Em 1764 o filósofo Jean-Jacques Rousseau resolveu escrever suas Confissões e deixou amigos e inimigos em pânico, tentando impedir a publicação da obra. De alguém como Rousseau, podiam esperar todo tipo de indiscrição. Para piorar, atreveu-se a fazer leituras públicas das Confissões. Mas, embora houvesse de fato inúmeras indiscrições nos relatos de sua vida, o alvo principal de Rousseau era suas próprias mazelas. Mesmo assim, não dá para admirar sua coragem, ou sua franqueza, ou sua capacidade de avaliar a si mesmo, porque todo o relato é eivado de um certo encantamento consigo mesmo e uma capacidade infinita de distorcer os fatos em um auto-engano bastante conveniente.
Uma das piores histórias das Confissões, senão a pior, revela o caráter dúbio de Rousseau, condizente com a escola romântica, da qual é o primeiro representante, e com o cristianismo:
Rousseau vivia de expedientes. Um deles era o de viver o tempo que fosse possível sob a tutela de uma amante rica. Entre elas houve uma certa Madame de Vercellis. Enquanto vivia em sua casa, apaixonou-se por uma serviçal, Marion. Três meses depois Madame de Vercellis faleceu e Rousseau, novamente sem destino, surrupiou "uma fitazinha cor-de-rosa e prata já velha". Uma coisinha de nada, que a morta não haveria de querer, e que o ajudaria a sobreviver até encontrar outra madame.
Bem, os herdeiros deram por falta da fita e a encontraram com Rousseau. Confrontado com os fatos, não hesitou: acusou Marion do roubo; disse que ela lhe havia dado a fita. Ele conta: "[ao acusá-la, Marion] deitava-me um olhar que teria desarmado o demônio, e a que o meu bárbaro coração resiste".
Mas isso não é tudo. O pior na história toda é a desculpa que Rousseau dá a si mesmo por ter agido tão mal: "Nunca a maldade esteve tão longe de mim como naquele cruel momento, e quando acusei a infeliz rapariga, é singular, mas a verdade é que o fiz por amizade para com ela. Tinha-a presente no pensamento, e desculpei-me com o primeiro objeto que se me ofereceu".
Em outras palavras: Rousseau amava tanto a mocinha que, ao procurar a quem culpar, só vinha à mente o nome dela, porque não pensava em ninguém mais.
Friday, January 19, 2007
Wednesday, January 17, 2007
Amar é... (3): ...culpa de Eros!
Jasão - aquele, dos Argonautas -, em sua viagem em busca do velo de ouro que lhe garantiria a posse do trono que lhe era devido por direito, casa-se com uma feiticeira, Medéia, que leva para a Grécia, e tem com ela dois filhos. Quando torna-se possível casar com uma grega, filha de Creonte, rei de Tebas, Jasão não hesita: precisa se livrar da mulher. Segundo a peça de Eurípides, Medéia, Jasão quer que seus filhos sejam criados como príncipes, e não como filhos de uma estrangeira. Enfim. Jasão despreza Medéia e quer tomar-lhe os filhos. Quando ela se dá conta das intenções de Jasão, toma uma decisão digna, na concepção dos gregos, de bárbaros: mata os dois filhos para vingar-se do marido.
Quando Jasão vai buscar os filhos e descobre que estão mortos, tem uma discussão com a mulher, o melhor da peça.
Primeiro, eles se acusam mutuamente pela morte das crianças:
JASÃO: Ó meus filhos, que monstro encontrastes em vossa mãe!
MEDÉIA: Ó meus filhos, foi a perversidade de vosso pai que nos perdeu!
JASÃO: Ao menos, não foi meu braço que os imolou.
MEDÉIA: Foi teu ultraje.
JASÃO: O quê? Foi para vingar teu leito que te resolveste a matá-los? (...)
MEDÉIA: Sabem os deuses quem foi o primeiro autor deste desastre.
JASÃO: Sim, eles sabem todo o negror de tua alma.
Em seguida, discutem sobre quem realmente amava os filhos:
JASÃO: Ó meus filhos queridos!
MEDÉIA: Queridos por sua mãe, não por ti.
JASÃO: E no entanto os mataste!
MEDÉIA: Para te desesperar.
Depois, sobre o direito de enterrar as crianças:
JASÃO: Deixa-me enterrar meus filhos e chorá-los.
MEDÉIA: Certamente que não. Sou eu que os enterrarei com minhas mãos.
Por fim, Jasão quer se despedir dos filhos, e Medéia o impede:
JASÃO: Em nome dos deuses, deixa que eu toque o corpo encantador de meus filhos!
MEDÉIA: Não, tua súplica é inútil.
Mas o mais interessante é a desculpa de Jasão para ter-se envolvido com Medéia:
MEDÉIA: Ó mais celerado dos homens! (...) Eu te salvei a vida.
JASÃO: (...) Reconheça comigo - a explicação não é engenhosa, se bem que pouco apropriada para te agradar? - foi Eros que, ferindo-te com suas flechas invencíveis, te forçou a salvar-me.
Jasão quer se livrar da mulher, tomar-lhe os filhos e deixá-la desamparada, já que não pode voltar para sua terra, nem poderia ficar na Grécia.
Quando Medéia o acusa de ter uma dívida com ela, por tê-lo salvo a vida (às custas de matar o irmão e trair o pai) e por tê-lo ajudado a reaver seu direito ao trono de Iolco (ao matar o tio de Jasão), o marido lhe diz, nas entrelinhas, que não lhe deve nada, porque tudo que ela fez foi por amor a ele, Jasão, e que este amor nada mais era que uma travessura de Eros. Ela havia sido enfeitiçada pelo deus do amor. Logo, se alguém tem alguma culpa, esse alguém é Eros.
Eitcha! Quase acreditei na inocência de Jasão.
Quando Jasão vai buscar os filhos e descobre que estão mortos, tem uma discussão com a mulher, o melhor da peça.
Primeiro, eles se acusam mutuamente pela morte das crianças:
JASÃO: Ó meus filhos, que monstro encontrastes em vossa mãe!
MEDÉIA: Ó meus filhos, foi a perversidade de vosso pai que nos perdeu!
JASÃO: Ao menos, não foi meu braço que os imolou.
MEDÉIA: Foi teu ultraje.
JASÃO: O quê? Foi para vingar teu leito que te resolveste a matá-los? (...)
MEDÉIA: Sabem os deuses quem foi o primeiro autor deste desastre.
JASÃO: Sim, eles sabem todo o negror de tua alma.
Em seguida, discutem sobre quem realmente amava os filhos:
JASÃO: Ó meus filhos queridos!
MEDÉIA: Queridos por sua mãe, não por ti.
JASÃO: E no entanto os mataste!
MEDÉIA: Para te desesperar.
Depois, sobre o direito de enterrar as crianças:
JASÃO: Deixa-me enterrar meus filhos e chorá-los.
MEDÉIA: Certamente que não. Sou eu que os enterrarei com minhas mãos.
Por fim, Jasão quer se despedir dos filhos, e Medéia o impede:
JASÃO: Em nome dos deuses, deixa que eu toque o corpo encantador de meus filhos!
MEDÉIA: Não, tua súplica é inútil.
Mas o mais interessante é a desculpa de Jasão para ter-se envolvido com Medéia:
MEDÉIA: Ó mais celerado dos homens! (...) Eu te salvei a vida.
JASÃO: (...) Reconheça comigo - a explicação não é engenhosa, se bem que pouco apropriada para te agradar? - foi Eros que, ferindo-te com suas flechas invencíveis, te forçou a salvar-me.
Jasão quer se livrar da mulher, tomar-lhe os filhos e deixá-la desamparada, já que não pode voltar para sua terra, nem poderia ficar na Grécia.
Quando Medéia o acusa de ter uma dívida com ela, por tê-lo salvo a vida (às custas de matar o irmão e trair o pai) e por tê-lo ajudado a reaver seu direito ao trono de Iolco (ao matar o tio de Jasão), o marido lhe diz, nas entrelinhas, que não lhe deve nada, porque tudo que ela fez foi por amor a ele, Jasão, e que este amor nada mais era que uma travessura de Eros. Ela havia sido enfeitiçada pelo deus do amor. Logo, se alguém tem alguma culpa, esse alguém é Eros.
Eitcha! Quase acreditei na inocência de Jasão.
Tuesday, January 16, 2007
Pois é, prá quê
Se há uma coisa aí que realmente me encanta na língua portuguesa, especialmente a falada, é a total flexibilidade do aí.
Ninguém ignora aí que o aí é usado no início da frase (p. ex, aí eu disse...), no meio (p. ex., o que se pode dizer aí sobre o uso indiscriminado...) e no final (isso é tudo que se pode dizer aí). Uma espécie de próclise, ênclise e mesóclise frasal. Não é lindo?
É bom lembrar que a filosofia também gosta de um aí: ser-aí; aí-presente etc.
Mas, apesar de encantada, não posso me furtar de dizer aí que não tem sentido aí esse aí aí. É que o aí está mal empregado aí. Não é o caso aí de se usar um advérbio de lugar aí porque não há lugar algum aí. Ou há e eu é que vi?
Em todo caso, será que não dá prá parar aí de usar o aí?
Ninguém ignora aí que o aí é usado no início da frase (p. ex, aí eu disse...), no meio (p. ex., o que se pode dizer aí sobre o uso indiscriminado...) e no final (isso é tudo que se pode dizer aí). Uma espécie de próclise, ênclise e mesóclise frasal. Não é lindo?
É bom lembrar que a filosofia também gosta de um aí: ser-aí; aí-presente etc.
Mas, apesar de encantada, não posso me furtar de dizer aí que não tem sentido aí esse aí aí. É que o aí está mal empregado aí. Não é o caso aí de se usar um advérbio de lugar aí porque não há lugar algum aí. Ou há e eu é que vi?
Em todo caso, será que não dá prá parar aí de usar o aí?
Monday, January 15, 2007
Injustiça literária
Shylock era um judeu que, na peça de Shakespeare O Mercador de Veneza, vivia em um gueto nos arredores da cidade. Para sobreviver, emprestava dinheiro a juros, e juros altos. Um bom cristão, dono de navios que faziam rotas comerciais, pede-lhe dinheiro emprestado para ajudar um amigo, que quer se casar. Shylock tem ódio do bom cristão, por razões que não vem ao caso, e resolve pedir-lhe em pagamento, caso não tenha dinheiro para pagar a dívida, uma libra de carne, de qualquer parte do corpo que o agiota escolher. O bom cristão assina o acordo, confiando que terá dinheiro para pagar a dívida. No entanto, seus navios naufragam e ele não tem como pagar. O judeu exige-lhe uma libra de carne do coração.
O que me interessa aqui é o julgamento. O amigo consegue o dinheiro para pagar a dívida em dobro, mas o judeu não aceita receber; quer o coração. O juiz, que na verdade era a esposa do amigo do bom cristão (coisa estranha, mas deixa prá lá) dá ganho de causa ao judeu e o autoriza a tirar o pedaço de carne do coração do devedor.
Antes que ele o faça, o juiz diz que o contrato autoriza o judeu a retirar a carne do devedor, mas que não deve derramar uma gota de sangue. O judeu desiste da vingança, e diz que vai ficar com o dinheiro. O juiz nega-lhe o direito de ser pago e, pior, tira-lhe todos os bens e o dá ao devedor.
Todos comemoram a conclusão do assunto e elogiam a sabedoria do juiz.
Fiquei sem entender. A dívida existia de fato, e não havia sido paga. Mas, pior do que não receber, o judeu perde tudo o que tem para o devedor.
É uma obra literária, eu sei, mas é péssima. No fim das contas, a usura é pecado, coisa que um judeu não sabe, nem pode saber. Afinal, não é cristão. O judeu teve o que merecia, né?
O que me interessa aqui é o julgamento. O amigo consegue o dinheiro para pagar a dívida em dobro, mas o judeu não aceita receber; quer o coração. O juiz, que na verdade era a esposa do amigo do bom cristão (coisa estranha, mas deixa prá lá) dá ganho de causa ao judeu e o autoriza a tirar o pedaço de carne do coração do devedor.
Antes que ele o faça, o juiz diz que o contrato autoriza o judeu a retirar a carne do devedor, mas que não deve derramar uma gota de sangue. O judeu desiste da vingança, e diz que vai ficar com o dinheiro. O juiz nega-lhe o direito de ser pago e, pior, tira-lhe todos os bens e o dá ao devedor.
Todos comemoram a conclusão do assunto e elogiam a sabedoria do juiz.
Fiquei sem entender. A dívida existia de fato, e não havia sido paga. Mas, pior do que não receber, o judeu perde tudo o que tem para o devedor.
É uma obra literária, eu sei, mas é péssima. No fim das contas, a usura é pecado, coisa que um judeu não sabe, nem pode saber. Afinal, não é cristão. O judeu teve o que merecia, né?
Sunday, January 14, 2007
Em que pensa Deus?
Antes de responder a esta pergunta, é necessário perguntar primeiramente se Deus pensa.
Sim, ele pensa porque é puro pensamento.
Sendo assim, em que pensaria?
Ora, nele mesmo! Em que mais poderia pensar?
Bem, ao menos sabemos que é isto o que pensava Aristóteles (Metafísica 1074b).
Se Deus pensasse em outra coisa que não ele mesmo, haveria o pensamento e o conteúdo do pensamento. Sendo assim, o conteúdo do pensamento seria mais importante que o próprio pensamento. Ora, Deus é puro pensar. Assim, o conteúdo do pensamento de Deus seria mais importante que o próprio pensar - Deus. Isto é absurdo. Logo, como Deus pensa, só pode pensar em si mesmo, ou seja, pensar o pensar.
Pronto! Problema resolvido.
Ninguém precisa pensar mais nisso.
Sim, ele pensa porque é puro pensamento.
Sendo assim, em que pensaria?
Ora, nele mesmo! Em que mais poderia pensar?
Bem, ao menos sabemos que é isto o que pensava Aristóteles (Metafísica 1074b).
Se Deus pensasse em outra coisa que não ele mesmo, haveria o pensamento e o conteúdo do pensamento. Sendo assim, o conteúdo do pensamento seria mais importante que o próprio pensamento. Ora, Deus é puro pensar. Assim, o conteúdo do pensamento de Deus seria mais importante que o próprio pensar - Deus. Isto é absurdo. Logo, como Deus pensa, só pode pensar em si mesmo, ou seja, pensar o pensar.
Pronto! Problema resolvido.
Ninguém precisa pensar mais nisso.
Saturday, January 13, 2007
Didática magna
O primeiro professor da história da humanidade, até onde se sabe, foi o sofista Protágoras de Abdera. Antes dele, a educação estava a cargo de um escravo, o pedagogo, e limitava-se à música, ginástica, aritmética e rudimentos de leitura e escrita. Ainda não havia o estudo da gramática, também uma inovação de Protágoras, e o estudo teórico.
As aulas de Protágoras tinham como objetivo principal a arte de falar em público. Para treinar o aluno, um aristocrata que futuramente participaria das decisões políticas da polis, forjava-se um caso jurídico e o aluno, para concluir os estudos, deveria ser capaz de vencer o professor na disputa verbal.
Um certo aluno, Êuatlos, estava concluindo os estudos e ainda não havia pago os honorários do professor. Protágoras resolveu cobrar a dívida.
"Mas não venci a causa!", respondeu Êuatlos.
Protágoras retrucou:
"Devo receber em qualquer hipótese; se te venci, devo receber porque venci; e, se venceste, devo receber porque venceste".
O aluno respondeu:
"Não devo pagar em nenhum caso. Se perdi a causa, não devo pagar porque perdi; se venci, igualmente não devo pagar porque venci".
Parece que Protágoras não recebeu.
As aulas de Protágoras tinham como objetivo principal a arte de falar em público. Para treinar o aluno, um aristocrata que futuramente participaria das decisões políticas da polis, forjava-se um caso jurídico e o aluno, para concluir os estudos, deveria ser capaz de vencer o professor na disputa verbal.
