Thursday, March 08, 2007

Há algo errado com Sócrates

Definitivamente, Sócrates tinha algum problema. Platão conta, em várias passagens de suas obras, que Sócrates se envolvia tão profundamente com os problemas teóricos que o embaraçavam que perdia a noção de tempo e lugar e ficava alheio a tudo que não fosse seus pensamentos.

Em um dos diálogos (O Banquete) Platão diz (não sem exagero, acredito) que, indo Sócrates e os discípulos a uma casa onde seriam recebidos para um debate, caminhava um pouco afastado dos discípulos, logo atrás, pensativo, enquanto os discípulos conversavam alegremente. Ao chegarem à casa, perguntaram aos discípulos: "Mas onde está Sócrates? Ele não vem?"

Espantados, eles se deram conta de que Sócrates não estava mais entre eles. Então, refizeram o caminho à procura do filósofo e o encontraram de pé, encostado em uma árvore, a meio caminho.

Até aí, tudo bem. Mas Platão conta ainda que os discípulos o chamaram, e ele não respondeu. Desistindo, resolveram deixá-lo onde estava... e o surpreendente é que no dia seguinte ele continuava no mesmo lugar, exatamente do mesmo jeito. Havia passado a noite inteira de pé, pensando.

Este fato e outros semelhantes são relatados prova da genialidade do filósofo, mas estou convencida de que significam mais que isso. Significam que havia algo de errado com Sócrates. Não posso acreditar que alguém fosse capaz de passar uma noite inteira e todo o dia seguinte de pé, pensando, sem se dar conta disso.

Tuesday, March 06, 2007

Jean Baudrillard

Morreu hoje, 06.03.07, o filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard, autor de "Signos", "América, "A Transparência do Mal", "A alucinação coletiva do virtual", "A conjuração de imbecis", "Simulação e Simulacro", "Da sedução", "À sombra das maiorias silenciosas", "Contra Foucault" e outros. Boa leitura, mas não exatamente fácil. A proximidade com Kierkegaard é grande.

Vá pela sombra, Jean.

Eis um trecho de "A transparência do Mal", que já citei aqui uma vez:

Se fosse caracterizar o atual estado de coisas, eu diria é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da Modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da criança, das pulsações inconscientes, liberação da arte. Assunção de todos os modelos de representação e de todos os modelos de anti-representação. Total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento. Percorremos todos os caminhos da produção e da superprodução virtual de objetos, de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres. Hoje, tudo está liberado, o jogo já está feito e encontramo-nos coletivamente diante da pergunta crucial: O QUE FAZER DEPOIS DA ORGIA?

Só podemos agora simular a orgia e a liberação, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vácuo, porque todas as finalidades da liberação já ficaram para trás, e o que nos preocupa, o que nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, de todas as formas, de todos os desejos. Que fazer então? Isso é o estado de simulação, aquele em que só podemos repetir todas as cenas porque elas já aconteceram — real ou virtualmente. É o estado da utopia realizada, de todas as utopias realizadas, em que é preciso paradoxalmente continuar a viver como se elas não o estivessem. Mas, já que o estão e já que não podemos ter a esperança de realizá-las, só nos resta hiper-realizá-las numa simulação indefinida. Vivemos na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que doravante ficaram para trás e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferença fatal. No fundo, a revolução já aconteceu em toda a parte, mas não do modo como se esperava. Em toda a parte, o que foi liberado o foi para passar à pura circulação, para entrar em órbita. Com certo recuo, pode-se dizer que o fim inelutável de toda a liberação é fomentar e alimentar as redes. As coisas liberadas são fadadas à comutação incessante e, portanto, à indeterminação crescente e ao princípio de incerteza.

Nada mais (nem mesmo Deus) desaparece pelo fim ou pela morte mas por proliferação, contaminação, saturação e transparência, exaustão e exterminação, por epidemia de simulação, transferência na existência segunda da simulação. Já não há modo fatal de desaparecimento, mas sim um modo fractal de dispersão. Nada mais se reflete de fato, nem em espelho, nem em abismo (que nada mais é que o desdobramento infinito da consciência). A lógica da dispersão viral das redes já não é a do valor nem a da equivalência. Já não há revolução, mas circunvolução, uma involução do valor. Ao mesmo tempo, uma compulsão centrípeta bem como uma excentricidade de todos os sistemas, uma metástase interna, uma autovirulência febril que os leva a explodir além de seus próprios limites, a ultrapassar a própria lógica, não na pura tautologia mas num aumento de força, numa potencialização fantástica em que eles arriscam a própria perda.

Todas essas peripécias nos fazem retornar ao destino do valor. Eu havia invocado outrora, num obscuro intento de classificação, uma trilogia do valor. Um estádio natural do valor de uso, um estádio mercantil do valor de troca, um estádio estrutural do valor-signo. Uma lei natural, uma lei mercantil, uma lei estrutural do valor. É claro que essas distinções são formais, mas é como os físicos que inventam cada mês uma nova partícula. Uma não expulsa a outra: elas sucedem-se e adicionam-se numa trajetória hipotética. Vou, portanto, aqui acrescentar uma nova partícula à micro-física dos simulacros. Depois do estádio natural, do estádio mercantil, do estádio estrutural, eis que chega o estádio fractal do valor. Ao primeiro correspondia um referente natural, e o valor desenvolvia-se em relação com um uso natural do mundo. Ao segundo correspondia um equivalente geral, e o valor desenvolvia-se em referência a uma lógica da mercadoria. Ao terceiro corresponde um código, e o valor aí se desenvolve em referência a um conjunto de modelos. No quarto estádio, o estádio fractal, ou estádio viral, ou ainda estádio irradiado do valor, já não há nenhuma referência: o valor irradia em todas as direções, em todos os interstícios, sem referência ao que quer que seja, por pura contigüidade. No estádio fractal, já não há equivalência, nem natural nem geral, nem há lei do valor, de proliferação e de dispersão aleatória. Em rigor, já não se deveria falar de valor, já que essa espécie de mulipicação e de reação em cadeia torna impossível qualquer avaliação. Mais uma vez é como na microfísica: é tão impossível calcular em termos de belo ou feio, de verdadeiro ou falso, de bem ou mal, quanto calcular ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula. O bem já não é perpendicular ao mal, nada mais se coloca em abscissas e ordenadas. Cada partícula segue seu próprio movimento, cada valor ou fragmento de valor brilha por um instante no firmamento da simulação para desaparecer no vácuo, segundo uma linha quebrada que só excepcionalmente encontra a dos outros. É o esquema peculiar ao fractal; é o esquema atual de nossa cultura.

Quando as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e de sua finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda.

Friday, March 02, 2007

Ironia do destino

Coincidências não existem. Ao menos, é o que ouço quase todos os dias. Seja como for, Aristóteles conta que um tal Mítis, que havia sido responsável pela morte de um escultor, estava um dia observando uma das esculturas do morto quando o inesperado aconteceu: ela caiu sobre ele e o matou. Terá sido uma vingança dos deuses? Será que o próprio artista matou o causador de sua morte?

Coincidências existem, sim, para quem não acredita em Papai Noel, duendes ou justiça cósmica. Para o restante da humanidade, é apenas coincidência demais.

Eis o trecho da Poética em que Aristóteles narra o incidente:


56. Como, porém, a tragédia não só é imitação de uma ação completa, como também de casos que suscitam o terror e a piedade, e estas emoções se manifestam principalmente quando se nos deparam ações paradoxais, e, perante casos semelhantes, maior é o espanto que ante os feitos do acaso e da fortuna (porque, ainda entre os eventos fortuitos, mais maravilhosos parecem os que se nos afiguram acontecidos de propósito — tal é, por exemplo, o caso da estátua de Mítis em Argos, que matou, caindo-lhe em cima, o próprio causador da morte de Mítis, no momento em que a olhava —, pois fatos semelhantes não parecem devidos ao mero acaso), daqui se segue serem indubitavelmente os melhores os mitos assim concebidos.

Wednesday, February 28, 2007

Perfil psicológico

Encontrei mais um teste divertido, inócuo e absolutamente (des)importante. Se não tiver nada prá fazer, já encontrou. O resultado será sempre adequado ao seu perfil, porque todos são, e tem a vantagem de só dizer coisas boas. :-))

Monday, February 26, 2007

Mistério

De Churchill sobre a União Soviética:

"Uma charada envolta em mistério dentro de um enigma".

Tuesday, February 20, 2007

Os filósofos e o riso (1): Kant

Que Kant não devia rir muito, ou apreciar o riso, é altamente provável. Mesmo assim, ele tinha uma teoria a respeito:

Em tudo o que pode suscitar um riso vivo e abalador tem que haver algo absurdo (em que, portanto, o entendimento não pode em si encontrar nenhuma complacência). O riso é um afeto resultante da súbita transformação de uma tensão expectativa em nada (Crítica da Faculdade de Julgar 52, 225).

Em outra passagem ele diz que, se a expectativa resultar em alguma coisa, o que vem a seguir não é o riso, mas a frustração. Portanto, tem de resultar em nada.

Faz sentido. Mas, por melhor que fosse em definir o riso, Kant certamente não era tão bom em provocá-lo, exceto por sair para caminhar todos os dias exatamente à mesma hora, fazendo a cidade inteira acertar os relógios à sua passagem.

Monday, February 19, 2007

Bebê real

Henrique I (1068-1135), rei inglês, é uma das figuras mais fortes da história da Inglaterra. Teve um casamento longo e tumultuado com Eleanor de Aquitânia, uma mulher inteligente e dominadora, que queria mudar o mundo, mas acabou mudando apenas os costumes da Inglaterra. Eleanor, que já estava no segundo casamento, foi mãe da maior parte dos monarcas da Europa da geração seguinte. Em sua prole com Henrique I contam-se Ricardo Coração de Leão e o famigerado João Sem Terra.

Entre os feitos de Henrique I, está o mérito de restabelecer a paz entre os senhores feudais, a ordem no país e o poder real. Mas, como todo monarca que se preze, era baixo, roliço, bom de garfo e não dava a mínima para a higiene pessoal. Mas isso talvez se devesse ao medo de morrer afogado.

O espantoso a respeito dele é que, quando ficava bravo, literalmente rolava pelo chão aos uivos, o que não ficava nada bem em sua majestade, mas fazia os súditos sairem correndo depressinha, fosse para atendê-lo, fosse para fugir dele.

As mulheres da corte, entretanto, talvez por terem filhos pequenos, conseguiam lidar bem com a fúria do monarca.

Sunday, February 18, 2007

Subterrâneos do Vaticano

Em 1152, Frederico I, o Barba Ruiva, ascendeu ao trono germânico (que se tornaria o império franco-germânico).

Frederico achava que era descendente e sucessor dos antigos imperadores romanos. Portanto, herdeiro natural de todo o ocidente conhecido então. Para assumir o que lhe era de direito, havia um grande obstáculo: o poder político da igreja de Roma.

O problema ficou um pouco maior quando um inglês, Nicholas Breakspear, tornou-se o papa Adriano IV, em 1154. Os desentendimentos entre eles, que resultaram na excomunhão do Barba Ruiva, giraram em torno tanto de coisas banais, como Frederico se recusar a segurar as rédeas do cavalo do papa, quanto de disputas políticas sérias, como a revolta das cidades do norte da Itália.

Quando Adriano IV tornou-se papa, havia em Roma um tal Arnaldo de Brescia, cônego agostiniano, que achava porque achava que a igreja devia ser pobre como ele. Era tão obstinado com a idéia da pobreza alheia que conseguiu incitar uma rebelião em Roma. Foi preso, mas isso não era o bastante.

Como Frederico precisava ser coroado rei pelo papa (mais precisamente, receber a benção que o tornaria sucessor ao trono também por direito divino), Adriano IV enviou uma mensagem ao monarca: aceitaria coroá-lo rei se e somente se Frederico I lhe entregasse Arnaldo de Brescia.

Frederico I atendeu prontamente: entregou o rebelde ao prefeito de Roma, que o devolveu à Santa Sé, bem enforcadinho, conforme o desejo do papa. Afinal, o tal Brescia era um zé-ninguém para o imperador, um agitador para o prefeito de Roma e um perigo para o conforto material do papa. E depois, lá se vão os dedos, mas ficam-se os anéis.

Saturday, February 17, 2007

Sebastopolitano

Meu pai é uma graça. Preocupada com o fato de que ele não anda lá muito bom da memória, sugeri que exercitasse mais a mente, resolvesse palavras cruzadas, quebra-cabeças, essas coisas. A reação foi imediata: "Memória ruim? Eu não tenho memória ruim! Você lembra, por acaso, onde fica Sebastopol? Não? Pois eu me lembro! Quem é mesmo que tem memória ruim aqui?"

Cruzes! Sebastopol? De onde veio isso?

