interesse. Mesmo assim, me ocorreu uma outra solução para o enigma da ilha: ela é uma espécie de portal para a viagem no tempo.

E pronto. É só isso. Chega de Lost.

Thursday, October 11, 2007

É vero (2)

"Quem não é bonito aos 20, nem forte aos 30, nem rico aos 40, nem sábio aos 50, não pode esperar sê-lo depois."

George Herbert

Sunday, October 07, 2007

Causa perdida

Ernie Chambers, senador americano, anda irritado com Deus (ou com os cristãos, mais precisamente), e resolveu processá-lo.

Injustiça. Se Deus não tivesse criado o mundo, e criado exatamente como é, o senador não poderia processá-lo, já que o processo é um meio legal e legítimo de se obter reparação de algum dano sofrido. Se não houvesse criação, não haveria dano algum, certo?

Na verdade, o mundo natural é que devia processar o homem.

Ah, sim, e donos de casas assombradas deviam processar os fantasmas (exceto se forem parar na mídia por causa deles, claro).

Os que foram possuídos pelo demônio em algum momento deviam processar o diabo por danos morais. Não há nada mais vexatório que revirar os olhos e dar piti em público. Pensando bem, o diabo também devia ser processado por danos físicos.

De todo modo, o fato é que, se Deus for condenado, jamais cumprirá pena. Não tem endereço fixo, não trabalha e ninguém nunca viu.

A lei é cega. Fazer o quê.

Sunday, September 30, 2007

Fon Faniken outra vez

Lá vou eu assistir ao documentário "Eram os deuses astronautas". Li o livro na adolescência, porque era proibido, e achei uma bobagem sem tamanho. Mas, como não me lembrava de muita coisa, e jamais o lerei de novo, resolvi assistir ao vídeo. Quem sabe, né? Não custa nada.

Não consegui assistir até o final. É realmente um engodo. A parte que assisti, a metade, estava recheada de distorções históricas e, sobretudo, de apresentação de uma verdade sustentada unicamente por testemunhos (alguém disse que..., fulano afirmou que...) e pelo desejo de enxergar foguetes e capacetes em desenhos antigos.

No fundo, é o que já escrevi aqui, em outro momento: além da picaretagem mais do que evidente, há também a convicção de que o homem não é capaz de projetar e construir, com sucesso, obras arquitetônicas do porte das pirâmides do Egito, dos moares da ilha de Páscoa, e outras tantas. O raciocínio é o seguinte: o que hoje, com os meios de que dispomos, é difícil criar, obviamente seria impossível para as civilizações antigas. Logo, gente de outro planeta veio para ajudar.

Lógico.

Fon Faniken devia entrar para a lista dos dez maiores picaretas da história.

Antes que me acuse de não ser fanikeísta pelas mesmas razões pelas quais não são darwinista, assista ao documentário, prestando atenção não na tese, mas nas premissas que a sustentam. São bastante frágeis, como já afirmei acima, porque se apóiam meramente em opiniões, em fatos históricos distorcidos (p. ex., o Dr. Faniken afirma que Schliemann, grande arqueólogo, encontrou Tróia -- isso ainda não está suficientemente provado, e Schliemann está bem longe de ser considerado um grande arqueólogo) e em "leituras" de registros históricos a partir da tese. Ou seja, primeiro a tese. Depois vamos procurar indícios que a comprovem.

O que há de sério ou científico neste "método"?

Wednesday, September 26, 2007

Porque não sou darwinista

1. O darwinismo nega o criacionismo;
2. Não sou macaco;
3. O darwinismo é uma bobagem;
4. O darwinismo é definitivamente uma bobagem;
5. Não sou descendente de macacos. De jeito nenhum;
6. Não há evolução das espécies;
7. A evolução das espécies é uma bobagem;
8. A evolução das espécies é definitivamente uma bobagem;
9. Eu creio em Deus;
10. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Ora, Deus não é um macaco. Logo, o evolucionismo é mesmo uma bobagem.

E tenho dito!

Sunday, September 23, 2007

Baixarel em Macumba

O MEC, que já havia aprovado a abertura de uma faculdade de astrologia, aprovou também a faculdade de umbanda, que já formou a primeira turma.

Bacharelado, ora pois. O licenciado certamente ficaria desempregado, porque nosso estágio atrasado de desenvolvimento espiritual e marcante interesse mercadológico não permitiria a um licenciado que ganhasse dinheiro dando aulas de umbanda em escolas de primeiro e segundo grau. Pelo menos, quero crer que não.

Se estiver interessado, trata-se da FTU, Faculdade de Teologia Umbandista, de São Paulo. Veja o site da FTU clicando no título deste post.

Verdade seja dita: se ainda há faculdades de teologia pelo país afora, coisa que já devia ter desaparecido há muito tempo, deve-se aceitar também faculdades de umbanda, quimbanda, espiritismo, reiki, islamismo, judaísmo, taoísmo, astrologia, tarot, numerologia, adoradores de saci-pererês, duendes e boitatás, parapsicologia, runas, quiromancia, bruxaria etc etc.

Tudo bem. Pode-se estudar a umbanda como folclore. Mesmo assim, é curioso que haja uma faculdade de folclore. Ou folclórica, melhor dizendo.

Eu gostaria mesmo é de cursar uma faculdade de vidência. Daria prá ganhar um bom dinheiro prevendo o futuro com qualificação superior, diplominha na parede, pós-graduação em vidência pós-moderna e mestrado em futurologia. O MEC aprovaria, com certeza. Daí teríamos, nós, os videntes graduados, um conselho com regulamentação e código de ética, que impediria os não-graduados (os videntes práticos) de exercer a profissão, e os graduados, de exercer a profissão em benefício próprio. Afinal, a vidência e a assistência social estão intimamente ligadas.

Ah, sim: a grande referência intelectual seriam as Centúrias, de Nostradamus.

E vamo que vamo!

Tuesday, September 18, 2007

O homem por trás da sofística

Havia, na Atenas do século V, um tal Cálias, um homem rico, que não poupava gastos para educar seus filhos. Diz Platão, na Apologia a Sócrates, que Cálias é o homem que mais gastou com os sofistas. O que ele investiu nos novos professores supera, segundo Platão, o que todos os outros, juntos, gastaram.

Não deve ter sido em vão. De um jeito ou de outro, o ensino deve ter dado resultado.

Tuesday, September 11, 2007

Capitalismo

E por falar em Cristianismo, escutei de um colega que a primeira instituição capitalista, antes mesmo do capitalismo, é a Igreja Católica.

Tenho de concordar.