Um certo aluno, Êuatlos, estava concluindo os estudos e ainda não havia pago os honorários do professor. Protágoras resolveu cobrar a dívida.
"Mas não venci a causa!", respondeu Êuatlos.
Protágoras retrucou:
"Devo receber em qualquer hipótese; se te venci, devo receber porque venci; e, se venceste, devo receber porque venceste".
O aluno respondeu:
"Não devo pagar em nenhum caso. Se perdi a causa, não devo pagar porque perdi; se venci, igualmente não devo pagar porque venci".
Parece que Protágoras não recebeu.
Friday, January 12, 2007
Atmosfera 4
Era de manhãzinha. Tudo estava pronto para a partida em casa de Abraão. Despediu-se de Sara, e Eliezer, o fiel servidor, seguiu-o pelo atalho até o momento em que Abraão lhe ordenou o regresso. Depois, em completa concordância, Abraão e Isaac caminharam juntos até a montanha de Morija. Cheio de paz e doçura, Abraão fez os preparativos do sacrifício, mas, quando se voltou para puxar da faca, viu Isaac que a mão esquerda do pai se crispava de desespero, que um arrepio lhe sacudia o corpo e contudo Abraão puxou da faca.
Regressaram então à casa. Sara precipitou-se ao encontro de ambos. Isaac, porém, já não tinha fé. Nunca de tal coisa se falou no mundo, nem Isaac disse a alguém aquilo que presenciara, nem Abraão suspeitou de que alguém o vira.
Quando chega o tempo do desmame, recorre a mãe à alimentação mais forte para evitar a morte do filho. Feliz aquele que dispõe de alimento forte!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Regressaram então à casa. Sara precipitou-se ao encontro de ambos. Isaac, porém, já não tinha fé. Nunca de tal coisa se falou no mundo, nem Isaac disse a alguém aquilo que presenciara, nem Abraão suspeitou de que alguém o vira.
Quando chega o tempo do desmame, recorre a mãe à alimentação mais forte para evitar a morte do filho. Feliz aquele que dispõe de alimento forte!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Atmosfera 3
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, deu um beijo a Sara, e Sara deu um beijo a Isaac, suas delícias, sua eterna alegria. E Abraão, montado no burro, seguiu pensativo. Meditava em Agar e no filho que abandonara no deserto. Subiu a montanha de Morija e puxou da faca.
A tarde estava tranqüila quando Abraão se achou sozinho em Morija. Jogou-se na terra e pediu perdão a Deus pelo seu pecado, perdão por ter querido sacrificar Isaac, perdão por ter esquecido o dever paternal para com o filho. Tomou, de novo, com mais freqüência o solitário caminho da montanha, mas não encontrou repouso. Não podia conceber que pecara por ter querido sacrificar o seu mais precioso bem, por quem teria oferecido a vida mais de uma vez; e, se pecara, se nunca amara Isaac a tal ponto, não podia compreender como merecer o perdão de Deus — haverá, com efeito, mais horrível pecado do que o seu?
Quando chega o tempo do desmame, a mãe fica triste pensando que ela e o filho se irão separar; que o menino, a princípio sob o seu coração e depois embalado no seio, nunca mais se encontrará tão perto dela. E juntos sofrerão esta curta pena. Feliz aquele que conservou o filho tão perto do seu coração e não teve outro motivo de desgosto!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
A tarde estava tranqüila quando Abraão se achou sozinho em Morija. Jogou-se na terra e pediu perdão a Deus pelo seu pecado, perdão por ter querido sacrificar Isaac, perdão por ter esquecido o dever paternal para com o filho. Tomou, de novo, com mais freqüência o solitário caminho da montanha, mas não encontrou repouso. Não podia conceber que pecara por ter querido sacrificar o seu mais precioso bem, por quem teria oferecido a vida mais de uma vez; e, se pecara, se nunca amara Isaac a tal ponto, não podia compreender como merecer o perdão de Deus — haverá, com efeito, mais horrível pecado do que o seu?
Quando chega o tempo do desmame, a mãe fica triste pensando que ela e o filho se irão separar; que o menino, a princípio sob o seu coração e depois embalado no seio, nunca mais se encontrará tão perto dela. E juntos sofrerão esta curta pena. Feliz aquele que conservou o filho tão perto do seu coração e não teve outro motivo de desgosto!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Thursday, January 11, 2007
Atmosfera 2
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, abraçou Sara, companheira da sua velhice, e Sara deu um beijo a Isaac, que a havia preservado do escárnio e era seu orgulho e esperança para toda a posteridade. Caminharam em silêncio. Abraão conservou o olhar obstinadamente fixo no solo até o quarto dia. Só então levantou os olhos e vendo no horizonte a montanha de Morija, baixou-os de novo. Em silêncio preparou o holocausto e ligou Isaac; em silêncio puxou da faca; então viu o carneiro que Deus provera. Sacrificou-o e regressou... A partir desse dia Abraão envelheceu; não pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira. Isaac foi crescendo, mas os olhos de Abraão haviam perdido o brilho; nunca mais tornou a ver a alegria.
Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mãe. Feliz o filho que não perdeu a mãe de outro modo!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mãe. Feliz o filho que não perdeu a mãe de outro modo!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Wednesday, January 10, 2007
Atmosfera 1
E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas que te indicarei.
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, albardou os burros, deixou a sua casa com Isaac, enquanto da janela Sara os via descer pelo vale até se perderem de vista. Caminharam em silêncio durante três dias. Na manhã do quarto dia, Abraão continuou sem dizer palavra, mas, erguendo o olhar, viu ao longe os montes de Morija. Despediu então os servidores e, tomando Isaac pela mão, trepou pela montanha. E Abraão dizia para si: Não posso mais ocultar-lhe aonde conduz este andar. Deteve-se, pousou a mão sobre a cabeça do filho para o abençoar e Isaac inclinou-se para receber a bênção. O rosto de Abraão era o de um bom pai: o olhar doce e a voz exortavam. Mas Isaac não podia compreendê-lo; a sua alma não lograva elevar-se tão alto; abraçou os joelhos de Abraão, jogou-se-lhe aos pés, pediu-lhe piedade, implorou pela sua juventude e pelas mais doces esperanças, falou das alegrias da casa paterna, evocou a tristeza e a solidão. Então Abraão levantou-o, pegou-lhe na mão e caminhou e a sua voz exortava e consolava. Mas Isaac não podia compreendê-lo. Abraão subiu a montanha de Morija; Isaac não o compreendia. Foi então que, tendo-se afastado um pouco do filho, Isaac lhe tornou a ver o rosto, desta vez alterado, o olhar feroz, as feições aterradoras. Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o por terra e disse-lhe: Estúpido! Supões que sou teu pai? Sou um idólatra! Crês que obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece! Então Isaac fremente e com grande angústia, gritou: Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra!
Mas Abraão ciciava: Deus do Céu, dou-te graças. Vale mais que me julgue um monstro do que perca a fé em ti.
Quando chega o tempo do desmame, a mãe enegrece o seio, porque manter o seu atrativo será prejudicial ao filho que o deve abandonar. Assim ele acredita que a mãe mudou, embora o coração dela continue firme e o olhar conserve a mesma ternura e amor. Feliz aquele que não tenha de recorrer a meios ainda mais terríveis para desmamar o seu filho!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, albardou os burros, deixou a sua casa com Isaac, enquanto da janela Sara os via descer pelo vale até se perderem de vista. Caminharam em silêncio durante três dias. Na manhã do quarto dia, Abraão continuou sem dizer palavra, mas, erguendo o olhar, viu ao longe os montes de Morija. Despediu então os servidores e, tomando Isaac pela mão, trepou pela montanha. E Abraão dizia para si: Não posso mais ocultar-lhe aonde conduz este andar. Deteve-se, pousou a mão sobre a cabeça do filho para o abençoar e Isaac inclinou-se para receber a bênção. O rosto de Abraão era o de um bom pai: o olhar doce e a voz exortavam. Mas Isaac não podia compreendê-lo; a sua alma não lograva elevar-se tão alto; abraçou os joelhos de Abraão, jogou-se-lhe aos pés, pediu-lhe piedade, implorou pela sua juventude e pelas mais doces esperanças, falou das alegrias da casa paterna, evocou a tristeza e a solidão. Então Abraão levantou-o, pegou-lhe na mão e caminhou e a sua voz exortava e consolava. Mas Isaac não podia compreendê-lo. Abraão subiu a montanha de Morija; Isaac não o compreendia. Foi então que, tendo-se afastado um pouco do filho, Isaac lhe tornou a ver o rosto, desta vez alterado, o olhar feroz, as feições aterradoras. Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o por terra e disse-lhe: Estúpido! Supões que sou teu pai? Sou um idólatra! Crês que obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece! Então Isaac fremente e com grande angústia, gritou: Deus do Céu? Tem piedade de mim! Deus de Abraão, tem piedade de mim, sê meu pai, porque já não tenho outro na Terra!
Mas Abraão ciciava: Deus do Céu, dou-te graças. Vale mais que me julgue um monstro do que perca a fé em ti.
Quando chega o tempo do desmame, a mãe enegrece o seio, porque manter o seu atrativo será prejudicial ao filho que o deve abandonar. Assim ele acredita que a mãe mudou, embora o coração dela continue firme e o olhar conserve a mesma ternura e amor. Feliz aquele que não tenha de recorrer a meios ainda mais terríveis para desmamar o seu filho!
Johannes de Silentio, vulgo Kierkegaard. Temor e Tremor.
Tuesday, January 09, 2007
A caixa chinesa de Kierkegaard
Um certo indivíduo, que se intitulou Johannes o Sedutor, escreveu um diário contando como seduzira uma jovem ingênua, e o abandonou em uma gaveta. Um outro indivíduo, ou talvez o mesmo, escreveu outros seis livros menores, juntou todos eles, inclusive o Diário do Sedutor, e esqueceu todos os textos em uma gaveta. Um juiz, Guilherme, vasculhando as gavetas, encontrou o material e o leu. Incomodado com o que havia lido, e julgando que todos os escritos pertenciam ao tal Johannes o Sedutor, decidiu que tinha lhe dar uma resposta à altura. Como a premissa fundamental do Sedutor baseava-se na idéia de que a vida ética é entediante e que deve-se buscar a variedade para fugir da monotonia, o Juiz Guilherme lançou-se à tarefa de tentar mostrar ao Sedutor que a vida estética não é outra coisa senão desespero, e que o casamento não é necessariamente tédio. Escreveu três livros, entre eles O Matrimônio, mas, como não tinha meios de enviá-los ao esteta, deixou-os, juntamente com um sermão de um certo sacerdote, na mesma gaveta, para que o Sedutor o encontrasse, quando voltasse para buscar seus papéis.
Isto não aconteceu; o autor anônimo nunca retornou, e os volumes, agora onze ao todo, ficaram esquecidos na gaveta. Então, em um belo dia um encadernador, Bogbinder, encontrou os manuscritos e os reuniu em um único volume. Um editor, Victor Eremita, encontrou os volumes já encadernados, com uma nota explicativa do Sr. Bogbinder. Victor Eremita estudou as caligrafias e concluiu que só havia dois autores: os primeiros sete manuscritos haviam sido escritos pelo tal Johannes o Sedutor - que chamou de A - e os quatro últimos, pelo Juiz Guilherme - que chamou de B. Então, editou a obra, explicando como fora parar em sua mão, mas deixando claro, ao final, que, se os manuscritos podiam ser uma farsa, a sua edição também poderia ser. Portanto, os leitores não podiam ter certeza nem da autoria, nem da história que ele contava, nem do que ele próprio afirmava sobre a edição dos manuscritos, ou mesmo de que fosse realmente o editor, apesar de assinar.
Este é o enredo da obra "Ou ou", de Kierkegaard (ou melhor, de um tal Victor Eremita) e marca sua estréia como filósofo. A obra é extensa e magistral, sobretudo os escritos estéticos. Há um longo ensaio sobre o Don Giovanni, de Mozart; um ensaio sobre o tédio a partir da existência, não sei se real, de uma sepultura em Londres dedicada a um "anônimo"; o Diário do Sedutor, e outras mais.
A obra tomou Copenhague de assalto; especulou-se à exaustão sobre a autoria. Kierkegaard estava na lista dos suspeitos e, para negar que fosse o autor, escreveu um artigo para jornal intitulado "Quem teria escrito Ou, Ou?", em que levantava hipóteses sobre os literatos de Copenhague: "Teria sido fulano?" "Não, fulano não poderia ser por esta e esta razão" etc.
Deve ter-se divertido bastante com a panacéia. A oportunidade era perfeita para ironizar a "elite intelectual" de sua cidade, e ele não deixou por menos.
Isto não aconteceu; o autor anônimo nunca retornou, e os volumes, agora onze ao todo, ficaram esquecidos na gaveta. Então, em um belo dia um encadernador, Bogbinder, encontrou os manuscritos e os reuniu em um único volume. Um editor, Victor Eremita, encontrou os volumes já encadernados, com uma nota explicativa do Sr. Bogbinder. Victor Eremita estudou as caligrafias e concluiu que só havia dois autores: os primeiros sete manuscritos haviam sido escritos pelo tal Johannes o Sedutor - que chamou de A - e os quatro últimos, pelo Juiz Guilherme - que chamou de B. Então, editou a obra, explicando como fora parar em sua mão, mas deixando claro, ao final, que, se os manuscritos podiam ser uma farsa, a sua edição também poderia ser. Portanto, os leitores não podiam ter certeza nem da autoria, nem da história que ele contava, nem do que ele próprio afirmava sobre a edição dos manuscritos, ou mesmo de que fosse realmente o editor, apesar de assinar.
Este é o enredo da obra "Ou ou", de Kierkegaard (ou melhor, de um tal Victor Eremita) e marca sua estréia como filósofo. A obra é extensa e magistral, sobretudo os escritos estéticos. Há um longo ensaio sobre o Don Giovanni, de Mozart; um ensaio sobre o tédio a partir da existência, não sei se real, de uma sepultura em Londres dedicada a um "anônimo"; o Diário do Sedutor, e outras mais.
A obra tomou Copenhague de assalto; especulou-se à exaustão sobre a autoria. Kierkegaard estava na lista dos suspeitos e, para negar que fosse o autor, escreveu um artigo para jornal intitulado "Quem teria escrito Ou, Ou?", em que levantava hipóteses sobre os literatos de Copenhague: "Teria sido fulano?" "Não, fulano não poderia ser por esta e esta razão" etc.
Deve ter-se divertido bastante com a panacéia. A oportunidade era perfeita para ironizar a "elite intelectual" de sua cidade, e ele não deixou por menos.
Monday, January 08, 2007
Filosofia revelada
Havia, na Copenhague da primeira metade do século XIX, um certo Johan Ludvig Heiberg (1791-1860), escritor, historiador, teatrólogo e crítico de arte de grande expressão local. Era filho de escritores e casou-se com uma atriz. Inicialmente o filósofo Kierkegaard mantinha boas relações com ele, até o momento em que publicou sob pseudônimo o livro "Ou, ou" e a comunidade local julgou que Heiberg fosse o autor. Heiberg, para negar com veemência a autoria, disse que jamais escreveria "um livro monstruoso como aquele". Quando Kierkegaard publicou "A Repetição", novamente sob pseudônimo, Heiberg outra vez deixou claro que não era o autor e que o livro não tinha qualquer valor. Mas a briga se tornou mais acirrada quando, em um belo dia, Heiberg "acordou hegeliano".
A julgar por Kierkegaard, Heiberg, em uma bela manhã de Páscoa de 1822, "levantou-se para compreender a filosofia de Hegel". Tivera, em sonhos, a revelação da filosofia hegeliana. A partir de então tornou-se seu grande apóstolo.
Apesar da ironia, parece que Heiberg realmente alegou ter tido a comprensão de Hegel como se fosse uma revelação.
Mais tarde, a esposa de Heiberg representou Julieta, aos quarenta anos, na peça de Shakespeare, e Kierkegaard não deixou por menos: publicou um artigo sobre a peça, intitulado "A Crise e a Crise na vida de uma atriz" (1848), em que afirmava que somente na maturidade a atriz poderia de fato representar Julieta, porque a lembrança de sua juventude não estava disponível nas performances... da juventude.