Então está resolvido: se ele é capaz de se lembrar de que existe Sebastopol (ainda existe?), ninguém pode dizer que não tenha boa memória, o que me leva a outro "diagnóstico": trata-se apenas de desinteresse pelas coisas do dia-a-dia.

A não ser, é claro, pelo fato de que lembrar de uma informação que reteve em mil-novecentos-e-bolinha não invalida a tese de que anda se esquecendo de fatos recentes, mas eu é que não falo mais nada.

Sei lá para onde ele não vai depois de Sebastopol.

Friday, February 16, 2007

Os mortos ilustres do Père Lachaise

O cemitério mais famoso do mundo é o Père Lachese, em Paris, e não é pra menos. Em 44 hectares de extensão estão enterradas várias personalidades da história mundial. São 110 mil sepulturas.

O cemitério recebe 3 milhões de visitantes por ano. A única sepultura problemática, se podemos dizer assim, é a de Jim Morrison, o líder do grupo The Doors. Há um movimento para retirar Jim Morrison de lá, porque sobram garrafas, fumo, seringas, velas e restos de comida em torno de seu túmulo.

Eis alguns dos mortos ilustres do Père Lachaise:

- Oscar Wilde
- Frederic Chopin
- Marcel Proust
- Max Ernst
- Alain
- Claude Bizet
- Edith Piaf
- Baudelaire
- Moliére
- Alan Kardec
- Honoré de Balzac
- Lyotard
- Dominque Ingres
- Apollinaire
- Barbedienne
- Sarah Bernhardt
- Paul Eluard
- Modigliani
- Merleau-Ponty
- La Fontaine
- Delacroix

Dizem que os restos mortais de Cleópatra, a rainha do Egito, também estariam lá, levados por Napoleão.

Thursday, February 15, 2007

Lei da compensação

Tomás de Aquino (1225-1274) viveu 49 anos, a maior parte deles com uma barriga que não deixaria nenhum santo com inveja.

Teria sido verme, cerveja ou fé em excesso?

Com certeza jejuava pouco, mas devia ter mesmo muita fé.

A barriga era tão grande que ele tinha dificuldade para fazer as refeições: não conseguia se sentar perto o suficiente da mesa.

Bobagem. Problema existe prá ser resolvido: serraram a madeira da mesa, fazendo um meio-círculo bem grande, bem grande mesmo, para que ele pudesse encaixar o barrigão.

Mas ora. Bastava apoiar o prato na barriga. Com babador, claro.

Ou então, se tivesse pensado melhor, teria feito um bom regime e vivido mais tempo. Mas o voto de castidade devia tornar essa opção impossível.

Wednesday, February 14, 2007

As sete maravilhas do mundo moderno

Então.

Clique no título e escolha as novas maravilhas do mundo. O Cristo Redentor é um dos candidatos.

Aproveite para não se registrar, não votar e não comprar o certificado de voto, seja lá para que isso sirva. É só agência de turismo querendo vender passagem.

Mas dá prá espiar algumas maravilhas que o homem construiu: os moares da Ilha de Páscoa, um castelo alemão, a Acrópole, Angkor Vat, Stonehenge, o Coliseu, etc.

Tuesday, February 13, 2007

Strip-tease sartreano

E por falar em existencialismo, vamos ao pai contemporâneo da criança.

Em determinado momento de uma festa animada, Sartre empolgou-se e subiu em uma mesa para dançar. O amigo Paul Nizan fez o mesmo, e ficaram os dois dançando em cima da mesa, enquanto os demais ficavam em volta, se divertindo com a cena. A certa altura o jovem Sartre, entusiasmadíssimo, começou a tirar a roupa, peça por peça. O amigo Nizan fez o mesmo. Lá pelas tantas, quase totalmente sem roupa, e mais empolgado ainda, Sartre, talvez porque não era lá muito bom das vistas, talvez porque quisesse fazer graça, talvez simplesmente porque quisesse, agarrou o amigo e tentou beijá-lo. O que era um strip-tease virou um "vem-cá" e "me solta" que divertiu ainda mais a platéia. Só Nizan não achou graça. Não sei se a amizade acabou exatamente aí, mas não durou muito mais. Viraram inimigos eternos.

Mas bem que eu gostaria de ver um strip-tease existencialista, seja lá o que isso signifique.

Monday, February 12, 2007

Aquarela

Ouvi recentemente que o "descolorirá" final da música "Aquarela", de Toquinho, é existencialista, e fiquei me perguntando, como sempre, o que há comigo que não tenho essa percepção das coisas. Por que existencialista? Porque vamos morrer e acabou-se? Porque o "descolorirá" significa que não vamos colorir em outro lugar, depois da morte? Mas ora, por que isto haveria de ser exatamente existencialista? Os niilistas e os ateus não dizem a mesma coisa? Não há existencialismo cristão? O que torna o final da música "Aquarela" tão existencialista assim? Juro que não entendo.

Ou talvez entenda. Talvez seja simplesmente legal dizer algo assim, ou talvez o termo "existencialista" seja muito mais amplo do que a nossa vã filosofia pode imaginar.

Eis aí a estrofe:

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Sunday, February 11, 2007

Roteiro de filme B

Hoje minha família foi premiada com o golpe do sequestro. Eu não estava presente quando houve a primeira ligação, caso contrário teria desligado o telefone imediatamente e ligado para a polícia, porque assisto aos telejornais e estou informada do golpe.

Mas esse não era o caso dos meus pais. Pode-se imaginar a confusão. Foram compradas, às pressas, pilhas de cartões de celular. Quando fui informada e cheguei, tive dificuldade em entender o que aquela pilha de cartões tinha a ver com o suposto sequestro. O "sequestrador" exigia os números dos cartões para não matar o "sequestrado".

Desfeita a confusão, atendi a uma das ligações. A essa altura um amigo policial já estava presente. Mesmo após informar ao "sequestrador" que a polícia já havia sido acionada, e mesmo depois que o "sequestrado" atendeu ele próprio à ligação, o bandido continuou ligando. Desistiu apenas quando deixamos de atender.

Qualquer coisa que possa dizer sobre esse episódio será retórico. Só espero que minha família assista menos novelas e mais telejornais a partir de agora.

O lado bom é que por um bom tempo não precisarei comprar cartões de celular.

Friday, February 09, 2007

Contradição

Coincidências não existem, claro. Tudo está em conformidade com a vontade de uma força maior, invisível. O que parece coincidência é destino, aviso ou alerta.

Bem, falando sobre Schopenhauer em sala de aula, comentei que, para ele, a esmola que damos aos mendigos só serve para prolongar por mais um dia a sua miséria.

Até aí tudo bem.

Mas eis que, no instante em que termino a frase, um mendigo entra na sala de aula, pedindo esmola (coisa raríssima, aliás, o que reforça o fato de que coincidências não existem. O mendigo conseguiu burlar a vigilância).

Que fazer? Que dizer? Que pensar? Puxa, logo agora? Diante de 50 pares de olhos atentos e curiosos quanto à minha reação? Que coisa!

É, dei a esmola.

Deve ter sido um aviso de que na prática a teoria é outra.

Wednesday, February 07, 2007

Pensando

Encontrei em Adorno, no artigo "Observações sobre o pensamento filosófico" (Palavras e Sinais, p. 24):

"A imagem de quem se senta a fim de meditar sobre algo, para sondar o que ainda não sabia, é tão equivocada quanto a aposta, a das intuições que caem do céu. (...) Não seria um mau indício sensível para isso o lápis ou a caneta que alguém segura na mão enquanto pensa, assim como foi transmitido por Simmel ou por Husserl, o qual, como se sabe, mal conseguia pensar a não ser escrevendo, de maneira similar a de alguns escritores aos quais as melhores idéias ocorrem enquanto estão escrevendo."

Puxa. Então esse é o segredo: basta escrever de pé que lá vem idéias brilhantes.

Monday, February 05, 2007

Didaticamente falando

Psicologicamente falando, se há uma coisa que acho difícil de entender é o advérbio usado antes do gerúndio para situar a afirmação que será feita em seguida.

Matematicamente falando, nada se acrescenta.
Semanticamente falando, não faz sentido.
Gramaticalmente falando, a expressão deixa a desejar.
Administrativamente falando, ninguém perderia nada se fosse suprimida.
Musicalmente falando, revela descompasso com a fala articulada que se pretende formular.
Linguisticamente falando, é só mais um anglicismo.
Culturalmente falando, é apenas mais uma dessas bobagens que alguém inventa. Antropologicamente falando, os outros saem por aí imitando como se fosse a coisa mais inteligente a se fazer.

Bem, verdade seja dita: retoricamente falando, até que serve prá chamar a atenção, ainda que não passe disso.

Saturday, February 03, 2007

Comichão

A filosofia não fez nenhum progresso? Se alguém coça onde lhe comicha, é preciso ser visto algum progresso? Caso contrário, isso não será um coçar autêntico ou uma comichão autêntica? E não poderá essa reação ao estímulo continuar por longo tempo até que seja encontrada uma solução para o comichar?

Richard Rorty - A filosofia e o espelho da natureza

Se entendi bem, esta é uma citação que Rorty faz de Wittgenstein. De qualquer modo, tenho uma receita ótima para acabar com o problema: converse com um especialista, antes que a coisa fique fora de controle.

Tuesday, January 30, 2007

Leis da filosofia

Dizem que a filosofia é regida por duas leis:

1a. Lei: Para cada filósofo, há outro igual e oposto.

2a. Lei: Ambos estão equivocados.

Ignoro o autor.

Monday, January 29, 2007

O dia em que a Bélgica acabou

Durante dois meses, a RTBF, emissora de TV belga, preparou-se cuidadosamente para noticiar que a independência da região de Flandres, de língua holandesa, havia sido aprovada pelo Parlamento. Perder Flandres significaria o fim do país.

O objetivo era provocar a discusão sobre o futuro da Bélgica, mas a coisa toda foi tão bem arquitetada que ninguém duvidou da notícia.

Antes que pudessem desmentir a informação e explicar o propósito da "pegadinha", o caos já havia se instalado no país.

No fim das contas, a RTBF só conseguiu gerar pânico e perder a credibilidade.

Brincadeira besta.

Saturday, January 27, 2007

Incapacidade de contar carneirinhos

Insônia não é meu forte, mas durante a infância era obrigada a dormir muito cedo. Como o sono às vezes demorava a vir, me ensinaram a contar carneirinhos.

Tentei. Lá vinham os carneirinhos, pulando a cerca: um, dois, três, quatro... e de repente um deles pulava mal a cerca, caía de mau jeito e quebrava a patinha.

Pronto! Agora eu tinha um problema: mal começava a contar, um carneirinho estragava tudo, e eu só ficava pensando no carneirinho caído, enquanto os outros continuavam pulando e eu perdia a conta. Se tentasse apagar tudo e começar de novo, lá vinha o bichinho tonto outra vez. Às vezes os outros tropeçavam no carneirinho caído e caíam também. Era uma tortura. :))

Mesmo assim, fazia todo sentido para mim um carneirinho cair. É claro que não são todos iguais, né? Não existe no mundo um único rebanho de carneiros iguaizinhos. Claro que um é mais magrinho, outro é mais gordinho; um é mais ágil, outro nem tanto... Então é obvio que nem todos vão pular a cerca com a mesma destreza, né?

Pois então.

Thursday, January 25, 2007

Gralha?

Às vezes os livros editados em português de Portugal me confundem. Lembro que, na adolescência, lia uma historinha policial, escrita em português de Portugal (ou traduzida, não lembro), em que lá pelas tantas o personagem-narrador dizia que "havia uma bicha enorme em frente ao banco". A frase soou tão fora de propósito que não esqueci. Mais tarde descobri que "bicha" é apenas "fila".

Coisas de quem ainda está descobrindo o mundo.

Pois é. Eis que hoje, vasculhando as Confissões de Rousseau em busca de informações sobre as "Cartas a D'Alembert", esbarro na seguinte frase, que cito exatamente como está: "Esse barão era filho de um homem que havia trepado, e gozava de uma enorme fortuna, de que dispunha nobremente, recebendo em sua casa gente de letras e de merecimento, de que não desdizia graças ao seu saber e às suas luzes" (Lisboa, Relógio D'Água, vol. 2, livro oitavo, p. 95).

Então. Parei aí. O que terá feito esse homem, afinal de contas? Será que é apenas cochilo da revisão, em um livro tão bem acabadinho, tão bem revisadinho, apesar de bastante extenso? Será apenas uma tradução mal feita? Ou será isso mesmo e "trepar" tem um significado que só os portugueses entendem?

É claro que o significado, digamos, brasileiro está fora de questão. Primeiro, porque é um termo grosseiro demais para estar em um livro de filosofia. Segundo, porque isso certamente não seria tão relevante, a ponto de Rousseau incluir a façanha em suas Confissões. Terceiro, porque a afirmação seria, nesse caso, absolutamente desnecessária, já que o tal barão é filho do tal homem.