A Igreja é mesmo uma empresa, e das mais eficientes: cobrava pelo perdão, por casamentos, missas, funerais; forjava relíquias, negociava investiduras, investia em terras e educação, para dizer o mínimo, e impede os padres de casar, para não dividir o tesouro.

Melhor ficar por aqui.

Thursday, September 06, 2007

Emily Rose

Depois de ouvir falar muito bem do filme "O exorcismo de Emily Rose", resolvi assisti-lo. Pensei que levaria sustos, ou que ficaria até um pouco impressionada, já que, como quase todo mundo, tive medo do diabo na infância.

Foi uma decepção completa. Não há uma única cena assustadora, nadinha mesmo. Propaganda enganosa.

Mas o pior é a clara mensagem de que o diabo realmente existe. Depois que Emily Rose sofre o que sofre, tem uma visão de Maria, aquela mulher que nunca foi tentada pelo diabo, dizendo à jovem que ela é uma santa (sim, uma santa) e que seu suplício tem a finalidade de mostrar ao mundo que o diabo existe e, por tabela, que deus existe.
Emily para de lutar contra o diabo, aceita-o no corpo e morre como um mártir. Mas, coitadinha, seu martírio não serviu prá nada, porque continuamos tão obtusos quanto sempre.

Puxa, deus precisava fazer tudo isso com a menina só prá provar que existe? E o diabo colaborou, mesmo depois que Maria revelou a verdade? Achava que ele era mais esperto. Pensando bem, era esperto mesmo. Sabia que não ia adiantar nada.

Triste mesmo é saber que esta é uma história real. Anneliese Michel (clique no título para mais informações) morreu em 1976, após meses convivendo com seis demônios dentro do corpo. Os padres, coitados, fizeram o impossível para retirar os demônios, inclusive aconselhando-a a não tomar os remédios recomendados pelos médicos. Era um problema espiritual, claro.

O filme é deplorável. Uma peça infeliz, que só contribui para alimentar a superstição, a ignorância e a má-fé.

Me incomoda que tenha sido recomendado.

Sunday, September 02, 2007

Roma

Após um longo período sem escrever, eis-me de volta. Até o final do ano as postagens serão irregulares, já que meu tempo virou abóbora. Em todo caso, vou tentar ser mais frequente até lá.

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Estou viciada em seriados e em filmes. Depois de Lost, assisti a Roma. Tudo o que se diz sobre a série é verdadeiro (violência, sexo e política). Bem, acrescentando a criação do Direito, Roma não era muito mais que isso, né? Mas a série, ficcional, é bem interessante. Aborda o período entre a ascensão de Júlio César e a queda de Cleópatra e Marco Antônio sob o poderio bélico e a astúcia de Otávio. Há personagens que são uma composição de algumas figuras femininas da história de Roma (como Atia, a mãe de Otávio, que tem muito mais a ver com a mãe de Nero, e Otávia, que parece estar mais próxima da filha de Otávio que da irmã). Mas o mais interessante da série é que a política de Roma deste período é contada a partir da história fictícia de dois gladiadores, Lucius Vorenus e Titus Pullo. O entrelaçamento da vida pública com a vida privada, sobretudo da vida privada de figuras anônimas, e a influência involuntária destas figuras nos rumos da política é inteligente e bem articulado. Vale a pena ver, mas é preciso ter estômago, especialmente na segunda temporada.

Infelizmente a série acabou. Mas é de se entender porquê: a partir da ascensão de Otávio, a política e a democracia romanas praticamente morrem.

Wednesday, August 29, 2007

Falácia culta

Dizem os analíticos, a respeito de Lacan, Baudrillard e alguns outros, que são charlatães, que apenas se utilizam de um jogo de palavras incompreensível, etc. Recentemente me ocorreu que há uma falácia aí, e que trata-se da falácia de acidente convertido.

O raciocínio é o seguinte: Baudrillard é incompreensível. Logo, não diz coisa alguma. Se observarmos bem, a idéia "Baudillard é incomprensível" significa "Baudrillard é incompreensível para mim". A premissa oculta no raciocínio é "Se Baudrillard é incompreensível para mim, então é incompreensível para qualquer um". Daí se segue que ele não pode dizer algo que tenha valor.

As premissas não autorizam essa conclusão de modo algum, mas a segunda, oculta, não passa de acidente convertido: acontece assim comigo, acontece assim com todo mundo.

Ow, isso é falácia!

Sunday, August 26, 2007

Kant e o senado brasileiro

Em "À paz perpétua" o filósofo Immanuel Kant diz que é possível a harmonia entre a moral e a política.

Como? Onde? Quando?

Outro doido, claro.

É simples: basta a publicidade. Se houver visibilidade em todos os atos dos políticos, no exercício de sua função, eles tendem a agir corretamente. Não por princípio necessariamente, mas por uma questão de sobrevivência.

E não é que o doido tem razão?

Sunday, August 19, 2007

Escrever certo?

Na capa da revista Veja, a manchete: "Como escrever certo".

Sim, sim. Isso é importante. Sem dúvida, muito importante. Principalmente para o redator da matéria.

Não sou doutora em português, mas ainda me lembro, dos meus tempos de graduação em Letras, que a gente deve aprender a escrever corretamente.

É que, se não estou enganada, o que qualifica, digamos assim, um verbo é um advérbio, e não um adjetivo. "Escrever", até onde meu parco conhecimento da língua pátria me permite afirmar, é um verbo. Logo, o que se segue deve ser um adjunto adverbial de modo.

Então me parece que o redator está absolutamente certo: é preciso aprender a escrever corretamente, né não?

Friday, August 17, 2007

Professor sofre (2): aborto

Estou lendo Ética Prática, de Peter Singer, com uma turma (parece que tenho uma certa inclinação para a polêmica, pela escolha do autor). Tudo ia muito bem quando o assunto era o abate de animais. Havia discordância, o que é natural, mas tudo ia muito bem. Então mencionei que Singer é a favor do aborto, respondendo a uma pergunta. Em seguida, houve a alegação de que é contraditório defender o aborto e, ao mesmo tempo, ser contra o uso de animais como cobaias e para alimentação. Dando seguimento ao assunto, apresentei os argumentos conservadores e liberais em relação ao aborto, e as refutações de Singer. Nem cheguei a apresentar propriamente o pensamento do filósofo acerca do problema, e já ouvi que ele é doido (repito, nem havia dito ainda o que ele de fato pensa), que discutir o aborto em uma disciplina de Ética não faz o menor sentido, que isto não tem nada a ver com o dia-a-dia e, pior, que é um absurdo para quem tem uma formação cristã OUVIR argumentos a favor do aborto. Para finalizar, pedidos para "não falar mais desse cara".

