Monday, June 25, 2007

Saída pela tangente

Estou lendo Heródoto, historiador grego, considerado o pai da história. Infelizmente, só encontrei os livros 1 e 3. É pena, já que são nove, ao todo. Mas é um começo.

Diz Heródoto (História I, 137-1) que os persas se orgulhavam de nunca ter acontecido, entre eles, de alguém matar o pai ou a mãe. Este tipo de crime era considerado inadmissível, por ser contrário à natureza. Um pai jamais poderia morrer pelas mãos do filho.

Amor filial? Respeito às tradições? Obediência à lei? Receio da danação eterna?

Que nada.

O segredo, segundo o historiador, está na investigação do crime: quando acontecia de alguém matar o pai ou a mãe, a investigação - criteriosa, sem dúvida - revelava que o assassino era, na verdade, filho ilegítimo ou suposto.

Como dizia o sábio Shakespeare, "tudo está bem quando bem acaba".

E Júlio César conclui: "amém".

Sunday, June 24, 2007

Purgatório para maus tradutores

A prática dos monges medievais de alterar os textos gregos que traduziam é bem conhecida. Esta é uma das dificuldades com os livros de Aristóteles: há várias passagens cuja autenticidade é motivo de disputa.

O curioso é que os monges eram ameaçados com o purgatório, caso fizessem alterações no texto ou suprimissem passagens. Mesmo assim, a prática se manteve.

Vai ver que monge não acredita em purgatório.

Saturday, June 23, 2007

Obesos e famintos

Li, em algum lugar, que há mais obesos no mundo que famintos.

Ué, há mais gente nos Estados Unidos que em toda a África?

Friday, June 22, 2007

Articulações da alma

Definitivamente, Rousseau e Platão são filósofos muito divertidos. Veja esta passagem do Timeu:

"Os ossos que continham a alma, ele [o deus] envolveu em menor quantidade de carne, e os que por dentro eram menos animados, com camada espessa e abundante. Contudo, nas articulações dos ossos, onde a razão não via necessidade de acumular muita carne, colocou menos, para não dificultar a flexão dos membros nem deixar enrijado o corpo e com os movimento duros, e também com o propósito de evitar que a rigidez resultante da presença de muitas camadas superpostas de carne provocasse insensibilidade do corpo, enfraquecesse a memória e tornasse obtusa a inteligência" (Timeu, 74a).

Então está decidido: o segredo da inteligência é a pouca carne. Por isso os bois são bois e as vacas são vacas.

A teoria só não é capaz de explicar porque um esqueleto não tem inteligência, mas isto é apenas um detalhe.

Thursday, June 21, 2007

Alpinista intelectual

E por falar em Timeu, Sócrates afirma, a respeito desta criatura:

"O nosso Timeu (...) não alcançou os mais altos picos do conhecimento filosófico" (Platão, Timeu, 20a).

Puxa, ainda bem!

Nos altos picos o ar é rarefeito.

Tuesday, June 19, 2007

Atlantidades

Ah, Platão! O arauto (não o pai, ou o criador) das mais belas mentiras que a humanidade já contou.

É verdade que ele repete mais do que inventa, mas é sem dúvida o grande panegirista da vida filosofante bem morrida.

Ficou confuso? Liga não. É que a coisa é complicada mesmo.

Bem, vamos ao que interessa. Já que estou falando de Atlântida, fui buscar o livrinho para bem citar a passagem sobre a cidade perdida. Na verdade, Platão faz referência a Atlântida no Timeu e no Crítias, mas vou ficar com o Timeu. A passagem é longa demais, então não vou copiá-la aqui. Procure no Timeu, a partir de 21a.

Trata-se de um diálogo entre Sócrates, Timeu e Crítias, em que este relata o que ouviu de seu avô Crítias, que lhe contara a história relatada por um tal Sólon.

Confuso? Então explico novamente: Sólon é um reformador político do século VI a.C., (aquele que vestiu os soldados de mulheres para ganhar uma guerra, lembra?). Pois é, Sólon, um dos sete sábios do passado, era parente de um tal Drópides, a quem contou sobre Atlântida. O tal Drópides contou a história ao filho, Crítias, que a contou ao neto, o Crítias do diálogo, que a conta a Sócrates, que já havia feito referência a Atlântida.

Ainda está confuso? Sossegue. Nada na vida é fácil.

O importante é que a história contada por Platão foi contada por Crítias a Sócrates, que já a contara antes ao próprio Crítias, que a ouvira de seu avô Crítias, que a ouvira de seu pai Drópides, que a ouvira de Sólon, que jurava de pé junto ser tudo verdade.

Continua confuso?

Então faça o seguinte: esqueça Atlântida. Garanto que nem vai sentir falta.

Monday, June 18, 2007

Que língua falavam os Atlântidas?

Não sei, e na verdade nem quero saber. Seja o que for, será mais uma dessas bobagens que as pessoas inventam, esquecem que inventam e começam a achar que é verdade só porque é interessante, ou porque explica alguma coisa.

De todo modo, encontrei um site em que há um estudo sobre a possível língua falada pelos habitantes de Atlântida. Não tive paciência para ler tudo, porque é mais uma dessas inutilidades complexas, então não cheguei a saber que nome fictício o autor do estudo dá à suposta língua que eles falavam.

Como é que pode? Tá certo que Schliemann encontrou Tróia quando todo mundo achava que era só lenda, mas daí a estudar a língua falada pelos atlântidos antes de existir qualquer vestígio da existência dessa civilização é um pouco demais, não é não?

Mas vamos lá. Também tenho uma tese sobre o assunto.

Platão se referiu, no Timeu, a uma cidade que teria sido destruída em tempos remotos. Aceitando que ele fazia menção à história e não a uma lenda, devemos aceitar também que Atlântida era grega. Portanto, a língua falada por este povo devia ser uma variante primitiva do grego, talvez com uma influência do dialeto da Creta minóica, ou do copta (por causa do comércio com o Egito, via Creta), ou ainda da língua dos hititas (provável origem dos pelasgos, os primeiros povos a habitar Creta). Ou talvez ainda tenha algo a ver com os fenícios, sei lá. Eles moravam perto de Atlântida e gostavam do mar. Logo, devem ter ensinado os atlântidas a escrever. E a falar.

Bem, fosse como fosse, até agora tudo o que sabemos sobre o assunto não passa de blá-blá-blá. Rebuscado, mas é só blá-blá-blá. Como este site.

Saturday, June 16, 2007

Crise de criatividade

O conhecimento profundo que tenho de minha total ignorância no que diz respeito à magia me leva a supor que, na novela Eterna Magia, as duas irmãs se engalfinharão em uma briga de raios ultravioleta, ao final. À distância, claro, porque toda magia que se preze deve ignorar a física.

Não acompanho a novela, mas nem é preciso. Basta assistir às chamadas e já se tem toda a história: duas descendentes de bruxas disputam o mesmo homem, e isso é tudo. Ao final, provavelmente depois da briga de raios, um grande segredo, guardado a sete chaves, solucionará todos os conflitos.

Alguém se atreve a apostar comigo?

Fico pensando o que fazem esses autores de novelas, filmes etc., que não lêem Aristóteles. Tudo o que é preciso saber para contar uma boa história está na Poética: a trama deve ter contato com a realidade; as personagens devem ser pessoas do dia-a-dia. Caso contrário, não há identificação do público. Mas não. Lá vem estórias de bang-bang com personagens e situações absolutamente irreais; histórias de bruxas com sobrenome irlandês, anjos, reencarnação, mutantes e bobagens de todo tipo.

Ow, assim não dá. Até a fantasia tem de ser bem contada.

Thursday, June 14, 2007

Tirania autêntica

Os textos de Aristóteles são repletos de comentários sobre personalidades e eventos de sua época e de épocas passadas. Na Política, 1277a, ele faz menção a um tirano, Jáson, que dizia sentir-se faminto quando não exercia a tirania.

É vero. Em uma tirania, quem se alimenta bem é o tirano.

Tuesday, June 12, 2007

Cavalos e... cavalos

Górgias de Leontini, o sofista, teria dito que os pilões são objetos feitos pelos artífices de pilões, e os cidadãos de Larissa são feitos pelos governantes (Aristóteles, Política, 1276a).

Larissa ficava na região da Tessália, e os tessálios não faziam outra coisa senão cuidar de cavalos. Esta pode ser a razão do comentário, mas o curioso é que, segundo reza a lenda, Górgias morreu exatamente nesta cidade, com cerca de 120 anos.

Talvez tenha chegado a essa idade porque, segundo os contemporâneos que o citam, Górgias passou a vida rindo de tudo que acontecia à sua volta. Pode-se incluir aí o apreço dos tessálios por cavalos.

Friday, June 08, 2007

Morre Richard Rorty

Morreu hoje, aos 75 anos, um dos principais filósofos da atualidade, Richard Rorty.

Vá pela sombra, Rorty.

Thursday, June 07, 2007

Natureza humana

E por falar em natureza a serviço do homem, eis a afirmação de Aristóteles:

"Se, portanto, a natureza nada faz sem uma finalidade ou em vão, necessariamente a natureza fez todos os animais por causa do homem" (Ética 1256b-24)

Tuesday, June 05, 2007

O fantasma de Ana Bolena

Lembra-se de Ana Bolena, a segunda das seis esposas de Henrique VIII, mãe da rainha Elizabeth I, acusada de adultério e executada em 19 de maio de 1536, para que o rei pudesse se casar novamente?

Pois é, ela morreu mesmo, e virou fantasma. Está assombrando os ingleses até hoje, em uma casa em Norfolk, Blickling Hall.

Por que exatamente esse lugar? Ah, isso é fácil: Brickling Hall foi construída exatamente no mesmo lugar da antiga casa em que Ana viveu, antes de se tornar rainha.

Ela chega todo ano, no aniversário de sua morte, em uma carruagem conduzida por cavalos sem cabeça e cocheiro sem cabeça (Ana foi decapitada e obviamente ainda não superou o trauma).

Prá que tudo isso, né? Devia, isto sim, atormentar o marido no além.

Será que Elizabeth foi visitá-la?

Sunday, June 03, 2007

Progresso moral (2)

No post anterior, comentei que não concordo com a idéia de que há sempre um progresso moral da humanidade. Concordo que haja, mas não que haja necessariamente, de modo linear, sem retorno à barbárie.

Hoje, ocorreu-me que deixei escapar um ponto importante. Para Kant, a natureza obriga, mais dia menos dia, à paz perpétua. A coisa toda é tão óbvia, que fiquei por entender o cochilo. Trata-se, tão somente, do impulso natural à auto-sobrevivência. Agora o argumento já faz mais sentido para mim: numa situação de guerra, corre-se o risco de aniquilamento. Diante desta possibilidade, a natureza se encarrega, por via do instinto de auto-sobrevivência, de colocar os homens (as nações, no caso) em disposição favorável à paz, mesmo que isto signifique a renúncia a uma certa liberdade de ação. Fala mais não o interesse imediato, mas a segurança.

Bem, entendi. Não tenho como escapar deste argumento, exceto pela afirmação de que ele (o argumento) supõe que os homens ajam racionalmente: que, diante do possível aniquilamento, sejam capazes de fazer um cálculo de consequências elementar e que dele resulte a escolha pelo melhor.

Mas será assim, necessariamente?

Há algo mais contingente que a natureza humana?

Continuo matutando sobre o assunto. Talvez consiga encontrar um ponto fraco na tese, porque ela não me satisfaz.

Se não, talvez pare de brigar e me renda à lógica kantiana.

Friday, June 01, 2007

Progresso moral (1)

A tese positivista (ainda que avant la lettre) de que a humanidade caminha sem desvio para o progresso moral, penso, tem a ver com a afirmação de Aristóteles de que todas as coisas tendem naturalmente para o melhor. Esta tese é fundamental para Hegel, mas é em Kant que me interessa particularmente. Em A Paz Perpétua, que já mencionei aqui várias vezes, há uma longa passagem sobre o modo como a natureza percorre esse caminho. Um dos argumentos em favor da paz duradoura entre os Estados é que, se não a aceitarmos agora, mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a aceitá-la. Claro, se recusarmos a idéia de paz duradoura, o único resultado possível é a guerra. A guerra é insuportável, porque gera consequências de toda ordem. Logo, se houver uma guerra duradoura entre as nações, elas serão forçadas a considerar novamente uma negociação que resulte na paz, mas que tenha em vista a manutenção deste estado.

Certo, mas a premissa que está por trás desta afirmação é a de que o homem tende a ser mais racional. Isto é, a humanidade tende ao progresso moral. Por isso, diz Kant, falar em paz perpétua não é utopia.