Não, não. O significado é outro, mas ainda oculto para mim.

Então pensei: será que ele subiu em uma árvore? Mas que importância isso teria, né?

Sim, procurei o verbete em um dicionário online de português de além-mar, mas não encontrei nada esclarecedor.

Continuo na ignorância.

Wednesday, January 24, 2007

Século misógino

Nós sabemos bem que a misoginia sempre esteve presente em todas as épocas, mas é particularmente presente no século XIX. Grandes pensadores do período, como Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Kierkegaard, só para citar alguns, fizeram comentarios depreciativos sobre as mulheres em seus escritos. George Sand vestia-se como homem. As heroínas da literatura, via de regra, eram mulheres que traíam os maridos (Madame Bovary, Ana Karenina), prostitutas (Moll Flanders, a Sonja de Crime e Castigo, Bola de Sebo, A Dama das Camélias), bibelôs (a primeira mulher de David Copperfield, por exemplo), más (como a Marquesa de Os Três Mosqueteiros ou a amada de O Idiota, de Doistoievski), fálicas e ressentidas (como a heroína de A Herdeira, de Henry James), interesseiras (como a amada de Pip), reprimidas sexualmente (como a babá de A Volta do Parafuso), ingênuas (como a heroína de Guerra e Paz) ou servis (como a florista de Pigmaleão).

Eis alguns comentários de filósofos da época sobre as mulheres:

De Nietzsche:

"Quando as mulheres lutam por conquistar direitos iguais aos do homem, isso é um sinal de doença; qualquer médico o sabe"
"A mulher é uma superfície que tenta imitar a profundidade".


De Kierkegaard:

"Quando a mulher comete um grande feito, admiramo-la mais do que a um homem, por não ser de modo algum isso que dela seria de esperar".
"Quando Sócrates agradece aos deuses por ser grego e não bárbaro, tenho de concordar com ele. Quando agradece aos deuses por ser livre e não escravo, novamente estou de acordo. Mas quando agradece por ser homem e não mulher, aí sim estou inteiramente com ele".


De Schopenhauer:

"Pueris, fúteis e limtadas; permanecem a vida inteira crianças crescidas, uma espécie intermediária entre a criança e o homem".
"As mulheres são seres de cabelos longos e idéias curtas".


Li em algum lugar que um grande filósofo é póstumo. Bem, não tanto assim. Lá estão os valores da época puxando-os de novo para o mundo dos mortais.

Monday, January 22, 2007

Piedade horrenda

Uma experiência do passado, mas ainda marcante:

......

Estava em um bar, em uma das primeiras mesas, logo à entrada, de onde podia observar os passantes. Uma chuva fina caía incessantemente, esfriando a temperatura. Em determinado momento avistei, do outro lado da rua, um garoto caminhar, carregando uma grande caixa de papelão. Perguntei-me por que estaria carregando a caixa e se haveria algo dentro dela. Parecia leve, à distância, embora fosse muito maior que ele.

Acendi um cigarro e voltei a atenção novamente para os amigos com quem dividia a mesa. Mais um pouco, e notei que o garoto estava agora deitado na calçada molhada e, tendo aberto a caixa vazia, protegia-se da chuva com o papelão.

Outra cerveja sobre a mesa, outro cigarro, sem desviar a atenção do garoto. Manifestei o desejo de falar com ele e os amigos tentaram demover-me da idéia. Claro que a situação de abandono do menino incomodava, mas ir falar com ele...

Pedi a conta. Podia não haver justiça social, mas devia haver algo que se pudesse fazer por aquela criança em particular.

Atravessei a rua e aproximei-me da criança. Estava coberta pelo papelão que, embora grosso, já se ressentia dos pingos de chuva. Ajoelhei-me a seu lado, sem escutar os conselhos dos amigos, e puxei o papelão para ver seu rosto. Perguntei-lhe, estupidamente, o que estava fazendo ali, por que não tinha ido para casa, se tinha fome. Ele não se moveu e toquei seus cabelos, sujos de terra. Afastou a cabeça abruptamente, mas insisti em afagar seu rosto, pedindo-lhe que falasse comigo. Queria conversar com ele, saber sua história, ouvir suas queixas. Ajudá-lo.

No entanto, o garoto mantinha-se de olhos fechados, ignorando-me por completo. Disse-lhe então que, se não queria falar comigo, devia ao menos estender a mão para que eu colocasse nela algum dinheiro.

Ao me ouvir, ele se voltou e abriu os olhos. Encarou-me. Seu olhar era de profundo ódio, como se eu o tivesse ofendido por querer dar-lhe dinheiro. Um momento apenas, um instante em que me vi impossibilitada de ser boa a meus próprios olhos, porque ele não me permitiria sê-lo.

Entretanto, o bom senso havia me abandonado completamente. Era uma apenas uma criança. Eu não devia me deixar intimidar. Devia fazê-lo entender que só desejava ajudar. Poderia dar-lhe algum dinheiro, o que talvez fosse de mais valia para mim do que para ele, mas eu tinha de fazer alguma coisa, mesmo que ele não quisesse. Era imperioso deixá-lo certa de que havia ao menos tentado ajudar.

Insisti, quando voltou a fechar os olhos e dar-me as costas. Não ia entender que eu precisava ajudá-lo? Não compreenderia que precisava de minha ajuda?

Numa determinação rara em mim, segurei sua mão com força e tentei abri-la, para colocar nela uma nota. Ele a mantinha fechada, forte, determinada, num gesto que refletia toda sua disposição a meu respeito.

Travamos uma nova luta silenciosa, desta vez para que ele abrisse a mão e recebesse minha oferta generosa: uma nota que, afinal, talvez lhe pagasse muito mais que o jantar e o ônibus para casa.

Não demorei a perceber que perderia também esta batalha. Tratava-se apenas de uma criança, mas tão consciente do que não queria, que resolvi não forçá-lo mais.

Toquei seus cabelos novamente, acariciei seu rosto e disse-lhe que ia deixar a nota a seu lado. Se não a quisesse, que a jogasse fora, mas era dele.

Ao afastar-me, a única coisa em que pensava, em que conseguia pensar, era na necessidade de lavar as mãos.

Afinal, tinha tocado em um menino de rua.

Sunday, January 21, 2007

Curso de milagre

Gostaria de realizar milagres? Acha que nasceu para algo mais que crescer, procriar, trabalhar e morrer? Deseja ser santo? Quer ser adorado?

Ora, por que ficar só na vontade? Agora você pode!

Acabou de chegar ao mercado um novíssimo curso que o habilitará a tudo isso: é o curso de milagre! Trata-se de algo inovador, inusitado, de vanguarda mesmo, com lista de exercícios, livro-texto, manual do professor, tudo novíssimo, profundidíssimo, e ainda por cima escrito com o "ideal Divino".

Mas não se entusiasme demais. Querer é poder, mas nem por isso será uma tarefa fácil ler os tais livros. É que são os livros "mais profundos" e "mais difíceis" que o autor escreveu, ou leu (isso não está claro), embora estejam no "topo dos três livros" que o autor, ou leitor, leu ou escreveu. Note bem: no topo dos TRÊS livros que escreveu - ou leu - até a presente data. Como os TRÊS livros citados estão no topo dos TRÊS livros lidos, ou escritos, por um autor (ou leitor) que não é lá muito versado em ambiguidades, é de se considerar que os três livros sejam mesmo confusos e difíceis de serem lidos - ou escritos.

Tudo bem, se quer aprender a realizar milagres, eis aí uma boa oportunidade. Mas procure não exigir demais. Jamais se pergunte, por exemplo, como é que três livros dos três livros lidos até então podem estar no topo dos mesmos três livros.

Apenas confie e siga em frente.

O que a lógica tem a ver com isso, né?

Saturday, January 20, 2007

Peripécias de Rousseau (1): Therèse

Que Rousseau é o Tom Jones (de Fielding) da filosofia, não há a menor dúvida. Apesar de ter tido várias amantes que o sustentavam, viveu boa parte de sua vida com uma certa Therèse le Vasseur, uma mulher sem atrativos, analfabeta e gananciosa, a quem diz não ter amado um só dia de sua vida. Chegou a casar-se com ela, após mais de duas décadas de convivência. Therèse e sua mãe viveram às custas de Rousseau, que vivia às custas de madames. O filósofo a ensinou a ler, mas não a escrever, provavelmente porque tinha receio de que ela o superasse de algum modo. Tiveram cinco filhos, e Rousseau "doou" todos ao Estado: abandonou-os logo após o nascimento na roda dos excluídos. A explicação para isso também é singular: ele percebeu que, se criasse os filhos, seria apenas "Jean-Jacques". Jamais seria "Rousseau".

Friday, January 19, 2007

Amar é... (4): ...ter a quem culpar

Em 1764 o filósofo Jean-Jacques Rousseau resolveu escrever suas Confissões e deixou amigos e inimigos em pânico, tentando impedir a publicação da obra. De alguém como Rousseau, podiam esperar todo tipo de indiscrição. Para piorar, atreveu-se a fazer leituras públicas das Confissões. Mas, embora houvesse de fato inúmeras indiscrições nos relatos de sua vida, o alvo principal de Rousseau era suas próprias mazelas. Mesmo assim, não dá para admirar sua coragem, ou sua franqueza, ou sua capacidade de avaliar a si mesmo, porque todo o relato é eivado de um certo encantamento consigo mesmo e uma capacidade infinita de distorcer os fatos em um auto-engano bastante conveniente.

Uma das piores histórias das Confissões, senão a pior, revela o caráter dúbio de Rousseau, condizente com a escola romântica, da qual é o primeiro representante, e com o cristianismo:

Rousseau vivia de expedientes. Um deles era o de viver o tempo que fosse possível sob a tutela de uma amante rica. Entre elas houve uma certa Madame de Vercellis. Enquanto vivia em sua casa, apaixonou-se por uma serviçal, Marion. Três meses depois Madame de Vercellis faleceu e Rousseau, novamente sem destino, surrupiou "uma fitazinha cor-de-rosa e prata já velha". Uma coisinha de nada, que a morta não haveria de querer, e que o ajudaria a sobreviver até encontrar outra madame.

Bem, os herdeiros deram por falta da fita e a encontraram com Rousseau. Confrontado com os fatos, não hesitou: acusou Marion do roubo; disse que ela lhe havia dado a fita. Ele conta: "[ao acusá-la, Marion] deitava-me um olhar que teria desarmado o demônio, e a que o meu bárbaro coração resiste".

Mas isso não é tudo. O pior na história toda é a desculpa que Rousseau dá a si mesmo por ter agido tão mal: "Nunca a maldade esteve tão longe de mim como naquele cruel momento, e quando acusei a infeliz rapariga, é singular, mas a verdade é que o fiz por amizade para com ela. Tinha-a presente no pensamento, e desculpei-me com o primeiro objeto que se me ofereceu".

Em outras palavras: Rousseau amava tanto a mocinha que, ao procurar a quem culpar, só vinha à mente o nome dela, porque não pensava em ninguém mais.

Wednesday, January 17, 2007

Amar é... (3): ...culpa de Eros!

Jasão - aquele, dos Argonautas -, em sua viagem em busca do velo de ouro que lhe garantiria a posse do trono que lhe era devido por direito, casa-se com uma feiticeira, Medéia, que leva para a Grécia, e tem com ela dois filhos. Quando torna-se possível casar com uma grega, filha de Creonte, rei de Tebas, Jasão não hesita: precisa se livrar da mulher. Segundo a peça de Eurípides, Medéia, Jasão quer que seus filhos sejam criados como príncipes, e não como filhos de uma estrangeira. Enfim. Jasão despreza Medéia e quer tomar-lhe os filhos. Quando ela se dá conta das intenções de Jasão, toma uma decisão digna, na concepção dos gregos, de bárbaros: mata os dois filhos para vingar-se do marido.

Quando Jasão vai buscar os filhos e descobre que estão mortos, tem uma discussão com a mulher, o melhor da peça.

Primeiro, eles se acusam mutuamente pela morte das crianças:

JASÃO: Ó meus filhos, que monstro encontrastes em vossa mãe!
MEDÉIA: Ó meus filhos, foi a perversidade de vosso pai que nos perdeu!
JASÃO: Ao menos, não foi meu braço que os imolou.
MEDÉIA: Foi teu ultraje.
JASÃO: O quê? Foi para vingar teu leito que te resolveste a matá-los? (...)
MEDÉIA: Sabem os deuses quem foi o primeiro autor deste desastre.
JASÃO: Sim, eles sabem todo o negror de tua alma.


Em seguida, discutem sobre quem realmente amava os filhos:

JASÃO: Ó meus filhos queridos!
MEDÉIA: Queridos por sua mãe, não por ti.
JASÃO: E no entanto os mataste!
MEDÉIA: Para te desesperar.