Considerando que eu ainda estava apenas apresentando argumentos favoráveis e contrários ao tema, sem emitir opinião, acho digna de nota a reação. Novamente, algum sistema frágil ficou momentaneamente em desequilíbrio. Para salvá-lo, só mesmo o "não quero ouvir isso".

Como diz o sofista Górgias, no Elogio de Helena, "Mas vamos, que eu mude o discurso de uma coisa para outra".

E estamos conversados: nãnãnãnãnão!

Tuesday, August 14, 2007

Professor sofre (1): a arte

Desconfio que a arte, assim como a política, o futebol e a religião, também tem fanáticos. É que disse outro dia, em sala de aula, que Platão considerava a arte inútil. A reação não apenas foi incompreensível (já que estava apresentando uma opinião), mas também hostil. Expliquei a posição de Platão, esclareci que nossa cultura associa valor a utilidade, deixei claro que "ser inútil" não é o mesmo que "não ter valor" (ainda que possa ser assim em Platão), mas não adiantou. Imediatamente surgiram defensores apaixonados da arte, que consideram a filosofia uma sandice, um descalabro, uma bobagem. Sobretudo, houve quem se sentisse pessoalmente atingido. Mas ora. Eu não ataquei a mãe de ninguém, não falei que Deus não existe, não disse que Lula é um molusco. Mesmo assim, ameacei o mundo de alguém. Incompreensivelmente, porque é só uma opinião.

O caso já ficou no passado, mas continuo espantada. Ainda não tinha percebido que existe também a religião da arte, ou a arte da religião.

Saturday, August 11, 2007

Extremófilo

Um nepalês, Rajesh Tajpuria, cortou a mão direita para oferecê-la à deusa Kali.

A deusa representa o poder, o que torna o fato mais fácil de ser entendido.

Tajpuria tem 23 anos, o que também ajuda a entender.

Só não entendi ainda o que deusa vai fazer com a mão.

Thursday, August 09, 2007

É vero

Encontrei por aí:

"Há três fases na vida de um homem: ele acredita em Papai Noel, ele não acredita em Papai Noel, ele é Papai Noel."

Ignoro a autoria.

Tuesday, August 07, 2007

O Mundo sem nós

O jornalista Alan Weisman publicou recentemente o livro "O mundo sem nós". Fiquei me perguntando: o que realmente aconteceria em um mundo sem nós?

Prá início de conversa, não haveria redes. Sem redes, não haveria pescadores. Sem pescadores, os peixes continuariam no mar ou nos rios, bem sossegadinhos. Nada de mal.

Também não haveria gravatas, caso não inventassem uma sem nós. Mas também não há prejuízo algum aí.

Os gregos teriam um mito a menos: aquele que gerou a idéia do nó górdio. Sem problema.

Não haveria forcas, ou enforcados. Nem chicotes.

Ninguém teria de se preocupar em desfazer um nó, seja real, seja metafórico ou metafísico.

Não haveria costura ou bordado.

Não haveria franciscanos.

Não haveria âncora, aidaime ou anzol.

Pensando bem, quem precisa de nós?

Sunday, August 05, 2007

Problemas de Tradução

Recentemente presenciei uma divergência a respeito da tradução do De Magistro de Agostinho. Em certa passagem, a tradução dizia: palavras são sinais.

Então. Um entendido em latim, com o texto original ao lado, objetou que a tradução está equivocada. Como o original traz verba signa, a tradução correta seria sinais são palavras.

Tudo bem. É só lembrar de Aristóteles: como se trata de uma proposição categórica do tipo A, dizer "A é B" não é o mesmo que dizer "B é A" (já que no primeiro caso o sujeito é particular e o predicado é universal, e no segundo acontece o inverso). Isso muda tudo, claro. Bem, não tanto, mas muda alguma coisa.

Divertido foi o que escutei em seguida, de outra pessoa: "Ah, mas agora complicou tudo! Eu tinha entendido que palavras são sinais, e agora você vem me dizer que os sinais é que são palavras!"

Sarcasmo ou não, o fato é que a vida acadêmica pode até ser divertida, quando se aprende a rir dela.

Friday, August 03, 2007

Alguém toca?

Imagine que alguém tenha dinheiro sobrando.

Imagine que este mesmo alguém quis aprender a tocar um instrumento musical.

Imagine que escolheu comprar um saxofone, sei lá porquê, e nem chegou a tentar. Digamos, por falta de tempo.

Imagine que esta pessoa resolveu dar o saxofone para outra pessoa, que também não sabe tocar.

Imagine também que esta segunda pessoa nem chegou a tentar. Ou, se tentou, desistiu logo.

Imagine que esta segunda pessoa resolveu dar o saxofone, nada baratinho, para uma terceira pessoa, que também não sabe tocar.

Imagine que esta terceira pessoa ficou feliz, mas não soube o que fazer com o instrumento.

Imagine que esta terceira pessoa resolveu dar o saxofone para uma quarta pessoa que também não sabe tocar saxofone.

Imagine agora que esta quarta pessoa passou o saxofone para uma quinta pessoa, que também não sabe tocar.

Imagine que essa quinta pessoa guardou o saxofone bem guardadinho e não pretende dá-lo a ninguém.

Para quebrar a corrente, talvez.

Agora imagine que isso tudo aconteceu de verdade, exatamente desse modo, e que esta quinta pessoa sou eu.

Será possível?

Vai continuar guardado. Nem adianta pedir.

Wednesday, August 01, 2007

Antonioni e Bergman

O cinema perdeu Miguelangelo Antonioni e Ingmar Bergman. Na verdade, já tinha perdido há mais tempo, porque já estavam bem idosos. De qualquer forma, "Blow up", de Antonioni, e "O Sétimo Selo", de Bergman, são duas obras-primas. Cinema para se ver e rever.

Tuesday, July 31, 2007

Pesquisa de campo que nada!

Estou atrasadíssima com os posts deste blog. É que nos últimos meses o tempo ficou escasso. Mas logo resolvo isso.

Na semana passada, em uma aula do doutorado, um colega disse ao professor que está escrevendo sobre a proximidade entre as culturas japonesa e grega. Lá pelas tantas, disse que foi ao Japão fazer uma pesquisa de campo. Isso mesmo: foi ao Japão para fazer uma pesquisa de campo.

Puxa, eu não sabia que o Japão era logo ali.

Também não sabia que para se fazer um trabalho teórico desta natureza era preciso ir ao Japão.

Estou perdida. O que faço com minha pesquisa sobre os sofistas, que viveram no século V a.C.?