Minha dificuldade é justamente esse pressuposto. Não se pode negar que os Estados, as leis e a humanidade estão mais racionais que no passado. Defender esse ponto de vista é fácil: basta citar o que as gerações anteriores consideravam normal e que julgamos hoje ser inaceitável (como a tortura, que na Idade Média era o único meio legítimo de extrair uma confissão; como o trabalho infantil, o trabalho escravo, o papel da mulher na sociedade etc etc). Ainda existe tortura? Claro, mas hoje ela é um crime. Ainda existem assassinatos por ciúme? Claro, mas quem é capaz de defendê-los? As leis estão sim mais racionais e, sob certos aspectos, nós também (é claro que isso não tem nada a ver com ciência e misticismo, o que não me interessa discutir agora).

Por outro lado, isto significa dizer que não é possível o retorno à barbárie. Isto é, que a humanidade caminha inexoravelmente para o melhor. Com esta premissa, não posso concordar. É certo que, se considerarmos um único indivíduo, sem dúvida na idade adulta ele é mais racional que quando bebê (considerando uma compreensão de mundo mais abrangente, a percepção do outro etc). Mas um indivíduo não pode, por doença ou acidente, retornar à idade mental de um bebê? É claro que pode. Será que algo parecido não pode acontecer com a humanidade? Por exemplo, uma guerra de proporções catastróficas, que nos faça duvidar da eficácia da razão na solução de nossos problemas e nos faça aceitar qualquer coisa, desde que nos dê uma sensação de conforto, ou a alienação pelo misticismo, ou pela dispersão de todos os valores?

Talvez este seja o momento em que Kant diria: é hora de voltar a falar em paz. Não sei. Talvez seja hora de falar em cataplasmas, apenas.

Tuesday, May 29, 2007

Idiótes

Somos quase todos idiotas, se o sentido dado à palavra for o original, do grego. Idiótes significava "homem privado", em oposição a "homem público".

O problema é que isto exclui o Lula, ao menos nos momentos em que é uma figura pública. Na intimidade, continua sendo idiota. Como todos nós.

Monday, May 28, 2007

O diabo é a lógica

Definitivamente, o diabo não tem noção, não tem inteligência e não aprende nada. Com mais ou menos 5.000 anos de idade, continua tão tolo quanto sempre.

Estava assistindo ao programa Assombrações, da Discovery. O episódio era sobre uma possessão demoníaca. Não demorou muito, e lá veio o exorcismo. O diabo foi valente: lutou, lutou, resistiu durante horas, fez caras e bocas, mas por fim saiu derrotado, como sempre. E pior, derrotado por uma palavra: saia.

O que acontece com essa criatura que, apesar de já ter idade, continua tão infantil quanto sempre? Não desconfiou até hoje que não vai vencer? Onde está a criatividade para escapar da ordem? Vai continuar esperneando como bebê que quer atenção?

Há algo mais tolo, mais infantil, mais histérico e frágil que um diabo revirando os olhos?

Deve existir um modo mais inteligente de fazer um inferninho.

Mas não para um pobre diabo, com certeza.

Friday, May 25, 2007

Cuidado com a tartaruga

Ésquilo, o dramaturgo grego, morreu... atingindo por uma tartaruga.

É, tartarugas não voam, mas tudo se explica lindamente pela careca do dramaturgo: uma águia, carregando uma tartaruga, confundiu a cabeça careca de Ésquilo com uma pedra e soltou a presa, para que o casco se quebrasse. Atingindo pela tartaruga, Ésquilo morreu imediatamente.

Claro que é só uma historinha prá criança dormir, mas leia-se a biografia do dramaturgo e lá está a tartarugada.

Thursday, May 24, 2007

Frio moral

O frio chegou. Maravilha. O que não me agrada nem um pouco é a obrigação moral de ter de detestar o frio. Sempre que digo que gosto do frio, alguém responde que há pessoas nas ruas, sem agasalho; os animais sofrem etc. etc. Que coisa insuportável! Não se pode fazer uma afirmação de ordem estética sem que ela seja atropelada pela moral?

O frio me agrada, ora. Isto não tem nada a ver com as pessoas que estão morrendo de frio na rua.

Tuesday, May 22, 2007

Gracinha de natureza

O século XVIII tinha uma confiança ilimitada na razão humana e, sobretudo, numa razão natural: o mundo é ordenado e trabalha para o melhor (tese aristotélica, aliás). Mesmo assim, é curioso que Kant considere a natureza como uma espécie de entidade com um único propósito: servir ao homem. Na passagem citada a seguir, um trecho de um longo parágrafo sobre a engenhosidade da natureza em proporcionar ao homem condições de se manter e de ter uma vida boa, Kant afirma que, nas regiões onde não há madeira, a natureza a envia por mar. O objetivo? Prover aos homens veículos de transporte, armas e cabanas.

Que espécie abençoada! O mundo só existe para servi-la.

Mas Kant engana-se: a natureza não é sábia. Se fosse, não teria se esforçado tanto para preservar a única espécie que a pode destruir.


"A previsão da natureza suscita, porém, a máxima admiração em virtude da madeira que ela arrasta flutuando até estas regiões sem flora (sem que se saiba ao certo de onde vêm); sem tal material, eles não poderiam construir os seus veículos de transporte, nem as suas armas ou as suas cabanas".
(KANT, À Paz perpétua, suplemento primeiro).

Monday, May 21, 2007

Imortais (3): O poder do mercúrio

O primeiro imperador chinês, Qin Shi Huang (260 – 210 a.C.), tinha obsessão pela idéia de imortalidade. Afinal, vivia uma vida muito boa.

Durante longos anos, fez várias tentativas desesperadas para obter o elixir da vida eterna, enviando soldados a lugares distantes, onde supostamente viveriam os imortais. Como os soldados nunca retornaram, o imperador talvez tenha concluído que preferiram usar o elixir e viver eternamente que entregá-lo ao seu rei.

Então os cientistas e médicos da corte prepararam pílulas de mercúrio que, acreditava-se, teria o poder de tornar o imperador imortal. Qin ingeriu-as durante anos, durante as refeições. Ao final, morreu envenenado pelo mercúrio.

Sunday, May 20, 2007

Guia para caçar fantasmas

Sempre quis ver um fantasma, então procurei ajuda na internet. Encontrei o site linkado no título e, nele, o item "Como encontrar fastasmas perto de casa".

Pensei: agora sim, verei um fantasma! O site garante que é mais fácil encontrar fantasmas perto do local onde mora, que viajar quilômetros só para vê-los.

Tenho de concordar.

O conselho seguinte foi: "faça uma pesquisa no google conjugando sua cidade e estado com as palavras "fantasma" e "assombração".

Puxa. Estamos mesmo no reino da tecnologia: para ver fantasmas é preciso aprender a pesquisar no google. Legal.

Saturday, May 19, 2007

Você é o que come?

Como já disse, não resisto a testes. Recebi mais um: Você é o que come? Definitivamente, não sou. Nada a ver.

"Sabe como curtir a vida, mas sem cometer exageros. É muito preocupado e se priva das coisas por excesso de cuidado. Não consegue ficar sozinho. Gosta de estar sempre rodeado de amigos e da família. Gosta de manter o controle da situação e saber exatamente onde está pisando. Tem mania de complicar tudo e transforma um problema pequeno numa coisa gigantesca. É uma pessoa que prefere estar em contato com a natureza."

Friday, May 18, 2007

Preciosidades

E por falar em aula, ando registrando diligentemente tudo o que escuto e me parece no mínimo engraçado. Eu sei, é feio, mas fazer o quê. Aluno não é ser humano.

Eis algumas das pérolas mais recentes:

"O psicanalista precisa de uma escuta, no sentido de que isso é fundamental".

Psicanalistas precisam também do não fundamental.

"Tudo que não entendo eu coloco como epígrafe em meu livro".

Certo, entendi.

"Tem alguma coisa que ele vai falar que não sei onde, mas sei que é alguma coisa".

Tem alguma coisa também que não sei que não vai falar e não sei onde, mas sei que não é alguma coisa.

"No sentido de que 'Oh!, compreendi algo!'"

No sentido de que "ah, pois é".

"Quando seguro no canudo, claro que é outra coisa que eu quero".

Claríssimo.

"Nem eu sei o que digo".

Por que não duvido disso?

"Os antigos [egípcios, sumérios etc.] não escreviam para serem lidos. Para ler um ideograma é preciso ir buscar Champollion. Prova disso é que enterravam cerâmica com escrita".

E Champollion teve de desenterrar todas elas? Champollion é um acidente de percurso? Toda escrita antiga estava nas cerâmicas? Puxa, que antiguidade fantástica! Inventaram a escrita, forjaram escribas, deixaram pergaminhos e escritos nas tumbas, registraram a mesma informação na pedra de roseta em três línguas diferentes, tudo isso só prá ninguém ler? É realmente extraordinário tanto esforço em escrever com o objetivo evidente de não querer ser entendido. Bastava não escrever, né? Definitivamente, Champollion é um estraga-prazeres.

"Por isso o sujeito tem de ir prá cadeia e rodar o significante".

Esta frase faz sentido mas, dita assim, fiquei imaginando um presidiário rodando um significante. Há tempo suficiente prá rodar todos os significantes que quiser.

Thursday, May 17, 2007

Psi

Definitivamente, não sei o que pensar da psicanálise. Há coisas interessantíssimas, mas também há uma certa pressa em fazer afirmações, o que me deixa com um pé atrás. Escutei hoje de um psicanalista o caso de uma família em que o pai assediava sexualmente as duas filhas de 9 e 10 anos. O psicanalista atendeu a mãe, quando o pai foi preso. Ele contou que a primeira coisa que a mulher falou foi "Queria sumir. Queria ir para um lugar onde ninguém soubesse disso".

O que se pode concluir da afirmação da mãe? Ah, é óbvio: naquele instante a mulher se deu conta de que sabia de tudo, de que estava implicada no problema, de que tinha culpa.

Será?

Wednesday, May 16, 2007

Teste seu ceticismo

Adoro testes. Se há uma perguntinha, lá vou marcar uma resposta. Este é para checar se você é mesmo cético. Não deve valer nada, mas fiz o teste assim mesmo. Ainda não sei se sou cética ou não, mas voltarei à página prá saber. Quem sabe posso seguir uma crença qualquer a partir de agora, sem achar que estou contrariando minha natureza.

Tuesday, May 15, 2007

Como o Canguru ganhou um rabo

AVISO: CULTURA SUPINAMENTE INÚTIL. HÁ SÉRIO RISCO DE PERDA DE TEMPO.

O canguru já foi humano. Não tinha rabo, e chamava-se Mirram. O wombat, aquele marsupial australiano que parece um panda marrom, também já foi homem, e chamava-se Warreen.

Eles eram amigos; caçavam e viviam juntos. O Warreen era esforçado, trabalhador, e construiu uma casinha confortável e segura. O Mirram não gostava de fazer esforço na vida, e não construiu uma casa. Dormia ao relento, ao lado de uma fogueira. O único problema era a chuva.

Uma noite, houve uma grande tempestade. Sem alternativa, o Mirram pediu abrigo a seu amiguinho Warreen. O amiguinho recusou dar-lhe abrigo e o pobre Mirram continuou sob a tempestade, sentindo frio e muita, muita raiva do amigo. Irritado, voltou à casa do amigo e, ao ver que ele dormia, e o feriu na testa com uma pedra. O Warreen, que era mais fraco, não reagiu, mas começou a planejar uma vingança.

Algum tempo depois, o Warreen estava caçando na floresta e, avistando Mirram ao longe, aproximou-se silenciosamente e atirou no amigo uma lança, com toda a força. A lança entrou nas costas de Mirram e ele não mais conseguiu tirá-la.

Desde então o Canguru passou a ter um longo rabo.

Monday, May 14, 2007

Enfrente o ET

Já considerou a possibilidade de aparecer diante de você um Monstro Spaghetti Voador, ou uma criaturinha verde, esquálida, com olhos enormes e gestos lentos?

Pode acontecer.

O que faria, nesse caso? Sairia correndo? Não é melhor se preparar para a situação? Vamos lá. Não espere o ladrão entrar para fechar a porta.

Travis Taylor e Bob Boan, sem nada melhor para fazer, escreveram um manual de regras a seguir, caso os alienígenas apareçam.

Se é assim, então também devemos nos preparar para encontrar duendes verdes, gnomos, boitatás, saci-pererês etc.

Para o encontro com o saci-pererê, tenho conselhos infalíveis: não faça qualquer referência à cor da pele (isso é racismo), nem à, digamos, deficiência física (isso é discriminação), e lembre-se de exigir que ele apague o cachimbo (o fumo não é saudável e nem elegante). De resto, tenha em mente que, no fundo, no fundo, o que o saci-pererê e os alienígenas querem é apenas um pouco de atenção.

Assim como os autores do manual.