Trocando em miúdos: a sra. Heiberg está velha para o papel de uma jovenzinha de 15 anos, mas isso não é problema porque podemos nos lembrar dela quando jovem, ou imaginar como teria sido, o que seria impossível quando ela era jovem.
A julgar por Kierkegaard, Heiberg, em uma bela manhã de Páscoa de 1822, "levantou-se para compreender a filosofia de Hegel". Tivera, em sonhos, a revelação da filosofia hegeliana. A partir de então tornou-se seu grande apóstolo.
Apesar da ironia, parece que Heiberg realmente alegou ter tido a comprensão de Hegel como se fosse uma revelação.
Mais tarde, a esposa de Heiberg representou Julieta, aos quarenta anos, na peça de Shakespeare, e Kierkegaard não deixou por menos: publicou um artigo sobre a peça, intitulado "A Crise e a Crise na vida de uma atriz" (1848), em que afirmava que somente na maturidade a atriz poderia de fato representar Julieta, porque a lembrança de sua juventude não estava disponível nas performances... da juventude.
Trocando em miúdos: a sra. Heiberg está velha para o papel de uma jovenzinha de 15 anos, mas isso não é problema porque podemos nos lembrar dela quando jovem, ou imaginar como teria sido, o que seria impossível quando ela era jovem.
Sunday, January 07, 2007
A utilidade dos camelos, segundo Kant
Poderíamos perguntar o que seria dos beduínos sem o camelo, mas parece que o filósofo alemão Immanuel Kant se pergunta o que seria dos desertos sem o camelo.
Como é perfeita a natureza! Inventou o deserto, mas logo tratou de criar o camelo para viver nele, caso contrário não haveria utilidade nem para um, nem para outro. Utilidade para os homens, bem entendido, porque a natureza está aí apenas para servir aos nossos propósitos. Caso contrário, por que existiria, né?
Que coisa. Até tu, meu rei?
"É também digno de admiração que os desertos de areia contem ainda com o camelo, que parece ter sido criado para a sua travessia, para os não deixar inutilizados". (Kant, A Paz Perpétua, p.143).
Como é perfeita a natureza! Inventou o deserto, mas logo tratou de criar o camelo para viver nele, caso contrário não haveria utilidade nem para um, nem para outro. Utilidade para os homens, bem entendido, porque a natureza está aí apenas para servir aos nossos propósitos. Caso contrário, por que existiria, né?
Que coisa. Até tu, meu rei?
"É também digno de admiração que os desertos de areia contem ainda com o camelo, que parece ter sido criado para a sua travessia, para os não deixar inutilizados". (Kant, A Paz Perpétua, p.143).
Saturday, January 06, 2007
Bando de filósofos
"Não é de esperar nem também de desejar que os reis filosofem ou que os filósofos se tornem reis, porque a posse do poder prejudica inevitavelmente o livre juízo da razão. É imprescindível, porém, para ambos que os reis ou os povos soberanos (que se governam a si mesmos segundo as leis de igualdade) não deixem desaparecer ou emudecer a classe dos filósofos, mas os deixem falar publicamente para a elucidação dos seus assuntos, pois a classe dos filósofos, incapaz de formar bandos e alianças de clube pela sua própria natureza, não é suspeita da deformação de uma propaganda" (Immanuel Kant, A Paz Perpétua, Edições 70, p. 150).
Hmmm. Em teoria, talvez, mas no dia-a-dia não sei não. A classe dos filósofos - ao menos os filósofos acadêmicos - é capaz, sim, de formar bandos e alianças de clube, embora seja verdade também que o individualismo próprio do ofício torna frágeis essas alianças. Mas, é claro, a filosofia, por sua própria natureza, não convive bem com o poder, porque não pode, por força de negar a si mesma, sobrepor o poder ao saber.
Hmmm. Em teoria, talvez, mas no dia-a-dia não sei não. A classe dos filósofos - ao menos os filósofos acadêmicos - é capaz, sim, de formar bandos e alianças de clube, embora seja verdade também que o individualismo próprio do ofício torna frágeis essas alianças. Mas, é claro, a filosofia, por sua própria natureza, não convive bem com o poder, porque não pode, por força de negar a si mesma, sobrepor o poder ao saber.
Friday, January 05, 2007
De Kant, sobre Lula
Posso pensar, sem dúvida, um político moral, isto é, um homem que assume os princípios da prudência política de um modo tal que possam coexistir com a moral, mas não posso pensar um moralista político, que forja uma moral útil às conveniências do homem de Estado.
Immanuel Kant, A Paz Perpétua, Edições 70, p. 153.
Immanuel Kant, A Paz Perpétua, Edições 70, p. 153.
Estatística estranha
A julgar pelo levantamento feito, a Suécia é o país com maior número de ateus e agnósticos do planeta: entre 46 e 85% da população. Isso não é novidade. A surpresa é o segundo colocado, o Vietnã, com 81%. Nos Estados Unidos, há entre 3 e 9% de ateus. Menos que na China, que tem cerca de 14%.
O Brasil nem chega a ser incluído na estatística.
O Brasil nem chega a ser incluído na estatística.
Thursday, January 04, 2007
Nem tudo está perdido
Que a filosofia não tenha espaço no mercado de trabalho, é coisa sabida. Que os cursos de filosofia remanescentes, os poucos de universidades católicas, estão fechando as portas, também não é novidade. Quem é da área e leciona em uma universidade dedicou-se aos estudos anos a fio, em muitos casos doutorando-se, mas a situação em que se encontra hoje, em termos profissionais, é péssima. De um lado, aulas esparsas em faculdades particulares, sob a ameaça eterna de desemprego. De outro, universidades públicas de difícil acesso, com poucos concursos e grande demanda. Em meio a isso tudo, políticas educacionais que reduzem as grades curriculares a conteúdos mínimos, voltados para o mercado de trabalho, e que praticamente excluem a filosofia.
Mas, ao que parece, surgiu uma alternativa: empresas americanas estão começando a contratar filósofos como consultores, com o propósito de humanizar as relações de trabalho e atuar em planejamento.
Por enquanto é só uma tendência que, espero, o Brasil copie. Mas acho que vamos ter de esperar muito para ver isso acontecer, se acontecer.
Mas, ao que parece, surgiu uma alternativa: empresas americanas estão começando a contratar filósofos como consultores, com o propósito de humanizar as relações de trabalho e atuar em planejamento.
Por enquanto é só uma tendência que, espero, o Brasil copie. Mas acho que vamos ter de esperar muito para ver isso acontecer, se acontecer.
Wednesday, January 03, 2007
DNA de Cristo
Enfim, tudo resolvido: os cientistas já podem ter o DNA de Cristo. Isso é fantástico, porque a ciência detém hoje o lugar de estatuto da verdade. Provada cientificamente a existência histórica de Jesus, o resto fica fácil.
Mas onde está o DNA de Cristo?
Ora, no corpo dele!
Eu explico.
Cristo reencarnou em 1948, em uma aldeia no interior de Santa Catarina, e o melhor da história é que ele ainda vive. Por que você não aproveita para garantir a aposentadoria? Basta seguir o homem, esperar um momento de distração e puxar um fio da barba. Pronto, já tem o DNA. Imagine o quanto pode valer, quando ele tiver passado desta para melhor.
É verdade que, para Cristo reencarnar em INRI Cristo, o corpo terá de ser outro. Portanto, o DNA é outro. Mas isso não é problema, porque afinal de contas ele continua sendo Cristo. Lembre-se do que diz o próprio INRI Cristo, citando Nelson Rodrigues: "o óbvio ululante não carece de prova".
Acho que devíamos fazer um esforço para levar Cristo a sério desta vez; só assim ele pára com essa história de reencarnar. Se parar, seu fio de barba valerá uma pequena fortuna.
Pena que nesta reencarnação não guardaram o cordão umbilical.
.....................
Cá entre nós: gaste um pouquinho de seu tempo para visitar a página linkada no título, ouvir o Messias e ler um pouco de sua história. Funciona como vacina contra febre amarela.
Mas onde está o DNA de Cristo?
Ora, no corpo dele!
Eu explico.
Cristo reencarnou em 1948, em uma aldeia no interior de Santa Catarina, e o melhor da história é que ele ainda vive. Por que você não aproveita para garantir a aposentadoria? Basta seguir o homem, esperar um momento de distração e puxar um fio da barba. Pronto, já tem o DNA. Imagine o quanto pode valer, quando ele tiver passado desta para melhor.
É verdade que, para Cristo reencarnar em INRI Cristo, o corpo terá de ser outro. Portanto, o DNA é outro. Mas isso não é problema, porque afinal de contas ele continua sendo Cristo. Lembre-se do que diz o próprio INRI Cristo, citando Nelson Rodrigues: "o óbvio ululante não carece de prova".
Acho que devíamos fazer um esforço para levar Cristo a sério desta vez; só assim ele pára com essa história de reencarnar. Se parar, seu fio de barba valerá uma pequena fortuna.
Pena que nesta reencarnação não guardaram o cordão umbilical.
.....................
Cá entre nós: gaste um pouquinho de seu tempo para visitar a página linkada no título, ouvir o Messias e ler um pouco de sua história. Funciona como vacina contra febre amarela.
Tuesday, January 02, 2007
A importância histórica de um nariz
Sabe aqueles eventos únicos, capazes de mudar o destino do mundo, de alterar o curso do planeta, de interferir nas marés, de modificar tudo à sua volta? Pois é, parece que Pascal (Pensamentos, 162) julgava ser este o caso do nariz de Cleópatra:
"Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado".
Um tantinho exagerado, não? Mas talvez ele esteja querendo dizer que, se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, Otávio também teria se apaixonado por ela. Ou talvez nem Júlio César, nem Marco Antônio. Vá saber. Em qualquer destes casos a história da humanidade seria outra.
Lembrei de Obelix (aquele que caiu na poção mágica de Panoramix quando criança), pendurado no nariz da Esfinge (acho que era a Esfinge): se Cleópatra não tem mais nariz, e o mundo é o que é, a culpa é dele.
"Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado".
Um tantinho exagerado, não? Mas talvez ele esteja querendo dizer que, se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, Otávio também teria se apaixonado por ela. Ou talvez nem Júlio César, nem Marco Antônio. Vá saber. Em qualquer destes casos a história da humanidade seria outra.
Lembrei de Obelix (aquele que caiu na poção mágica de Panoramix quando criança), pendurado no nariz da Esfinge (acho que era a Esfinge): se Cleópatra não tem mais nariz, e o mundo é o que é, a culpa é dele.
Saturday, December 30, 2006
As vinhas da ira
Aproveitando que hoje estou para a literatura, lembrei da passagem que julgo mais desconcertante de uma obra literária. Ao menos, das que li. É de John Steinbeck, e encontra-se ao final de As Vinhas da Ira.
A história gira em torno de uma família miserável e sua luta pela sobrevivência. O episódio do laço de fita da filha adolescente também é perturbador, mas a imagem mais forte da obra, em minha opinião, é o momento final, em que a família encontra-se mais miserável que antes, em meio a outros miseráveis. Entre eles, há um homem adulto literalmente morrendo de fome. A mãe, que havia dado à luz recentemente, compadece-se do homem e oferece o seio, para que ele mame como um bebê.
Não tenho certeza, mas acho que essa passagem me perturbou porque descreve uma miséria tão absoluta que leva um homem adulto a se alimentar do leite de uma mulher. Há algo de sórdido nessa situação, não no ato em si, mas na necessidade dele.
De todo modo, é desconcertante.
A história gira em torno de uma família miserável e sua luta pela sobrevivência. O episódio do laço de fita da filha adolescente também é perturbador, mas a imagem mais forte da obra, em minha opinião, é o momento final, em que a família encontra-se mais miserável que antes, em meio a outros miseráveis. Entre eles, há um homem adulto literalmente morrendo de fome. A mãe, que havia dado à luz recentemente, compadece-se do homem e oferece o seio, para que ele mame como um bebê.
Não tenho certeza, mas acho que essa passagem me perturbou porque descreve uma miséria tão absoluta que leva um homem adulto a se alimentar do leite de uma mulher. Há algo de sórdido nessa situação, não no ato em si, mas na necessidade dele.
De todo modo, é desconcertante.
Thursday, December 28, 2006
O som e a fúria
Que Shakespeare é um evento na história da humanidade, ninguém pode negar. Afinal, entre outros méritos mais conhecidos, ele inventou 25% do vocabulário da língua inglesa, além de ter renovado o teatro inglês. Também é inegável sua influência sobre outros escritores. Uma delas, talvez a mais significativa, é sobre William Faulkner.
Faulkner escreveu sua obra mais conhecida a partir tão somente das últimas palavras de Macbeth, na peça de mesmo nome.
Macbeth, instigado por sua esposa, faz tudo o que está a seu alcance para obter poder. Engana, trai, mata e, por fim, obtém tudo o que quer. Quando enfim é proclamado rei, Lady Macbeth se mata. Sob o efeito da notícia, Macbeth diz, em uma das passagens mais belas da obra de Shakespeare:
"A vida é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota, significando nada".
A peça acaba aqui, mas Faulkner utilizou esta frase para fazer exatamente o que diz Macbeth sobre a vida: contar, em parte pela ótica de um deficiente mental, uma história cheia de som e fúria, significando nada. O resultado é a obra-prima O Som e a Fúria que, como as peças de Shakespeare e os romances de D.H. Lawrence, para não citar todos os grandes escritores, não valem pela história que se quer contar, que pode ser banal, mas pelo modo como é contada. No fim das contas, a obra de Faulkner é cheia de significados.
Faulkner escreveu sua obra mais conhecida a partir tão somente das últimas palavras de Macbeth, na peça de mesmo nome.
Macbeth, instigado por sua esposa, faz tudo o que está a seu alcance para obter poder. Engana, trai, mata e, por fim, obtém tudo o que quer. Quando enfim é proclamado rei, Lady Macbeth se mata. Sob o efeito da notícia, Macbeth diz, em uma das passagens mais belas da obra de Shakespeare:
"A vida é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota, significando nada".
A peça acaba aqui, mas Faulkner utilizou esta frase para fazer exatamente o que diz Macbeth sobre a vida: contar, em parte pela ótica de um deficiente mental, uma história cheia de som e fúria, significando nada. O resultado é a obra-prima O Som e a Fúria que, como as peças de Shakespeare e os romances de D.H. Lawrence, para não citar todos os grandes escritores, não valem pela história que se quer contar, que pode ser banal, mas pelo modo como é contada. No fim das contas, a obra de Faulkner é cheia de significados.
Tuesday, December 26, 2006
A indústria cultural já era
No ano passado os Rolling Stones vieram ao Brasil. O show, na praia, atraiu milhares. Fiquei me perguntando porque essas figuras ainda são capazes de atrair multidões. Claro, há o fato de que estão na mídia há quarenta anos, o que já serve para despertar o interesse, mas continuo surpresa que consigam atrair jovens de dezoito, vinte anos, para seus shows. Penso que isso é resultado sobretudo do fato de que a indústria cultural não faz mais ídolos como antigamente. Depois de Michael Jackson, qual é o grande sucesso da mídia? Que Michael Jackson ou Madonna não vendam mais como antigamente é fácil de entender: as novas gerações querem outra coisa. Mas o que é digno de nota é que a esteira de produção da Indústria Cultural não consegue mais fabricar ídolos como os que mencionei, porque não é mais capaz de fabricar o gosto como antes. Não há uma causa única para isso, mas acredito que o motivo principal é o advento da internet. Há opções demais; tudo é fragmentado, e tem-se acesso fácil a quase tudo, inclusive a artistas de garagem.
Saturday, December 23, 2006
A chácara do tio Gugu
Na infância, eu costumava viajar com a família para uma cidade do interior, onde ficava hospedada, juntamente com vários parentes, na chácara do Tio Gugu. A casa era bastante espaçosa, com vários quartos, e pertencia à família há coisa de um século. Nela, várias pessoas haviam morrido, ainda no tempo em que os doentes ficavam em casa. Por essa razão, havia um sem-número de histórias de fantasmas, de espíritos que vagavam pelos corredores, coisas assim.