Terei de inventar uma máquina do tempo?

Vai ver que "pesquisa de campo" virou sinônimo para "sou besta".

Sunday, July 29, 2007

O fantasma de Dean Martin

Kevin Spacey gravou dois duetos com o falecido ator/cantor/comediante Dean Martin e, veja só, sentiu a presença do morto no set de gravação!

Não é lindo?

Lá pelas tantas, Spacey gritou: "Ele está aqui, ele está aqui!"

Puxa. Eu também quero.

Mas sem pinga não dá.

Friday, July 27, 2007

Força de vontade zero

Uma mulher americana, que fuma há 23 anos, resolveu parar. Desesperada, após inúmeras tentativas infrutíferas, pediu para ir prá cadeia. Acha que, se ficar presa alguns dias, tudo se resolve.

Coitada. Bastava virar budista.

A polícia negou o pedido. Claro.

E ela continua fumando. Claro.

E ganhou fama por um dia. Claro.

Wednesday, July 25, 2007

Proibido morrer

Na ilha grega de Delos, no Egeu, estava o templo dedicado a Apolo; ali haviam nascido os deuses Apolo e Ártemis, filhos de Zeus com Letho. Era, portanto, um lugar sagrado. Tão sagrado, que ninguém estava autorizado a morrer ali. Para garantir que isso não acontecesse, as mulheres grávidas, os idosos e os doentes eram retirados da ilha, para morrer em outro lugar, se fosse o caso.

Suponho que também não havia crimes por lá, e que ninguém morria de algum mal súbito. Se acontecesse, aposto que os gregos explicavam o fato dizendo que era a vontade de Zeus.

Fazer o quê, né?

Tuesday, July 24, 2007

O homem da montanha

Em 572 a.C. o estratego ateniense Sólon retirou-se da vida pública. As reformas que havia feito resultaram no surgimento de três partidos políticos em Atenas: o da Planície, conservador, chefiado por aristocratas latifundiários; o da Costa, dominado por ricos comerciantes e armadores e o partido da Montanha, dos trabalhadores urbanos e rurais.

Um dia o chefe da Montanha , Psístrato, se apresentou à Assembléia alegando ter sido ferido por inimigos políticos e pedindo, para sua proteção, 50 homens armados.

A lei proibia que alguém tivesse guarda particular, para impedir pretensões revolucionárias.

Chamaram Sólon, para ajudar a resolver o problema. Sólon alertou os atenienses das consequências de atender ao líder da Montanha, mas como ele pertencia ao partido da Costa, e tinha contra si também a Planície, a intervenção de Sólon serviu apenas para dar mais força a Psístrato, que obteve autorização para reunir e armar 400 soldados, em vez dos 50 solicitados.

O resultado imediato foi o previsto por Sólon: Psístrato tomou o poder e tornou-se tirano. Seu governo sobre Atenas durou até sua morte, de causas naturais, 19 anos depois.

Apesar do modo como havia chegado ao poder, Psístrato não foi mau governante. Deu continuidade às reformas de Sólon, submeteu-se ao Senado e à Assembléia e conseguiu fazer uma reforma agrária tão bem planejada que perdurou por muito tempo e não chegou a desagradar nem aos latifundiários, nem aos trabalhadores.

Sunday, July 22, 2007

Teoria maluca sobre Lost (5): Êxodo

Assisti, ontem, ao último episódio da terceira temporada de Lost. Decepcionante. Me deixou com a sensação de total perda de tempo.

Considerando que são três temporadas de cerca de 24 episódios, com uma hora de duração cada um, a perda é irreparável.

Mas isso é normal, viu? Com Lost, nunca podemos saber se estamos assistindo a um seriado genial, ou o contrário. Tudo é possível.

Well. Como dizia o bom e velho Lacan, há que se inventar.

Inventemos, então.

Formulei uma teoria também sobre o final da terceira temporada, mais para me convencer de que vale a pena continuar assistindo à série, que por qualquer outra razão.

A teoria é a seguinte: temos a impressão de que os sobreviventes do vôo 815 saem da ilha ao final da terceira temporada. Ledo engano. Se observar bem, da euforia com a possibilidade de sair da ilha, passamos para um Jack em outra vida, bêbado e drogado, querendo voltar para a ilha. Separando as duas cenas, temos o seguinte: de um lado, os sobreviventes conseguem contactar um possível navio de resgate, mas a história não continua daí.

A cena que sugere uma continuação, a de um Jack infeliz, na verdade é apenas uma visão de Desmond que, depois da morte de Charlie, fica sem ter o que fazer e começa a prever o futuro em outra direção.

O navio de resgate é mesmo do inimigo, aquele povo que aterrorizava a vila onde o Ben Linus garoto vivia. Quando Ben mata as 40 pessoas de sua "tribo", de algum modo consegue afastar os inimigos da ilha. Controlando a comunicação, impede que ela seja localizada.

Isso vai muito bem até o vôo 815 chegar à ilha, por obra e graça de Desmond.

Quando os inimigos chegarem, na quarta temporada, os sobreviventes do vôo 815 serão obrigados a se unir aos Outros contra o inimigo comum.

Desmond vê o futuro de Jack e de alguns outros, caso deixem a ilha, e decide interferir, impedindo que a comunicação com o navio resgate seja concluída, o que evita que os inimigos encontrem os 40 peregrinos.

Os seres vivos da ilha, até agora, são:

- os sobreviventes do vôo 815;
- os Outros (Ben e seus comandados);
- os Outros dos Outros (os aborígenes, inimigos naturais dos invasores da Dharma, aqueles que andam descalços e moram em cabanas);
- os Outros dos Outros dos Outros (alguns dos sem-sapato saíram da ilha, no passado, para buscar ajuda contra os Outros. Ao tentar voltar, não conseguiram encontrá-la, porque Ben bloqueou a comunicação).
- Danielle, a fauna e Jacob.

Ixi.

Não sei se quero entender isso não.

Friday, July 20, 2007

Teoria maluca sobre Lost (4): Kharma

Esqueci, ao falar sobre os nomes dos personagens de Lost, de um especialmente importante: Dharma.

Dharma refere-se a Kharma (mantenho o "h"). Isto significa que o projeto Dharma é o Kharma dos sobreviventes do vôo 815. E que estão todos na Matrix.

E é só.

Thursday, July 19, 2007

Teoria maluca sobre Lost (3): a trama

Como disse em post anterior, tenho uma explicação para os mistérios de Lost:

A ilha é a caverna de Platão: os sobreviventes estão acorrentados (daí o nome Locke: locked). Como estão na caverna, e não conhecem o que há além, julgam que o que vêem é real. A fumacinha que ataca Eko duas vezes é a sombra na parede da caverna: julgam que está viva porque se move. Os animais são monstros para eles, porque tudo é desconhecido. A realidade (e a verdade) pertence aos Outros e ao mundo fora da ilha, mais imaginado que vivenciado realmente.