Deve ser muito triste viver viajando, ou sozinho nas florestas, ou no anonimato. Então, trate-os bem. Afinal, cachorro também é ser-humano.

Sunday, May 13, 2007

Ouça

Ando pesquisando ultimamente sobre a música dos índios Anasazi, coisa dificílima. Pelo que já ouvi, é realmente bela. No site linkado no título é possível ouvir alguma coisa, embora sejam só amostras, e não sejam específicas da "tribo" Anasazi.

Veja também http://www.canyonrecords.com/sounds2.htm

Saturday, May 12, 2007

Estado de natureza

Uma das teorias mais recorrentes na filosofia política é a do Estado de Natureza. Ela aparece, formulada como a conhecemos, em Hobbes, e atende a uma exigência específica do momento histórico em que viveu.

O século XVII é marcado pela revolução ocorrida na Inglaterra. O parlamento inglês havia conquistado direitos desde o século XII, mas não havia exercido de fato as prerrogativas conquistadas. Com a ascenção de Carlos I ao poder, o parlamento, insatisfeito com o rei, passou a reivindicar os direitos adquiridos e a brigar por uma parcela do poder. As razões são de ordem religiosa (a maioria do parlamento era puritana, e o rei defendia um anglicanismo mais próximo do catolicismo), política e econômica (os puritanos eram, em sua maioria, donos de terra, e tentavam ampliar suas posses através da possessão ilegal de terras vizinhas. O rei proibiu essa prática, o que deixou o parlamento bastante descontente).

Carlos I defendia uma monarquia absolutista, sem interferência do parlamento. Para sustentar seu ponto de vista, digamos assim, alegava (com o apoio de teóricos) que esta é a vontade divina. Ou seja, o rei tem o direito, conferido por Deus, de governar sozinho. O nascimento seria a prova desta vontade divina, já que nada acontece sem que Deus assim o deseje.

Thomas Hobbes, embora fosse partidário do poder absoluto do monarca, além de ter ligações com a família real (foi preceptor do filho de Carlos I, que tinha um retrato do filósofo em seu quarto), não aceitava a tese de direito divino dos reis. Era preciso, então, provar logicamente que os homens são originalmente iguais e livres, que ninguém tem o direito natural de mandar e ninguém tem o dever natural de obedecer. A tese do Estado de Natureza servia perfeitamente a esse propósito.

Friday, May 11, 2007

Enfim, uma foto!

Você já quis ver uma foto da Lucy, aquela gracinha de quem todos nós descendemos? Pois agora você pode! Clique no título e veja a foto da beleza.

E então? Sentiu-se religado com suas origens?

Thursday, May 10, 2007

Vinho de tigre

Eu certamente entendi mal. Sim, com certeza.

A reportagem que pode ser acessada clicando no título deste post diz que a China está criando tigres em cativeiro para, imagine, usar a pele e os ossos do animal na produção de... vinho! Isso mesmo, vinho. Só posso ter entendido mal.

Os chineses acreditam que o "vinho de tigre" os torna mais fortes. Em pleno século XXI.

O lógico é esperar que, como a China tem a maior população do mundo, logo falte matéria prima. Se o vinho de tigre os deixa fortes, então a ausência do vinho os deixará enfraquecidos, certo? A não ser, é claro, que comecem a achar que, se pisotearem urubu morto junto com arroz, na fabricação do vinho de urubu, vão começar a voar.

Tudo é possível.

Wednesday, May 09, 2007

Arquitetura da Destruição

Revi recentemente o documentário "Arquitetura da Destruição", de Peter Cohen. Realmente extraordinário.

A tese principal, defendida com maestria, é que o nazismo não tinha, de fato, um projeto político, mas sim um projeto estético, de embelezamento do mundo. O projeto político tornaria possível a realização desse projeto estético, que deveria se estender para a arte (aceitando-se apenas a que representasse a beleza física ou natural), a medicina (pela eugenia, com todas as suas consequências), a higiene corporal (capaz, por si só, de eliminar a luta de classes), o saneamento urbano (pela eliminação de pragas, bactérias e vírus, tanto os da cidade quanto os do Estado - os judeus), a arquitetura, a cultura e a moral.

O que originou o nazismo e possibilitou sua propagação, contaminando todo um Estado com sua ideologia, sempre foi um mistério. É claro que pode ser explicado por razões econômicas, políticas, culturais, etc., mas a tese defendida pelo filme é de longe a mais consistente, com embasamento em documentos de época e na propaganda nazista.

Vale a pena ver. Serve como antídoto.

Tuesday, May 08, 2007

Paz de cemitério

Tabuleta na entrada de um cemitério, segundo D'Alembert: "Aqui há paz perpétua, pois os mortos não brigam mais, mas os vivos são de um outro humor e os mais potentes não respeitam muito os tribunais".

Monday, May 07, 2007

Imortais (2): Paradoxo cretense

Epimênides era um poeta cretense de pouca expressão. Tornou-se conhecido da posteridade por uma única frase:

"Os cretenses nunca falam a verdade".

Epimênides era cretense e afirmava que os cretenses nunca falam a verdade. Então esta frase não é verdadeira, o que significa que os cretenses sempre falam a verdade. Mas, se os cretenses sempre falam a verdade, então Epimênides dizia a verdade ao afirmar que os cretenses nunca falam a verdade e, se isto é verdade, então é uma inverdade, e assim por diante.

Sunday, May 06, 2007

Imortais (1): Eróstrato, o verme

Quem foi o arquiteto que construiu o Templo de Ártemis em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo? Não sabemos.

Quem destruiu o templo de Ártemis em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo? Eróstrato.

Eróstrato era natural da cidade de Éfeso e, após ter incendiado o templo de Ártemis, foi torturado para confessar o motivo. Ele elegou que queria ser lembrado pela posteridade. Como não se sentia capaz de fazer nada grandioso, resolveu destruir algo grandioso. Assim, sempre que o templo de Ártemis fosse mencionado, seu nome seria lembrado como aquele que o destruiu.

O rei persa Dario (Astaxerxes), que havia tomado a cidade por esta época, proibiu por decreto que o nome de Eróstrato fosse dito.

Boa tentativa, mas não adiantou nada.

Saturday, May 05, 2007

Arqueologia futurista

Que o nazismo tenha sido a expressão mais aguda da loucura coletiva, não há dúvida, mas esta loucura é sempre maior do que nos parece a princípio. Já mencionei aqui que Himmler, o general de Hitler, fez viagens ao Tibet para procurar descendentes dos Atlântidos, os supostos pais da "raça" ariana. O projeto de Hitler incluía também a construção de uma cidade perfeita: Linz. Até aí, vá lá. Esquisito, mas vá lá. A loucura mesmo é que ele pretendia construir a cidade de tal modo que, no futuro longínquo, os arqueólogos a escavassem e ficassem maravilhados com o achado e com a grandiosidade da arquitetura nazista, toda em mármore. Ele, Hitler, seria então visto pela história como um grande visionário, um homem superior, que soubera elevar a cultura alemã ao status de jóia da humanidade, como o fizeram os grandes homens da Grécia e de Roma.

Friday, May 04, 2007

Faltou senso prático

Diz Kant que os selvagens da América são diferentes dos selvagens europeus em um aspecto: enquanto os primeiros só sabem devorar os capturados, os selvagens europeus são mais pragmáticos: usam os capturados como escravos e como instrumentos de guerra.

No fim das contas, Kant está dizendo que selvagens, quer sejam canibais, quer sejam colonizadores, são sempre selvagens, porque não têm lei e não agem conforme os direitos humanos. Certo, mas os europeus são selvagens mais espertos. Ou não?

Eis a passagem:

"A diferença entre os selvagens europeus e os americanos consiste essencialmente nisto: muitas tribos americanas foram totalmente comidas pelos seus inimigos, ao passo que os europeus sabem aproveitar melhor seus vencidos do que comendo-os. Aumentam antes o número de seus súditos, por consequinte, também a quantidade dos instrumentos para guerras ainda mais vastas" (À paz perpétua, 2o. artigo definitivo).

Thursday, May 03, 2007

Igualitarismo

Recebi por e-mail:

"No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros."

Roberto Campos

Wednesday, May 02, 2007

Acredite se quiser

Sem exagero e sem acrescentar nada, escutei do professor em uma aula, na semana passada:

"O próprio fazer cocô, o que é da ordem da mamadeira, nada mais é que busca de satisfação".

A aula era sobre Freud, como se pode perceber, mas dito assim ficou parecendo uma daquelas brincadeiras deliciosas com forma e conteúdo: forma perfeita e conteúdo zero.

Tuesday, May 01, 2007

Coisa de grego (7): Andorinha

Parece que as andorinhas gregas, quando sozinhas, também não faziam verão. Pelo menos é o que afirma Aristóteles na Ética a Nicômaco (na tradução, claro).

Eis a passagem:

"...Mas devemos acrescentar que tal exercício ativo deve estender-se por toda a vida, pois uma andorinha não faz verão (nem o faz um dia quente), da mesma forma um dia só, ou um certo lapso de tempo, não faz um homem bem-aventurado e feliz" (1097a 8).

Monday, April 30, 2007

Tentativa e erro

Ouço com frequência dois argumentos em defesa de crenças:

1. Minha crença é verdadeira porque é milenar.
2. Minha crença é verdadeira porque todos os povos antigos, sem exceção, têm registros de crenças semelhantes.

Os dois argumentos se utilizam de recursos quantitativos, o que por si só já os desqualifica. Qualquer crença só poderia ser validada, se isso fosse possível, por recursos qualitativos, ou seja, dizendo-se porque ela é verdadeira, e não dizendo que é verdadeira porque muitos acreditaram em sua verdade.

Ainda assim, há diferenças entre os dois argumentos. O primeiro defende que a verdade de uma crença se assenta sobre a sua antiguidade. Ora, a humanidade não poderia, por quaisquer razões, fazer perdurar um erro? Não foi assim com a crença da ciência na idéia de geração espontânea, que perdurou até o século XVII? Não se teve como certo, até a modernidade, que o sexo feminino é uma inversão anatômica do sexo masculino, porque seus corpos não se desenvolveram como os dos homens? Não há um sem-número de "verdades científicas" que sobreviveram a séculos de engano? Sendo assim, o argumento da antiguidade não procede.

O segundo argumento apela para a sincronia entre crenças antigas, mas é igualmente improcedente. Diz-se que a prova da existência de um outro plano, espiritual, está na recorrência desta crença entre os povos antigos. Mas isto não poderia ser apenas a expressão de inquietações semelhantes, que são parte da natureza humana, de sua capacidade de compreender a finitude? É claro que poderia. Portanto, este argumento também não procede.

No fim das contas, não há argumento consistente em defesa de necessidades pessoais, ainda que elas se expressem universalmente ou historicamente.

Sunday, April 29, 2007

Déjà vu (1): Danae

Lendo sobre o povo anasazi, grupo indígena americano já desaparecido, em muitos aspectos parecido com os maias, encontrei em seus mitos uma semelhança relevante com os mitos gregos.

"Anasazi" é uma palavra de origem navaja, que significa "povos antigos". Os anasazi desapareceram como os maias e, como eles, talvez tenham sido dizimados por uma grande seca, ou talvez uma catástrofe natural os tenha expulsado de seu lugar de origem, o que resultou em miscigenação e perda da identidade. De qualquer forma, o que me interessa são os mitos deste povo.

Há uma primeira divindade, a Mãe-Terra, semelhante a Gaia, da mitologia grega, e a Deusa-Mãe dos mînóicos. Até aí nada de mais. É natural que todas as culturas antigas, inteiramente dependentes da agricultura e sujeitas às intempéries, tivessem deuses ligados à fertilidade do solo e à fúria da natureza.

Há também a crença em espíritos que habitam o corpo e animais sagrados, com poderes especiais. Tudo bem, todos os povos antigos acreditavam nisso. A angústia da finitude e o medo dos animais explicam bem esse ponto.

Há igualmente mitos em torno do sol e das constelações. Certo, isso era importante para a agricultura e para a crença numa certa estabilidade: minha cabana continuará de pé amanhã se os deuses assim o quiserem, e o desejarão se os agradarmos.

Os anasazi eram observadores do sol, que acreditavam ser uma divindidade masculina. Os egípcios também. A lua, por sua vez, é feminina, porque seu brilho é menor. Coisa de sociedade patriarcal. Nada de novo.

O impressionante, para não citar todos os casos, é a história de uma jovem virgem, trancafiada em uma espécie de torre. A única visita que recebia era dos raios de sol, que passavam pela abertura no teto, inalcançável para a jovem. O sol, então, a engravidou e ela gerou um filho do deus.