Em uma destas viagens, estava no quintal da casa com os primos, de mesma idade, mas por uma razão qualquer de que não me lembro, eles me excluíram da brincadeira. Sem alternativa, passei a caminhar sozinha pelos limites da chácara, me afastando da casa. Então vi um toco de uma árvore que havia sido cortada e me surgiu uma idéia para ser aceita novamente no grupo. Sem pensar muito, comecei a gritar e a chorar.
Beleza. Logo os primos apareceram, correndo esbaforidos, e querendo saber o que tinha acontecido. Eu apontei para o toco de árvore e disse ter visto um rosto ali.
Não vi. Era só prá chamar a atenção mesmo.
De início, todos riram, mas eu me mantive firme. Quando tentavam se aproximar da árvore, eu gritava para não fazerem isso, que tinha alguém ali olhando para nós, etc etc. Tanto insisti, tanto gritei de medo que o inusitado aconteceu: alguém mais viu o rosto! E então, um a um, todos começaram a ver. Uma prima ensaiou um desmaio, outra começou a soluçar alto. Em pouco tempo o grupo estava aterrorizado... e eu estava estupefata.
Por que todo mundo via o rosto e eu, não?
A estratégia para ser aceita no grupo me deixou de fora dele: todos viam o rosto na árvore, mas eu só via a árvore. E fiquei indignada de novo: por que só eu não vejo? O que há comigo que não consigo ver?
Então uma tia, que escutara os gritos, surgiu, riu da história, deu uns tapas na árvore e acabou com a farra, mas o episódio não terminou aí. Não para mim.
Durante muito tempo, tentei entender o que havia acontecido; porque eu havia sido excluída do privilégio de ver o rosto, quando eu mesma tinha alertado a todos sobre ele.
Então, muito tempo depois, compreendi: eu havia acreditado em minha própria mentira, simplesmente porque todos acreditavam nela. Eu sabia que era mentira, mas quando meus primos começaram a gritar e chorar, acreditei mesmo que eles viam o rosto na árvore, que havia de fato algo ali.
Neste episódio a semente do ateísmo foi plantada em minha cabeça. É claro que foi preciso muito tempo para que tomasse forma, mas a sensação de acreditar no que eu havia inventado, no que sabia que não era real, e nem mesmo imaginação minha, me fez perceber como é fácil nos iludirmos. Bastou, nesse caso, que outros acreditasssem ou fingissem acreditar para se tornar real mesmo para o autor da mentira.
Em uma destas viagens, estava no quintal da casa com os primos, de mesma idade, mas por uma razão qualquer de que não me lembro, eles me excluíram da brincadeira. Sem alternativa, passei a caminhar sozinha pelos limites da chácara, me afastando da casa. Então vi um toco de uma árvore que havia sido cortada e me surgiu uma idéia para ser aceita novamente no grupo. Sem pensar muito, comecei a gritar e a chorar.
Beleza. Logo os primos apareceram, correndo esbaforidos, e querendo saber o que tinha acontecido. Eu apontei para o toco de árvore e disse ter visto um rosto ali.
Não vi. Era só prá chamar a atenção mesmo.
De início, todos riram, mas eu me mantive firme. Quando tentavam se aproximar da árvore, eu gritava para não fazerem isso, que tinha alguém ali olhando para nós, etc etc. Tanto insisti, tanto gritei de medo que o inusitado aconteceu: alguém mais viu o rosto! E então, um a um, todos começaram a ver. Uma prima ensaiou um desmaio, outra começou a soluçar alto. Em pouco tempo o grupo estava aterrorizado... e eu estava estupefata.
Por que todo mundo via o rosto e eu, não?
A estratégia para ser aceita no grupo me deixou de fora dele: todos viam o rosto na árvore, mas eu só via a árvore. E fiquei indignada de novo: por que só eu não vejo? O que há comigo que não consigo ver?
Então uma tia, que escutara os gritos, surgiu, riu da história, deu uns tapas na árvore e acabou com a farra, mas o episódio não terminou aí. Não para mim.
Durante muito tempo, tentei entender o que havia acontecido; porque eu havia sido excluída do privilégio de ver o rosto, quando eu mesma tinha alertado a todos sobre ele.
Então, muito tempo depois, compreendi: eu havia acreditado em minha própria mentira, simplesmente porque todos acreditavam nela. Eu sabia que era mentira, mas quando meus primos começaram a gritar e chorar, acreditei mesmo que eles viam o rosto na árvore, que havia de fato algo ali.
Neste episódio a semente do ateísmo foi plantada em minha cabeça. É claro que foi preciso muito tempo para que tomasse forma, mas a sensação de acreditar no que eu havia inventado, no que sabia que não era real, e nem mesmo imaginação minha, me fez perceber como é fácil nos iludirmos. Bastou, nesse caso, que outros acreditasssem ou fingissem acreditar para se tornar real mesmo para o autor da mentira.
Thursday, December 21, 2006
Karma 101
Meu karma 101 é o ateísmo. Algo com que tenho de conviver nesta vida, como resultado do que fui na vida passada, e como estágio de evolução para a próxima vida.
Algo que veio sorrateiramente, modificando meu modo de perceber a existência humana, sem que eu me desse conta até ser tarde demais. Não percebi que estava perdendo a fé em deuses, em bandas de rock, em filósofos e em novelas de tv.
Se tivesse percebido, teria reagido.
Acho que devo tomar o chá de santo daime para ampliar minha consciência.
Talvez experimentar a Yoga outra vez e me imaginar uma árvore, depois um passarinho, depois o vento, e depois o passarinho de novo e depois a árvore e então eis-me aqui outra vez, impaciente prá me levantar e ir embora.
Talvez testar a falibilidade das cartas de tarot e descobrir que, afinal, acerta-se muito mais do que se erra... desde que eu esqueça que os enunciados são tão vagos que praticamente não há possibilidade de erro.
Talvez deva virar budista, rosa-cruz, teósofa... e aprender uma meia-dúzia de máximas que me conduzirão placidamente pela vida, e que repetirei à exaustão, para que todo mundo possa se conduzir tão placidamente quanto eu.
Talvez deva reler a Bíblia pulando o livro de Números, ou minha firmeza de propósitos morre aí.
Talvez eu deva começar a prestar atenção em borras de café.
Talvez deva observar melhor as batatas fritas antes de comê-las.
Talvez deva tentar ser uma bruxa, mas posso acabar sendo apenas a bruxa do 71.
Talvez não.
Talvez deva simplesmente seguir em frente com meu karma 101.
Algo que veio sorrateiramente, modificando meu modo de perceber a existência humana, sem que eu me desse conta até ser tarde demais. Não percebi que estava perdendo a fé em deuses, em bandas de rock, em filósofos e em novelas de tv.
Se tivesse percebido, teria reagido.
Acho que devo tomar o chá de santo daime para ampliar minha consciência.
Talvez experimentar a Yoga outra vez e me imaginar uma árvore, depois um passarinho, depois o vento, e depois o passarinho de novo e depois a árvore e então eis-me aqui outra vez, impaciente prá me levantar e ir embora.
Talvez testar a falibilidade das cartas de tarot e descobrir que, afinal, acerta-se muito mais do que se erra... desde que eu esqueça que os enunciados são tão vagos que praticamente não há possibilidade de erro.
Talvez deva virar budista, rosa-cruz, teósofa... e aprender uma meia-dúzia de máximas que me conduzirão placidamente pela vida, e que repetirei à exaustão, para que todo mundo possa se conduzir tão placidamente quanto eu.
Talvez deva reler a Bíblia pulando o livro de Números, ou minha firmeza de propósitos morre aí.
Talvez eu deva começar a prestar atenção em borras de café.
Talvez deva observar melhor as batatas fritas antes de comê-las.
Talvez deva tentar ser uma bruxa, mas posso acabar sendo apenas a bruxa do 71.
Talvez não.
Talvez deva simplesmente seguir em frente com meu karma 101.
Wednesday, December 20, 2006
Filosofia: prá quê?
Falando muito sério: o que a filosofia pode trazer ao homem de hoje que não se possa conseguir por outra via?
As alegações costumeiras são de que a filosofia provoca a reflexão crítica, faz pensar, garante a autonomia do sujeito e, diz-se, a manutenção da ética.
Mas, por hipótese, consideremos o caso em que a filosofia desapareça. Vamos viver na escuridão e voltar à Idade Média? Não há cientistas, sociólogos e antropólogos que nos convidam à reflexão crítica?
Bem, convido à reflexão crítica sobre a filosofia. Sem ela, não teríamos as ciências, é verdade, mas já temos. Sem ela, não teríamos a lógica, é verdade. Mas hoje já temos a lógica. Sem ela, não teria havido a ruptura com o mito, mas essa ruptura já foi feita. Ainda que o mundo voltasse à Idade Média, a ruptura já foi feita; o caminho já está aberto.
Ouço dizer que sem a filosofia não teríamos noção de cidadania, de ética, de sujeito. Sem ela, não haveria liberdade de pensamento. Concordo inteiramente; não há como negar tudo isso, mas estes valores já estão incorporados ao mundo ocidental, pelo menos.
Quando perguntamos qual é o valor da filosofia hoje, a resposta sempre nos remete ao valor histórico da filosofia. É este o meu ponto. Então, continuo querendo saber: qual é o valor da filosofia HOJE, no mundo como está HOJE, e não como era na Grécia do século VI a.C., no medievo e no período moderno?
As alegações costumeiras são de que a filosofia provoca a reflexão crítica, faz pensar, garante a autonomia do sujeito e, diz-se, a manutenção da ética.
Mas, por hipótese, consideremos o caso em que a filosofia desapareça. Vamos viver na escuridão e voltar à Idade Média? Não há cientistas, sociólogos e antropólogos que nos convidam à reflexão crítica?
Bem, convido à reflexão crítica sobre a filosofia. Sem ela, não teríamos as ciências, é verdade, mas já temos. Sem ela, não teríamos a lógica, é verdade. Mas hoje já temos a lógica. Sem ela, não teria havido a ruptura com o mito, mas essa ruptura já foi feita. Ainda que o mundo voltasse à Idade Média, a ruptura já foi feita; o caminho já está aberto.
Ouço dizer que sem a filosofia não teríamos noção de cidadania, de ética, de sujeito. Sem ela, não haveria liberdade de pensamento. Concordo inteiramente; não há como negar tudo isso, mas estes valores já estão incorporados ao mundo ocidental, pelo menos.
Quando perguntamos qual é o valor da filosofia hoje, a resposta sempre nos remete ao valor histórico da filosofia. É este o meu ponto. Então, continuo querendo saber: qual é o valor da filosofia HOJE, no mundo como está HOJE, e não como era na Grécia do século VI a.C., no medievo e no período moderno?
Monday, December 18, 2006
Pré ou pós?
Ouço com bastante frequência a máxima de que um filósofo antigo e medieval antecedeu um outro, contemporâneo ou mesmo moderno. Algo como dizer, por exemplo, que Protágoras, o sofista, é pré-kantiano (tese de um tal Theodor Gomperz, historiador). É claro que esta tendência se registra apenas naqueles casos em que um filósofo considerado "menor" exerceu influência sobre o pensamento de um filósofo considerado "maior".
O que me incomoda é exatamente o entendimento de que o primeiro filósofo é limitado porque não chegou até onde poderia ter chegado, e que foi preciso um outro, maior, para extrair das premissas do primeiro as suas consequências possíveis. Isto supõe que os filósofos não estão sujeitos a determinações históricas e culturais, que não são filhos de seu tempo. O óbvio, para mim, é que Hegel é posterior a Heráclito, e não que este antecipa aquele.
Aliás, esta é uma visão bastante hegeliana, de que a filosofia é um grande sistema que incorpora premissas contraditórias porque cada uma delas representa um passo em direção a um estágio superior, como se os filósofos estivessem todos subindo uma escada, mas cada um sobe apenas um degrau e diz: "Já fiz a minha parte. Agora é com você, que enxerga mais além por estar um degrau acima".
Este entendimento também deixa entrever a visão de que a filosofia hoje prescinde do estudo de seus antecessores. Basta a filosofia moderna e contemporânea. Os demais são pré.
Para mim, os contemporâneos é que são pós. Não há como entendê-los bem sem entender os conceitos fundamentais com os quais trabalham, e estes conceitos estão na história da filosofia.
O gigante cego de Schopenhauer (de Newton, mais precisamente), enxergando com os olhos do anão em seus ombros, não tem nada nada a ver com isso.
O que me incomoda é exatamente o entendimento de que o primeiro filósofo é limitado porque não chegou até onde poderia ter chegado, e que foi preciso um outro, maior, para extrair das premissas do primeiro as suas consequências possíveis. Isto supõe que os filósofos não estão sujeitos a determinações históricas e culturais, que não são filhos de seu tempo. O óbvio, para mim, é que Hegel é posterior a Heráclito, e não que este antecipa aquele.
Aliás, esta é uma visão bastante hegeliana, de que a filosofia é um grande sistema que incorpora premissas contraditórias porque cada uma delas representa um passo em direção a um estágio superior, como se os filósofos estivessem todos subindo uma escada, mas cada um sobe apenas um degrau e diz: "Já fiz a minha parte. Agora é com você, que enxerga mais além por estar um degrau acima".
Este entendimento também deixa entrever a visão de que a filosofia hoje prescinde do estudo de seus antecessores. Basta a filosofia moderna e contemporânea. Os demais são pré.
Para mim, os contemporâneos é que são pós. Não há como entendê-los bem sem entender os conceitos fundamentais com os quais trabalham, e estes conceitos estão na história da filosofia.
O gigante cego de Schopenhauer (de Newton, mais precisamente), enxergando com os olhos do anão em seus ombros, não tem nada nada a ver com isso.
Sunday, December 17, 2006
Cristo antes de Cristo
Descobri hoje, assistindo a um documentário da Discovery, que Cristo nasceu antes de Cristo. Considerando que se trata do filho de deus, tudo é possível, mas o caso é bem mais prosaico: trata-se pura e simplesmente de um erro. Humano, claro.
O calendário cristão, elaborado no ano 525 d.C. por Dionísio, o Menor, está errado, para menos, em 5 anos.
Dionísio se baseou no calendário juliano para criar o calendário que adotamos até hoje. A contagem que fez do reinado dos imperadores romanos não incluiu os quatro anos em que Otávio reinou com esse nome, antes de se tornar Augusto, e deixou de considerar o ano zero. Portanto, está defasado em cinco anos, o que significa que Cristo nasceu no sexto século antes de Cristo. E sem a ajuda de um milagre.
Estamos na verdade no ano 2012 e a virada do século aconteceu em 1995/1996.
Imagine o prejuízo financeiro de mudar as datas hoje.
O calendário cristão, elaborado no ano 525 d.C. por Dionísio, o Menor, está errado, para menos, em 5 anos.
Dionísio se baseou no calendário juliano para criar o calendário que adotamos até hoje. A contagem que fez do reinado dos imperadores romanos não incluiu os quatro anos em que Otávio reinou com esse nome, antes de se tornar Augusto, e deixou de considerar o ano zero. Portanto, está defasado em cinco anos, o que significa que Cristo nasceu no sexto século antes de Cristo. E sem a ajuda de um milagre.
Estamos na verdade no ano 2012 e a virada do século aconteceu em 1995/1996.
Imagine o prejuízo financeiro de mudar as datas hoje.
Friday, December 15, 2006
Atrocidades da Bíblia
Encontrei o site (linkado no título deste post) sobre as supostas atrocidades encontradas na Bíblia. Sinceramente, não vejo sentido nesse tipo de coisa. Para quem crê, isso não diz nada. Afinal, Deus age como lhe convém. Ou, como diria Kierkegaard, ser religioso é ser capaz de, se necessário, ir além dos valores humanos. Para quem está indeciso, tem pouca cultura e pouco discernimento, as supostas atrocidades podem até servir de desculpa para sair por aí defendendo um ateísmo que nada mais é que ressentimento. Enfim, para quem não crê, pouco importa que a Bíblia corresponda à moralidade e à ética do homem de hoje. Afinal, não passa de um livro cheio de histórias, provérbios, alguma poesia e muitas lições sobre como se deve viver para alcançar o paraíso.