Ben Linus é Sócrates: ele conhece a verdade, e está condenado à morte. Quando é capturado pelos homens que vivem na caverna, os sobreviventes, eles quase o matam, por não acreditar nele.

Jack é Platão, o discípulo de Sócrates que tenta livrá-lo da morte: Jack é o médico que opera Linus, aparentemente sem sucesso.

Locke destrói o submarino, porque sente-se confortável na caverna; não quer sair dela. A série de explosões sem fim é o fogo que projeta sombras na caverna. Mikhail é Diógenes, o cínico. Enquanto faltava a Diógenes a roupa, falta a Mikhail um olho. Tudo a ver.

Lá fora, prepara-se uma peça de teatro.

Bem, minha teoria acaba aí. É maluca, e não tem nada a ver com o seriado. Mas como o seriado é maluco mesmo, estamos em casa.

Tuesday, July 17, 2007

Teoria maluca sobre Lost (2): os filósofos

Qual é exatamente a correlação entre John Locke, o caçador, e John Locke, o filósofo, ainda não sei. Locke é um filósofo empirista. Isso não significa ver para crer, mas passa perto. John Locke, a personagem, primeiro acredita em tudo e todos, depois duvida, quando decide não digitar os números e testar o programa, depois acredita de novo. Se Locke perde a fé na humanidade, porque está preso ao nome do pai, ainda assim passa a acreditar "na ilha".

Danielle Rousseau é a personagem mais fácil de relacionar com o filósofo de quem leva o nome. Rousseau, o filósofo, é o pai do romantismo e da idéia do bom selvagem. Danielle é o bom selvagem: livre, solitária, independente, forte. Ela é parte da ilha; isto é, é natureza. A civilização está distante dela e seus contatos com outros de sua espécie são apenas ocasionais. Danielle é romântica (no sentido da escola de Rousseau): o que a faz sobreviver é o sonho/ideal (no caso, reencontrar a filha). A procura de Danielle pela filha também tem a ver com o filósofo Rousseau: o filósofo abandonou os cinco filhos, após o nascimento, na roda dos enjeitados. Mais tarde, arrependeu-se, e tentou encontrá-los, sem sucesso. Ele dizia que, se mantivesse os filhos, jamais seria Rousseau; seria apenas Jean-Jacques. Danielle só é o que é (o índio com quem Robinson Crusoé trava contato, na ilha de Defoe) porque perdeu a filha e precisa encontrá-la. Enfim, os sobreviventes de Lost são Robinson Crusoé e Danielle é o índio, o bom selvagem.

Deixarei Desmond David Hume para outra ocasião.

Sunday, July 15, 2007

Teoria maluca sobre Lost (1): os nomes

Durante este mês de julho tive uma série de problemas com o computador, que não parecem ter chegado ao fim. Acabei indo para a TV, assistir às temporadas 2 e 3 de Lost.

Não perdi nada. É realmente muito boa a série. Tanto, que até resolvi criar minha própria teoria sobre o mistério da ilha, ignorando por completo a missão do projeto Dharma de salvar o planeta.

Observe os nomes. À parte os nomes bíblicos (Benjamin, Jacob e Isaac), há três que são de filósofos: John Locke, Danielle Rousseau e Desmond David Hume.

Jack é também Shephard, pastor. Obviamente, é ele quem cuida dos demais, e que pode guiá-los para fora da ilha.

Também há Boone, de Daniel Boone, mas vou deixar esse personagem de lado. Já virou história.

Talvez a Kate também tenha nome de filósofo: Austin. Ou talvez tenha a ver com Jane Austen. Quem vai saber?

Penelope, a amada de Desmond, é obviamente a Penelope de Ulisses. Mas falo sobre isso mais tarde.

Sawyer é o nome daquele garotinho órfão de Mark Twain, cheio de expedientes, que vive de pequenos roubos e quer parecer pior do é.

E ainda Eko, cujo nome lembra a ninfa da mitologia grega, Eco, que perseguia Narciso. Eco, a ninfa, exauriu-se pelo desprezo de Narciso e tornou-se apenas voz, e uma voz que é imitação, que só repete. Eko, a personagem, de início não fala. Enquanto Eco, a ninfa, é só voz, Eko, o nigeriano, não tem voz. Mas Eko é um sujeito forte, que não teme a morte. Por isso é capaz de enfrentar a fumaça. Quando muda, o medo da morte que a crença traz o faz sucumbir, no segundo confronto com a fumaça. Eko, o nigeriano, se exaure na crença, sem obter o que queria.

E há ainda Linus, nome de cientista. Benjamin é filho de Jacó, que era filho de Isaac. Ben é o líder; Jacob é o chefão e Isaac... bem, Isaac é aquele curandeiro que aparece na segunda temporada, lembra?

Não entendeu nada? Deixa prá lá. Pule este post.

Thursday, July 12, 2007

Lana Caprina (2): a Ilíada e a Odisséia

Você sabe quantos versos têm a Ilíada e a Odisséia?

Não? Como pode ser?

Ofereço-me para suprir esta falta:

A Odisséia tem 13.000 versos e a Ilíada tem 17.000.

Pronto! Problema resolvido.

Agora você não precisa pensar mais nisso.

Tuesday, July 10, 2007

Mentiras platônicas

Conta-nos Diógenes Laércio que, assim que Platão concluiu o diálogo Lísis, seus discípulos o levaram para Sócrates, que o leu e disse:

Por Héracles! Quantas mentiras esse rapaz me faz dizer!

Injustiça. Não fosse por Platão, Sócrates seria menor.

Friday, July 06, 2007

Acidente nos jogos olímpicos

Atenas, século V a.C. Durante os jogos olímpicos, um arqueiro acertou, por acidente, um rapaz que assistia aos jogos, e o matou.

Péricles, o chefe ateniense encarregado de encontrar o culpado e puni-lo, ficou bastante confuso. A quem deveria culpar?

Para não errar, e talvez para não perder a fama de homem justo, mandou chamar seu mestre Protágoras, o sofista.

- A quem devo responsabilizar pelo acidente?, teria perguntado ao sofista.

Protágoras tratou logo de sair de cena:

- Se perguntar ao médico quem é o culpado, ele dirá que a flecha matou o jovem. Se perguntar à autoridade política, dirá que o culpado é o organizador dos jogos, por ter permitido o acidente. Mas, se perguntar ao juiz, ele dirá que o culpado é o arqueiro, porque foi um ato seu que ocasionou a morte do rapaz. Então, decida quem decidirá.