Este mito é muito semelhante ao de Danae, da mitologia grega: a jovem Danae, virgem, é trancafiada em um torre por seu pai, porque uma profecia dizia que o filho que ela gerasse mataria o avô e tomaria seu lugar. Zeus, do céu, avista Danae, lamenta seu sofrimento e se encanta com sua beleza. Então a visita, em forma de chuva de ouro, e a engravida. O filho gerado é Perseus.

Tenho uma explicação para isso também: não há quem possa segurar a juventude. Mas que a semelhança é espantosa, é.

Saturday, April 28, 2007

Inversão de perspectiva

Para negar o que foi dito no post anterior, vamos falar sério.

Assistindo ao Fantástico no último domingo, vi uma reportagem sobre o analfabetismo digital. Para saber o que um adulto deva fazer, caso queira aprender a usar o computador, o repórter entrevistou uma criança. A resposta diz tudo: "Ele deve pedir a uma criança que o ensine".

Não posso deixar passar algo assim sem fazer uma observação: há, na escolha do entrevistado e na resposta, a expressão mais clara da inversão de perspectiva em curso: se nas gerações anteriores o adulto (pai ou professor) era detentor do saber e a criança ou o jovem deveria ir buscar nele a informação que deseja, agora os mais velhos é que devem pedir aos mais jovens que os auxiliem na aquisição de um saber técnico, instrumental.

É evidente que o advento do computador fez aparecer uma nova lógica. Não se trata de um julgamento de valor, mas de reconhecer um fato bastante simples: se um jovem quer aprender algo relacionado ao uso do computador, na maior parte das vezes não é ao pai ou à escola que ele pedirá ajuda. Recorrerá a um colega ou a um tutorial. E, se precisar de uma informação específica, o próprio computador lhe dará a resposta.

O saber que o pai ou professor detém tornou-se, de algum modo, o não-saber: é exatamente o que não tem importância. O que importa, eles é que ensinam aos outros e a si mesmos.

Friday, April 27, 2007

O peri e o patético

Ocorreu-me, após dois aninhos de brogue, que ainda não expliquei o que quero dizer com o nome "peri-patético" (com hífen).

A escola peripatética, bem se sabe, ganhou este nome porque Aristóteles costumava caminhar com seus discípulos sob um passeio coberto, o perípatos, em volta do Liceu. Portanto, "peripatético" significa, originalmente, um modo de filosofar que se faz caminhando, enquanto se dá o debate de idéias.

Peri-patético (com hífen) é uma coisa completamente diferente.

Peri significa, em grego, em volta de (lugar) ou a respeito de (daí peri physeos - sobre a natureza, título dado a boa parte das obras escritas pelos primeiros filósofos).

Patético vem de pathos, que quer dizer emoção, excesso, apelo emocional, o que comove etc. Originalmente, patético refere-se ao que tem forte carga emocional ou que pretende comover, mas fracasssa pelo excesso.

Portanto, peri-patético, com hífen, significa Sobre o que é patético, Em torno do que é patético.

Esta é a proposta inicial, nem sempre seguida à risca.

Thursday, April 26, 2007

Aula de filosofia

Para bem compreender a falsa analogia, é importante ter-se em mente que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Confundir uma coisa com outra coisa é tratar uma coisa como sendo a mesma coisa que outra coisa. Por exemplo: tomar a coisa A pela coisa B ou a coisa B pela coisa A é o mesmo que indiferenciar A e B e tratá-los como sendo A ou B. Isto implica na negação da identidade identitária da coisa que não é, ela própria, uma identidade, mas sim uma coisa qualquer com identidade A ou B.

Wednesday, April 25, 2007

A importância da memória

"Jamais admitiremos uma alma sem memória entre as que são suficientemente filosóficas, mas antes procuraremos que ela seja necessariamente dotada de memória"
(Platão, República, 486d).

Faz sentido, se considerarmos que são vinte e cinco séculos de filosofia, inúmeros filósofos e um número maior ainda de teorias, sistemas e pontos de vista. É preciso ter uma memória realmente muito boa para bem filosofar. Afinal, já dizia um sábio estudante de filosofia, de memória fraca: "é muito difícil filosofar porque há coisa demais para decorar". Esta deve ser a melhor tradução para a expressão latina "pluribus unum" (de muitos, um): das muitas filosofias decoradas, uma é preferida.

Mas, para que ninguém acuse o autor de um blog peri-patético (com hífen) de não ter compreendido Platão, vá lá: não se trata de decorar; trata-se de ser capaz de lembrar o que se sabe mas não se sabe que sabe. Ficou mais claro?

Tuesday, April 24, 2007

Aula de catequese

Aula de catequese ministrada por Sócrates, o cristão avant la lettre, segundo Justino de Roma:

"É preciso ainda examinar o seguinte, se se quiser distinguir uma natureza filosófica da que não o é. (...) Que não tenha qualquer baixeza, porquanto a mesquinhez é o que há de mais contrário a uma alma que pretende alcançar sempre a totalidade e a universalidade do divino e do humano. (...) Mas aquele que possuir um espírito superior e contemplar a totalidade do tempo e a totalidade do ser, supões que é capaz de julgar que a vida humana tem grande importância? (...) Por conseguinte, uma natureza covarde e grosseira não poderia ter parte na verdadeira filosofia, segundo parece. (...) Quem for ordenado, e não for ambicioso, nem grosseiro, nem vaidoso, nem covarde, será possível que seja de trato desagradável ou injusto? (...) Logo, se quiseres distinguir a alma filosófica da que o não é, observarás se, desde nova, é justa e cordata ou insociável e selvagem." (Platão, República, 486 a)

Monday, April 23, 2007

Desaparecidos

Ouvi por aí:

Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento, onde está o conhecimento que perdemos com a informação, onde está a informação que perdemos com a notícia?

Ignoro a autoria.

Sunday, April 22, 2007

Não era para mim

Dos trabalhos que tive ou funções que exerci, há um de que me lembro particularmente porque nele cometi a maior das gafes que alguém pode cometer em um ambiente de trabalho: confundir o nome da empresa.

Trabalhei durante um certo tempo como gerente de um buffet que tinha como principal atrativo o local onde funcionava: uma mansão realmente extraordinária, que ocupava quase um quarteirão, com amplos espaços e salão de festas conectado com a piscina. Na entrada principal da casa, duas palmeiras simetricamente dispostas. Por esta razão, o buffet chamava-se Solar das Palmeiras. Minhas atribuições principais eram o atendimento aos clientes, a organização dos eventos, a recepção aos convidados e a manutenção da casa.

Mas e minha gafe? Uma coisinha à toa, uma confusão bem pequena, sem importância alguma: em minha cidade há um cemitério bastante conhecido, o Jardim das Palmeiras. Eu apenas atendia aos telefonemas dizendo "Jardim das Palmeiras", ao invés de "Solar das Palmeiras". Só isso. Uma coisinha de nada, como disse.

Só troquei uma palavrinha, mas afastei clientes potenciais, até me dar conta da confusão. Ninguém estava interessado no cemitério.

Thursday, April 19, 2007

Mitologias (9): Palamedes

Palamedes é, na mitologia grega, um homem sem sorte, para dizer o mínimo. Ele teria inventado o número, a moeda, os pesos e as medidas, o dado, o jogo de xadrez e a piada. É óbvio que nada disso é verdade.

De todo modo, Palamedes foi um dos grandes generais da guerra de Tróia. Seu azar foi ter encontrado pelo caminho Ulisses (ou Odisseus). Após o rapto de Helena por Páris, Agamemnon enviou Palamedes a Ítaca para convencer Ulisses a honrar seu juramento de defender o casamento de Helena e Menelau participando da guerra.

Ulisses primeiro fingiu-se de louco, mas Palamedes era esperto e descobriu a artimanha, o que provocou o ódio de Ulisses. Na primeira oportunidade, quando Palamedes aconselhou os gregos a voltar para casa e desistir da guerra, Ulisses o acusou de traição, forjou uma prova e comprou uma falsa testemunha para depor contra ele. Sem defesa, Palamedes foi desclarado traidor e apedrejado até a morte.

Mais tarde a artimanha de Ulisses foi descoberta, mas Palamedes já estava morto. O sofista Górgias de Leontini aproveitou a história para escrever a sua "Defesa de Palamedes" em que se coloca como o próprio herói morto e tenta provar, com argumentos, que não poderia jamais ter sido traidor.

Sunday, April 15, 2007

Animal humano

O homem é um animal racional - Aristóteles
O homem é um bípede sem penas - Platão
O homem é um animal político - Aristóteles
O homem é um animal simbólico - Cassirer

De qualquer forma, eles concordam em um ponto: o homem é um animal.

Saturday, April 14, 2007

Infalibilidade das religiões

As religiões orientais, até onde posso dizer, pregam a busca da verdade interior, o desapego das coisas materiais, o respeito ao próximo e aos animais e o compromisso com a verdade, a bondade, a compreensão, a resignação, a paz e a paciência.

Muito bem. Ninguém pode negar que os orientais são profundamente religiosos. Mas, se é assim, por que o oriente não é o paraíso na terra? E por que, sabendo que o oriente não é o paraíso na terra, nós, ocidentais, queremos tanto conhecer melhor esta - digamos - espiritualidade, para sermos melhores como indivíduos e/ou vivermos melhor?

Qual é a lógica disso?

Thursday, April 12, 2007

Contra o zero (6)

Argumento definitivo contra o Zero:

Não ignoramos que o estudante sabe alguma coisa, qualquer que seja. É impossível que não saiba nada. Mas, se sabe alguma coisa, obviamente ignora aquilo que não sabe, e o que não sabe não existe para ele. Se existisse, ele saberia.

Assim, torna-se evidente que sabe não apenas alguma coisa mas tudo, porque não pode saber o que não existe, se o que não existe é nada. Se ele sabe tudo, não é merecedor do zero.

Wednesday, April 11, 2007

Contra o Zero (5)

Fragmentos de Heráclito contra o Zero:

84c: ....e é o zero...
126b: .... de tudo... é nada.
139a: Aproximação.
1024d: Comum é a todos o zero.
1098c: Zero ama esconder-se.
2965a: Um zero para mil vale mil, se for o melhor.
3425a: zero... nada... zero...
4567b: De todas (as coisas) o zero fulgurante dirige o curso.
5467a: Mais vale um zero na mão que dois 10 voando.
8756c: E é o zero fim em periferia de círculo.

Tuesday, April 10, 2007

Contra o Zero (4)

Argumentos de Zenão contra a multiplicidade do Zero:

I
Se o zero é múltiplo, terá de ser ao mesmo tempo grande o bastante para que possa ser dividido em outros zeros até o infinito, ou pequeno o bastante para que seja indivisível. Ora, sabemos que nada é pequeno e grande ao mesmo tempo. Assim, a multiplicidade do zero não existe e, não existindo, é não-ser e o não-ser é impensável, não dizível e principalmente impraticável pelos docentes. Logo, não pode haver mais zeros.

II
Se múltiplo é o zero, ele é zero, nem mais nem menos que zero. Se é zero, é limitado e finito. Mas, se é múltiplo, deve poder se subdividir em outros zeros até o infinito. Teríamos, então, que o zero é finito e infinito ao mesmo tempo. Ora, isto não pode ser. Assim, a multiplicidade do zero não existe. Logo, não pode haver mais zeros.

Sunday, April 08, 2007

Contra o Zero (3)

Aporias de Zenão contra o Zero (3):

Temos o segmento AA, imóvel, das idéias inatas; o seguimento BB, das idéias erradas, em movimento retilíneo uniforme da direita para a esquerda e o segmento CC, das idéias pré-concebidas, em movimento contrário a BB, ou seja, da esquerda para a direita.

Quando a segunda idéia errada tiver passado a primeira idéia inata, terá passado ao mesmo tempo quatro idéias pré-concebidas, o que resultaria numa grande confusão mental e, claro, na sentença 2=4. Como dois nunca pode ser igual a quatro exceto no zero, concluímos que as idéias erradas não existem. Logo, o zero não existe.

Saturday, April 07, 2007

Contra o Zero (2)

Aporias de Zenão contra o Zero (2):

Este argumento consiste na afirmação de que o mais rápido na corrida jamais poderá alcançar o mais lento. Ora, sabemos que o mais lento é 10, que tem uma boa vantagem sobre o mais rápido, que é zero. Quando o zero se deslocar para 2, o mais lento já terá saltado para 20, sem sair de 10. Quando o zero se deslocar mais um pouco e alcançar, com grande esforço, 4, o mais lento já terá 30, e o zero precisará recomeçar de 4. Assim, o mais rápido (que é zero, por percorrer distâncias) jamais poderá alcançar o mais lento (que é 10, por não sair do lugar).

Isto é um absurdo, porque o zero é um absurdo. Logo, não pode haver zeros.