Depois, sobre o direito de enterrar as crianças:

JASÃO: Deixa-me enterrar meus filhos e chorá-los.
MEDÉIA: Certamente que não. Sou eu que os enterrarei com minhas mãos.


Por fim, Jasão quer se despedir dos filhos, e Medéia o impede:

JASÃO: Em nome dos deuses, deixa que eu toque o corpo encantador de meus filhos!
MEDÉIA: Não, tua súplica é inútil.


Mas o mais interessante é a desculpa de Jasão para ter-se envolvido com Medéia:

MEDÉIA: Ó mais celerado dos homens! (...) Eu te salvei a vida.
JASÃO: (...) Reconheça comigo - a explicação não é engenhosa, se bem que pouco apropriada para te agradar? - foi Eros que, ferindo-te com suas flechas invencíveis, te forçou a salvar-me.


Jasão quer se livrar da mulher, tomar-lhe os filhos e deixá-la desamparada, já que não pode voltar para sua terra, nem poderia ficar na Grécia.

Quando Medéia o acusa de ter uma dívida com ela, por tê-lo salvo a vida (às custas de matar o irmão e trair o pai) e por tê-lo ajudado a reaver seu direito ao trono de Iolco (ao matar o tio de Jasão), o marido lhe diz, nas entrelinhas, que não lhe deve nada, porque tudo que ela fez foi por amor a ele, Jasão, e que este amor nada mais era que uma travessura de Eros. Ela havia sido enfeitiçada pelo deus do amor. Logo, se alguém tem alguma culpa, esse alguém é Eros.

Eitcha! Quase acreditei na inocência de Jasão.

Tuesday, January 16, 2007

Pois é, prá quê

Se há uma coisa aí que realmente me encanta na língua portuguesa, especialmente a falada, é a total flexibilidade do aí.

Ninguém ignora aí que o aí é usado no início da frase (p. ex, aí eu disse...), no meio (p. ex., o que se pode dizer aí sobre o uso indiscriminado...) e no final (isso é tudo que se pode dizer aí). Uma espécie de próclise, ênclise e mesóclise frasal. Não é lindo?

É bom lembrar que a filosofia também gosta de um aí: ser-aí; aí-presente etc.

Mas, apesar de encantada, não posso me furtar de dizer aí que não tem sentido aí esse aí aí. É que o aí está mal empregado aí. Não é o caso aí de se usar um advérbio de lugar aí porque não há lugar algum aí. Ou há e eu é que vi?

Em todo caso, será que não dá prá parar aí de usar o aí?

Monday, January 15, 2007

Injustiça literária

Shylock era um judeu que, na peça de Shakespeare O Mercador de Veneza, vivia em um gueto nos arredores da cidade. Para sobreviver, emprestava dinheiro a juros, e juros altos. Um bom cristão, dono de navios que faziam rotas comerciais, pede-lhe dinheiro emprestado para ajudar um amigo, que quer se casar. Shylock tem ódio do bom cristão, por razões que não vem ao caso, e resolve pedir-lhe em pagamento, caso não tenha dinheiro para pagar a dívida, uma libra de carne, de qualquer parte do corpo que o agiota escolher. O bom cristão assina o acordo, confiando que terá dinheiro para pagar a dívida. No entanto, seus navios naufragam e ele não tem como pagar. O judeu exige-lhe uma libra de carne do coração.

O que me interessa aqui é o julgamento. O amigo consegue o dinheiro para pagar a dívida em dobro, mas o judeu não aceita receber; quer o coração. O juiz, que na verdade era a esposa do amigo do bom cristão (coisa estranha, mas deixa prá lá) dá ganho de causa ao judeu e o autoriza a tirar o pedaço de carne do coração do devedor.

Antes que ele o faça, o juiz diz que o contrato autoriza o judeu a retirar a carne do devedor, mas que não deve derramar uma gota de sangue. O judeu desiste da vingança, e diz que vai ficar com o dinheiro. O juiz nega-lhe o direito de ser pago e, pior, tira-lhe todos os bens e o dá ao devedor.

Todos comemoram a conclusão do assunto e elogiam a sabedoria do juiz.

Fiquei sem entender. A dívida existia de fato, e não havia sido paga. Mas, pior do que não receber, o judeu perde tudo o que tem para o devedor.

É uma obra literária, eu sei, mas é péssima. No fim das contas, a usura é pecado, coisa que um judeu não sabe, nem pode saber. Afinal, não é cristão. O judeu teve o que merecia, né?

Sunday, January 14, 2007

Em que pensa Deus?

Antes de responder a esta pergunta, é necessário perguntar primeiramente se Deus pensa.

Sim, ele pensa porque é puro pensamento.

Sendo assim, em que pensaria?

Ora, nele mesmo! Em que mais poderia pensar?

Bem, ao menos sabemos que é isto o que pensava Aristóteles (Metafísica 1074b).

Se Deus pensasse em outra coisa que não ele mesmo, haveria o pensamento e o conteúdo do pensamento. Sendo assim, o conteúdo do pensamento seria mais importante que o próprio pensamento. Ora, Deus é puro pensar. Assim, o conteúdo do pensamento de Deus seria mais importante que o próprio pensar - Deus. Isto é absurdo. Logo, como Deus pensa, só pode pensar em si mesmo, ou seja, pensar o pensar.

Pronto! Problema resolvido.

Ninguém precisa pensar mais nisso.

Saturday, January 13, 2007

Didática magna

O primeiro professor da história da humanidade, até onde se sabe, foi o sofista Protágoras de Abdera. Antes dele, a educação estava a cargo de um escravo, o pedagogo, e limitava-se à música, ginástica, aritmética e rudimentos de leitura e escrita. Ainda não havia o estudo da gramática, também uma inovação de Protágoras, e o estudo teórico.

As aulas de Protágoras tinham como objetivo principal a arte de falar em público. Para treinar o aluno, um aristocrata que futuramente participaria das decisões políticas da polis, forjava-se um caso jurídico e o aluno, para concluir os estudos, deveria ser capaz de vencer o professor na disputa verbal.

Um certo aluno, Êuatlos, estava concluindo os estudos e ainda não havia pago os honorários do professor. Protágoras resolveu cobrar a dívida.

"Mas não venci a causa!", respondeu Êuatlos.

Protágoras retrucou:

"Devo receber em qualquer hipótese; se te venci, devo receber porque venci; e, se venceste, devo receber porque venceste".

O aluno respondeu:

"Não devo pagar em nenhum caso. Se perdi a causa, não devo pagar porque perdi; se venci, igualmente não devo pagar porque venci".

Parece que Protágoras não recebeu.

Friday, January 12, 2007

Atmosfera 4

Era de manhãzinha. Tudo estava pronto para a partida em casa de Abraão. Despediu-se de Sara, e Eliezer, o fiel servidor, seguiu-o pelo atalho até o momento em que Abraão lhe ordenou o regresso. Depois, em completa concordância, Abraão e Isaac caminharam juntos até a montanha de Morija. Cheio de paz e doçura, Abraão fez os preparativos do sacrifício, mas, quando se voltou para puxar da faca, viu Isaac que a mão esquerda do pai se crispava de desespero, que um arrepio lhe sacudia o corpo e contudo Abraão puxou da faca.

Regressaram então à casa. Sara precipitou-se ao encontro de ambos. Isaac, porém, já não tinha fé. Nunca de tal coisa se falou no mundo, nem Isaac disse a alguém aquilo que presenciara, nem Abraão suspeitou de que alguém o vira.

Quando chega o tempo do desmame, recorre a mãe à alimentação mais forte para evitar a morte do filho. Feliz aquele que dispõe de alimento forte!

Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.

Atmosfera 3

Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, deu um beijo a Sara, e Sara deu um beijo a Isaac, suas delícias, sua eterna alegria. E Abraão, montado no burro, seguiu pensativo. Meditava em Agar e no filho que abandonara no deserto. Subiu a montanha de Morija e puxou da faca.

A tarde estava tranqüila quando Abraão se achou sozinho em Morija. Jogou-se na terra e pediu perdão a Deus pelo seu pecado, perdão por ter querido sacrificar Isaac, perdão por ter esquecido o dever paternal para com o filho. Tomou, de novo, com mais freqüência o solitário caminho da montanha, mas não encontrou repouso. Não podia conceber que pecara por ter querido sacrificar o seu mais precioso bem, por quem teria oferecido a vida mais de uma vez; e, se pecara, se nunca amara Isaac a tal ponto, não podia compreender como merecer o perdão de Deus — haverá, com efeito, mais horrível pecado do que o seu?

Quando chega o tempo do desmame, a mãe fica triste pensando que ela e o filho se irão separar; que o menino, a princípio sob o seu coração e depois embalado no seio, nunca mais se encontrará tão perto dela. E juntos sofrerão esta curta pena. Feliz aquele que conservou o filho tão perto do seu coração e não teve outro motivo de desgosto!

Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.

Thursday, January 11, 2007

Atmosfera 2

Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, abraçou Sara, companheira da sua velhice, e Sara deu um beijo a Isaac, que a havia preservado do escárnio e era seu orgulho e esperança para toda a posteridade. Caminharam em silêncio. Abraão conservou o olhar obstinadamente fixo no solo até o quarto dia. Só então levantou os olhos e vendo no horizonte a montanha de Morija, baixou-os de novo. Em silêncio preparou o holocausto e ligou Isaac; em silêncio puxou da faca; então viu o carneiro que Deus provera. Sacrificou-o e regressou... A partir desse dia Abraão envelheceu; não pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira. Isaac foi crescendo, mas os olhos de Abraão haviam perdido o brilho; nunca mais tornou a ver a alegria.

Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mãe. Feliz o filho que não perdeu a mãe de outro modo!

Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.

Wednesday, January 10, 2007

Atmosfera 1

E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas que te indicarei.

Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, albardou os burros, deixou a sua casa com Isaac, enquanto da janela Sara os via descer pelo vale até se perderem de vista. Caminharam em silêncio durante três dias. Na manhã do quarto dia, Abraão continuou sem dizer palavra, mas, erguendo o olhar, viu ao longe os montes de Morija. Despediu então os servidores e, tomando Isaac pela mão, trepou pela montanha. E Abraão dizia para si: Não posso mais ocultar-lhe aonde conduz este andar. Deteve-se, pousou a mão sobre a cabeça do filho para o abençoar e Isaac inclinou-se para receber a bênção. O rosto de Abraão era o de um bom pai: o olhar doce e a voz exortavam. Mas Isaac não podia compreendê-lo; a sua alma não lograva elevar-se tão alto; abraçou os joelhos de Abraão, jogou-se-lhe aos pés, pediu-lhe piedade, implorou pela sua juventude e pelas mais doces esperanças, falou das alegrias da casa paterna, evocou a tristeza e a solidão. Então Abraão levantou-o, pegou-lhe na mão e caminhou e a sua voz exortava e consolava. Mas Isaac não podia compreendê-lo. Abraão subiu a montanha de Morija; Isaac não o compreendia. Foi então que, tendo-se afastado um pouco do filho, Isaac lhe tornou a ver o rosto, desta vez alterado, o olhar feroz, as feições aterradoras. Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o por terra e disse-lhe: Estúpido! Supões que sou teu pai? Sou um idólatra! Crês que obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece! Então Isaac fremente e com grande angústia, gritou: Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra!

Mas Abraão ciciava: Deus do Céu, dou-te graças. Vale mais que me julgue um monstro do que perca a fé em ti.

Quando chega o tempo do desmame, a mãe enegrece o seio, porque manter o seu atrativo será prejudicial ao filho que o deve abandonar. Assim ele acredita que a mãe mudou, embora o coração dela continue firme e o olhar conserve a mesma ternura e amor. Feliz aquele que não tenha de recorrer a meios ainda mais terríveis para desmamar o seu filho!

Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.

Tuesday, January 09, 2007

A caixa chinesa de Kierkegaard

Um certo indivíduo, que se intitulou Johannes o Sedutor, escreveu um diário contando como seduzira uma jovem ingênua, e o abandonou em uma gaveta. Um outro indivíduo, ou talvez o mesmo, escreveu outros seis livros menores, juntou todos eles, inclusive o Diário do Sedutor, e esqueceu todos os textos em uma gaveta. Um juiz, Guilherme, vasculhando as gavetas, encontrou o material e o leu. Incomodado com o que havia lido, e julgando que todos os escritos pertenciam ao tal Johannes o Sedutor, decidiu que tinha lhe dar uma resposta à altura. Como a premissa fundamental do Sedutor baseava-se na idéia de que a vida ética é entediante e que deve-se buscar a variedade para fugir da monotonia, o Juiz Guilherme lançou-se à tarefa de tentar mostrar ao Sedutor que a vida estética não é outra coisa senão desespero, e que o casamento não é necessariamente tédio. Escreveu três livros, entre eles O Matrimônio, mas, como não tinha meios de enviá-los ao esteta, deixou-os, juntamente com um sermão de um certo sacerdote, na mesma gaveta, para que o Sedutor o encontrasse, quando voltasse para buscar seus papéis.