Ninguém pode dizer que Protágoras não fosse esperto. Melhor não se envolver.

Brincadeiras à parte, a resposta de Protágoras ilustra bem o relativismo de que os sofistas (até onde se possa saber) são os autores: a conclusão depende do critério adotado. Ou, se se quiser, do observador.

Wednesday, July 04, 2007

Mentira de vendedor

Os persas, segundo Heródoto, não se dedicavam ao comércio porque acreditavam que a prática não era boa para o caráter: ensina a mentir.

É a pura verdade, pelo menos quando se trata de vendedor de peixes.

Quando me venderam o acará, me garantiram que ele convivia bem com os outros peixes. Mentira. Ou melhor, verdade, porque o acará é um peixe manso. O que esqueceram de dizer é que os outros não são.

No fim das contas, não se pode criar peixes de espécies diferentes em um mesmo aquário. Sobretudo, não se pode acreditar em vendedor.

Até o betta, um peixe sabidamente violento, me disseram que podia colocar no mesmo aquário que os outros. De fato, ele não atacou os demais. Era menor, e ficou com medo. Mas descobri a tempo que ele não pode viver em aquário grande. Morre afogado, olha só.

O único peixe eterno é o guppi. Comecei com dez, e já não sei o que faço com tanto peixe.

Monday, July 02, 2007

Mistério resolvido

Japoneses não são piranhas. Nem canibais, até onde posso saber. Mas estou chegando à conclusão de que não há nada mais violento que um peixinho de água doce. Depois, é claro, dos peixes de água salgada.

O mistério do aquário foi resolvido: ao lavar o filtro, encontrei uma espinha de peixe nele. Uma só, mas estava lá, presa ao filtro.

Sou obrigada a concluir que o telescópio morreu durante a noite e os japoneses se alimentaram do coitado. E sem deixar vestígios, exceto pela espinha presa ao filtro. O surpreendente é que os japoneses são do mesmo tamanho do peixinho que sumiu.

Como é que pode?

É claro, prefiro acreditar que ele já estava morto quando virou sopa.

Sunday, July 01, 2007

Mistério no aquário

Por uma destas circunstâncias da vida, tenho dois aquários. Esta é, de longe, uma experiência terrível: um peixe sempre morre para que eu aprenda algo novo. Já tive um acará disco, um peixe absolutamente doce, que um telescópio colorido adorava atacar. Tive de trocá-lo. Errei ao trocar por outro telescópio. Ele brigou com três japoneses, e acabou morrendo. Mas ficaram no aquário os três japoneses, um limpa-vidro, quatro cascudos e dois telescópios pretos (estes, sim, bem mansos).

Na semana passada aconteceu o impensável: um dos telescópios pretos desapareceu. Sumiu, evaporou. Assim, sem deixar rastro. Telescópio não é peixe que salta do aquário, como os gupis (até onde eu saiba), mas assim mesmo revistei todos os cantos ao redor do aquário, e dentro dele. Nada.

Não, não tenho gatos. É claro que também não foi roubado, e que não foi retirado do aquário.

A última possibilidade é que tivesse morrido no meio da noite (o desaparecimento ocorreu entre as onze da noite e as oito da manhã). Mas, mesmo que os outros peixes tivessem se alimentado dele, haveria um vestígio qualquer, e não havia nada. Nem um pedacinho sequer, prá contar a história. O peixe simplesmente desapareceu.

O que poderia ter acontecido?

Saturday, June 30, 2007

Meu reino por um cavalo

Descobri por que Ricardo III, na peça de Shakespeare, grita ao final: "Meu reino por um cavalo! Meu reino por um cavalo!"

Não, ele não está desesperado para encontrar um cavalo e fugir da morte certa.

Não, de jeito nenhum.

Nem mesmo está disposto a entregar seu reino para garantir a vida.

Não, não.

Também não é o caso de Ricardo III se aperceber, finalmente, de que o poder, pelo qual matara e torturara, não é nada diante da iminente perda da vida.

Absolutamente, não.

O que Ricardo III quer dizer é bem mais simples: ele apenas se lembrava de como Dario (ou Xerxes) conquistou o poder: fazendo seu cavalo relinchar na hora certa.

O caso todo é de uma simplicidade atroz: quando da morte de Cambises, filho de Ciro (que era filho de outro Cambises), não havia sucessor natural. Então decidiu-se que seria rei aquele cujo cavalo relinchasse primeiro.

É sério.

Bem, Dario (ou Xerxes) deu um jeito para que seu cavalo fosse o primeiro a relinchar.

Como ele fez isso, não conto não. Leia Heródoto.

A referência? História III, 85.1 e seguintes: "Acerca do poder real, deliberaram que aquele cujo cavalo primeiro relinchasse ao nascer do sol, quando todos eles estivessem montados, nos arredores da cidade, esse deteria nas suas mãos o poder real".

Wednesday, June 27, 2007

Hipomaníacos

Você sabe o que é hipomania? Não?

Heródoto explica: trata-se de mania por cavalos, de que os persas padeciam.

Deve ter sido por isso que eles conquistaram a Tessália tão facilmente.

Monday, June 25, 2007

Saída pela tangente

Estou lendo Heródoto, historiador grego, considerado o pai da história. Infelizmente, só encontrei os livros 1 e 3. É pena, já que são nove, ao todo. Mas é um começo.

Diz Heródoto (História I, 137-1) que os persas se orgulhavam de nunca ter acontecido, entre eles, de alguém matar o pai ou a mãe. Este tipo de crime era considerado inadmissível, por ser contrário à natureza. Um pai jamais poderia morrer pelas mãos do filho.

Amor filial? Respeito às tradições? Obediência à lei? Receio da danação eterna?

Que nada.

O segredo, segundo o historiador, está na investigação do crime: quando acontecia de alguém matar o pai ou a mãe, a investigação - criteriosa, sem dúvida - revelava que o assassino era, na verdade, filho ilegítimo ou suposto.

Como dizia o sábio Shakespeare, "tudo está bem quando bem acaba".

E Júlio César conclui: "amém".

Sunday, June 24, 2007

Purgatório para maus tradutores

A prática dos monges medievais de alterar os textos gregos que traduziam é bem conhecida. Esta é uma das dificuldades com os livros de Aristóteles: há várias passagens cuja autenticidade é motivo de disputa.

O curioso é que os monges eram ameaçados com o purgatório, caso fizessem alterações no texto ou suprimissem passagens. Mesmo assim, a prática se manteve.