Friday, April 06, 2007

Contra o Zero (1)

Aporias de Zenão contra o Zero (1):

Para se chegar a zero, é preciso antes chegar à metade de zero, que é -0,5 e, para chegar a -0,5, precisamos antes chegar à metade de -0,5, e isto infinitamente. Teremos a eternidade a percorrer para chegar a zero e, não sendo eternos, não podemos percorrer a eternidade.

Teríamos então que concluir que somos eternos, o que é um absurdo, porque o zero é um absurdo. Logo, o zero não existe.

Thursday, April 05, 2007

Filosofia do zero (3)

PROPOSIÇÃO III: de como o Logos, enquanto logos, compreende em si o Logos e, sendo Logos, nos prova que o eterno é o eterno e os sentidos são os sentidos, de onde se depreende que as idéias inatas recordadas pela razão são mesmo idéias inatas e resultado de um mundo das idéias em que a idéia principal é que a idéia inata é inata nos sentidos

A óbvia complexidade da questão reside no fato de que, se as idéias inatas o são em essência, o zero (que sabemos ser uma idéia inata) pode perfeitamente ser assimilado e digerido pelos discentes, sem a presença incômoda da dor pois, se há dor, o zero é o não-ser e o não-ser é impensável e não dizível. Se o zero nada fosse, não seria zero, mas seria algo e não se pode diminuir nada ao que é nada, nem acrescentar nada ao que nada é. Assim, nada se acrescenta e nada se pode extrair da nota zero.

Da mesma forma, o zero é um pois, se não fosse um, seria dois, ou ainda limitado por outro. Assim, não seria zero. Sendo um, torna-se impossível que seja dois. Portanto, o discente jamais poderá, sob qualquer hipótese, alcançar outro zero, já que provamos que o zero é um só. Se a estatística prova o contrário, a estatística não existe.

Mas, sendo um, só pode ser tudo, pois o que é um é único e engloba todas as coisas. Sendo tudo, deve conter em si a totalidade das idéias inatas, ou não seria tudo. Logo, somente o zero nos permite recordar idéias inatas de inumeráveis zeros pré-existenciais, anteriores ao ingresso no curso de Filosofia.

Assim, o zero tudo é e aquele que é capaz de alcançá-lo, alcança o tudo e o nada concomitantemente, pois no tudo também está o nada. Desta forma, Sendo capaz de alcançar o zero, será capaz também de alcançar o tudo, que é 10.

Pode-se inferir daí, facilmente, que o tudo é o conhecimento absoluto do nada e que o zero não passa de uma inexatidão terminológica.

Wednesday, April 04, 2007

Filosofia do zero (2)

PROPOSIÇÃO II: de como o ente corpóreo compreende que o zero em potência também o é em ato e que, sendo assim, é de fato zero.

Se o zero é inteiro, também é negativo, pois no conjunto N (o das notas) estão contidos os números negativos, ou seja, números precedidos do sinal (-) e anteriores a zero.

Esta afirmação reside no fato de que, sendo o aluno capaz de alcançar o zero, também o é de alcançar nota inferior a esta e, se o é em potência, também o é em ato. Assim, podemos dizer que NCZ (ou seja, NADA está contido no ZERO), sendo Z=(0, -1, -2, -3...) e isto ao infinito. Assim poderíamos alcançar o infinito e seríamos então infinitos e não finitos.

Ora, sabemos que não somos infinitos. Conseqüentemente, não podemos alcançar o infinito, que é zero. Portanto, o zero nada mais é que aparência de zero. Assim, o zero não existe.

Tuesday, April 03, 2007

Filosofia do zero (1)

PROPOSIÇÃO I: de como as idéias erradas se sucedem umas às outras em fila indiana, obedecendo à ordem alfabética rigorosa e à afirmação de que se a=b e b=c, x=y

Todo estudante de filosofia que já seja versado na Imediateidade do Ser (e Ter) Nota Zero, compreende o Zero como sendo uma esfera, ou seja, como não tendo começo nem fim, sendo portanto homogêneo, eterno e imutável.

Ora, sabemos que o zero é homogêneo, pois todo o primeiro ano compartilha dele. Da mesma forma, dados estatísticos nos provam que também é eterno e imutável, pois a probabilidade de que os alunos com nota zero na primeira avaliação a alcancem também nas avaliações posteriores é de 100/100 (Isto se explica facilmente pelo fato de que, tendo alcançado o zero logo de seu ingresso à universidade, não terão dificuldade alguma em consegui-lo repetidas vezes).

Mas caminhemos mais um pouco. Se o zero é o Ser, ele é. Se é, não foi engendrado, pois o engendrado tem começo e fim e sabemos que o zero nada gera e de nada é gerado. Igualmente, se for mutável, já não é mais o mesmo, mas se modifica. Se ele se modifica, não é. Também não pode ser vazio, porque o vazio é o incorpóreo e o incorpóreo é o vazio.

Portanto, não existe a nota zero senão enquanto zero e, se de nada vem a ser e nada virá a ser, a nota zero (que obviamente vem de nada), é o ser. Ou seja, é homogênea, eterna e imutável. Logo, a nota zero é uma verdade bem redonda.

Monday, April 02, 2007

Quem se importa?

Ora, ora. Jim Morrison, o líder dos The Doors, quem diria, será perdoado. O crime? "Conduta imprópria" no palco.

Considerando que

1. Ele morreu em 1971. Portanto, está pouco se lixando para nosso perdão
2. Quando vivo estava pouco se lixando para nosso perdão
3. Se estivesse vivo estaria pouco se lixando para nosso perdão

Pergunto: de onde vem essa bobagem?

Ah, sim, de alguém querendo ganhar fama sem fazer esforço.

O autor da idéia é um tal Dave Diamond, produtor de TV, que afirma desejar que "Morrison seja lembrado como um artista e não como um criminoso".

Ué, Jim Morrison não é o vocalista do The Doors? Há um criminoso com o mesmo nome?

O pior é que o governador da Flórida está "examinando o caso". A Flórida deve ser um paraíso para qualquer político: trabalha-se tão pouco que tem-se tempo até para examinar casos que não existem.

Friday, March 30, 2007

Alvo fácil

Havia, em Esparta, três "classes" sociais bastante distintas: os espartanos, os periecos e os hilotas.

Os espartanos eram aristocratas descendentes dos dórios, conquistadores da região. Os periecos eram os habitantes da periferia, homens livres que não possuíam direitos políticos, descendentes dos antigos povos micênicos que habitaram a região e foram conquistados pelos dórios.

Os hilotas, escravos por nascimento, captura ou guerra, viviam em servidão total. Não tinham qualquer direito e não se casavam. Em decorrência de sua situação, surgiam revoltas frequentes, facilmente controladas. Para inibir as revoltas, os espartanos os mantinham em regime de terror. Uma das estratégias mais cruéis era usar hilotas como alvos móveis em exercícios de guerra: os espartanos mandavam que corressem, em um recinto espaçoso e fechado, e atiravam lanças, para treinar a pontaria. Uma vez escolhido para alvo móvel, não havia meios de sair com vida da experiência.

Wednesday, March 28, 2007

Depois dos 300

Um dos episódios mais interessantes da história grega é a guerra contra os persas.

Dez anos após a derrota de Ciro em Maratona, Xerxes assumiu o trono e a guerra contra os gregos, planejando invadir a Grécia por terra, pelo norte. O objetivo era conquistar Atenas, situada na Ática, ao sul (a razão oficial era punir os atenienses por encorajar as cidades da Àsia Menor, conquistadas por Ciro, a se revoltar).

A meio caminho em direção ao sul, o exército persa foi retido três dias pelos espartanos no desfiladeiro das Termópilas, única passagem por terra entre o norte da Grécia e o sul.

Com o atraso dos persas, os atenienses tiveram tempo de abandonar a cidade e forçar o inimigo a lutar por mar, onde a engenhosidade dos gregos fez história.

Temístocles, o líder ateniense, persuadiu os concidadãos a fugir para a ilha de Salamina. Em seguida, fez chegar ao conhecimento de Xerxes que os navios helênicos estavam encurralados nas águas rasas de Salamina.

Xerxes foi atraído pelo engodo e seus navios, de grande porte, ficaram atracados no estreito, à mercê dos navios atenienses, que, por serem de pequeno porte, podiam navegar naquelas águas. Então, com as lanças de ferro construídas nas proas de seus navios, os navios atenienses furaram um a um os navios do inimigo.

A guerra não acabou aí, mas esta derrota e a consequente retirada de parte do exército persa foi decisiva para a vitória dos gregos.

Monday, March 26, 2007

Lei de mercado

Demades, um orador ateniense que viveu no século IV a.C., conseguiu convencer a assembléia de que um certo artesão deveria ser punido, o que de fato aconteceu.

Mas o que esse homem fazia de tão grave, para virar assunto em assembléia?

Apenas vendia os caixões que fabricava a preços exorbitantes. Como caixões são tão necessários quanto sandálias e braceletes, o homem corria o risco de ficar rico muito rapidamente, especialmente em época de guerras. Mas deram logo um jeito de estragar a festa sob a alegação de que é uma indignidade alguém enriquecer com a morte dos cidadãos.

O tal artesão não devia ter concorrentes.

Saturday, March 24, 2007

Homem-lagartixa

Esta realmente é demais.

No século XIX um tal Miguel João Pellicier, espanhol, sofreu um acidente e feriu a perna. Quase um mês depois ela foi amputada e devidamente enterrada no cemitério do hospital.

Nos meses seguintes o coxo ia à igreja todos os dias para untar a ferida com o óleo das lâmpadas e pedir por sua reabilitação. Três anos depois foi atendido: o rapaz acordou em um belo dia com as duas pernas. Sim, com as duas pernas: a boa, e aquela que tinha sido enterrada, e havia desaparecido do cemitério.

O melhor da história é que a perna que desapareceu do cemitério e apareceu no corpo do rapaz ainda estava em perfeitas condições. Só mantinha as cicatrizes da cirurgia, claro.

Isto sim é um milagre.

Supondo alguma verdade nesta história, os moradores da cidade certamente tinham dificuldade em distinguir madeira trabalhada de tecido orgânico. E, claro, devia convir ao rapaz manter a confusão.

Ora. Fala sério.

Thursday, March 22, 2007

A mulher espartana

Os cinco filhos de uma mulher espartana lutavam na mesma batalha. Morreram todos. Quando foram à sua casa lhe dar a triste notícia, ela perguntou: "Esparta venceu?"
O mensageiro respondeu que sim, e ela concluiu: "Então está tudo bem".

Tuesday, March 20, 2007

Delírios de Rousseau (7): Má vontade

Lembro que, em um curso sobre marketing, o instrutor disse: se você não quiser (ou não puder) ser criativo em propaganda, use uma criança para apresentar seu produto.

O mesmo vale para Rousseau. Faltou assunto? Abra o Segundo Discurso. Há ali um manancial inesgotável de afirmações absurdas. O Emílio também serve, claro, mas vou guardá-lo para o futuro.

Pois é, não me falta assunto, mas falta tempo prá escrever com calma. Hora de pedir ao Super-Filósofo e seu manualzinho de asneiras que venham me salvar.

A asneira de hoje é sobre animais ferozes. Diz Rousseau (página 9 da Coleção Os Pensadores, edição de 1973) que os animais ferozes atacam de má vontade o homem. De onde ele tirou essa idéia, só ele para dizer, mas o que eu gostaria mesmo de saber é o que os animais fariam com o homem se realmente tivessem vontade de atacá-lo.

Saturday, March 17, 2007

Os 300 que não eram de Esparta

Um dos piores filmes que não vi atualmente é 300 (aquele em que Rodrigo Santoro aparece fantasiado de ET, com voz de Darth Vader). Não posso falar muito sobre o filme porque não consegui vê-lo até o final. O filme me deixou com uma sensação de total perda de tempo.

Em primeiro lugar, a linguagem é de histórias em quadrinhos, das piores, as de supervilões e superheróis. Ou, se se quiser, um destes jogos insuportáveis de PlayStation. Só há personagens-tipo, sem alma.

O rei Leônidas, de Esparta, age como se governasse sozinho, quando em Esparta havia dois reis. A esposa não é uma mulher espartana. Os Éforos, aquele conselho de cinco anciãos, coitado, virou um conselho de monstrengos. O episódio em que o rei persa manda um mensageiro dizer aos gregos que se rendam, enviando como sinal um pouco de terra e água, aconteceu na verdade com os atenienses, e a resposta foi: "venham buscar". Prá completar, os gregos geralmente tinham respeito por seus inimigos. Foi assim com Tróia (diz a lenda), foi assim com Xerxes, foi assim com Felipe da Macedônia. Alexandre agia da mesma forma, o que acabou por irritar seu exército na Babilônia.