Isto não aconteceu; o autor anônimo nunca retornou, e os volumes, agora onze ao todo, ficaram esquecidos na gaveta. Então, em um belo dia um encadernador, Bogbinder, encontrou os manuscritos e os reuniu em um único volume. Um editor, Victor Eremita, encontrou os volumes já encadernados, com uma nota explicativa do Sr. Bogbinder. Victor Eremita estudou as caligrafias e concluiu que só havia dois autores: os primeiros sete manuscritos haviam sido escritos pelo tal Johannes o Sedutor - que chamou de A - e os quatro últimos, pelo Juiz Guilherme - que chamou de B. Então, editou a obra, explicando como fora parar em sua mão, mas deixando claro, ao final, que, se os manuscritos podiam ser uma farsa, a sua edição também poderia ser. Portanto, os leitores não podiam ter certeza nem da autoria, nem da história que ele contava, nem do que ele próprio afirmava sobre a edição dos manuscritos, ou mesmo de que fosse realmente o editor, apesar de assinar.

Este é o enredo da obra "Ou ou", de Kierkegaard (ou melhor, de um tal Victor Eremita) e marca sua estréia como filósofo. A obra é extensa e magistral, sobretudo os escritos estéticos. Há um longo ensaio sobre o Don Giovanni, de Mozart; um ensaio sobre o tédio a partir da existência, não sei se real, de uma sepultura em Londres dedicada a um "anônimo"; o Diário do Sedutor, e outras mais.

A obra tomou Copenhague de assalto; especulou-se à exaustão sobre a autoria. Kierkegaard estava na lista dos suspeitos e, para negar que fosse o autor, escreveu um artigo para jornal intitulado "Quem teria escrito Ou, Ou?", em que levantava hipóteses sobre os literatos de Copenhague: "Teria sido fulano?" "Não, fulano não poderia ser por esta e esta razão" etc.

Deve ter-se divertido bastante com a panacéia. A oportunidade era perfeita para ironizar a "elite intelectual" de sua cidade, e ele não deixou por menos.

Monday, January 08, 2007

Filosofia revelada

Havia, na Copenhague da primeira metade do século XIX, um certo Johan Ludvig Heiberg (1791-1860), escritor, historiador, teatrólogo e crítico de arte de grande expressão local. Era filho de escritores e casou-se com uma atriz. Inicialmente o filósofo Kierkegaard mantinha boas relações com ele, até o momento em que publicou sob pseudônimo o livro "Ou, ou" e a comunidade local julgou que Heiberg fosse o autor. Heiberg, para negar com veemência a autoria, disse que jamais escreveria "um livro monstruoso como aquele". Quando Kierkegaard publicou "A Repetição", novamente sob pseudônimo, Heiberg outra vez deixou claro que não era o autor e que o livro não tinha qualquer valor. Mas a briga se tornou mais acirrada quando, em um belo dia, Heiberg "acordou hegeliano".

A julgar por Kierkegaard, Heiberg, em uma bela manhã de Páscoa de 1822, "levantou-se para compreender a filosofia de Hegel". Tivera, em sonhos, a revelação da filosofia hegeliana. A partir de então tornou-se seu grande apóstolo.

Apesar da ironia, parece que Heiberg realmente alegou ter tido a comprensão de Hegel como se fosse uma revelação.

Mais tarde, a esposa de Heiberg representou Julieta, aos quarenta anos, na peça de Shakespeare, e Kierkegaard não deixou por menos: publicou um artigo sobre a peça, intitulado "A Crise e a Crise na vida de uma atriz" (1848), em que afirmava que somente na maturidade a atriz poderia de fato representar Julieta, porque a lembrança de sua juventude não estava disponível nas performances... da juventude.

Trocando em miúdos: a sra. Heiberg está velha para o papel de uma jovenzinha de 15 anos, mas isso não é problema porque podemos nos lembrar dela quando jovem, ou imaginar como teria sido, o que seria impossível quando ela era jovem.

Sunday, January 07, 2007

A utilidade dos camelos, segundo Kant

Poderíamos perguntar o que seria dos beduínos sem o camelo, mas parece que o filósofo alemão Immanuel Kant se pergunta o que seria dos desertos sem o camelo.

Como é perfeita a natureza! Inventou o deserto, mas logo tratou de criar o camelo para viver nele, caso contrário não haveria utilidade nem para um, nem para outro. Utilidade para os homens, bem entendido, porque a natureza está aí apenas para servir aos nossos propósitos. Caso contrário, por que existiria, né?

Que coisa. Até tu, meu rei?

"É também digno de admiração que os desertos de areia contem ainda com o camelo, que parece ter sido criado para a sua travessia, para os não deixar inutilizados". (Kant, A Paz Perpétua, p.143).

Saturday, January 06, 2007

Bando de filósofos

"Não é de esperar nem também de desejar que os reis filosofem ou que os filósofos se tornem reis, porque a posse do poder prejudica inevitavelmente o livre juízo da razão. É imprescindível, porém, para ambos que os reis ou os povos soberanos (que se governam a si mesmos segundo as leis de igualdade) não deixem desaparecer ou emudecer a classe dos filósofos, mas os deixem falar publicamente para a elucidação dos seus assuntos, pois a classe dos filósofos, incapaz de formar bandos e alianças de clube pela sua própria natureza, não é suspeita da deformação de uma propaganda" (Immanuel Kant, A Paz Perpétua, Edições 70, p. 150).

Hmmm. Em teoria, talvez, mas no dia-a-dia não sei não. A classe dos filósofos - ao menos os filósofos acadêmicos - é capaz, sim, de formar bandos e alianças de clube, embora seja verdade também que o individualismo próprio do ofício torna frágeis essas alianças. Mas, é claro, a filosofia, por sua própria natureza, não convive bem com o poder, porque não pode, por força de negar a si mesma, sobrepor o poder ao saber.

Friday, January 05, 2007

De Kant, sobre Lula

Posso pensar, sem dúvida, um político moral, isto é, um homem que assume os princípios da prudência política de um modo tal que possam coexistir com a moral, mas não posso pensar um moralista político, que forja uma moral útil às conveniências do homem de Estado.

Immanuel Kant, A Paz Perpétua, Edições 70, p. 153.

Estatística estranha

A julgar pelo levantamento feito, a Suécia é o país com maior número de ateus e agnósticos do planeta: entre 46 e 85% da população. Isso não é novidade. A surpresa é o segundo colocado, o Vietnã, com 81%. Nos Estados Unidos, há entre 3 e 9% de ateus. Menos que na China, que tem cerca de 14%.

O Brasil nem chega a ser incluído na estatística.

Thursday, January 04, 2007

Nem tudo está perdido

Que a filosofia não tenha espaço no mercado de trabalho, é coisa sabida. Que os cursos de filosofia remanescentes, os poucos de universidades católicas, estão fechando as portas, também não é novidade. Quem é da área e leciona em uma universidade dedicou-se aos estudos anos a fio, em muitos casos doutorando-se, mas a situação em que se encontra hoje, em termos profissionais, é péssima. De um lado, aulas esparsas em faculdades particulares, sob a ameaça eterna de desemprego. De outro, universidades públicas de difícil acesso, com poucos concursos e grande demanda. Em meio a isso tudo, políticas educacionais que reduzem as grades curriculares a conteúdos mínimos, voltados para o mercado de trabalho, e que praticamente excluem a filosofia.

Mas, ao que parece, surgiu uma alternativa: empresas americanas estão começando a contratar filósofos como consultores, com o propósito de humanizar as relações de trabalho e atuar em planejamento.

Por enquanto é só uma tendência que, espero, o Brasil copie. Mas acho que vamos ter de esperar muito para ver isso acontecer, se acontecer.

Wednesday, January 03, 2007

DNA de Cristo

Enfim, tudo resolvido: os cientistas já podem ter o DNA de Cristo. Isso é fantástico, porque a ciência detém hoje o lugar de estatuto da verdade. Provada cientificamente a existência histórica de Jesus, o resto fica fácil.

Mas onde está o DNA de Cristo?

Ora, no corpo dele!

Eu explico.

Cristo reencarnou em 1948, em uma aldeia no interior de Santa Catarina, e o melhor da história é que ele ainda vive. Por que você não aproveita para garantir a aposentadoria? Basta seguir o homem, esperar um momento de distração e puxar um fio da barba. Pronto, já tem o DNA. Imagine o quanto pode valer, quando ele tiver passado desta para melhor.

É verdade que, para Cristo reencarnar em INRI Cristo, o corpo terá de ser outro. Portanto, o DNA é outro. Mas isso não é problema, porque afinal de contas ele continua sendo Cristo. Lembre-se do que diz o próprio INRI Cristo, citando Nelson Rodrigues: "o óbvio ululante não carece de prova".

Acho que devíamos fazer um esforço para levar Cristo a sério desta vez; só assim ele pára com essa história de reencarnar. Se parar, seu fio de barba valerá uma pequena fortuna.

Pena que nesta reencarnação não guardaram o cordão umbilical.

.....................

Cá entre nós: gaste um pouquinho de seu tempo para visitar a página linkada no título, ouvir o Messias e ler um pouco de sua história. Funciona como vacina contra febre amarela.

Tuesday, January 02, 2007

A importância histórica de um nariz

Sabe aqueles eventos únicos, capazes de mudar o destino do mundo, de alterar o curso do planeta, de interferir nas marés, de modificar tudo à sua volta? Pois é, parece que Pascal (Pensamentos, 162) julgava ser este o caso do nariz de Cleópatra:

"Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado".

Um tantinho exagerado, não? Mas talvez ele esteja querendo dizer que, se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, Otávio também teria se apaixonado por ela. Ou talvez nem Júlio César, nem Marco Antônio. Vá saber. Em qualquer destes casos a história da humanidade seria outra.

Lembrei de Obelix (aquele que caiu na poção mágica de Panoramix quando criança), pendurado no nariz da Esfinge (acho que era a Esfinge): se Cleópatra não tem mais nariz, e o mundo é o que é, a culpa é dele.

Saturday, December 30, 2006

As vinhas da ira

Aproveitando que hoje estou para a literatura, lembrei da passagem que julgo mais desconcertante de uma obra literária. Ao menos, das que li. É de John Steinbeck, e encontra-se ao final de As Vinhas da Ira.

A história gira em torno de uma família miserável e sua luta pela sobrevivência. O episódio do laço de fita da filha adolescente também é perturbador, mas a imagem mais forte da obra, em minha opinião, é o momento final, em que a família encontra-se mais miserável que antes, em meio a outros miseráveis. Entre eles, há um homem adulto literalmente morrendo de fome. A mãe, que havia dado à luz recentemente, compadece-se do homem e oferece o seio, para que ele mame como um bebê.

Não tenho certeza, mas acho que essa passagem me perturbou porque descreve uma miséria tão absoluta que leva um homem adulto a se alimentar do leite de uma mulher. Há algo de sórdido nessa situação, não no ato em si, mas na necessidade dele.

De todo modo, é desconcertante.

Thursday, December 28, 2006

O som e a fúria

Que Shakespeare é um evento na história da humanidade, ninguém pode negar. Afinal, entre outros méritos mais conhecidos, ele inventou 25% do vocabulário da língua inglesa, além de ter renovado o teatro inglês. Também é inegável sua influência sobre outros escritores. Uma delas, talvez a mais significativa, é sobre William Faulkner.

Faulkner escreveu sua obra mais conhecida a partir tão somente das últimas palavras de Macbeth, na peça de mesmo nome.

Macbeth, instigado por sua esposa, faz tudo o que está a seu alcance para obter poder. Engana, trai, mata e, por fim, obtém tudo o que quer. Quando enfim é proclamado rei, Lady Macbeth se mata. Sob o efeito da notícia, Macbeth diz, em uma das passagens mais belas da obra de Shakespeare:

"A vida é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota, significando nada".

A peça acaba aqui, mas Faulkner utilizou esta frase para fazer exatamente o que diz Macbeth sobre a vida: contar, em parte pela ótica de um deficiente mental, uma história cheia de som e fúria, significando nada. O resultado é a obra-prima O Som e a Fúria que, como as peças de Shakespeare e os romances de D.H. Lawrence, para não citar todos os grandes escritores, não valem pela história que se quer contar, que pode ser banal, mas pelo modo como é contada. No fim das contas, a obra de Faulkner é cheia de significados.