Para mim, o Velho Testamento é de longe mais interessante que o Novo, pela história. Fantasia por fantasia, todos os povos antigos tiveram a sua. E, depois, é fácil compreender que um povo guerreiro precise de um deus guerreiro (afinal, Zeus não era isso mesmo?). As qualidades morais, digamos assim, de um guerreiro são o caráter implacável com os inimigos, a força física, a coragem, a firmeza de propósitos e o apego apaixonado ao que defende. Já dizia Platão que um guerreiro que chora como uma mulher no parto não serve para vigiar uma cidade. Mas, se for embrutecido demais, torna-se um perigo para a cidade. O deus dos judeus do Velho Testamento é capaz de se sensibilizar com o sacríficio, mas é sobretudo um guerreiro para um povo que precisa se defender e conquistar.
Mas logo vieram os romanos, e os judeus deixaram de ser livres. Para um povo assim, o do Novo Testamento, as principais "virtudes morais" que o deus deve ter são o amor e a compaixão. O deus-rei de um povo que sofre deve, antes de tudo, ser pai, e pai misericordioso, que perdoa, que não exige sacrifícios, mas que é capaz do maior sacrifício: abrir mão de seu único filho, o princípe, em benefício de seus súditos. Que povo agraciado! Só assim é possível ter esperança novamente: o guerreiro voltará, montado em um cavalo alado, para vencer o grande inimigo em uma batalha final, mas só no futuro. Até lá, precisa-se de pai, porque o pai ama seus filhos e sabe o que é melhor para eles.
Para mim, o Velho Testamento é de longe mais interessante que o Novo, pela história. Fantasia por fantasia, todos os povos antigos tiveram a sua. E, depois, é fácil compreender que um povo guerreiro precise de um deus guerreiro (afinal, Zeus não era isso mesmo?). As qualidades morais, digamos assim, de um guerreiro são o caráter implacável com os inimigos, a força física, a coragem, a firmeza de propósitos e o apego apaixonado ao que defende. Já dizia Platão que um guerreiro que chora como uma mulher no parto não serve para vigiar uma cidade. Mas, se for embrutecido demais, torna-se um perigo para a cidade. O deus dos judeus do Velho Testamento é capaz de se sensibilizar com o sacríficio, mas é sobretudo um guerreiro para um povo que precisa se defender e conquistar.
Mas logo vieram os romanos, e os judeus deixaram de ser livres. Para um povo assim, o do Novo Testamento, as principais "virtudes morais" que o deus deve ter são o amor e a compaixão. O deus-rei de um povo que sofre deve, antes de tudo, ser pai, e pai misericordioso, que perdoa, que não exige sacrifícios, mas que é capaz do maior sacrifício: abrir mão de seu único filho, o princípe, em benefício de seus súditos. Que povo agraciado! Só assim é possível ter esperança novamente: o guerreiro voltará, montado em um cavalo alado, para vencer o grande inimigo em uma batalha final, mas só no futuro. Até lá, precisa-se de pai, porque o pai ama seus filhos e sabe o que é melhor para eles.
Wednesday, December 13, 2006
Ariano
Encontrei, no prefácio do autor a "O Santo e a Porca", de Ariano Suassuna:
"Pior que do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz" (p.23).
E mais ainda, no parágrafo seguinte:
"A vida é uma traição, uma traição contínua. Traição nossa a Deus e aos seres que mais amamos. Traiçao dos acontecimentos a nós, dentro do absurdo de nossa condição, pois, de um ponto de vista meramente humano, a morte, por exemplo, não só não tem sentido, como retira toda e qualquer possibilidade de sentido à vida".
"Pior que do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz" (p.23).
E mais ainda, no parágrafo seguinte:
"A vida é uma traição, uma traição contínua. Traição nossa a Deus e aos seres que mais amamos. Traiçao dos acontecimentos a nós, dentro do absurdo de nossa condição, pois, de um ponto de vista meramente humano, a morte, por exemplo, não só não tem sentido, como retira toda e qualquer possibilidade de sentido à vida".
Sunday, December 10, 2006
Unidade do céu por redução ao absurdo
"É evidente que há apenas um céu, pois no caso de uma pluralidade de céus (como há uma de homens), os princípios motrizes - dos quais cada céu teria um - seriam unos do ponto de vista da forma, mas numericamente muitos. Entretanto, todas as coisas numericamente múltiplas possuem matéria (pois uma e mesma definição aplica-se a muitos indivíduos, por exemplo, a definição de homem, mas Sócrates é singular); contudo, a essência primária não possui matéria, porque é realização completa. Portanto, o primeiro motor, o qual é imóvel, é uno tanto do ponto de vista da fórmula quanto do número. E, portanto, assim é também o que está eterna e continuamente em movimento. Conclui-se, assim, que há apenas um céu." (Aristóteles, Metafísica X).
Resumindo:
Se existissem vários céus, cada um teria um princípio gerador.
Esses princípios geradores seriam muitos, mas teriam a mesma essência (de princípio gerador);
Ora, aquilo que é múltiplo é de natureza material;
Portanto, a matéria teria de ser princípio originário de toda matéria, o que é um absurdo.
Logo, só há um céu.
A redução ao absurdo consiste em supor a verdade da tese contrária à que se quer defender, extrair dela suas consequências possíveis e demonstrar que ela se autocontradiz (ou seja, nega e afirma a respeito do mesmo objeto). Então, se a tese contrária à minha (há vários céus) é falsa, conclui-se a verdade da minha tese (so há um céu).
Voltando ao argumento, não creio ser verdadeira a suposição de que cada céu tenha um princípio motriz distinto dos demais e que esse princípio seja necessariamente imaterial, ou seja, que a matéria não pode ser o princípio originário de tudo o que é material.
Será mesmo que não?
E se a diferença ocorrer na passagem de um para outro? Quero dizer: a matéria/causa pode originar, no processo, não só a matéria/efeito, mas também aquilo que diferencie, ainda que não substancialmente, a matéria/efeito da matéria/causa.
Ihhh...
Estou de férias. Preciso disso não.
Resumindo:
Se existissem vários céus, cada um teria um princípio gerador.
Esses princípios geradores seriam muitos, mas teriam a mesma essência (de princípio gerador);
Ora, aquilo que é múltiplo é de natureza material;
Portanto, a matéria teria de ser princípio originário de toda matéria, o que é um absurdo.
Logo, só há um céu.
A redução ao absurdo consiste em supor a verdade da tese contrária à que se quer defender, extrair dela suas consequências possíveis e demonstrar que ela se autocontradiz (ou seja, nega e afirma a respeito do mesmo objeto). Então, se a tese contrária à minha (há vários céus) é falsa, conclui-se a verdade da minha tese (so há um céu).
Voltando ao argumento, não creio ser verdadeira a suposição de que cada céu tenha um princípio motriz distinto dos demais e que esse princípio seja necessariamente imaterial, ou seja, que a matéria não pode ser o princípio originário de tudo o que é material.
Será mesmo que não?
E se a diferença ocorrer na passagem de um para outro? Quero dizer: a matéria/causa pode originar, no processo, não só a matéria/efeito, mas também aquilo que diferencie, ainda que não substancialmente, a matéria/efeito da matéria/causa.
Ihhh...
Estou de férias. Preciso disso não.
Thursday, December 07, 2006
Falta do que fazer
O pesquisador e advogado criminalista americano Darnay Hoffman quer porque quer provar que Moisés foi assassinado.
Reza a lenda que Moisés desapareceu. Ele seria um dos três personagens bíblicos, se não me falha a memória, que teriam sido levados ao céu em vida (Maria não incluída).
O pesquisador acredita que Moisés, para acalmar o povo descontente, teria sacrificado seu próprio irmão, Aarão. Finéias, neto de Aarão, teria em seguida assassinado Moisés na entrada do Tabernáculo, para vingar a morte do avô. Ao que parece, a tese de assassinato foi defendida também por Freud, só que atribuindo a responsabilidade ao povo de Israel, e não a um indivíduo em específico. E, claro, Freud também não foi preciso quanto ao local do crime. Só mesmo um advogado criminalista para saber disso, né?
Mas, francamente, prá que serve esse tipo de informação, exceto pelo fato de que pode tornar seu defensor famoso e - quem sabe - rico?
Reza a lenda que Moisés desapareceu. Ele seria um dos três personagens bíblicos, se não me falha a memória, que teriam sido levados ao céu em vida (Maria não incluída).
O pesquisador acredita que Moisés, para acalmar o povo descontente, teria sacrificado seu próprio irmão, Aarão. Finéias, neto de Aarão, teria em seguida assassinado Moisés na entrada do Tabernáculo, para vingar a morte do avô. Ao que parece, a tese de assassinato foi defendida também por Freud, só que atribuindo a responsabilidade ao povo de Israel, e não a um indivíduo em específico. E, claro, Freud também não foi preciso quanto ao local do crime. Só mesmo um advogado criminalista para saber disso, né?
Mas, francamente, prá que serve esse tipo de informação, exceto pelo fato de que pode tornar seu defensor famoso e - quem sabe - rico?
Tuesday, December 05, 2006
Fitche
Sempre tive curiosidade em ler alguma coisa de Fitche, de que não conheço absolutamente nada, e resolvi aproveitar as férias para me apresentar o filósofo alemão. Fui ao volume 26 da Coleção Os Pensadores, e o que encontrei? Um título absolutamente insólito (depois dos de Kierkegaard, o campeão): COMUNICADO CLARO COMO O SOL AO GRANDE PÚBLICO ONDE SE MOSTRA EM QUE SE CONSISTE PROPRIAMENTE A NOVÍSSIMA FILOSOFIA... Um ensaio para forçar o leitor à inteligência.
Estou lendo, claro. Senti-me forçada à inteligência e, diga-se de passagem, encantada com a arrogância do título e do ensaio. Como o filósofo diz, é a terceira vez que explica sua doutrina, e espera não ter de se explicar novamente.
Ah, tá.
Confesso que acho fascinante essa arrogância douta. Para quem não acredita em muita coisa, esse ar de seita de mistérios, de coisa inalcançável, acaba me seduzindo de algum modo. Agora preciso conhecer Fitche.
Só não entendi duas coisas: se o comunicado é claro como o sol, por que o autor julga que vai forçar o leitor à inteligência?
Sobretudo, por que o autor julga que o entendimento de sua doutrina força o leitor à inteligência?
Bem, ainda estou lendo. Quando terminar, talvez eu venha a saber.
Estou lendo, claro. Senti-me forçada à inteligência e, diga-se de passagem, encantada com a arrogância do título e do ensaio. Como o filósofo diz, é a terceira vez que explica sua doutrina, e espera não ter de se explicar novamente.
Ah, tá.
Confesso que acho fascinante essa arrogância douta. Para quem não acredita em muita coisa, esse ar de seita de mistérios, de coisa inalcançável, acaba me seduzindo de algum modo. Agora preciso conhecer Fitche.
Só não entendi duas coisas: se o comunicado é claro como o sol, por que o autor julga que vai forçar o leitor à inteligência?
Sobretudo, por que o autor julga que o entendimento de sua doutrina força o leitor à inteligência?
Bem, ainda estou lendo. Quando terminar, talvez eu venha a saber.
Friday, December 01, 2006
Kamala e Amala
Acredite se quiser: em 1920 o reverendo Joseph Singh, missionário responsável por um orfanato na Índia, foi informado pelos habitantes do local que duas figuras fantasmagóricas acompanhavam um bando de lobos, na selva de Bengali. Intrigado, Singh construiu um esconderijo em uma árvore e esperou. Quando a noite veio, os lobos chegaram. Entre eles havia duas figuras horrendas, com pés, mãos e corpo iguais aos de um ser humano, que corriam usando os quatro pés e tinham olhos brilhantes.
Singh capturou as duas criaturas alguns dias mais tarde e descobriu que eram crianças do sexo feminino, que viviam com os lobos e se comportavam como eles. A idade das crianças não é precisa, mas a maior teria entre cinco e oito anos e a menor, em torno de três. Elas eram saudáveis, comiam carne crua e não pareciam ter qualquer traço de humanidade.
Levadas para a civilização, ganharam nomes: a maior passou a se chamar Kamala e a menor, Amala. A única emoção que demonstravam era o medo, comiam carne crua, corriam como lobos quando assustadas, uivavam, tinham olfato apuradíssimo e dormiam durante o dia para acordar à noite. Elas nunca sorriam ou demonstravam interesse na companhia de seres humanos, e procuravam a companhia de cachorros.
A mais nova morreu de depressão um ano depois. A mais velha sobreviveu 10 anos à captura, aprendeu alguns rudimentos de linguagem e a andar sob dois pés.
Singh capturou as duas criaturas alguns dias mais tarde e descobriu que eram crianças do sexo feminino, que viviam com os lobos e se comportavam como eles. A idade das crianças não é precisa, mas a maior teria entre cinco e oito anos e a menor, em torno de três. Elas eram saudáveis, comiam carne crua e não pareciam ter qualquer traço de humanidade.
Levadas para a civilização, ganharam nomes: a maior passou a se chamar Kamala e a menor, Amala. A única emoção que demonstravam era o medo, comiam carne crua, corriam como lobos quando assustadas, uivavam, tinham olfato apuradíssimo e dormiam durante o dia para acordar à noite. Elas nunca sorriam ou demonstravam interesse na companhia de seres humanos, e procuravam a companhia de cachorros.
A mais nova morreu de depressão um ano depois. A mais velha sobreviveu 10 anos à captura, aprendeu alguns rudimentos de linguagem e a andar sob dois pés.
Tuesday, November 28, 2006
Receita para controlar o próprio destino
Maquiavel tem uma receita ótima para se lutar contra as artimanhas da fortuna: trate-a como mulher. Bata nela; esforce-se para contrariá-la, seja feroz, audaz e evite a timidez. Só isso, e a sorte estará do seu lado.
"Estou convencido do seguinte: é melhor ser impetuoso do que tímido, porque a fortuna é mulher, e é necessário, para dominá-la, bater-lhe e contrariá-la. Vê-se que ela se deixa vencer mais pelos que agem assim do que pelos que agem friamente; e, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos tímidos, mais ferozes e a dominam com maior audácia" (O Príncipe XXV).
"Estou convencido do seguinte: é melhor ser impetuoso do que tímido, porque a fortuna é mulher, e é necessário, para dominá-la, bater-lhe e contrariá-la. Vê-se que ela se deixa vencer mais pelos que agem assim do que pelos que agem friamente; e, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos tímidos, mais ferozes e a dominam com maior audácia" (O Príncipe XXV).
Thursday, November 23, 2006
Cemitério de Aliens
Depois da "Terapia de Grupo para Portadores da Síndrome da Pós-Abdução por Extra (ou Intra)-Terrestres", só faltava mesmo haver um cemitério de aliens.
A idéia não é nova, não, mas é americana, claro. Parece que os americanos nunca vão superar sua herança puritana; estão sempre dispostos a acreditar em tudo, de Elvis Presley a deuses gregos, de pés grandes a batata frita com a imagem de Cristo. Uma das esquisitices mais combatidas por Carl Sagan é a obsessão por marcianos esverdeados que capturam humanos para experiências e sei lá mais o quê. O argumento mais forte de Sagan contra essa obsessão é que, com milhares e milhares de planetas e tantas galáxias, a possibilidade de uma nave extra-terrestre vir parar na terra uma vez, ou várias vezes, é perto de zero.
Bem, quer-se acreditar. Mesmo que esta seja uma história já fora de moda de tão boba, existe, no estado do Texas, o que os americanos crédulos chamam de cemitério de aliens. Segundo se diz, uma espaçonave extra-terrestre espatifou-se contra um moinho de vento, no século XIX. A criatura do espaço foi devidamente enterrada, claro. Os habitantes do local eram tão gentis que preferiram enterrar logo a criatura e sumir com os vestígios da espaçonave, para depois anunciar aos quatro ventos que ela morreu ali.