Tudo isto, claro, sem falar na caracterização absurda de Xerxes, uma figura andrógina que se considera deus (o que é de fato um dado histórico), mas é um demônio.

Como disse, não vi o filme até o fim, mas foi esta "vitória" dos espartanos nas Termópilas (que, com trezentos homens, detiveram por três dias o exército persa) que permitiu a Atenas vencer a guerra.

Ah, sim, é filme, não é história. Tudo bem, mas para quem conhece um pouco desta história o filme soa como uma piada de muito mal gosto. É grotesco. Criar uma fantasia que tem como pano de fundo a história só serve mesmo para atrair os desavisados.

Thursday, March 15, 2007

Sokal X Baudrillard

Alan Sokal pregou uma peça nos intelectuais, em 1996: publicou um artigo em revista especializada, com o título "Atravessando as Fronteiras - Em Direção a uma
Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica". Não dizia coisa com coisa e exagerava no jargão supostamente científico. O artigo foi recebido com aplausos, comentado, elogiado, revisado. Alguns meses depois o próprio Sokal revelou a farsa: escreveu um outro artigo, onde apontou as deficiências, erros e imprecisões propositais do primeiro, que havia sido tão bem recebido, sem ter sido de fato entendido. A peripécia colocou em cheque tanto filósofos da ciência e psicanalistas quanto toda a comunidade acadêmica. Seus alvos principais eram Lacan, Deleuze e Kristeva. Logo em seguida escreveu "Imprecisões Intelectuais" junto com Jean Bricmont em que relata a experiência e faz críticas mais diretas a alguns intelectuais.

Independentemente da qualidade do livro, que é uma leitura imprescindível, Sokal faz uma crítica em especial de que não posso concordar. Segue abaixo um trecho da entrevista que deu à Folha (o texto completo está no link do título deste post).

Diz ele sobre Baudrillard:

FOLHA - O que o sr. critica na obra e nos textos de Baudrillard?

SOKAL - Muitos dos textos dele são escritos em um estilo pomposo que
parece ser profundo, mas cujo significado preciso (no caso de haver
algum) está longe de ser claro. Bricmont e eu concluímos nossa análise
dos abusos de Baudrillard afirmando que "se encontram nas obras dele
uma profusão de termos científicos, usados com displicência em relação
a seus significados, e, acima de tudo, em um contexto em que são
claramente irrelevantes. [...] Além disso, a terminologia científica
vem misturada com um vocabulário não-científico, que é empregado com
igual falta de rigor".


Fico me perguntando se Sokal e Bricmont não sabem o significado da palavra "metáfora". Meu objetivo não é defender Baudrillard, ou qualquer outro filósofo francês (amantes de metáforas), mas observar que, quando Baudrillard fala em metástase, obviamente não o faz em um contexto científico, mas apenas se utiliza do campo semântico desta palavra (ou seja, a expansão de um tumor, a propagação de algo nocivo) para ilustrar o que quer dizer sobre a cultura. Não se trata de empregar o termo em seu contexto, ou de usá-lo com rigor, porque não se trata de falar em metástase exatamente, mas de usar esta idéia para explicar outra coisa.

Posso estar enganada, mas não percebo a relevância desta crítica em específico. Ao contrário, me parece muito mais uma exigência de que o termo científico seja usado com rigor científico. Mas peraí. Não é isto que Baudrillard quer, e nem é aí que ele está.

Sunday, March 11, 2007

O dia em que Platão foi vaiado

Platão era um jovenzinho quando Sócrates foi julgado e condenado, mas sofreu profundamente a perda do mestre e tentou evitar sua morte. Durante o julgamento, conta Diógenes Laércios, Platão subiu à tribuna para defender Sócrates:

"Homens de Atenas! Embora sendo o mais novo de todos os que em qualquer tempo subiram a essa tribuna..."

Não conseguiu completar a frase. Os juízes gritaram em coro: "Desce! Desce!"

E lá se foi o mais jovem ateniense a subir na tribuna: diretamente para baixo.

Diógenes Láercios, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres II, 5, 42.

Thursday, March 08, 2007

Há algo errado com Sócrates

Definitivamente, Sócrates tinha algum problema. Platão conta, em várias passagens de suas obras, que Sócrates se envolvia tão profundamente com os problemas teóricos que o embaraçavam que perdia a noção de tempo e lugar e ficava alheio a tudo que não fosse seus pensamentos.

Em um dos diálogos (O Banquete) Platão diz (não sem exagero, acredito) que, indo Sócrates e os discípulos a uma casa onde seriam recebidos para um debate, caminhava um pouco afastado dos discípulos, logo atrás, pensativo, enquanto os discípulos conversavam alegremente. Ao chegarem à casa, perguntaram aos discípulos: "Mas onde está Sócrates? Ele não vem?"

Espantados, eles se deram conta de que Sócrates não estava mais entre eles. Então, refizeram o caminho à procura do filósofo e o encontraram de pé, encostado em uma árvore, a meio caminho.

Até aí, tudo bem. Mas Platão conta ainda que os discípulos o chamaram, e ele não respondeu. Desistindo, resolveram deixá-lo onde estava... e o surpreendente é que no dia seguinte ele continuava no mesmo lugar, exatamente do mesmo jeito. Havia passado a noite inteira de pé, pensando.

Este fato e outros semelhantes são relatados prova da genialidade do filósofo, mas estou convencida de que significam mais que isso. Significam que havia algo de errado com Sócrates. Não posso acreditar que alguém fosse capaz de passar uma noite inteira e todo o dia seguinte de pé, pensando, sem se dar conta disso.

Tuesday, March 06, 2007

Jean Baudrillard

Morreu hoje, 06.03.07, o filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard, autor de "Signos", "América, "A Transparência do Mal", "A alucinação coletiva do virtual", "A conjuração de imbecis", "Simulação e Simulacro", "Da sedução", "À sombra das maiorias silenciosas", "Contra Foucault" e outros. Boa leitura, mas não exatamente fácil. A proximidade com Kierkegaard é grande.

Vá pela sombra, Jean.

Eis um trecho de "A transparência do Mal", que já citei aqui uma vez:

Se fosse caracterizar o atual estado de coisas, eu diria é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da Modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da criança, das pulsações inconscientes, liberação da arte. Assunção de todos os modelos de representação e de todos os modelos de anti-representação. Total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento. Percorremos todos os caminhos da produção e da superprodução virtual de objetos, de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres. Hoje, tudo está liberado, o jogo já está feito e encontramo-nos coletivamente diante da pergunta crucial: O QUE FAZER DEPOIS DA ORGIA?

Só podemos agora simular a orgia e a liberação, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vácuo, porque todas as finalidades da liberação já ficaram para trás, e o que nos preocupa, o que nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, de todas as formas, de todos os desejos. Que fazer então? Isso é o estado de simulação, aquele em que só podemos repetir todas as cenas porque elas já aconteceram — real ou virtualmente. É o estado da utopia realizada, de todas as utopias realizadas, em que é preciso paradoxalmente continuar a viver como se elas não o estivessem. Mas, já que o estão e já que não podemos ter a esperança de realizá-las, só nos resta hiper-realizá-las numa simulação indefinida. Vivemos na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que doravante ficaram para trás e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferença fatal. No fundo, a revolução já aconteceu em toda a parte, mas não do modo como se esperava. Em toda a parte, o que foi liberado o foi para passar à pura circulação, para entrar em órbita. Com certo recuo, pode-se dizer que o fim inelutável de toda a liberação é fomentar e alimentar as redes. As coisas liberadas são fadadas à comutação incessante e, portanto, à indeterminação crescente e ao princípio de incerteza.

Nada mais (nem mesmo Deus) desaparece pelo fim ou pela morte mas por proliferação, contaminação, saturação e transparência, exaustão e exterminação, por epidemia de simulação, transferência na existência segunda da simulação. Já não há modo fatal de desaparecimento, mas sim um modo fractal de dispersão. Nada mais se reflete de fato, nem em espelho, nem em abismo (que nada mais é que o desdobramento infinito da consciência). A lógica da dispersão viral das redes já não é a do valor nem a da equivalência. Já não há revolução, mas circunvolução, uma involução do valor. Ao mesmo tempo, uma compulsão centrípeta bem como uma excentricidade de todos os sistemas, uma metástase interna, uma autovirulência febril que os leva a explodir além de seus próprios limites, a ultrapassar a própria lógica, não na pura tautologia mas num aumento de força, numa potencialização fantástica em que eles arriscam a própria perda.

Todas essas peripécias nos fazem retornar ao destino do valor. Eu havia invocado outrora, num obscuro intento de classificação, uma trilogia do valor. Um estádio natural do valor de uso, um estádio mercantil do valor de troca, um estádio estrutural do valor-signo. Uma lei natural, uma lei mercantil, uma lei estrutural do valor. É claro que essas distinções são formais, mas é como os físicos que inventam cada mês uma nova partícula. Uma não expulsa a outra: elas sucedem-se e adicionam-se numa trajetória hipotética. Vou, portanto, aqui acrescentar uma nova partícula à micro-física dos simulacros. Depois do estádio natural, do estádio mercantil, do estádio estrutural, eis que chega o estádio fractal do valor. Ao primeiro correspondia um referente natural, e o valor desenvolvia-se em relação com um uso natural do mundo. Ao segundo correspondia um equivalente geral, e o valor desenvolvia-se em referência a uma lógica da mercadoria. Ao terceiro corresponde um código, e o valor aí se desenvolve em referência a um conjunto de modelos. No quarto estádio, o estádio fractal, ou estádio viral, ou ainda estádio irradiado do valor, já não há nenhuma referência: o valor irradia em todas as direções, em todos os interstícios, sem referência ao que quer que seja, por pura contigüidade. No estádio fractal, já não há equivalência, nem natural nem geral, nem há lei do valor, de proliferação e de dispersão aleatória. Em rigor, já não se deveria falar de valor, já que essa espécie de mulipicação e de reação em cadeia torna impossível qualquer avaliação. Mais uma vez é como na microfísica: é tão impossível calcular em termos de belo ou feio, de verdadeiro ou falso, de bem ou mal, quanto calcular ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula. O bem já não é perpendicular ao mal, nada mais se coloca em abscissas e ordenadas. Cada partícula segue seu próprio movimento, cada valor ou fragmento de valor brilha por um instante no firmamento da simulação para desaparecer no vácuo, segundo uma linha quebrada que só excepcionalmente encontra a dos outros. É o esquema peculiar ao fractal; é o esquema atual de nossa cultura.

Quando as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e de sua finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda.

Friday, March 02, 2007

Ironia do destino

Coincidências não existem. Ao menos, é o que ouço quase todos os dias. Seja como for, Aristóteles conta que um tal Mítis, que havia sido responsável pela morte de um escultor, estava um dia observando uma das esculturas do morto quando o inesperado aconteceu: ela caiu sobre ele e o matou. Terá sido uma vingança dos deuses? Será que o próprio artista matou o causador de sua morte?

Coincidências existem, sim, para quem não acredita em Papai Noel, duendes ou justiça cósmica. Para o restante da humanidade, é apenas coincidência demais.

Eis o trecho da Poética em que Aristóteles narra o incidente:


56. Como, porém, a tragédia não só é imitação de uma ação completa, como também de casos que suscitam o terror e a piedade, e estas emoções se manifestam principalmente quando se nos deparam ações paradoxais, e, perante casos semelhantes, maior é o espanto que ante os feitos do acaso e da fortuna (porque, ainda entre os eventos fortuitos, mais maravilhosos parecem os que se nos afiguram acontecidos de propósito — tal é, por exemplo, o caso da estátua de Mítis em Argos, que matou, caindo-lhe em cima, o próprio causador da morte de Mítis, no momento em que a olhava —, pois fatos semelhantes não parecem devidos ao mero acaso), daqui se segue serem indubitavelmente os melhores os mitos assim concebidos.

Wednesday, February 28, 2007

Perfil psicológico

Encontrei mais um teste divertido, inócuo e absolutamente (des)importante. Se não tiver nada prá fazer, já encontrou. O resultado será sempre adequado ao seu perfil, porque todos são, e tem a vantagem de só dizer coisas boas. :-))

Monday, February 26, 2007

Mistério

De Churchill sobre a União Soviética:

"Uma charada envolta em mistério dentro de um enigma".

Tuesday, February 20, 2007

Os filósofos e o riso (1): Kant

Que Kant não devia rir muito, ou apreciar o riso, é altamente provável. Mesmo assim, ele tinha uma teoria a respeito:

Em tudo o que pode suscitar um riso vivo e abalador tem que haver algo absurdo (em que, portanto, o entendimento não pode em si encontrar nenhuma complacência). O riso é um afeto resultante da súbita transformação de uma tensão expectativa em nada (Crítica da Faculdade de Julgar 52, 225).