Vai ver que monge não acredita em purgatório.

Saturday, June 23, 2007

Obesos e famintos

Li, em algum lugar, que há mais obesos no mundo que famintos.

Ué, há mais gente nos Estados Unidos que em toda a África?

Friday, June 22, 2007

Articulações da alma

Definitivamente, Rousseau e Platão são filósofos muito divertidos. Veja esta passagem do Timeu:

"Os ossos que continham a alma, ele [o deus] envolveu em menor quantidade de carne, e os que por dentro eram menos animados, com camada espessa e abundante. Contudo, nas articulações dos ossos, onde a razão não via necessidade de acumular muita carne, colocou menos, para não dificultar a flexão dos membros nem deixar enrijado o corpo e com os movimento duros, e também com o propósito de evitar que a rigidez resultante da presença de muitas camadas superpostas de carne provocasse insensibilidade do corpo, enfraquecesse a memória e tornasse obtusa a inteligência" (Timeu, 74a).

Então está decidido: o segredo da inteligência é a pouca carne. Por isso os bois são bois e as vacas são vacas.

A teoria só não é capaz de explicar porque um esqueleto não tem inteligência, mas isto é apenas um detalhe.

Thursday, June 21, 2007

Alpinista intelectual

E por falar em Timeu, Sócrates afirma, a respeito desta criatura:

"O nosso Timeu (...) não alcançou os mais altos picos do conhecimento filosófico" (Platão, Timeu, 20a).

Puxa, ainda bem!

Nos altos picos o ar é rarefeito.

Tuesday, June 19, 2007

Atlantidades

Ah, Platão! O arauto (não o pai, ou o criador) das mais belas mentiras que a humanidade já contou.

É verdade que ele repete mais do que inventa, mas é sem dúvida o grande panegirista da vida filosofante bem morrida.

Ficou confuso? Liga não. É que a coisa é complicada mesmo.

Bem, vamos ao que interessa. Já que estou falando de Atlântida, fui buscar o livrinho para bem citar a passagem sobre a cidade perdida. Na verdade, Platão faz referência a Atlântida no Timeu e no Crítias, mas vou ficar com o Timeu. A passagem é longa demais, então não vou copiá-la aqui. Procure no Timeu, a partir de 21a.

Trata-se de um diálogo entre Sócrates, Timeu e Crítias, em que este relata o que ouviu de seu avô Crítias, que lhe contara a história relatada por um tal Sólon.

Confuso? Então explico novamente: Sólon é um reformador político do século VI a.C., (aquele que vestiu os soldados de mulheres para ganhar uma guerra, lembra?). Pois é, Sólon, um dos sete sábios do passado, era parente de um tal Drópides, a quem contou sobre Atlântida. O tal Drópides contou a história ao filho, Crítias, que a contou ao neto, o Crítias do diálogo, que a conta a Sócrates, que já havia feito referência a Atlântida.

Ainda está confuso? Sossegue. Nada na vida é fácil.

O importante é que a história contada por Platão foi contada por Crítias a Sócrates, que já a contara antes ao próprio Crítias, que a ouvira de seu avô Crítias, que a ouvira de seu pai Drópides, que a ouvira de Sólon, que jurava de pé junto ser tudo verdade.

Continua confuso?

Então faça o seguinte: esqueça Atlântida. Garanto que nem vai sentir falta.

Monday, June 18, 2007

Que língua falavam os Atlântidas?

Não sei, e na verdade nem quero saber. Seja o que for, será mais uma dessas bobagens que as pessoas inventam, esquecem que inventam e começam a achar que é verdade só porque é interessante, ou porque explica alguma coisa.

De todo modo, encontrei um site em que há um estudo sobre a possível língua falada pelos habitantes de Atlântida. Não tive paciência para ler tudo, porque é mais uma dessas inutilidades complexas, então não cheguei a saber que nome fictício o autor do estudo dá à suposta língua que eles falavam.

Como é que pode? Tá certo que Schliemann encontrou Tróia quando todo mundo achava que era só lenda, mas daí a estudar a língua falada pelos atlântidos antes de existir qualquer vestígio da existência dessa civilização é um pouco demais, não é não?

Mas vamos lá. Também tenho uma tese sobre o assunto.

Platão se referiu, no Timeu, a uma cidade que teria sido destruída em tempos remotos. Aceitando que ele fazia menção à história e não a uma lenda, devemos aceitar também que Atlântida era grega. Portanto, a língua falada por este povo devia ser uma variante primitiva do grego, talvez com uma influência do dialeto da Creta minóica, ou do copta (por causa do comércio com o Egito, via Creta), ou ainda da língua dos hititas (provável origem dos pelasgos, os primeiros povos a habitar Creta). Ou talvez ainda tenha algo a ver com os fenícios, sei lá. Eles moravam perto de Atlântida e gostavam do mar. Logo, devem ter ensinado os atlântidas a escrever. E a falar.

Bem, fosse como fosse, até agora tudo o que sabemos sobre o assunto não passa de blá-blá-blá. Rebuscado, mas é só blá-blá-blá. Como este site.

Saturday, June 16, 2007

Crise de criatividade

O conhecimento profundo que tenho de minha total ignorância no que diz respeito à magia me leva a supor que, na novela Eterna Magia, as duas irmãs se engalfinharão em uma briga de raios ultravioleta, ao final. À distância, claro, porque toda magia que se preze deve ignorar a física.

Não acompanho a novela, mas nem é preciso. Basta assistir às chamadas e já se tem toda a história: duas descendentes de bruxas disputam o mesmo homem, e isso é tudo. Ao final, provavelmente depois da briga de raios, um grande segredo, guardado a sete chaves, solucionará todos os conflitos.

Alguém se atreve a apostar comigo?

Fico pensando o que fazem esses autores de novelas, filmes etc., que não lêem Aristóteles. Tudo o que é preciso saber para contar uma boa história está na Poética: a trama deve ter contato com a realidade; as personagens devem ser pessoas do dia-a-dia. Caso contrário, não há identificação do público. Mas não. Lá vem estórias de bang-bang com personagens e situações absolutamente irreais; histórias de bruxas com sobrenome irlandês, anjos, reencarnação, mutantes e bobagens de todo tipo.

Ow, assim não dá. Até a fantasia tem de ser bem contada.

Thursday, June 14, 2007

Tirania autêntica

Os textos de Aristóteles são repletos de comentários sobre personalidades e eventos de sua época e de épocas passadas. Na Política, 1277a, ele faz menção a um tirano, Jáson, que dizia sentir-se faminto quando não exercia a tirania.