A idéia não é nova, não, mas é americana, claro. Parece que os americanos nunca vão superar sua herança puritana; estão sempre dispostos a acreditar em tudo, de Elvis Presley a deuses gregos, de pés grandes a batata frita com a imagem de Cristo. Uma das esquisitices mais combatidas por Carl Sagan é a obsessão por marcianos esverdeados que capturam humanos para experiências e sei lá mais o quê. O argumento mais forte de Sagan contra essa obsessão é que, com milhares e milhares de planetas e tantas galáxias, a possibilidade de uma nave extra-terrestre vir parar na terra uma vez, ou várias vezes, é perto de zero.
Bem, quer-se acreditar. Mesmo que esta seja uma história já fora de moda de tão boba, existe, no estado do Texas, o que os americanos crédulos chamam de cemitério de aliens. Segundo se diz, uma espaçonave extra-terrestre espatifou-se contra um moinho de vento, no século XIX. A criatura do espaço foi devidamente enterrada, claro. Os habitantes do local eram tão gentis que preferiram enterrar logo a criatura e sumir com os vestígios da espaçonave, para depois anunciar aos quatro ventos que ela morreu ali.
Monday, November 20, 2006
Você é sensitivo?
Você sabe, antes de atender, quem está do outro lado da linha quando o telefone toca?
Já sonhou com alguém que não via há muito tempo e logo reencontrou essa pessoa?
Conegue visualizar com os olhos da mente onde estão objetos e pessoas?
Sabe o que alguém vai dizer antes que comece a falar?
Sabe o que um tal Tickle vai servir para os amigos no jantar que preparou?
Adivinhou que desenho há sob uma carta virada, sem nunca tê-la visto antes?
Sabe de que cor são os olhos do tal Tickle?
Acertou quando disse que o tal Tickle acabou de comprar um carro usado?
Respondeu "não" a todas as perguntas?
Então você um sensitivo!
Vá por mim: qualquer um que fizer o teste linkado no título deste post é sensitivo só de ter feito o teste. Eu respondi "não" a tudo - a maior parte das perguntas eu nem li, porque o teste é longo e chato, então marquei logo "never" e "no". O que não podia ser "never" e "no", chutei, e olhe só!, descobri que tenho uma enorme habilidade para visitar, com a mente, lugares desconhecidos. Isso significa que sou capaz de ajudar a polícia a encontrar fugitivos. Não é ótimo?
Pensando bem, há boas chances de que eu seja mesmo sensitiva. Saí chutando as respostas ou dizendo "não" e mesmo assim acertei! Pois então. E mais: meus poderes recém-descobertos me dizem que basta fazer o teste para ser sensitivo.
Já sonhou com alguém que não via há muito tempo e logo reencontrou essa pessoa?
Conegue visualizar com os olhos da mente onde estão objetos e pessoas?
Sabe o que alguém vai dizer antes que comece a falar?
Sabe o que um tal Tickle vai servir para os amigos no jantar que preparou?
Adivinhou que desenho há sob uma carta virada, sem nunca tê-la visto antes?
Sabe de que cor são os olhos do tal Tickle?
Acertou quando disse que o tal Tickle acabou de comprar um carro usado?
Respondeu "não" a todas as perguntas?
Então você um sensitivo!
Vá por mim: qualquer um que fizer o teste linkado no título deste post é sensitivo só de ter feito o teste. Eu respondi "não" a tudo - a maior parte das perguntas eu nem li, porque o teste é longo e chato, então marquei logo "never" e "no". O que não podia ser "never" e "no", chutei, e olhe só!, descobri que tenho uma enorme habilidade para visitar, com a mente, lugares desconhecidos. Isso significa que sou capaz de ajudar a polícia a encontrar fugitivos. Não é ótimo?
Pensando bem, há boas chances de que eu seja mesmo sensitiva. Saí chutando as respostas ou dizendo "não" e mesmo assim acertei! Pois então. E mais: meus poderes recém-descobertos me dizem que basta fazer o teste para ser sensitivo.
Saturday, November 18, 2006
Resposta ao Anônimo (a)
Anônimo (a):
Ainda refletindo sobre a passagem que destacou.
Considerando apenas o objeto: supondo um existente qualquer, numa série finita de manifestações. Em sua primeira aparição, o objeto é obviamente desconhecido para o sujeito. Se a série de aparições for finita, em algum momento o objeto será conhecido inteiramente. Se isso fosse possível, então aquela primeira aparição, quando o objeto era desconhecido, não poderia se repetir (o que é conhecido não pode aparecer como desconhecido).
Então, há quatro possibilidades:
1. O objeto nunca aparece, de nenhum modo.
2. O objeto se mostra imediata e inteiramente ao sujeito.
3. O objeto se revela progressivamente, em uma série finita de aparições, até se revelar inteiramente.
4. O objeto nunca se revela inteiramente.
O primeiro caso é facilmente descartado, porque se o objeto nunca aparecesse ao sujeito, não haveria conhecimento, e basta a afirmação “a é diferente de b” para negar esta hipótese.
O segundo também não é possível, porque implicaria que sujeito e objeto são estáticos, o que sabemos não ser o caso.
O terceiro é absurdo porque, uma vez conhecido o objeto, cessam as aparições (neste caso a ciência algum dia saberia tudo e não haveria nada mais a ser descoberto). Mas o ponto principal é que só conhecemos um objeto quando o conhecemos inteiramente, o que não pode ser (pelas razões apresentadas anteriormente).
5. O quarto item é o único aceitável. Neste caso, é forçoso que a série de aparições seja infinita, porque se o objeto se revela parcialmente a cada momento, só o conhecemos parcialmente. Uma nova aparição sempre é possível.
Ainda refletindo sobre a passagem que destacou.
Considerando apenas o objeto: supondo um existente qualquer, numa série finita de manifestações. Em sua primeira aparição, o objeto é obviamente desconhecido para o sujeito. Se a série de aparições for finita, em algum momento o objeto será conhecido inteiramente. Se isso fosse possível, então aquela primeira aparição, quando o objeto era desconhecido, não poderia se repetir (o que é conhecido não pode aparecer como desconhecido).
Então, há quatro possibilidades:
1. O objeto nunca aparece, de nenhum modo.
2. O objeto se mostra imediata e inteiramente ao sujeito.
3. O objeto se revela progressivamente, em uma série finita de aparições, até se revelar inteiramente.
4. O objeto nunca se revela inteiramente.
O primeiro caso é facilmente descartado, porque se o objeto nunca aparecesse ao sujeito, não haveria conhecimento, e basta a afirmação “a é diferente de b” para negar esta hipótese.
O segundo também não é possível, porque implicaria que sujeito e objeto são estáticos, o que sabemos não ser o caso.
O terceiro é absurdo porque, uma vez conhecido o objeto, cessam as aparições (neste caso a ciência algum dia saberia tudo e não haveria nada mais a ser descoberto). Mas o ponto principal é que só conhecemos um objeto quando o conhecemos inteiramente, o que não pode ser (pelas razões apresentadas anteriormente).
5. O quarto item é o único aceitável. Neste caso, é forçoso que a série de aparições seja infinita, porque se o objeto se revela parcialmente a cada momento, só o conhecemos parcialmente. Uma nova aparição sempre é possível.
Wednesday, November 15, 2006
A lógica da loteria
Nunca consegui ter disciplina suficiente para jogar na loteria, ou para checar o resultado, e nunca acreditei na possibilidade de ganhar. Mas isso mudou há três anos. Quero dizer, passei a considerar que posso talvez quem sabe ganhar. A disciplina continua a mesma.
Minha irmã, que joga há mais de dez anos, sempre argumentou a favor da loteria literalmente usando a falácia de Monte Carlo: "o fulano ganhou; logo, serei a próxima. Apostei e acertei quatro números. Logo, da próxima vez acertarei cinco". Eu sempre argumentei que o raciocínio é falacioso; que os resultados são aleatórios, que ninguém vai ganhar da próxima vez porque quase ganhou antes, etc, mas nunca adiantou muito. Ela continuava jogando toda semana, invariavelmente, e então... ganhou. Não ficou rica; ganhou apenas o suficiente para comprar uma casa, reformá-la e mobiliá-la. E então, o golpe final em minha lógica: "Viu? Ganhei! Eu não disse que estava chegando perto?"
Mas o que mais a irritou, quando ganhou, foi o cálculo que tentei fazer dos custos, o que inevitavelmente reduziria o benefício: "quantos anos você jogou? Quanto apostou por semana? Então, você gastou tanto e obteve tanto. Diminuindo o quanto gastou do que ganhou, na verdade seu ganho foi x, muito abaixo do valor do prêmio".
A resposta veio com o fato: "Ganhei, não foi? Então?"
Pois é. Então.
Ela continua jogando, e lá vem a falácia de Monte Carlo outra vez: se ganhou uma vez, vai ganhar novamente. Argumentei que a possibilidade de ganhar novamente é remotíssima, mas ela acha que está chegando mais perto, que está quase lá e que, se meus argumentos falharam uma vez, é porque não são bons mesmo.
Lamentavelmente, contra fatos não há argumentos.
Minha irmã, que joga há mais de dez anos, sempre argumentou a favor da loteria literalmente usando a falácia de Monte Carlo: "o fulano ganhou; logo, serei a próxima. Apostei e acertei quatro números. Logo, da próxima vez acertarei cinco". Eu sempre argumentei que o raciocínio é falacioso; que os resultados são aleatórios, que ninguém vai ganhar da próxima vez porque quase ganhou antes, etc, mas nunca adiantou muito. Ela continuava jogando toda semana, invariavelmente, e então... ganhou. Não ficou rica; ganhou apenas o suficiente para comprar uma casa, reformá-la e mobiliá-la. E então, o golpe final em minha lógica: "Viu? Ganhei! Eu não disse que estava chegando perto?"
Mas o que mais a irritou, quando ganhou, foi o cálculo que tentei fazer dos custos, o que inevitavelmente reduziria o benefício: "quantos anos você jogou? Quanto apostou por semana? Então, você gastou tanto e obteve tanto. Diminuindo o quanto gastou do que ganhou, na verdade seu ganho foi x, muito abaixo do valor do prêmio".
A resposta veio com o fato: "Ganhei, não foi? Então?"
Pois é. Então.
Ela continua jogando, e lá vem a falácia de Monte Carlo outra vez: se ganhou uma vez, vai ganhar novamente. Argumentei que a possibilidade de ganhar novamente é remotíssima, mas ela acha que está chegando mais perto, que está quase lá e que, se meus argumentos falharam uma vez, é porque não são bons mesmo.
Lamentavelmente, contra fatos não há argumentos.
Sunday, November 12, 2006
Loteria lógica
Tive uma idéia absolutamente imbecil ontem, mas ainda não consegui me livrar dela. Fiquei me perguntando se posso usar as tabelas de verdade da lógica para testar a probabilidade de ganhar na loteria.
O raciocínio foi o seguinte: se tenho uma variável, há 50% por cento de chance de acertar (já que ela é ou verdadeira ou falsa). Se tenho duas variáveis, então (considerando somente a tabela do conjuntor, que é o caso), só há uma possibilidade em quatro. Se são três variáveis, uma possibilidades em oito. Se há quatro variáveis, então há uma possibilidade em dezesseis, e assim por diante. Então, aplicando o raciocínio à megasena, por exemplo: eu aposto cinco palpites. A possibilidade de ocorrer aquela combinação específica (por exemplo, 2 - 7 - 12 - 21 - 46) é de 1 para 16, o que daria uma média razoável. Mas então percebi que tenho de levar em consideração o conjunto de apostas possíveis, e não somente a combinação específica que apostar, o que daria uma média infinitamente maior. Como a matemática não é meu forte, desisti da empreitada, mas ainda acho que é possível, só com a lógica, calcular de algum modo as minhas chances e, quem sabe, desistir logo da idéia de ganhar na megasena e parar de jogar dinheiro fora.
Eu avisei que a idéia não era lá grande coisa. :-))
O raciocínio foi o seguinte: se tenho uma variável, há 50% por cento de chance de acertar (já que ela é ou verdadeira ou falsa). Se tenho duas variáveis, então (considerando somente a tabela do conjuntor, que é o caso), só há uma possibilidade em quatro. Se são três variáveis, uma possibilidades em oito. Se há quatro variáveis, então há uma possibilidade em dezesseis, e assim por diante. Então, aplicando o raciocínio à megasena, por exemplo: eu aposto cinco palpites. A possibilidade de ocorrer aquela combinação específica (por exemplo, 2 - 7 - 12 - 21 - 46) é de 1 para 16, o que daria uma média razoável. Mas então percebi que tenho de levar em consideração o conjunto de apostas possíveis, e não somente a combinação específica que apostar, o que daria uma média infinitamente maior. Como a matemática não é meu forte, desisti da empreitada, mas ainda acho que é possível, só com a lógica, calcular de algum modo as minhas chances e, quem sabe, desistir logo da idéia de ganhar na megasena e parar de jogar dinheiro fora.
Eu avisei que a idéia não era lá grande coisa. :-))
Friday, November 10, 2006
Comedores de batata estragada
Parece brincadeira, mas não é. Relendo os Manuscritos Econômico-Filosóficos de Marx, encontrei esta observação:
"O irlandês não conhece outra necessidade senão a de comer e, mais precisamente, a de comer batatas, e para sermos mais exatos, a de comer batatas estragadas, a pior espécie de batata". (Col. Os Pensadores, p. 23).
Não duvido que uma batata estragada seja a pior espécie de batata, mas de onde terá vindo essa informação no mínimo curiosa? Já que Marx viveu - e morreu - em Londres, deve ter absorvido a opinião dos ingleses sobre os irlandeses rebeldes, que têm a grama mais verde do planeta e, claro, as batatas menos suculentas.
"O irlandês não conhece outra necessidade senão a de comer e, mais precisamente, a de comer batatas, e para sermos mais exatos, a de comer batatas estragadas, a pior espécie de batata". (Col. Os Pensadores, p. 23).
Não duvido que uma batata estragada seja a pior espécie de batata, mas de onde terá vindo essa informação no mínimo curiosa? Já que Marx viveu - e morreu - em Londres, deve ter absorvido a opinião dos ingleses sobre os irlandeses rebeldes, que têm a grama mais verde do planeta e, claro, as batatas menos suculentas.
Wednesday, November 08, 2006
Leilão de baleia
Você já pensou em ser dono de uma baleia? Ora, por que não? Querer é poder! Ou melhor, querer é poder no e-bay.
O "Mercado Livre" americano, e-bay, está leiloando os direitos sobre uma baleia. Qualquer um pode comprar, e nem é tão caro assim: com exíguos vinte dólares iniciais, você pode participar do leilão e, quem sabe, arrematar o produto. Se pensar bem, verá que suas chances são até boas. Afinal, quem quer comprar baleia hoje em dia, né?
Mas não precisa se preocupar com o lugar onde vai colocá-la. A baleia continuará no mar. Ela apenas passará a ser sua, e nenhum pescador poderá matá-la. Se acontecer de um desavisado matar sua baleia, você ainda poderá processá-lo.
E aí? Não é um bom negócio? Se a baleia continuar viva, você será responsável pela sua preservação. Se a matarem, você ainda ganha dinheiro com isso. Mas não fique muito entusiasmado. Nenhum pescador que se preze tem lá muito dinheiro, e as baleias são muito parecidas.
O "Mercado Livre" americano, e-bay, está leiloando os direitos sobre uma baleia. Qualquer um pode comprar, e nem é tão caro assim: com exíguos vinte dólares iniciais, você pode participar do leilão e, quem sabe, arrematar o produto. Se pensar bem, verá que suas chances são até boas. Afinal, quem quer comprar baleia hoje em dia, né?