Em outra passagem ele diz que, se a expectativa resultar em alguma coisa, o que vem a seguir não é o riso, mas a frustração. Portanto, tem de resultar em nada.

Faz sentido. Mas, por melhor que fosse em definir o riso, Kant certamente não era tão bom em provocá-lo, exceto por sair para caminhar todos os dias exatamente à mesma hora, fazendo a cidade inteira acertar os relógios à sua passagem.

Monday, February 19, 2007

Bebê real

Henrique I (1068-1135), rei inglês, é uma das figuras mais fortes da história da Inglaterra. Teve um casamento longo e tumultuado com Eleanor de Aquitânia, uma mulher inteligente e dominadora, que queria mudar o mundo, mas acabou mudando apenas os costumes da Inglaterra. Eleanor, que já estava no segundo casamento, foi mãe da maior parte dos monarcas da Europa da geração seguinte. Em sua prole com Henrique I contam-se Ricardo Coração de Leão e o famigerado João Sem Terra.

Entre os feitos de Henrique I, está o mérito de restabelecer a paz entre os senhores feudais, a ordem no país e o poder real. Mas, como todo monarca que se preze, era baixo, roliço, bom de garfo e não dava a mínima para a higiene pessoal. Mas isso talvez se devesse ao medo de morrer afogado.

O espantoso a respeito dele é que, quando ficava bravo, literalmente rolava pelo chão aos uivos, o que não ficava nada bem em sua majestade, mas fazia os súditos sairem correndo depressinha, fosse para atendê-lo, fosse para fugir dele.

As mulheres da corte, entretanto, talvez por terem filhos pequenos, conseguiam lidar bem com a fúria do monarca.

Sunday, February 18, 2007

Subterrâneos do Vaticano

Em 1152, Frederico I, o Barba Ruiva, ascendeu ao trono germânico (que se tornaria o império franco-germânico).

Frederico achava que era descendente e sucessor dos antigos imperadores romanos. Portanto, herdeiro natural de todo o ocidente conhecido então. Para assumir o que lhe era de direito, havia um grande obstáculo: o poder político da igreja de Roma.

O problema ficou um pouco maior quando um inglês, Nicholas Breakspear, tornou-se o papa Adriano IV, em 1154. Os desentendimentos entre eles, que resultaram na excomunhão do Barba Ruiva, giraram em torno tanto de coisas banais, como Frederico se recusar a segurar as rédeas do cavalo do papa, quanto de disputas políticas sérias, como a revolta das cidades do norte da Itália.

Quando Adriano IV tornou-se papa, havia em Roma um tal Arnaldo de Brescia, cônego agostiniano, que achava porque achava que a igreja devia ser pobre como ele. Era tão obstinado com a idéia da pobreza alheia que conseguiu incitar uma rebelião em Roma. Foi preso, mas isso não era o bastante.

Como Frederico precisava ser coroado rei pelo papa (mais precisamente, receber a benção que o tornaria sucessor ao trono também por direito divino), Adriano IV enviou uma mensagem ao monarca: aceitaria coroá-lo rei se e somente se Frederico I lhe entregasse Arnaldo de Brescia.

Frederico I atendeu prontamente: entregou o rebelde ao prefeito de Roma, que o devolveu à Santa Sé, bem enforcadinho, conforme o desejo do papa. Afinal, o tal Brescia era um zé-ninguém para o imperador, um agitador para o prefeito de Roma e um perigo para o conforto material do papa. E depois, lá se vão os dedos, mas ficam-se os anéis.

Saturday, February 17, 2007

Sebastopolitano

Meu pai é uma graça. Preocupada com o fato de que ele não anda lá muito bom da memória, sugeri que exercitasse mais a mente, resolvesse palavras cruzadas, quebra-cabeças, essas coisas. A reação foi imediata: "Memória ruim? Eu não tenho memória ruim! Você lembra, por acaso, onde fica Sebastopol? Não? Pois eu me lembro! Quem é mesmo que tem memória ruim aqui?"

Cruzes! Sebastopol? De onde veio isso?

Então está resolvido: se ele é capaz de se lembrar de que existe Sebastopol (ainda existe?), ninguém pode dizer que não tenha boa memória, o que me leva a outro "diagnóstico": trata-se apenas de desinteresse pelas coisas do dia-a-dia.

A não ser, é claro, pelo fato de que lembrar de uma informação que reteve em mil-novecentos-e-bolinha não invalida a tese de que anda se esquecendo de fatos recentes, mas eu é que não falo mais nada.

Sei lá para onde ele não vai depois de Sebastopol.

Friday, February 16, 2007

Os mortos ilustres do Père Lachaise

O cemitério mais famoso do mundo é o Père Lachese, em Paris, e não é pra menos. Em 44 hectares de extensão estão enterradas várias personalidades da história mundial. São 110 mil sepulturas.

O cemitério recebe 3 milhões de visitantes por ano. A única sepultura problemática, se podemos dizer assim, é a de Jim Morrison, o líder do grupo The Doors. Há um movimento para retirar Jim Morrison de lá, porque sobram garrafas, fumo, seringas, velas e restos de comida em torno de seu túmulo.

Eis alguns dos mortos ilustres do Père Lachaise:

- Oscar Wilde
- Frederic Chopin
- Marcel Proust
- Max Ernst
- Alain
- Claude Bizet
- Edith Piaf
- Baudelaire
- Moliére
- Alan Kardec
- Honoré de Balzac
- Lyotard
- Dominque Ingres
- Apollinaire
- Barbedienne
- Sarah Bernhardt
- Paul Eluard
- Modigliani
- Merleau-Ponty
- La Fontaine
- Delacroix

Dizem que os restos mortais de Cleópatra, a rainha do Egito, também estariam lá, levados por Napoleão.

Thursday, February 15, 2007

Lei da compensação

Tomás de Aquino (1225-1274) viveu 49 anos, a maior parte deles com uma barriga que não deixaria nenhum santo com inveja.

Teria sido verme, cerveja ou fé em excesso?

Com certeza jejuava pouco, mas devia ter mesmo muita fé.

A barriga era tão grande que ele tinha dificuldade para fazer as refeições: não conseguia se sentar perto o suficiente da mesa.

Bobagem. Problema existe prá ser resolvido: serraram a madeira da mesa, fazendo um meio-círculo bem grande, bem grande mesmo, para que ele pudesse encaixar o barrigão.

Mas ora. Bastava apoiar o prato na barriga. Com babador, claro.

Ou então, se tivesse pensado melhor, teria feito um bom regime e vivido mais tempo. Mas o voto de castidade devia tornar essa opção impossível.

Wednesday, February 14, 2007

As sete maravilhas do mundo moderno

Então.

Clique no título e escolha as novas maravilhas do mundo. O Cristo Redentor é um dos candidatos.

Aproveite para não se registrar, não votar e não comprar o certificado de voto, seja lá para que isso sirva. É só agência de turismo querendo vender passagem.

Mas dá prá espiar algumas maravilhas que o homem construiu: os moares da Ilha de Páscoa, um castelo alemão, a Acrópole, Angkor Vat, Stonehenge, o Coliseu, etc.

Tuesday, February 13, 2007

Strip-tease sartreano

E por falar em existencialismo, vamos ao pai contemporâneo da criança.

Em determinado momento de uma festa animada, Sartre empolgou-se e subiu em uma mesa para dançar. O amigo Paul Nizan fez o mesmo, e ficaram os dois dançando em cima da mesa, enquanto os demais ficavam em volta, se divertindo com a cena. A certa altura o jovem Sartre, entusiasmadíssimo, começou a tirar a roupa, peça por peça. O amigo Nizan fez o mesmo. Lá pelas tantas, quase totalmente sem roupa, e mais empolgado ainda, Sartre, talvez porque não era lá muito bom das vistas, talvez porque quisesse fazer graça, talvez simplesmente porque quisesse, agarrou o amigo e tentou beijá-lo. O que era um strip-tease virou um "vem-cá" e "me solta" que divertiu ainda mais a platéia. Só Nizan não achou graça. Não sei se a amizade acabou exatamente aí, mas não durou muito mais. Viraram inimigos eternos.

Mas bem que eu gostaria de ver um strip-tease existencialista, seja lá o que isso signifique.

Monday, February 12, 2007

Aquarela

Ouvi recentemente que o "descolorirá" final da música "Aquarela", de Toquinho, é existencialista, e fiquei me perguntando, como sempre, o que há comigo que não tenho essa percepção das coisas. Por que existencialista? Porque vamos morrer e acabou-se? Porque o "descolorirá" significa que não vamos colorir em outro lugar, depois da morte? Mas ora, por que isto haveria de ser exatamente existencialista? Os niilistas e os ateus não dizem a mesma coisa? Não há existencialismo cristão? O que torna o final da música "Aquarela" tão existencialista assim? Juro que não entendo.

Ou talvez entenda. Talvez seja simplesmente legal dizer algo assim, ou talvez o termo "existencialista" seja muito mais amplo do que a nossa vã filosofia pode imaginar.

Eis aí a estrofe:

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Sunday, February 11, 2007

Roteiro de filme B

Hoje minha família foi premiada com o golpe do sequestro. Eu não estava presente quando houve a primeira ligação, caso contrário teria desligado o telefone imediatamente e ligado para a polícia, porque assisto aos telejornais e estou informada do golpe.

Mas esse não era o caso dos meus pais. Pode-se imaginar a confusão. Foram compradas, às pressas, pilhas de cartões de celular. Quando fui informada e cheguei, tive dificuldade em entender o que aquela pilha de cartões tinha a ver com o suposto sequestro. O "sequestrador" exigia os números dos cartões para não matar o "sequestrado".

Desfeita a confusão, atendi a uma das ligações. A essa altura um amigo policial já estava presente. Mesmo após informar ao "sequestrador" que a polícia já havia sido acionada, e mesmo depois que o "sequestrado" atendeu ele próprio à ligação, o bandido continuou ligando. Desistiu apenas quando deixamos de atender.

Qualquer coisa que possa dizer sobre esse episódio será retórico. Só espero que minha família assista menos novelas e mais telejornais a partir de agora.

O lado bom é que por um bom tempo não precisarei comprar cartões de celular.

Friday, February 09, 2007

Contradição

Coincidências não existem, claro. Tudo está em conformidade com a vontade de uma força maior, invisível. O que parece coincidência é destino, aviso ou alerta.

Bem, falando sobre Schopenhauer em sala de aula, comentei que, para ele, a esmola que damos aos mendigos só serve para prolongar por mais um dia a sua miséria.

Até aí tudo bem.

Mas eis que, no instante em que termino a frase, um mendigo entra na sala de aula, pedindo esmola (coisa raríssima, aliás, o que reforça o fato de que coincidências não existem. O mendigo conseguiu burlar a vigilância).

Que fazer? Que dizer? Que pensar? Puxa, logo agora? Diante de 50 pares de olhos atentos e curiosos quanto à minha reação? Que coisa!

É, dei a esmola.

Deve ter sido um aviso de que na prática a teoria é outra.

Wednesday, February 07, 2007

Pensando

Encontrei em Adorno, no artigo "Observações sobre o pensamento filosófico" (Palavras e Sinais, p. 24):

"A imagem de quem se senta a fim de meditar sobre algo, para sondar o que ainda não sabia, é tão equivocada quanto a aposta, a das intuições que caem do céu. (...) Não seria um mau indício sensível para isso o lápis ou a caneta que alguém segura na mão enquanto pensa, assim como foi transmitido por Simmel ou por Husserl, o qual, como se sabe, mal conseguia pensar a não ser escrevendo, de maneira similar a de alguns escritores aos quais as melhores idéias ocorrem enquanto estão escrevendo."

Puxa. Então esse é o segredo: basta escrever de pé que lá vem idéias brilhantes.

Monday, February 05, 2007

Didaticamente falando

Psicologicamente falando, se há uma coisa que acho difícil de entender é o advérbio usado antes do gerúndio para situar a afirmação que será feita em seguida.

Matematicamente falando, nada se acrescenta.
Semanticamente falando, não faz sentido.
Gramaticalmente falando, a expressão deixa a desejar.
Administrativamente falando, ninguém perderia nada se fosse suprimida.
Musicalmente falando, revela descompasso com a fala articulada que se pretende formular.
Linguisticamente falando, é só mais um anglicismo.
Culturalmente falando, é apenas mais uma dessas bobagens que alguém inventa. Antropologicamente falando, os outros saem por aí imitando como se fosse a coisa mais inteligente a se fazer.

Bem, verdade seja dita: retoricamente falando, até que serve prá chamar a atenção, ainda que não passe disso.