É vero. Em uma tirania, quem se alimenta bem é o tirano.

Tuesday, June 12, 2007

Cavalos e... cavalos

Górgias de Leontini, o sofista, teria dito que os pilões são objetos feitos pelos artífices de pilões, e os cidadãos de Larissa são feitos pelos governantes (Aristóteles, Política, 1276a).

Larissa ficava na região da Tessália, e os tessálios não faziam outra coisa senão cuidar de cavalos. Esta pode ser a razão do comentário, mas o curioso é que, segundo reza a lenda, Górgias morreu exatamente nesta cidade, com cerca de 120 anos.

Talvez tenha chegado a essa idade porque, segundo os contemporâneos que o citam, Górgias passou a vida rindo de tudo que acontecia à sua volta. Pode-se incluir aí o apreço dos tessálios por cavalos.

Friday, June 08, 2007

Morre Richard Rorty

Morreu hoje, aos 75 anos, um dos principais filósofos da atualidade, Richard Rorty.

Vá pela sombra, Rorty.

Thursday, June 07, 2007

Natureza humana

E por falar em natureza a serviço do homem, eis a afirmação de Aristóteles:

"Se, portanto, a natureza nada faz sem uma finalidade ou em vão, necessariamente a natureza fez todos os animais por causa do homem" (Ética 1256b-24)

Tuesday, June 05, 2007

O fantasma de Ana Bolena

Lembra-se de Ana Bolena, a segunda das seis esposas de Henrique VIII, mãe da rainha Elizabeth I, acusada de adultério e executada em 19 de maio de 1536, para que o rei pudesse se casar novamente?

Pois é, ela morreu mesmo, e virou fantasma. Está assombrando os ingleses até hoje, em uma casa em Norfolk, Blickling Hall.

Por que exatamente esse lugar? Ah, isso é fácil: Brickling Hall foi construída exatamente no mesmo lugar da antiga casa em que Ana viveu, antes de se tornar rainha.

Ela chega todo ano, no aniversário de sua morte, em uma carruagem conduzida por cavalos sem cabeça e cocheiro sem cabeça (Ana foi decapitada e obviamente ainda não superou o trauma).

Prá que tudo isso, né? Devia, isto sim, atormentar o marido no além.

Será que Elizabeth foi visitá-la?

Sunday, June 03, 2007

Progresso moral (2)

No post anterior, comentei que não concordo com a idéia de que há sempre um progresso moral da humanidade. Concordo que haja, mas não que haja necessariamente, de modo linear, sem retorno à barbárie.

Hoje, ocorreu-me que deixei escapar um ponto importante. Para Kant, a natureza obriga, mais dia menos dia, à paz perpétua. A coisa toda é tão óbvia, que fiquei por entender o cochilo. Trata-se, tão somente, do impulso natural à auto-sobrevivência. Agora o argumento já faz mais sentido para mim: numa situação de guerra, corre-se o risco de aniquilamento. Diante desta possibilidade, a natureza se encarrega, por via do instinto de auto-sobrevivência, de colocar os homens (as nações, no caso) em disposição favorável à paz, mesmo que isto signifique a renúncia a uma certa liberdade de ação. Fala mais não o interesse imediato, mas a segurança.

Bem, entendi. Não tenho como escapar deste argumento, exceto pela afirmação de que ele (o argumento) supõe que os homens ajam racionalmente: que, diante do possível aniquilamento, sejam capazes de fazer um cálculo de consequências elementar e que dele resulte a escolha pelo melhor.

Mas será assim, necessariamente?

Há algo mais contingente que a natureza humana?

Continuo matutando sobre o assunto. Talvez consiga encontrar um ponto fraco na tese, porque ela não me satisfaz.

Se não, talvez pare de brigar e me renda à lógica kantiana.

Friday, June 01, 2007

Progresso moral (1)

A tese positivista (ainda que avant la lettre) de que a humanidade caminha sem desvio para o progresso moral, penso, tem a ver com a afirmação de Aristóteles de que todas as coisas tendem naturalmente para o melhor. Esta tese é fundamental para Hegel, mas é em Kant que me interessa particularmente. Em A Paz Perpétua, que já mencionei aqui várias vezes, há uma longa passagem sobre o modo como a natureza percorre esse caminho. Um dos argumentos em favor da paz duradoura entre os Estados é que, se não a aceitarmos agora, mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a aceitá-la. Claro, se recusarmos a idéia de paz duradoura, o único resultado possível é a guerra. A guerra é insuportável, porque gera consequências de toda ordem. Logo, se houver uma guerra duradoura entre as nações, elas serão forçadas a considerar novamente uma negociação que resulte na paz, mas que tenha em vista a manutenção deste estado.

Certo, mas a premissa que está por trás desta afirmação é a de que o homem tende a ser mais racional. Isto é, a humanidade tende ao progresso moral. Por isso, diz Kant, falar em paz perpétua não é utopia.

Minha dificuldade é justamente esse pressuposto. Não se pode negar que os Estados, as leis e a humanidade estão mais racionais que no passado. Defender esse ponto de vista é fácil: basta citar o que as gerações anteriores consideravam normal e que julgamos hoje ser inaceitável (como a tortura, que na Idade Média era o único meio legítimo de extrair uma confissão; como o trabalho infantil, o trabalho escravo, o papel da mulher na sociedade etc etc). Ainda existe tortura? Claro, mas hoje ela é um crime. Ainda existem assassinatos por ciúme? Claro, mas quem é capaz de defendê-los? As leis estão sim mais racionais e, sob certos aspectos, nós também (é claro que isso não tem nada a ver com ciência e misticismo, o que não me interessa discutir agora).

Por outro lado, isto significa dizer que não é possível o retorno à barbárie. Isto é, que a humanidade caminha inexoravelmente para o melhor. Com esta premissa, não posso concordar. É certo que, se considerarmos um único indivíduo, sem dúvida na idade adulta ele é mais racional que quando bebê (considerando uma compreensão de mundo mais abrangente, a percepção do outro etc). Mas um indivíduo não pode, por doença ou acidente, retornar à idade mental de um bebê? É claro que pode. Será que algo parecido não pode acontecer com a humanidade? Por exemplo, uma guerra de proporções catastróficas, que nos faça duvidar da eficácia da razão na solução de nossos problemas e nos faça aceitar qualquer coisa, desde que nos dê uma sensação de conforto, ou a alienação pelo misticismo, ou pela dispersão de todos os valores?

Talvez este seja o momento em que Kant diria: é hora de voltar a falar em paz. Não sei. Talvez seja hora de falar em cataplasmas, apenas.