Mas não precisa se preocupar com o lugar onde vai colocá-la. A baleia continuará no mar. Ela apenas passará a ser sua, e nenhum pescador poderá matá-la. Se acontecer de um desavisado matar sua baleia, você ainda poderá processá-lo.
E aí? Não é um bom negócio? Se a baleia continuar viva, você será responsável pela sua preservação. Se a matarem, você ainda ganha dinheiro com isso. Mas não fique muito entusiasmado. Nenhum pescador que se preze tem lá muito dinheiro, e as baleias são muito parecidas.
Monday, November 06, 2006
Qualificação sobrenatural
Ando assistindo ao programa "Psychic Detectives", da Discovery e fico me perguntando: se os médiuns, ou coisa que o valha, são capazes de resolver todos os crimes, que necessidade temos de detetives? Devíamos, isto sim, despedir todos os investigadores e contratar "sensitivos" para ocupar o lugar deles.
Eu só queria saber por que esses "psychics" não descobrem quem sequestrou o bebê de Livingstone, quem matou a "Princess Doe", quem foi "Jack O Estripador", e outros crimes sem solução da história. Mas já sei: é que a "energia de morte" já sumiu no espaço, o espírito já passou dessa para melhor e eles - os "psychics" - não têm como provar que estão certos.
Fazer o quê. Mas o que há de realmente insuportável nesse programa é a emoção dos sensitivos diante do fantasma do morto: "Ela está aqui agora, conosco, se despedindo de nós, agora que a justiça foi feita", e coisas do gênero.
O mais intrigante é a alegação de que há médiuns "qualificados" e falsos médiuns. O que "qualificaria" um médium? A estatística?
Seria patético, se não fosse trágico.
Eu só queria saber por que esses "psychics" não descobrem quem sequestrou o bebê de Livingstone, quem matou a "Princess Doe", quem foi "Jack O Estripador", e outros crimes sem solução da história. Mas já sei: é que a "energia de morte" já sumiu no espaço, o espírito já passou dessa para melhor e eles - os "psychics" - não têm como provar que estão certos.
Fazer o quê. Mas o que há de realmente insuportável nesse programa é a emoção dos sensitivos diante do fantasma do morto: "Ela está aqui agora, conosco, se despedindo de nós, agora que a justiça foi feita", e coisas do gênero.
O mais intrigante é a alegação de que há médiuns "qualificados" e falsos médiuns. O que "qualificaria" um médium? A estatística?
Seria patético, se não fosse trágico.
Monday, October 30, 2006
Pegadas no México
Foram encontradas 13 pegadas fossilizadas, de seres humanos, no norte do México. A estimativa é que sejam datadas de cerca de 10.000 a 15.000 anos atrás. Se esta datação for confirmada, estes serão os registros arqueológicos da presença de seres humanos mais antigos do continente. Cada pegada tem 27 cm de comprimento e 2 cm de profundidade, e estão espalhadas por cerca de 10 metros.
Wednesday, October 25, 2006
Impagável
Se você tem conhecimento de filosofia e lê em inglês, este site é impagável: "I can´t see clearly now" vira "I can´t think clearly now"; "Garota de Ipanema" vira uma brincadeira com Sócrates, "The Gadfly Athenaios"; "Take a walk at the wild side", de Lou Reed, vira "Make a talk on the Ryle side"; "My way" passa a ser "Paradoxes"; "Yesterday", dos Beatles, vira "Recherché"; "Kung-Fu Fighting" vira "Goldstein's Writing" e "Feelings", de Morris Albert, vira "Vegan".
Não deixe de ouvir.
Para ter uma idéia do que vai encontrar neste site, fiz uma tradução rápida e despretenciosa da versão de Garota de Ipanema:
Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e quando ele pergunta, todo mundo responde "hã?"
Apesar de mais parecer um sofista,
ele se preocupa com a verdade, ele se importa com a justiça,
mas quando faz perguntas, todo mundo responde "hã?"
Como posso conhecer os universais? Qual é a natureza da virtude?
A alma é imortal? É real o que você pensa que conhece?
Pergunte a Eutífron!
Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e no entanto são só perguntas...
"Hã?" "hã-hã?" "hã?" "Hã-hã-hã?" "Hã?"
"Hã-hã-hã?" "Hã?" "Hã-hã-hã?" Hã?"
"Hã-hã-hã-hhhhhããããããã, hããããã hã-hã-hã?"
só perguntas... perguntas...
Não deixe de ouvir.
Para ter uma idéia do que vai encontrar neste site, fiz uma tradução rápida e despretenciosa da versão de Garota de Ipanema:
Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e quando ele pergunta, todo mundo responde "hã?"
Apesar de mais parecer um sofista,
ele se preocupa com a verdade, ele se importa com a justiça,
mas quando faz perguntas, todo mundo responde "hã?"
Como posso conhecer os universais? Qual é a natureza da virtude?
A alma é imortal? É real o que você pensa que conhece?
Pergunte a Eutífron!
Baixinho e careca, feio e de nariz adunco,
Lá vem a mosca varejeira de Atenas fazer perguntas,
e no entanto são só perguntas...
"Hã?" "hã-hã?" "hã?" "Hã-hã-hã?" "Hã?"
"Hã-hã-hã?" "Hã?" "Hã-hã-hã?" Hã?"
"Hã-hã-hã-hhhhhããããããã, hããããã hã-hã-hã?"
só perguntas... perguntas...
Tuesday, October 24, 2006
E-books
Para quem se interessa por livros virtuais, o site ateus.net tem uma boa coleção. Veja o índice clicando no título.
Monday, October 23, 2006
Inútil fundamental
Ah, a filosofia!
Sempre tão fundamental, tão essencial, sempre "humanizadora", "humanizante" ou qualquer coisa do gênero, sempre tão necessária para que se possa pensar (sic!), ou pensar criticamente, ou radicalmente, ou qualquer coisa do gênero, sempre tão importante para não nos deixarmos levar por ideologias, fantasias, superstições, irracionalidade, erro, má-fé... e no entanto tão inútil para quem precisa se alimentar, vestir, trabalhar, se divertir, viver dignamente, ter o Vectra do ano, uma cobertura nos Jardins, uma casa na praia, viagens à Grécia, ao Egito, à Europa filosofante, ao mundo das idéias.
Tão imprescindível, claro, para que possamos enxergar paradoxos, contradições, contrasensos, ilogicidade.
Mas o maior paradoxo é ela própria hoje: tão fundamental, e tão inútil.
O mesmo se pode dizer dos filósofos.
Sempre tão fundamental, tão essencial, sempre "humanizadora", "humanizante" ou qualquer coisa do gênero, sempre tão necessária para que se possa pensar (sic!), ou pensar criticamente, ou radicalmente, ou qualquer coisa do gênero, sempre tão importante para não nos deixarmos levar por ideologias, fantasias, superstições, irracionalidade, erro, má-fé... e no entanto tão inútil para quem precisa se alimentar, vestir, trabalhar, se divertir, viver dignamente, ter o Vectra do ano, uma cobertura nos Jardins, uma casa na praia, viagens à Grécia, ao Egito, à Europa filosofante, ao mundo das idéias.
Tão imprescindível, claro, para que possamos enxergar paradoxos, contradições, contrasensos, ilogicidade.
Mas o maior paradoxo é ela própria hoje: tão fundamental, e tão inútil.
O mesmo se pode dizer dos filósofos.
Saturday, October 21, 2006
Cabeças redondas
Já ouviu falar dos "cabeças redondas"? Se não, vou apresentá-los a você. Eram aqueles sujeitos que, no parlamento inglês do século XVII, se recusavam a usar perucas. Por isso a cabeça redonda: não tinha aqueles volteios todos das perucas brancas, cheias de cachos.
Os cabeças redondas representavam a nobreza rural, puritana, desejosa de aumentar suas terras simplesmente estendendo as cercas para um pouquinho mais além, e que brigava no parlamento (sem peruca, lembre-se) para controlar o poder até então absoluto dos monarcas.
A propósito, Oliver Cromwell, líder da revolução puritana que depôs o rei Carlos I, também era um cabeça redonda. Quando a monarquia voltou ao trono na figura de Carlos II, nove anos depois, os puritanos fugiram para a América sem perucas. E fizeram o inferninho em Salém.
Os cabeças redondas representavam a nobreza rural, puritana, desejosa de aumentar suas terras simplesmente estendendo as cercas para um pouquinho mais além, e que brigava no parlamento (sem peruca, lembre-se) para controlar o poder até então absoluto dos monarcas.
A propósito, Oliver Cromwell, líder da revolução puritana que depôs o rei Carlos I, também era um cabeça redonda. Quando a monarquia voltou ao trono na figura de Carlos II, nove anos depois, os puritanos fugiram para a América sem perucas. E fizeram o inferninho em Salém.
Tuesday, October 17, 2006
Delíros de Rousseau (6): Pobreza natural
Aproveitando ainda que estou falando de Rousseau, sempre divertidíssimo, lembrei que no início do Emílio Rousseau afirma que seu jovem educando deve ser rico. O pobre não precisa de educação porque, como está mais próximo da natureza, se educa sozinho. A sua educação já é perfeita, porque o filho do pobre é criado com o pé no chão, solto, etc. Então posso dizer: o rico, ao contrário, é criado preso em casas, quartos, escolas caras. Logo, o pobre, por estar mais próximo do chão, está mais próximo da natureza (terra) de dois modos fundamentais: mora em barraco (que é mais baixo que um prédio) e vive de pé no chão (portanto, está mais sujeito a vírus, bactérias, vermes e outras cositas más que a natureza tão generosamente partilha com o homem). Para usar as palavras de Rousseau, "o pobre pode tornar-se homem por si mesmo; só o rico precisa aprender a ser homem".
Não é por nada não, mas acho que Marx diz algo parecido. :-))))
Não é por nada não, mas acho que Marx diz algo parecido. :-))))
Sunday, October 15, 2006
Delírios de Rousseau (5): Felicidade Caraíba
E já que estamos falando em Caraíbas, vamos ao Emílio, de Rousseau. Aqueles Caraíbas que são respeitados pelos animais selvagens (vide post anterior sobre o assunto), não sentem ciúme e amam docemente justamente porque não são civilizados, obviamente também são imensamente felizes. Ou pelo menos são "metade mais felizes do que nós" (Emilio I). Por que será? Rousseau explica, no mesmo parágrafo: tudo isso se deve ao fato de que as parteiras moldam a cabeça das crianças recém-nascidas e os filósofos moldam nossas cabeças já bem nascidas.
O que terá sua época pensado disso? Sinceramente, não sei. O que sei é que Rousseau é mais um filósofo a compactuar com as parteiras.
O que terá sua época pensado disso? Sinceramente, não sei. O que sei é que Rousseau é mais um filósofo a compactuar com as parteiras.
Friday, October 13, 2006
Delírios de Rousseau (4): Antídoto para o ciúme
Os séculos XVII e XVIII tiveram um interesse especial pelos nativos encontrados na América, a julgar pelo número de vezes que são citados nos textos de filosofia e pela menção ao estado de natureza. Dentre esses povos, os Caraíbas, da Venezuela, merecem destaque. Rousseau usa as observações dos naturalistas de sua época para afirmar, em algumas passagens do Segundo Discurso, que os Caraíbas são os que mais se aproximam do suposto Estado de Natureza. Isto é, são o povo menos civilizado do planeta. Por isso mesmo, diz Rousseau, são justamente o povo mais calmo nos seus amores e o menos sujeito ao ciúme (confira no Segundo Discurso).
Sendo assim, concluo eu, o ciúme está suficientemente bem explicado.
Sendo assim, concluo eu, o ciúme está suficientemente bem explicado.
Tuesday, October 10, 2006
Envie seu presente para o futuro
Sabe aquela história de guardar uma mensagem numa garrafa e jogá-la ao mar? Pois é, agora você pode guardar seu passado e seu presente para o futuro. Faça assim: descreva uma semana de sua vida em detalhes: quanto pesa, o que faz, onde trabalha, quais são suas características físicas, quais são suas preferências, os filmes a que assistiu, os livros que leu, projetos para o futuro, etc. Depois vá ao site do Yahoo! e guarde suas anotações lá, para serem abertas no ano 2020. Se der sorte, seu presente ainda pode acabar no espaço, nas mãos de um ET. O Yahoo! pretende enviar tudo para o espaço, literalmente, no dia 8 de novembro.
Saturday, October 07, 2006
Rato, queijo e Chocolate Quente
Quer ver um rato dançando em frente a um queijo em uma ratoeira? Não? Que pena; é divertido.
Mudou de idéia? Clique no título. Ao menos a gente prestigia o esforço do criador da animação.
Mudou de idéia? Clique no título. Ao menos a gente prestigia o esforço do criador da animação.
Thursday, October 05, 2006
Por que?
Ninguém pode negar que é algo inusitado a USP oferecer cursos de Latim e Grego, se levarmos em conta a crise por que estão passando as humanidades, mas estranho mesmo é que o curso de Latim tenha tido um aumento de 154% na procura, nos últimos cinco anos.
Certo, latim desenvolve o raciocínio lógico e aumenta a compreensão da língua nativa, mas em termos bem práticos, serve para ler Horácio no original, ensinar frases de efeito para advogados e... e é só.
Puxa. Por que há tão pouco interesse pela filosofia?
Sobretudo, o que nós, professores de filosofia, podemos fazer para começar a ensinar latim?
Certo, latim desenvolve o raciocínio lógico e aumenta a compreensão da língua nativa, mas em termos bem práticos, serve para ler Horácio no original, ensinar frases de efeito para advogados e... e é só.
Puxa. Por que há tão pouco interesse pela filosofia?
Sobretudo, o que nós, professores de filosofia, podemos fazer para começar a ensinar latim?
Wednesday, October 04, 2006
Criaturas Marinhas (2): Homem-peixe
Clique no título. Este homem-peixe provavelmente rendeu alguns trocados a seu criador. Ao menos é feio o bastante para parecer real.
Monday, October 02, 2006
Criaturas marinhas (1): Sereia
O tsunami de 2004 deixou algumas lembranças na praia. Clique no link e veja a sereia. Bom é que ela já veio assim, mumificada, e prontinha prá ser vendida no e-bay.
Saturday, September 30, 2006
Bonecos cartesianos
Havia, nos jardins reais da Paris do século XVII, uma espécie de Disneylândia: alguns bonecos colocados no centro de uma fonte produziam sons e respondiam à aproximação de seres humanos com movimentos dos braços, das mãos ou da cabeça, assustando os visitantes, por parecerem estar vivos. Mas estes movimentos eram, na verdade, efeito de um mecanismo muito simples: quando os visitantes se aproximavam dos bonecos para vê-los melhor, pisavam inadvertidamente em uma perda ou tabuinha que fazia o mecanismo funcionar.
Mas o que tudo isso tem a ver com Descartes?
Ele usou os bonecos do parque de diversões como modelo para descrever o corpo humano: a força das águas que emergia das fontes dos jardins reais era capaz de, sozinha, mover várias máquinas. Descartes supôs então que o corpo humano era movido também por uma espécie de sistema hidráulico: os tendões e nervos seriam o encanamento; o coração seria a fonte de água e o cérebro seria algo com um tanque de armazenamento da água. Como uma caixa d'água, entende?
A respiração seria a encarregada de manter tudo isso funcionando.
Trocando em miúdos, nossos corpos seriam basicamente líquido em movimento.
Êta raciocínio analógico!
E não é que tem lá seu sentido?
Mas o que tudo isso tem a ver com Descartes?
Ele usou os bonecos do parque de diversões como modelo para descrever o corpo humano: a força das águas que emergia das fontes dos jardins reais era capaz de, sozinha, mover várias máquinas. Descartes supôs então que o corpo humano era movido também por uma espécie de sistema hidráulico: os tendões e nervos seriam o encanamento; o coração seria a fonte de água e o cérebro seria algo com um tanque de armazenamento da água. Como uma caixa d'água, entende?
A respiração seria a encarregada de manter tudo isso funcionando.
Trocando em miúdos, nossos corpos seriam basicamente líquido em movimento.
Êta raciocínio analógico!
E não é que tem lá seu sentido?