Tuesday, December 26, 2006

A indústria cultural já era

No ano passado os Rolling Stones vieram ao Brasil. O show, na praia, atraiu milhares. Fiquei me perguntando porque essas figuras ainda são capazes de atrair multidões. Claro, há o fato de que estão na mídia há quarenta anos, o que já serve para despertar o interesse, mas continuo surpresa que consigam atrair jovens de dezoito, vinte anos, para seus shows. Penso que isso é resultado sobretudo do fato de que a indústria cultural não faz mais ídolos como antigamente. Depois de Michael Jackson, qual é o grande sucesso da mídia? Que Michael Jackson ou Madonna não vendam mais como antigamente é fácil de entender: as novas gerações querem outra coisa. Mas o que é digno de nota é que a esteira de produção da Indústria Cultural não consegue mais fabricar ídolos como os que mencionei, porque não é mais capaz de fabricar o gosto como antes. Não há uma causa única para isso, mas acredito que o motivo principal é o advento da internet. Há opções demais; tudo é fragmentado, e tem-se acesso fácil a quase tudo, inclusive a artistas de garagem.

Saturday, December 23, 2006

A chácara do tio Gugu

Na infância, eu costumava viajar com a família para uma cidade do interior, onde ficava hospedada, juntamente com vários parentes, na chácara do Tio Gugu. A casa era bastante espaçosa, com vários quartos, e pertencia à família há coisa de um século. Nela, várias pessoas haviam morrido, ainda no tempo em que os doentes ficavam em casa. Por essa razão, havia um sem-número de histórias de fantasmas, de espíritos que vagavam pelos corredores, coisas assim.

Em uma destas viagens, estava no quintal da casa com os primos, de mesma idade, mas por uma razão qualquer de que não me lembro, eles me excluíram da brincadeira. Sem alternativa, passei a caminhar sozinha pelos limites da chácara, me afastando da casa. Então vi um toco de uma árvore que havia sido cortada e me surgiu uma idéia para ser aceita novamente no grupo. Sem pensar muito, comecei a gritar e a chorar.

Beleza. Logo os primos apareceram, correndo esbaforidos, e querendo saber o que tinha acontecido. Eu apontei para o toco de árvore e disse ter visto um rosto ali.

Não vi. Era só prá chamar a atenção mesmo.

De início, todos riram, mas eu me mantive firme. Quando tentavam se aproximar da árvore, eu gritava para não fazerem isso, que tinha alguém ali olhando para nós, etc etc. Tanto insisti, tanto gritei de medo que o inusitado aconteceu: alguém mais viu o rosto! E então, um a um, todos começaram a ver. Uma prima ensaiou um desmaio, outra começou a soluçar alto. Em pouco tempo o grupo estava aterrorizado... e eu estava estupefata.

Por que todo mundo via o rosto e eu, não?

A estratégia para ser aceita no grupo me deixou de fora dele: todos viam o rosto na árvore, mas eu só via a árvore. E fiquei indignada de novo: por que só eu não vejo? O que há comigo que não consigo ver?

Então uma tia, que escutara os gritos, surgiu, riu da história, deu uns tapas na árvore e acabou com a farra, mas o episódio não terminou aí. Não para mim.

Durante muito tempo, tentei entender o que havia acontecido; porque eu havia sido excluída do privilégio de ver o rosto, quando eu mesma tinha alertado a todos sobre ele.

Então, muito tempo depois, compreendi: eu havia acreditado em minha própria mentira, simplesmente porque todos acreditavam nela. Eu sabia que era mentira, mas quando meus primos começaram a gritar e chorar, acreditei mesmo que eles viam o rosto na árvore, que havia de fato algo ali.

Neste episódio a semente do ateísmo foi plantada em minha cabeça. É claro que foi preciso muito tempo para que tomasse forma, mas a sensação de acreditar no que eu havia inventado, no que sabia que não era real, e nem mesmo imaginação minha, me fez perceber como é fácil nos iludirmos. Bastou, nesse caso, que outros acreditasssem ou fingissem acreditar para se tornar real mesmo para o autor da mentira.

Thursday, December 21, 2006

Karma 101

Meu karma 101 é o ateísmo. Algo com que tenho de conviver nesta vida, como resultado do que fui na vida passada, e como estágio de evolução para a próxima vida.

Algo que veio sorrateiramente, modificando meu modo de perceber a existência humana, sem que eu me desse conta até ser tarde demais. Não percebi que estava perdendo a fé em deuses, em bandas de rock, em filósofos e em novelas de tv.

Se tivesse percebido, teria reagido.

Acho que devo tomar o chá de santo daime para ampliar minha consciência.

Talvez experimentar a Yoga outra vez e me imaginar uma árvore, depois um passarinho, depois o vento, e depois o passarinho de novo e depois a árvore e então eis-me aqui outra vez, impaciente prá me levantar e ir embora.

Talvez testar a falibilidade das cartas de tarot e descobrir que, afinal, acerta-se muito mais do que se erra... desde que eu esqueça que os enunciados são tão vagos que praticamente não há possibilidade de erro.

Talvez deva virar budista, rosa-cruz, teósofa... e aprender uma meia-dúzia de máximas que me conduzirão placidamente pela vida, e que repetirei à exaustão, para que todo mundo possa se conduzir tão placidamente quanto eu.

Talvez deva reler a Bíblia pulando o livro de Números, ou minha firmeza de propósitos morre aí.

Talvez eu deva começar a prestar atenção em borras de café.

Talvez deva observar melhor as batatas fritas antes de comê-las.

Talvez deva tentar ser uma bruxa, mas posso acabar sendo apenas a bruxa do 71.

Talvez não.

Talvez deva simplesmente seguir em frente com meu karma 101.

Wednesday, December 20, 2006

Filosofia: prá quê?

Falando muito sério: o que a filosofia pode trazer ao homem de hoje que não se possa conseguir por outra via?

As alegações costumeiras são de que a filosofia provoca a reflexão crítica, faz pensar, garante a autonomia do sujeito e, diz-se, a manutenção da ética.

Mas, por hipótese, consideremos o caso em que a filosofia desapareça. Vamos viver na escuridão e voltar à Idade Média? Não há cientistas, sociólogos e antropólogos que nos convidam à reflexão crítica?

Bem, convido à reflexão crítica sobre a filosofia. Sem ela, não teríamos as ciências, é verdade, mas já temos. Sem ela, não teríamos a lógica, é verdade. Mas hoje já temos a lógica. Sem ela, não teria havido a ruptura com o mito, mas essa ruptura já foi feita. Ainda que o mundo voltasse à Idade Média, a ruptura já foi feita; o caminho já está aberto.

Ouço dizer que sem a filosofia não teríamos noção de cidadania, de ética, de sujeito. Sem ela, não haveria liberdade de pensamento. Concordo inteiramente; não há como negar tudo isso, mas estes valores já estão incorporados ao mundo ocidental, pelo menos.

Quando perguntamos qual é o valor da filosofia hoje, a resposta sempre nos remete ao valor histórico da filosofia. É este o meu ponto. Então, continuo querendo saber: qual é o valor da filosofia HOJE, no mundo como está HOJE, e não como era na Grécia do século VI a.C., no medievo e no período moderno?

Monday, December 18, 2006

Pré ou pós?

Ouço com bastante frequência a máxima de que um filósofo antigo e medieval antecedeu um outro, contemporâneo ou mesmo moderno. Algo como dizer, por exemplo, que Protágoras, o sofista, é pré-kantiano (tese de um tal Theodor Gomperz, historiador). É claro que esta tendência se registra apenas naqueles casos em que um filósofo considerado "menor" exerceu influência sobre o pensamento de um filósofo considerado "maior".

O que me incomoda é exatamente o entendimento de que o primeiro filósofo é limitado porque não chegou até onde poderia ter chegado, e que foi preciso um outro, maior, para extrair das premissas do primeiro as suas consequências possíveis. Isto supõe que os filósofos não estão sujeitos a determinações históricas e culturais, que não são filhos de seu tempo. O óbvio, para mim, é que Hegel é posterior a Heráclito, e não que este antecipa aquele.

Aliás, esta é uma visão bastante hegeliana, de que a filosofia é um grande sistema que incorpora premissas contraditórias porque cada uma delas representa um passo em direção a um estágio superior, como se os filósofos estivessem todos subindo uma escada, mas cada um sobe apenas um degrau e diz: "Já fiz a minha parte. Agora é com você, que enxerga mais além por estar um degrau acima".

Este entendimento também deixa entrever a visão de que a filosofia hoje prescinde do estudo de seus antecessores. Basta a filosofia moderna e contemporânea. Os demais são pré.

Para mim, os contemporâneos é que são pós. Não há como entendê-los bem sem entender os conceitos fundamentais com os quais trabalham, e estes conceitos estão na história da filosofia.

O gigante cego de Schopenhauer (de Newton, mais precisamente), enxergando com os olhos do anão em seus ombros, não tem nada nada a ver com isso.

Sunday, December 17, 2006

Cristo antes de Cristo

Descobri hoje, assistindo a um documentário da Discovery, que Cristo nasceu antes de Cristo. Considerando que se trata do filho de deus, tudo é possível, mas o caso é bem mais prosaico: trata-se pura e simplesmente de um erro. Humano, claro.

O calendário cristão, elaborado no ano 525 d.C. por Dionísio, o Menor, está errado, para menos, em 5 anos.

Dionísio se baseou no calendário juliano para criar o calendário que adotamos até hoje. A contagem que fez do reinado dos imperadores romanos não incluiu os quatro anos em que Otávio reinou com esse nome, antes de se tornar Augusto, e deixou de considerar o ano zero. Portanto, está defasado em cinco anos, o que significa que Cristo nasceu no sexto século antes de Cristo. E sem a ajuda de um milagre.

Estamos na verdade no ano 2012 e a virada do século aconteceu em 1995/1996.

Imagine o prejuízo financeiro de mudar as datas hoje.

Friday, December 15, 2006

Atrocidades da Bíblia

Encontrei o site (linkado no título deste post) sobre as supostas atrocidades encontradas na Bíblia. Sinceramente, não vejo sentido nesse tipo de coisa. Para quem crê, isso não diz nada. Afinal, Deus age como lhe convém. Ou, como diria Kierkegaard, ser religioso é ser capaz de, se necessário, ir além dos valores humanos. Para quem está indeciso, tem pouca cultura e pouco discernimento, as supostas atrocidades podem até servir de desculpa para sair por aí defendendo um ateísmo que nada mais é que ressentimento. Enfim, para quem não crê, pouco importa que a Bíblia corresponda à moralidade e à ética do homem de hoje. Afinal, não passa de um livro cheio de histórias, provérbios, alguma poesia e muitas lições sobre como se deve viver para alcançar o paraíso.

Para mim, o Velho Testamento é de longe mais interessante que o Novo, pela história. Fantasia por fantasia, todos os povos antigos tiveram a sua. E, depois, é fácil compreender que um povo guerreiro precise de um deus guerreiro (afinal, Zeus não era isso mesmo?). As qualidades morais, digamos assim, de um guerreiro são o caráter implacável com os inimigos, a força física, a coragem, a firmeza de propósitos e o apego apaixonado ao que defende. Já dizia Platão que um guerreiro que chora como uma mulher no parto não serve para vigiar uma cidade. Mas, se for embrutecido demais, torna-se um perigo para a cidade. O deus dos judeus do Velho Testamento é capaz de se sensibilizar com o sacríficio, mas é sobretudo um guerreiro para um povo que precisa se defender e conquistar.

Mas logo vieram os romanos, e os judeus deixaram de ser livres. Para um povo assim, o do Novo Testamento, as principais "virtudes morais" que o deus deve ter são o amor e a compaixão. O deus-rei de um povo que sofre deve, antes de tudo, ser pai, e pai misericordioso, que perdoa, que não exige sacrifícios, mas que é capaz do maior sacrifício: abrir mão de seu único filho, o princípe, em benefício de seus súditos. Que povo agraciado! Só assim é possível ter esperança novamente: o guerreiro voltará, montado em um cavalo alado, para vencer o grande inimigo em uma batalha final, mas só no futuro. Até lá, precisa-se de pai, porque o pai ama seus filhos e sabe o que é melhor para eles.

Wednesday, December 13, 2006

Ariano

Encontrei, no prefácio do autor a "O Santo e a Porca", de Ariano Suassuna:

"Pior que do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz" (p.23).

E mais ainda, no parágrafo seguinte:

"A vida é uma traição, uma traição contínua. Traição nossa a Deus e aos seres que mais amamos. Traiçao dos acontecimentos a nós, dentro do absurdo de nossa condição, pois, de um ponto de vista meramente humano, a morte, por exemplo, não só não tem sentido, como retira toda e qualquer possibilidade de sentido à vida".