Saturday, February 03, 2007

Comichão

A filosofia não fez nenhum progresso? Se alguém coça onde lhe comicha, é preciso ser visto algum progresso? Caso contrário, isso não será um coçar autêntico ou uma comichão autêntica? E não poderá essa reação ao estímulo continuar por longo tempo até que seja encontrada uma solução para o comichar?

Richard Rorty - A filosofia e o espelho da natureza

Se entendi bem, esta é uma citação que Rorty faz de Wittgenstein. De qualquer modo, tenho uma receita ótima para acabar com o problema: converse com um especialista, antes que a coisa fique fora de controle.

Tuesday, January 30, 2007

Leis da filosofia

Dizem que a filosofia é regida por duas leis:

1a. Lei: Para cada filósofo, há outro igual e oposto.

2a. Lei: Ambos estão equivocados.

Ignoro o autor.

Monday, January 29, 2007

O dia em que a Bélgica acabou

Durante dois meses, a RTBF, emissora de TV belga, preparou-se cuidadosamente para noticiar que a independência da região de Flandres, de língua holandesa, havia sido aprovada pelo Parlamento. Perder Flandres significaria o fim do país.

O objetivo era provocar a discusão sobre o futuro da Bélgica, mas a coisa toda foi tão bem arquitetada que ninguém duvidou da notícia.

Antes que pudessem desmentir a informação e explicar o propósito da "pegadinha", o caos já havia se instalado no país.

No fim das contas, a RTBF só conseguiu gerar pânico e perder a credibilidade.

Brincadeira besta.

Saturday, January 27, 2007

Incapacidade de contar carneirinhos

Insônia não é meu forte, mas durante a infância era obrigada a dormir muito cedo. Como o sono às vezes demorava a vir, me ensinaram a contar carneirinhos.

Tentei. Lá vinham os carneirinhos, pulando a cerca: um, dois, três, quatro... e de repente um deles pulava mal a cerca, caía de mau jeito e quebrava a patinha.

Pronto! Agora eu tinha um problema: mal começava a contar, um carneirinho estragava tudo, e eu só ficava pensando no carneirinho caído, enquanto os outros continuavam pulando e eu perdia a conta. Se tentasse apagar tudo e começar de novo, lá vinha o bichinho tonto outra vez. Às vezes os outros tropeçavam no carneirinho caído e caíam também. Era uma tortura. :))

Mesmo assim, fazia todo sentido para mim um carneirinho cair. É claro que não são todos iguais, né? Não existe no mundo um único rebanho de carneiros iguaizinhos. Claro que um é mais magrinho, outro é mais gordinho; um é mais ágil, outro nem tanto... Então é obvio que nem todos vão pular a cerca com a mesma destreza, né?

Pois então.

Thursday, January 25, 2007

Gralha?

Às vezes os livros editados em português de Portugal me confundem. Lembro que, na adolescência, lia uma historinha policial, escrita em português de Portugal (ou traduzida, não lembro), em que lá pelas tantas o personagem-narrador dizia que "havia uma bicha enorme em frente ao banco". A frase soou tão fora de propósito que não esqueci. Mais tarde descobri que "bicha" é apenas "fila".

Coisas de quem ainda está descobrindo o mundo.

Pois é. Eis que hoje, vasculhando as Confissões de Rousseau em busca de informações sobre as "Cartas a D'Alembert", esbarro na seguinte frase, que cito exatamente como está: "Esse barão era filho de um homem que havia trepado, e gozava de uma enorme fortuna, de que dispunha nobremente, recebendo em sua casa gente de letras e de merecimento, de que não desdizia graças ao seu saber e às suas luzes" (Lisboa, Relógio D'Água, vol. 2, livro oitavo, p. 95).

Então. Parei aí. O que terá feito esse homem, afinal de contas? Será que é apenas cochilo da revisão, em um livro tão bem acabadinho, tão bem revisadinho, apesar de bastante extenso? Será apenas uma tradução mal feita? Ou será isso mesmo e "trepar" tem um significado que só os portugueses entendem?

É claro que o significado, digamos, brasileiro está fora de questão. Primeiro, porque é um termo grosseiro demais para estar em um livro de filosofia. Segundo, porque isso certamente não seria tão relevante, a ponto de Rousseau incluir a façanha em suas Confissões. Terceiro, porque a afirmação seria, nesse caso, absolutamente desnecessária, já que o tal barão é filho do tal homem.

Não, não. O significado é outro, mas ainda oculto para mim.

Então pensei: será que ele subiu em uma árvore? Mas que importância isso teria, né?

Sim, procurei o verbete em um dicionário online de português de além-mar, mas não encontrei nada esclarecedor.

Continuo na ignorância.

Wednesday, January 24, 2007

Século misógino

Nós sabemos bem que a misoginia sempre esteve presente em todas as épocas, mas é particularmente presente no século XIX. Grandes pensadores do período, como Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Kierkegaard, só para citar alguns, fizeram comentarios depreciativos sobre as mulheres em seus escritos. George Sand vestia-se como homem. As heroínas da literatura, via de regra, eram mulheres que traíam os maridos (Madame Bovary, Ana Karenina), prostitutas (Moll Flanders, a Sonja de Crime e Castigo, Bola de Sebo, A Dama das Camélias), bibelôs (a primeira mulher de David Copperfield, por exemplo), más (como a Marquesa de Os Três Mosqueteiros ou a amada de O Idiota, de Doistoievski), fálicas e ressentidas (como a heroína de A Herdeira, de Henry James), interesseiras (como a amada de Pip), reprimidas sexualmente (como a babá de A Volta do Parafuso), ingênuas (como a heroína de Guerra e Paz) ou servis (como a florista de Pigmaleão).

Eis alguns comentários de filósofos da época sobre as mulheres:

De Nietzsche:

"Quando as mulheres lutam por conquistar direitos iguais aos do homem, isso é um sinal de doença; qualquer médico o sabe"
"A mulher é uma superfície que tenta imitar a profundidade".


De Kierkegaard:

"Quando a mulher comete um grande feito, admiramo-la mais do que a um homem, por não ser de modo algum isso que dela seria de esperar".
"Quando Sócrates agradece aos deuses por ser grego e não bárbaro, tenho de concordar com ele. Quando agradece aos deuses por ser livre e não escravo, novamente estou de acordo. Mas quando agradece por ser homem e não mulher, aí sim estou inteiramente com ele".


De Schopenhauer:

"Pueris, fúteis e limtadas; permanecem a vida inteira crianças crescidas, uma espécie intermediária entre a criança e o homem".
"As mulheres são seres de cabelos longos e idéias curtas".


Li em algum lugar que um grande filósofo é póstumo. Bem, não tanto assim. Lá estão os valores da época puxando-os de novo para o mundo dos mortais.

Monday, January 22, 2007

Piedade horrenda

Uma experiência do passado, mas ainda marcante:

......

Estava em um bar, em uma das primeiras mesas, logo à entrada, de onde podia observar os passantes. Uma chuva fina caía incessantemente, esfriando a temperatura. Em determinado momento avistei, do outro lado da rua, um garoto caminhar, carregando uma grande caixa de papelão. Perguntei-me por que estaria carregando a caixa e se haveria algo dentro dela. Parecia leve, à distância, embora fosse muito maior que ele.

Acendi um cigarro e voltei a atenção novamente para os amigos com quem dividia a mesa. Mais um pouco, e notei que o garoto estava agora deitado na calçada molhada e, tendo aberto a caixa vazia, protegia-se da chuva com o papelão.

Outra cerveja sobre a mesa, outro cigarro, sem desviar a atenção do garoto. Manifestei o desejo de falar com ele e os amigos tentaram demover-me da idéia. Claro que a situação de abandono do menino incomodava, mas ir falar com ele...

Pedi a conta. Podia não haver justiça social, mas devia haver algo que se pudesse fazer por aquela criança em particular.

Atravessei a rua e aproximei-me da criança. Estava coberta pelo papelão que, embora grosso, já se ressentia dos pingos de chuva. Ajoelhei-me a seu lado, sem escutar os conselhos dos amigos, e puxei o papelão para ver seu rosto. Perguntei-lhe, estupidamente, o que estava fazendo ali, por que não tinha ido para casa, se tinha fome. Ele não se moveu e toquei seus cabelos, sujos de terra. Afastou a cabeça abruptamente, mas insisti em afagar seu rosto, pedindo-lhe que falasse comigo. Queria conversar com ele, saber sua história, ouvir suas queixas. Ajudá-lo.

No entanto, o garoto mantinha-se de olhos fechados, ignorando-me por completo. Disse-lhe então que, se não queria falar comigo, devia ao menos estender a mão para que eu colocasse nela algum dinheiro.

Ao me ouvir, ele se voltou e abriu os olhos. Encarou-me. Seu olhar era de profundo ódio, como se eu o tivesse ofendido por querer dar-lhe dinheiro. Um momento apenas, um instante em que me vi impossibilitada de ser boa a meus próprios olhos, porque ele não me permitiria sê-lo.

Entretanto, o bom senso havia me abandonado completamente. Era uma apenas uma criança. Eu não devia me deixar intimidar. Devia fazê-lo entender que só desejava ajudar. Poderia dar-lhe algum dinheiro, o que talvez fosse de mais valia para mim do que para ele, mas eu tinha de fazer alguma coisa, mesmo que ele não quisesse. Era imperioso deixá-lo certa de que havia ao menos tentado ajudar.

Insisti, quando voltou a fechar os olhos e dar-me as costas. Não ia entender que eu precisava ajudá-lo? Não compreenderia que precisava de minha ajuda?

Numa determinação rara em mim, segurei sua mão com força e tentei abri-la, para colocar nela uma nota. Ele a mantinha fechada, forte, determinada, num gesto que refletia toda sua disposição a meu respeito.

Travamos uma nova luta silenciosa, desta vez para que ele abrisse a mão e recebesse minha oferta generosa: uma nota que, afinal, talvez lhe pagasse muito mais que o jantar e o ônibus para casa.

Não demorei a perceber que perderia também esta batalha. Tratava-se apenas de uma criança, mas tão consciente do que não queria, que resolvi não forçá-lo mais.

Toquei seus cabelos novamente, acariciei seu rosto e disse-lhe que ia deixar a nota a seu lado. Se não a quisesse, que a jogasse fora, mas era dele.

Ao afastar-me, a única coisa em que pensava, em que conseguia pensar, era na necessidade de lavar as mãos.

Afinal, tinha tocado em um menino de rua.

Sunday, January 21, 2007

Curso de milagre

Gostaria de realizar milagres? Acha que nasceu para algo mais que crescer, procriar, trabalhar e morrer? Deseja ser santo? Quer ser adorado?

Ora, por que ficar só na vontade? Agora você pode!

Acabou de chegar ao mercado um novíssimo curso que o habilitará a tudo isso: é o curso de milagre! Trata-se de algo inovador, inusitado, de vanguarda mesmo, com lista de exercícios, livro-texto, manual do professor, tudo novíssimo, profundidíssimo, e ainda por cima escrito com o "ideal Divino".

Mas não se entusiasme demais. Querer é poder, mas nem por isso será uma tarefa fácil ler os tais livros. É que são os livros "mais profundos" e "mais difíceis" que o autor escreveu, ou leu (isso não está claro), embora estejam no "topo dos três livros" que o autor, ou leitor, leu ou escreveu. Note bem: no topo dos TRÊS livros que escreveu - ou leu - até a presente data. Como os TRÊS livros citados estão no topo dos TRÊS livros lidos, ou escritos, por um autor (ou leitor) que não é lá muito versado em ambiguidades, é de se considerar que os três livros sejam mesmo confusos e difíceis de serem lidos - ou escritos.

Tudo bem, se quer aprender a realizar milagres, eis aí uma boa oportunidade. Mas procure não exigir demais. Jamais se pergunte, por exemplo, como é que três livros dos três livros lidos até então podem estar no topo dos mesmos três livros.

Apenas confie e siga em frente.

O que a lógica tem a ver com isso, né?

Saturday, January 20, 2007

Peripécias de Rousseau (1): Therèse

Que Rousseau é o Tom Jones (de Fielding) da filosofia, não há a menor dúvida. Apesar de ter tido várias amantes que o sustentavam, viveu boa parte de sua vida com uma certa Therèse le Vasseur, uma mulher sem atrativos, analfabeta e gananciosa, a quem diz não ter amado um só dia de sua vida. Chegou a casar-se com ela, após mais de duas décadas de convivência. Therèse e sua mãe viveram às custas de Rousseau, que vivia às custas de madames. O filósofo a ensinou a ler, mas não a escrever, provavelmente porque tinha receio de que ela o superasse de algum modo. Tiveram cinco filhos, e Rousseau "doou" todos ao Estado: abandonou-os logo após o nascimento na roda dos excluídos. A explicação para isso também é singular: ele percebeu que, se criasse os filhos, seria apenas "Jean-Jacques". Jamais seria "Rousseau".