Sunday, December 10, 2006

Unidade do céu por redução ao absurdo

"É evidente que há apenas um céu, pois no caso de uma pluralidade de céus (como há uma de homens), os princípios motrizes - dos quais cada céu teria um - seriam unos do ponto de vista da forma, mas numericamente muitos. Entretanto, todas as coisas numericamente múltiplas possuem matéria (pois uma e mesma definição aplica-se a muitos indivíduos, por exemplo, a definição de homem, mas Sócrates é singular); contudo, a essência primária não possui matéria, porque é realização completa. Portanto, o primeiro motor, o qual é imóvel, é uno tanto do ponto de vista da fórmula quanto do número. E, portanto, assim é também o que está eterna e continuamente em movimento. Conclui-se, assim, que há apenas um céu." (Aristóteles, Metafísica X).

Resumindo:

Se existissem vários céus, cada um teria um princípio gerador.
Esses princípios geradores seriam muitos, mas teriam a mesma essência (de princípio gerador);
Ora, aquilo que é múltiplo é de natureza material;
Portanto, a matéria teria de ser princípio originário de toda matéria, o que é um absurdo.
Logo, só há um céu.

A redução ao absurdo consiste em supor a verdade da tese contrária à que se quer defender, extrair dela suas consequências possíveis e demonstrar que ela se autocontradiz (ou seja, nega e afirma a respeito do mesmo objeto). Então, se a tese contrária à minha (há vários céus) é falsa, conclui-se a verdade da minha tese (so há um céu).

Voltando ao argumento, não creio ser verdadeira a suposição de que cada céu tenha um princípio motriz distinto dos demais e que esse princípio seja necessariamente imaterial, ou seja, que a matéria não pode ser o princípio originário de tudo o que é material.

Será mesmo que não?

E se a diferença ocorrer na passagem de um para outro? Quero dizer: a matéria/causa pode originar, no processo, não só a matéria/efeito, mas também aquilo que diferencie, ainda que não substancialmente, a matéria/efeito da matéria/causa.

Ihhh...

Estou de férias. Preciso disso não.

Thursday, December 07, 2006

Falta do que fazer

O pesquisador e advogado criminalista americano Darnay Hoffman quer porque quer provar que Moisés foi assassinado.

Reza a lenda que Moisés desapareceu. Ele seria um dos três personagens bíblicos, se não me falha a memória, que teriam sido levados ao céu em vida (Maria não incluída).
O pesquisador acredita que Moisés, para acalmar o povo descontente, teria sacrificado seu próprio irmão, Aarão. Finéias, neto de Aarão, teria em seguida assassinado Moisés na entrada do Tabernáculo, para vingar a morte do avô. Ao que parece, a tese de assassinato foi defendida também por Freud, só que atribuindo a responsabilidade ao povo de Israel, e não a um indivíduo em específico. E, claro, Freud também não foi preciso quanto ao local do crime. Só mesmo um advogado criminalista para saber disso, né?

Mas, francamente, prá que serve esse tipo de informação, exceto pelo fato de que pode tornar seu defensor famoso e - quem sabe - rico?

Tuesday, December 05, 2006

Fitche

Sempre tive curiosidade em ler alguma coisa de Fitche, de que não conheço absolutamente nada, e resolvi aproveitar as férias para me apresentar o filósofo alemão. Fui ao volume 26 da Coleção Os Pensadores, e o que encontrei? Um título absolutamente insólito (depois dos de Kierkegaard, o campeão): COMUNICADO CLARO COMO O SOL AO GRANDE PÚBLICO ONDE SE MOSTRA EM QUE SE CONSISTE PROPRIAMENTE A NOVÍSSIMA FILOSOFIA... Um ensaio para forçar o leitor à inteligência.

Estou lendo, claro. Senti-me forçada à inteligência e, diga-se de passagem, encantada com a arrogância do título e do ensaio. Como o filósofo diz, é a terceira vez que explica sua doutrina, e espera não ter de se explicar novamente.

Ah, tá.

Confesso que acho fascinante essa arrogância douta. Para quem não acredita em muita coisa, esse ar de seita de mistérios, de coisa inalcançável, acaba me seduzindo de algum modo. Agora preciso conhecer Fitche.

Só não entendi duas coisas: se o comunicado é claro como o sol, por que o autor julga que vai forçar o leitor à inteligência?

Sobretudo, por que o autor julga que o entendimento de sua doutrina força o leitor à inteligência?

Bem, ainda estou lendo. Quando terminar, talvez eu venha a saber.

Friday, December 01, 2006

Kamala e Amala

Acredite se quiser: em 1920 o reverendo Joseph Singh, missionário responsável por um orfanato na Índia, foi informado pelos habitantes do local que duas figuras fantasmagóricas acompanhavam um bando de lobos, na selva de Bengali. Intrigado, Singh construiu um esconderijo em uma árvore e esperou. Quando a noite veio, os lobos chegaram. Entre eles havia duas figuras horrendas, com pés, mãos e corpo iguais aos de um ser humano, que corriam usando os quatro pés e tinham olhos brilhantes.

Singh capturou as duas criaturas alguns dias mais tarde e descobriu que eram crianças do sexo feminino, que viviam com os lobos e se comportavam como eles. A idade das crianças não é precisa, mas a maior teria entre cinco e oito anos e a menor, em torno de três. Elas eram saudáveis, comiam carne crua e não pareciam ter qualquer traço de humanidade.

Levadas para a civilização, ganharam nomes: a maior passou a se chamar Kamala e a menor, Amala. A única emoção que demonstravam era o medo, comiam carne crua, corriam como lobos quando assustadas, uivavam, tinham olfato apuradíssimo e dormiam durante o dia para acordar à noite. Elas nunca sorriam ou demonstravam interesse na companhia de seres humanos, e procuravam a companhia de cachorros.

A mais nova morreu de depressão um ano depois. A mais velha sobreviveu 10 anos à captura, aprendeu alguns rudimentos de linguagem e a andar sob dois pés.

Tuesday, November 28, 2006

Receita para controlar o próprio destino

Maquiavel tem uma receita ótima para se lutar contra as artimanhas da fortuna: trate-a como mulher. Bata nela; esforce-se para contrariá-la, seja feroz, audaz e evite a timidez. Só isso, e a sorte estará do seu lado.

"Estou convencido do seguinte: é melhor ser impetuoso do que tímido, porque a fortuna é mulher, e é necessário, para dominá-la, bater-lhe e contrariá-la. Vê-se que ela se deixa vencer mais pelos que agem assim do que pelos que agem friamente; e, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos tímidos, mais ferozes e a dominam com maior audácia" (O Príncipe XXV).

Thursday, November 23, 2006

Cemitério de Aliens

Depois da "Terapia de Grupo para Portadores da Síndrome da Pós-Abdução por Extra (ou Intra)-Terrestres", só faltava mesmo haver um cemitério de aliens.

A idéia não é nova, não, mas é americana, claro. Parece que os americanos nunca vão superar sua herança puritana; estão sempre dispostos a acreditar em tudo, de Elvis Presley a deuses gregos, de pés grandes a batata frita com a imagem de Cristo. Uma das esquisitices mais combatidas por Carl Sagan é a obsessão por marcianos esverdeados que capturam humanos para experiências e sei lá mais o quê. O argumento mais forte de Sagan contra essa obsessão é que, com milhares e milhares de planetas e tantas galáxias, a possibilidade de uma nave extra-terrestre vir parar na terra uma vez, ou várias vezes, é perto de zero.

Bem, quer-se acreditar. Mesmo que esta seja uma história já fora de moda de tão boba, existe, no estado do Texas, o que os americanos crédulos chamam de cemitério de aliens. Segundo se diz, uma espaçonave extra-terrestre espatifou-se contra um moinho de vento, no século XIX. A criatura do espaço foi devidamente enterrada, claro. Os habitantes do local eram tão gentis que preferiram enterrar logo a criatura e sumir com os vestígios da espaçonave, para depois anunciar aos quatro ventos que ela morreu ali.

Monday, November 20, 2006

Você é sensitivo?

Você sabe, antes de atender, quem está do outro lado da linha quando o telefone toca?

Já sonhou com alguém que não via há muito tempo e logo reencontrou essa pessoa?

Conegue visualizar com os olhos da mente onde estão objetos e pessoas?

Sabe o que alguém vai dizer antes que comece a falar?

Sabe o que um tal Tickle vai servir para os amigos no jantar que preparou?

Adivinhou que desenho há sob uma carta virada, sem nunca tê-la visto antes?

Sabe de que cor são os olhos do tal Tickle?

Acertou quando disse que o tal Tickle acabou de comprar um carro usado?

Respondeu "não" a todas as perguntas?

Então você um sensitivo!

Vá por mim: qualquer um que fizer o teste linkado no título deste post é sensitivo só de ter feito o teste. Eu respondi "não" a tudo - a maior parte das perguntas eu nem li, porque o teste é longo e chato, então marquei logo "never" e "no". O que não podia ser "never" e "no", chutei, e olhe só!, descobri que tenho uma enorme habilidade para visitar, com a mente, lugares desconhecidos. Isso significa que sou capaz de ajudar a polícia a encontrar fugitivos. Não é ótimo?

Pensando bem, há boas chances de que eu seja mesmo sensitiva. Saí chutando as respostas ou dizendo "não" e mesmo assim acertei! Pois então. E mais: meus poderes recém-descobertos me dizem que basta fazer o teste para ser sensitivo.

Saturday, November 18, 2006

Resposta ao Anônimo (a)

Anônimo (a):

Ainda refletindo sobre a passagem que destacou.

Considerando apenas o objeto: supondo um existente qualquer, numa série finita de manifestações. Em sua primeira aparição, o objeto é obviamente desconhecido para o sujeito. Se a série de aparições for finita, em algum momento o objeto será conhecido inteiramente. Se isso fosse possível, então aquela primeira aparição, quando o objeto era desconhecido, não poderia se repetir (o que é conhecido não pode aparecer como desconhecido).

Então, há quatro possibilidades:

1. O objeto nunca aparece, de nenhum modo.
2. O objeto se mostra imediata e inteiramente ao sujeito.
3. O objeto se revela progressivamente, em uma série finita de aparições, até se revelar inteiramente.
4. O objeto nunca se revela inteiramente.

O primeiro caso é facilmente descartado, porque se o objeto nunca aparecesse ao sujeito, não haveria conhecimento, e basta a afirmação “a é diferente de b” para negar esta hipótese.
O segundo também não é possível, porque implicaria que sujeito e objeto são estáticos, o que sabemos não ser o caso.
O terceiro é absurdo porque, uma vez conhecido o objeto, cessam as aparições (neste caso a ciência algum dia saberia tudo e não haveria nada mais a ser descoberto). Mas o ponto principal é que só conhecemos um objeto quando o conhecemos inteiramente, o que não pode ser (pelas razões apresentadas anteriormente).
5. O quarto item é o único aceitável. Neste caso, é forçoso que a série de aparições seja infinita, porque se o objeto se revela parcialmente a cada momento, só o conhecemos parcialmente. Uma nova aparição sempre é possível.

Wednesday, November 15, 2006

A lógica da loteria

Nunca consegui ter disciplina suficiente para jogar na loteria, ou para checar o resultado, e nunca acreditei na possibilidade de ganhar. Mas isso mudou há três anos. Quero dizer, passei a considerar que posso talvez quem sabe ganhar. A disciplina continua a mesma.

Minha irmã, que joga há mais de dez anos, sempre argumentou a favor da loteria literalmente usando a falácia de Monte Carlo: "o fulano ganhou; logo, serei a próxima. Apostei e acertei quatro números. Logo, da próxima vez acertarei cinco". Eu sempre argumentei que o raciocínio é falacioso; que os resultados são aleatórios, que ninguém vai ganhar da próxima vez porque quase ganhou antes, etc, mas nunca adiantou muito. Ela continuava jogando toda semana, invariavelmente, e então... ganhou. Não ficou rica; ganhou apenas o suficiente para comprar uma casa, reformá-la e mobiliá-la. E então, o golpe final em minha lógica: "Viu? Ganhei! Eu não disse que estava chegando perto?"

Mas o que mais a irritou, quando ganhou, foi o cálculo que tentei fazer dos custos, o que inevitavelmente reduziria o benefício: "quantos anos você jogou? Quanto apostou por semana? Então, você gastou tanto e obteve tanto. Diminuindo o quanto gastou do que ganhou, na verdade seu ganho foi x, muito abaixo do valor do prêmio".

A resposta veio com o fato: "Ganhei, não foi? Então?"

Pois é. Então.

Ela continua jogando, e lá vem a falácia de Monte Carlo outra vez: se ganhou uma vez, vai ganhar novamente. Argumentei que a possibilidade de ganhar novamente é remotíssima, mas ela acha que está chegando mais perto, que está quase lá e que, se meus argumentos falharam uma vez, é porque não são bons mesmo.

Lamentavelmente, contra fatos não há argumentos.

Sunday, November 12, 2006

Loteria lógica

Tive uma idéia absolutamente imbecil ontem, mas ainda não consegui me livrar dela. Fiquei me perguntando se posso usar as tabelas de verdade da lógica para testar a probabilidade de ganhar na loteria.

O raciocínio foi o seguinte: se tenho uma variável, há 50% por cento de chance de acertar (já que ela é ou verdadeira ou falsa). Se tenho duas variáveis, então (considerando somente a tabela do conjuntor, que é o caso), só há uma possibilidade em quatro. Se são três variáveis, uma possibilidades em oito. Se há quatro variáveis, então há uma possibilidade em dezesseis, e assim por diante. Então, aplicando o raciocínio à megasena, por exemplo: eu aposto cinco palpites. A possibilidade de ocorrer aquela combinação específica (por exemplo, 2 - 7 - 12 - 21 - 46) é de 1 para 16, o que daria uma média razoável. Mas então percebi que tenho de levar em consideração o conjunto de apostas possíveis, e não somente a combinação específica que apostar, o que daria uma média infinitamente maior. Como a matemática não é meu forte, desisti da empreitada, mas ainda acho que é possível, só com a lógica, calcular de algum modo as minhas chances e, quem sabe, desistir logo da idéia de ganhar na megasena e parar de jogar dinheiro fora.

Eu avisei que a idéia não era lá grande coisa. :-))

Friday, November 10, 2006

Comedores de batata estragada

Parece brincadeira, mas não é. Relendo os Manuscritos Econômico-Filosóficos de Marx, encontrei esta observação:

"O irlandês não conhece outra necessidade senão a de comer e, mais precisamente, a de comer batatas, e para sermos mais exatos, a de comer batatas estragadas, a pior espécie de batata". (Col. Os Pensadores, p. 23).

Não duvido que uma batata estragada seja a pior espécie de batata, mas de onde terá vindo essa informação no mínimo curiosa? Já que Marx viveu - e morreu - em Londres, deve ter absorvido a opinião dos ingleses sobre os irlandeses rebeldes, que têm a grama mais verde do planeta e, claro, as batatas menos suculentas.

Wednesday, November 08, 2006

Leilão de baleia

Você já pensou em ser dono de uma baleia? Ora, por que não? Querer é poder! Ou melhor, querer é poder no e-bay.

O "Mercado Livre" americano, e-bay, está leiloando os direitos sobre uma baleia. Qualquer um pode comprar, e nem é tão caro assim: com exíguos vinte dólares iniciais, você pode participar do leilão e, quem sabe, arrematar o produto. Se pensar bem, verá que suas chances são até boas. Afinal, quem quer comprar baleia hoje em dia, né?

Mas não precisa se preocupar com o lugar onde vai colocá-la. A baleia continuará no mar. Ela apenas passará a ser sua, e nenhum pescador poderá matá-la. Se acontecer de um desavisado matar sua baleia, você ainda poderá processá-lo.

E aí? Não é um bom negócio? Se a baleia continuar viva, você será responsável pela sua preservação. Se a matarem, você ainda ganha dinheiro com isso. Mas não fique muito entusiasmado. Nenhum pescador que se preze tem lá muito dinheiro, e as baleias são muito parecidas.

Monday, November 06, 2006

Qualificação sobrenatural

Ando assistindo ao programa "Psychic Detectives", da Discovery e fico me perguntando: se os médiuns, ou coisa que o valha, são capazes de resolver todos os crimes, que necessidade temos de detetives? Devíamos, isto sim, despedir todos os investigadores e contratar "sensitivos" para ocupar o lugar deles.

Eu só queria saber por que esses "psychics" não descobrem quem sequestrou o bebê de Livingstone, quem matou a "Princess Doe", quem foi "Jack O Estripador", e outros crimes sem solução da história. Mas já sei: é que a "energia de morte" já sumiu no espaço, o espírito já passou dessa para melhor e eles - os "psychics" - não têm como provar que estão certos.

Fazer o quê. Mas o que há de realmente insuportável nesse programa é a emoção dos sensitivos diante do fantasma do morto: "Ela está aqui agora, conosco, se despedindo de nós, agora que a justiça foi feita", e coisas do gênero.

O mais intrigante é a alegação de que há médiuns "qualificados" e falsos médiuns. O que "qualificaria" um médium? A estatística?

Seria patético, se não fosse trágico.

Monday, October 30, 2006

Pegadas no México

Foram encontradas 13 pegadas fossilizadas, de seres humanos, no norte do México. A estimativa é que sejam datadas de cerca de 10.000 a 15.000 anos atrás. Se esta datação for confirmada, estes serão os registros arqueológicos da presença de seres humanos mais antigos do continente. Cada pegada tem 27 cm de comprimento e 2 cm de profundidade, e estão espalhadas por cerca de 10 metros.

Wednesday, October 25, 2006

Impagável

Se você tem conhecimento de filosofia e lê em inglês, este site é impagável: "I can´t see clearly now" vira "I can´t think clearly now"; "Garota de Ipanema" vira uma brincadeira com Sócrates, "The Gadfly Athenaios"; "Take a walk at the wild side", de Lou Reed, vira "Make a talk on the Ryle side"; "My way" passa a ser "Paradoxes"; "Yesterday", dos Beatles, vira "Recherché"; "Kung-Fu Fighting" vira "Goldstein's Writing" e "Feelings", de Morris Albert, vira "Vegan".

Não deixe de ouvir.

Para ter uma idéia do que vai encontrar neste site, fiz uma tradução rápida e despretenciosa da versão de Garota de Ipanema:

Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e quando ele pergunta, todo mundo responde "hã?"

Apesar de mais parecer um sofista,
ele se preocupa com a verdade, ele se importa com a justiça,
mas quando faz perguntas, todo mundo responde "hã?"

Como posso conhecer os universais? Qual é a natureza da virtude?
A alma é imortal? É real o que você pensa que conhece?
Pergunte a Eutífron!

Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e no entanto são só perguntas...

"Hã?" "hã-hã?" "hã?" "Hã-hã-hã?" "Hã?"
"Hã-hã-hã?" "Hã?" "Hã-hã-hã?" Hã?"
"Hã-hã-hã-hhhhhããããããã, hããããã hã-hã-hã?"
só perguntas... perguntas...

Tuesday, October 24, 2006

E-books

Para quem se interessa por livros virtuais, o site ateus.net tem uma boa coleção. Veja o índice clicando no título.

Monday, October 23, 2006

Inútil fundamental

Ah, a filosofia!

Sempre tão fundamental, tão essencial, sempre "humanizadora", "humanizante" ou qualquer coisa do gênero, sempre tão necessária para que se possa pensar (sic!), ou pensar criticamente, ou radicalmente, ou qualquer coisa do gênero, sempre tão importante para não nos deixarmos levar por ideologias, fantasias, superstições, irracionalidade, erro, má-fé... e no entanto tão inútil para quem precisa se alimentar, vestir, trabalhar, se divertir, viver dignamente, ter o Vectra do ano, uma cobertura nos Jardins, uma casa na praia, viagens à Grécia, ao Egito, à Europa filosofante, ao mundo das idéias.

Tão imprescindível, claro, para que possamos enxergar paradoxos, contradições, contrasensos, ilogicidade.

Mas o maior paradoxo é ela própria hoje: tão fundamental, e tão inútil.

O mesmo se pode dizer dos filósofos.

Saturday, October 21, 2006

Cabeças redondas

Já ouviu falar dos "cabeças redondas"? Se não, vou apresentá-los a você. Eram aqueles sujeitos que, no parlamento inglês do século XVII, se recusavam a usar perucas. Por isso a cabeça redonda: não tinha aqueles volteios todos das perucas brancas, cheias de cachos.

Os cabeças redondas representavam a nobreza rural, puritana, desejosa de aumentar suas terras simplesmente estendendo as cercas para um pouquinho mais além, e que brigava no parlamento (sem peruca, lembre-se) para controlar o poder até então absoluto dos monarcas.

A propósito, Oliver Cromwell, líder da revolução puritana que depôs o rei Carlos I, também era um cabeça redonda. Quando a monarquia voltou ao trono na figura de Carlos II, nove anos depois, os puritanos fugiram para a América sem perucas. E fizeram o inferninho em Salém.

Tuesday, October 17, 2006

Delíros de Rousseau (6): Pobreza natural

Aproveitando ainda que estou falando de Rousseau, sempre divertidíssimo, lembrei que no início do Emílio Rousseau afirma que seu jovem educando deve ser rico. O pobre não precisa de educação porque, como está mais próximo da natureza, se educa sozinho. A sua educação já é perfeita, porque o filho do pobre é criado com o pé no chão, solto, etc. Então posso dizer: o rico, ao contrário, é criado preso em casas, quartos, escolas caras. Logo, o pobre, por estar mais próximo do chão, está mais próximo da natureza (terra) de dois modos fundamentais: mora em barraco (que é mais baixo que um prédio) e vive de pé no chão (portanto, está mais sujeito a vírus, bactérias, vermes e outras cositas más que a natureza tão generosamente partilha com o homem). Para usar as palavras de Rousseau, "o pobre pode tornar-se homem por si mesmo; só o rico precisa aprender a ser homem".

Não é por nada não, mas acho que Marx diz algo parecido. :-))))

Sunday, October 15, 2006

Delírios de Rousseau (5): Felicidade Caraíba

E já que estamos falando em Caraíbas, vamos ao Emílio, de Rousseau. Aqueles Caraíbas que são respeitados pelos animais selvagens (vide post anterior sobre o assunto), não sentem ciúme e amam docemente justamente porque não são civilizados, obviamente também são imensamente felizes. Ou pelo menos são "metade mais felizes do que nós" (Emilio I). Por que será? Rousseau explica, no mesmo parágrafo: tudo isso se deve ao fato de que as parteiras moldam a cabeça das crianças recém-nascidas e os filósofos moldam nossas cabeças já bem nascidas.

O que terá sua época pensado disso? Sinceramente, não sei. O que sei é que Rousseau é mais um filósofo a compactuar com as parteiras.

Friday, October 13, 2006

Delírios de Rousseau (4): Antídoto para o ciúme

Os séculos XVII e XVIII tiveram um interesse especial pelos nativos encontrados na América, a julgar pelo número de vezes que são citados nos textos de filosofia e pela menção ao estado de natureza. Dentre esses povos, os Caraíbas, da Venezuela, merecem destaque. Rousseau usa as observações dos naturalistas de sua época para afirmar, em algumas passagens do Segundo Discurso, que os Caraíbas são os que mais se aproximam do suposto Estado de Natureza. Isto é, são o povo menos civilizado do planeta. Por isso mesmo, diz Rousseau, são justamente o povo mais calmo nos seus amores e o menos sujeito ao ciúme (confira no Segundo Discurso).

Sendo assim, concluo eu, o ciúme está suficientemente bem explicado.

Tuesday, October 10, 2006

Envie seu presente para o futuro

Sabe aquela história de guardar uma mensagem numa garrafa e jogá-la ao mar? Pois é, agora você pode guardar seu passado e seu presente para o futuro. Faça assim: descreva uma semana de sua vida em detalhes: quanto pesa, o que faz, onde trabalha, quais são suas características físicas, quais são suas preferências, os filmes a que assistiu, os livros que leu, projetos para o futuro, etc. Depois vá ao site do Yahoo! e guarde suas anotações lá, para serem abertas no ano 2020. Se der sorte, seu presente ainda pode acabar no espaço, nas mãos de um ET. O Yahoo! pretende enviar tudo para o espaço, literalmente, no dia 8 de novembro.

Saturday, October 07, 2006

Rato, queijo e Chocolate Quente

Quer ver um rato dançando em frente a um queijo em uma ratoeira? Não? Que pena; é divertido.

Mudou de idéia? Clique no título. Ao menos a gente prestigia o esforço do criador da animação.

Thursday, October 05, 2006

Por que?

Ninguém pode negar que é algo inusitado a USP oferecer cursos de Latim e Grego, se levarmos em conta a crise por que estão passando as humanidades, mas estranho mesmo é que o curso de Latim tenha tido um aumento de 154% na procura, nos últimos cinco anos.

Certo, latim desenvolve o raciocínio lógico e aumenta a compreensão da língua nativa, mas em termos bem práticos, serve para ler Horácio no original, ensinar frases de efeito para advogados e... e é só.

Puxa. Por que há tão pouco interesse pela filosofia?

Sobretudo, o que nós, professores de filosofia, podemos fazer para começar a ensinar latim?

Wednesday, October 04, 2006

Criaturas Marinhas (2): Homem-peixe

Clique no título. Este homem-peixe provavelmente rendeu alguns trocados a seu criador. Ao menos é feio o bastante para parecer real.

Monday, October 02, 2006

Criaturas marinhas (1): Sereia

O tsunami de 2004 deixou algumas lembranças na praia. Clique no link e veja a sereia. Bom é que ela já veio assim, mumificada, e prontinha prá ser vendida no e-bay.