Thursday, September 28, 2006
Maratona da natureza humana
Já dizia o sábio Thomas Hobbes:
A comparação da vida do homem com uma corrida, se bem que não possa ser sustentada ponto por ponto, resulta tão forte para o nosso propósito, que por ela se pode ao mesmo tempo ver e relembrar quase todas a paixões que mencionamos. Mas não devemos supor que esta corrida tenha outro fim, nem outra utilidade, que ir sempre adiante;
assim,
fazer esforço, é o apetite;
ser indolente, é a sensualidade;
considerar os que ficam atrás é a glória;
considerar os que estão à frente é a humildade;
perder terreno olhando para trás, a vanglória;
ser reservado, o ódio;
voltar atrás, o arrependimento;
ter fôlego, a esperança;
estar lasso, o desespero;
tentar ultrapassar o que o precede, a emulação;
suplantar ou arruinar, a inveja;
estar resolvido a passar outro numa paragem prevista, a coragem;
passar outro numa paragem imprevista, a cólera;
passar facilmente, a magnanimidade;
perder terreno em pequenos obstáculos, a pusilanimidade;
cair de repente, é a disposição para chorar;
ver um outro cair, a disposição para rir;
ver ultrapassar alguém que não queríamos que o fosse, é a piedade;
ver alguém ultrapassar quando o não queríamos, é a indignação;
manter-se muito junto dum outro, é amar;
ajudar aquele que se mantém perto, é a caridade;
ferir-se por precipitação, é a vergonha;
estar sempre ultrapassado, é a miséria;
ultrapassar sempre o que o precede, é a felicidade
abandonar a corrida, é morrer.
Thomas Hobbes, Elementos de Lei Natural e Política
A comparação da vida do homem com uma corrida, se bem que não possa ser sustentada ponto por ponto, resulta tão forte para o nosso propósito, que por ela se pode ao mesmo tempo ver e relembrar quase todas a paixões que mencionamos. Mas não devemos supor que esta corrida tenha outro fim, nem outra utilidade, que ir sempre adiante;
assim,
fazer esforço, é o apetite;
ser indolente, é a sensualidade;
considerar os que ficam atrás é a glória;
considerar os que estão à frente é a humildade;
perder terreno olhando para trás, a vanglória;
ser reservado, o ódio;
voltar atrás, o arrependimento;
ter fôlego, a esperança;
estar lasso, o desespero;
tentar ultrapassar o que o precede, a emulação;
suplantar ou arruinar, a inveja;
estar resolvido a passar outro numa paragem prevista, a coragem;
passar outro numa paragem imprevista, a cólera;
passar facilmente, a magnanimidade;
perder terreno em pequenos obstáculos, a pusilanimidade;
cair de repente, é a disposição para chorar;
ver um outro cair, a disposição para rir;
ver ultrapassar alguém que não queríamos que o fosse, é a piedade;
ver alguém ultrapassar quando o não queríamos, é a indignação;
manter-se muito junto dum outro, é amar;
ajudar aquele que se mantém perto, é a caridade;
ferir-se por precipitação, é a vergonha;
estar sempre ultrapassado, é a miséria;
ultrapassar sempre o que o precede, é a felicidade
abandonar a corrida, é morrer.
Thomas Hobbes, Elementos de Lei Natural e Política
Wednesday, September 27, 2006
Verdade apodítica?
Falando sério: se há algo que não entendo em filosofia é a tal da verdade apodítica, que prescinde de demonstração. Não faz parte do conceito de razão a demonstração? Então como posso aceitar que uma verdade autoevidente, o que quer que isso signifique, seja racional? Eu quero dizer: se o ponto de partida de toda demonstração é uma verdade indemonstrável, então o ponto de partida da razão é a não-razão.
Eu disse que não entendia. :-)))
Eu disse que não entendia. :-)))
Tuesday, September 26, 2006
Friday, September 22, 2006
Só nuvem
Disco voador? Cristo? Círculo de luz? Invasão de pernilongos? Fim do mundo? Nossa Senhora?
Nuvem.
Clique no título e confira.
Nuvem.
Clique no título e confira.
Thursday, September 21, 2006
Astrólogos encontram abrigo
A astrologia já tem um porto seguro: a Universidade de Brasília. Se você quiser fazer um curso de extensão em astrologia, ou simplesmente estudar o assunto a sério e ainda ganhar um título acadêmico para isso, agora você pode. Vá a Brasília. Mas vá logo, porque os cursos são concorridíssimos.
Não é lindo que a comunidade científica tenha finalmente aberto os olhos para esse conhecimento milenar?
Não é lindo que a comunidade científica tenha finalmente aberto os olhos para esse conhecimento milenar?
Tuesday, September 19, 2006
Democracia
Já dizia Aristóteles que o melhor governo é a aristocracia (o melhor governo é certamente o governo dos melhores).
Como a aristocracia tende a degenerar em oligarquia (o governo dos ricos), a oligarquia tende a degenerar em monarquia (porque os ricos elegem alguém para governar) e a monarquia tende a degenerar em tirania (quando o monarca governa em seu próprio interesse, e não no interesse dos governados), o melhor regime de governo acaba sendo mesmo a democracia (originalmente o governo dos pobres), porque só ela tende ao melhor.
Trocando em miúdos, por minha conta e risco: a democracia é o melhor governo porque não pode ser pior do que é. :-))
E viva o liberalismo!
Como a aristocracia tende a degenerar em oligarquia (o governo dos ricos), a oligarquia tende a degenerar em monarquia (porque os ricos elegem alguém para governar) e a monarquia tende a degenerar em tirania (quando o monarca governa em seu próprio interesse, e não no interesse dos governados), o melhor regime de governo acaba sendo mesmo a democracia (originalmente o governo dos pobres), porque só ela tende ao melhor.
Trocando em miúdos, por minha conta e risco: a democracia é o melhor governo porque não pode ser pior do que é. :-))
E viva o liberalismo!
Sunday, September 17, 2006
Eu vi jesus em Kawangware, falando Swahili
No princípio era o anúncio do reverendo: Jesus vem a Nairobi.
E então ele chegou, abençoando os quenianos em Swahili. Feito isto, Jesus pegou uma carona com um habitante de Kawangware, desceu próximo ao número 56 da rua Stage II e ali mesmo retornou aos céus em forma de estrela brilhante, que pode ser vista novamente sempre que uma tal Mary Akatsa cura os doentes.
Veja detalhes da história clicando no título. Pelo menos você saberá que a língua falada no Quênia é Swahili, que existe uma cidade chamada Kawangware e que nesta cidade existe um lugar chamado Stage.
Mas não empolgue. Você vai continuar sem entender por que, indo a Kawangware, Jesus cumpriu a profecia de que iria a Nairobi (Vai ver que Kawangware é só um bairro de Nairobi).
Não importa. O que importa é que, se ele conseguiu uma carona para ir a Kawangware, ele pode ir a qualquer lugar.
Pense nisso.
E então ele chegou, abençoando os quenianos em Swahili. Feito isto, Jesus pegou uma carona com um habitante de Kawangware, desceu próximo ao número 56 da rua Stage II e ali mesmo retornou aos céus em forma de estrela brilhante, que pode ser vista novamente sempre que uma tal Mary Akatsa cura os doentes.
Veja detalhes da história clicando no título. Pelo menos você saberá que a língua falada no Quênia é Swahili, que existe uma cidade chamada Kawangware e que nesta cidade existe um lugar chamado Stage.
Mas não empolgue. Você vai continuar sem entender por que, indo a Kawangware, Jesus cumpriu a profecia de que iria a Nairobi (Vai ver que Kawangware é só um bairro de Nairobi).
Não importa. O que importa é que, se ele conseguiu uma carona para ir a Kawangware, ele pode ir a qualquer lugar.
Pense nisso.
Friday, September 15, 2006
Coisa de grego (6): A vaia
Sabia que a vaia é grega?
Nas assembléias, quando o povo discordava do orador, ele gritava "uuuuuuuuuuuu" tão alto, que não havia alternativa ao orador senão desistir de falar.
Pois é, isso é vaia, mas esse "uuuu" significava "não". Em grego, "não" é "ouk", cuja pronúncia é um "u" longo (a consoante, fraca, quase não é pronunciada). Portanto, quando o povo gritava "uuuuuuu", estava simplesmente dizendo não.
Nas assembléias, quando o povo discordava do orador, ele gritava "uuuuuuuuuuuu" tão alto, que não havia alternativa ao orador senão desistir de falar.
Pois é, isso é vaia, mas esse "uuuu" significava "não". Em grego, "não" é "ouk", cuja pronúncia é um "u" longo (a consoante, fraca, quase não é pronunciada). Portanto, quando o povo gritava "uuuuuuu", estava simplesmente dizendo não.
Thursday, September 14, 2006
Fisiologia da loucura (1): Negros vapores da bile
Já houve tempo em que se pensava que a loucura não passava de uma reação hepática:
..."A não ser, talvez, que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaro ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria mais extravagante se me guiasse por esses exemplos." Descartes, Meditações 1:4
..."A não ser, talvez, que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaro ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria mais extravagante se me guiasse por esses exemplos." Descartes, Meditações 1:4
Wednesday, September 13, 2006
Ele está voltando
O mundo não acabou dia 12 de setembro, mas acabará em breve. Jesus está voltando. A conceituadíssima revista UFO garante em primeira mão a volta de Jesus até o Natal.
Só não entendi onde está a novidade. Jesus sempre volta na época no Natal e na Semana Santa, não é? Então.
Só não entendi onde está a novidade. Jesus sempre volta na época no Natal e na Semana Santa, não é? Então.
Sunday, September 10, 2006
Delírios de Rousseau (3): Consciência cavalar
Eu tinha me esquecido de como é divertido ler Rousseau.
A gente descobre, por exemplo, que os cavalos sentem repugnância de pisar em um ser vivo.
Antes que a gente se recupere, somos informados de que a repugnância se deve à piedade natural, responsável também por evitar que os humanos sejam monstros.
Então, trocando em miúdos: os cavalos não pisam em seres vivos porque sentem repugnância em fazê-lo, e o sentem porque são naturalmente piedosos. Sem a piedade natural, os animais seriam animais, mas os humanos seriam monstros.
Mas não se preocupe. Tirando os delírios, o que fica é genial. :-))
E viva o liberalismo!
A gente descobre, por exemplo, que os cavalos sentem repugnância de pisar em um ser vivo.
Antes que a gente se recupere, somos informados de que a repugnância se deve à piedade natural, responsável também por evitar que os humanos sejam monstros.
Então, trocando em miúdos: os cavalos não pisam em seres vivos porque sentem repugnância em fazê-lo, e o sentem porque são naturalmente piedosos. Sem a piedade natural, os animais seriam animais, mas os humanos seriam monstros.
Mas não se preocupe. Tirando os delírios, o que fica é genial. :-))
E viva o liberalismo!
Saturday, September 09, 2006
Delírios de Rousseau (2): Vacas piedosas
Já dizia Rousseau, sobre a piedade natural:
Um animal não passa sem inquietação ao lado de um animal morto de sua espécie; há até alguns que lhes dão uma espécie de sepultura, e os mugidos tristes do gado entrando no matadouro exprimem a impressão que tem do horrível espetáculo que o impressiona. (Segundo Discurso, parte 1)
Acho que as vacas do século XVIII não sentiam medo.
Um animal não passa sem inquietação ao lado de um animal morto de sua espécie; há até alguns que lhes dão uma espécie de sepultura, e os mugidos tristes do gado entrando no matadouro exprimem a impressão que tem do horrível espetáculo que o impressiona. (Segundo Discurso, parte 1)
Acho que as vacas do século XVIII não sentiam medo.
Monday, September 04, 2006
Declaração de Bolonha
Sabe o Tratado Comum Europeu e a moeda comum européia? Pois é, agora haverá a universidade comum européia. A carta de intenções é a Declaração de Bolonha, de 1999, que está sendo implantada paulatinamente.
Ao que parece, a "evasão de cérebros" do Brasil vai aumentar.
Ao que parece, a "evasão de cérebros" do Brasil vai aumentar.
Sunday, September 03, 2006
Seita de Ateus
E por falar em orgulho ateu: por que não fundar uma Seita de Ateus?
Sim, por que não?
A única regra é que todos os congregados sejam ateus praticantes. Não basta, portanto, ser-se ateu; é preciso praticar o ateísmo. Isto é, é preciso ter experiência comprovada não somente na vivência atéia mas, sobretudo, na militância atéia.
Para que não haja dúvidas sobre este preceito, que fique registrado: é preciso que o ateu tenha larga experiência (comprovada, repito) no combate não apenas às religiões, mas sobretudo a toda e qualquer idéia deísta. É preciso que o ateu militante deseje, do fundo do coração, que toda e qualquer idéia de deus seja abolida, e que toda a humanidade comungue dos mesmos ideais.
É preciso, ainda, que todo ateu tenha uma crença firme e inabalável na não-existência do inexistente e que dedique sua vida a demonstrar que a crença na existência do inexistente é uma contraditio in terminis. Ou seja, que há uma impossibilidade lógica na existência do inexistente. A ausência de prova é, neste caso, prova de ausência.
Deste primeiro preceito podemos derivar um raciocínio fundamental: não é lógico que deus exista; logo, deus não existe.
Isto, sem dúvida, é diferente de dizer que é lógico que deus exista; portanto, deve existir.
No segundo caso, a subjetividade está envolvida, enquanto o primeiro é inteiramente objetivo, posto que se apóia na lógica. Portanto, o primeiro é verdadeiro e o segundo, ilusório.
É bem verdade que nenhum ateu está planejando jogar aviões em prédios; só deístas fazem isso. Mas é bom ficarmos atentos. Paixões são sempre paixões.
Sim, por que não?
A única regra é que todos os congregados sejam ateus praticantes. Não basta, portanto, ser-se ateu; é preciso praticar o ateísmo. Isto é, é preciso ter experiência comprovada não somente na vivência atéia mas, sobretudo, na militância atéia.
Para que não haja dúvidas sobre este preceito, que fique registrado: é preciso que o ateu tenha larga experiência (comprovada, repito) no combate não apenas às religiões, mas sobretudo a toda e qualquer idéia deísta. É preciso que o ateu militante deseje, do fundo do coração, que toda e qualquer idéia de deus seja abolida, e que toda a humanidade comungue dos mesmos ideais.
É preciso, ainda, que todo ateu tenha uma crença firme e inabalável na não-existência do inexistente e que dedique sua vida a demonstrar que a crença na existência do inexistente é uma contraditio in terminis. Ou seja, que há uma impossibilidade lógica na existência do inexistente. A ausência de prova é, neste caso, prova de ausência.
Deste primeiro preceito podemos derivar um raciocínio fundamental: não é lógico que deus exista; logo, deus não existe.
Isto, sem dúvida, é diferente de dizer que é lógico que deus exista; portanto, deve existir.
No segundo caso, a subjetividade está envolvida, enquanto o primeiro é inteiramente objetivo, posto que se apóia na lógica. Portanto, o primeiro é verdadeiro e o segundo, ilusório.
É bem verdade que nenhum ateu está planejando jogar aviões em prédios; só deístas fazem isso. Mas é bom ficarmos atentos. Paixões são sempre paixões.
Friday, September 01, 2006
Dia do orgulho ateu
Proponho que o dia de hoje, primeiro de setembro, seja o Dia do Orgulho Ateu. É que já há tantos feriados religiosos, dia das mães, dos pais, das crianças, dos professores, dia da bandeira, dia do índio, dia da árvore etc etc. Por que não podemos ter também um dia do Orgulho Ateu? Afinal de contas, todo ateu que se preze tem orgulho de seu ateísmo, não é?
Então.
Então.
Thursday, August 31, 2006
Cruzes (1)
Resolvi aproveitar essa maravilha que é a internet para matar a curiosidade sobre cantores e grupos jurássicos, aqueles anteriores ao advento do clipe e do Michael Jackson.
Como seriam? Ainda vivem? Ainda gravam? Como estariam hoje?
E lá vou eu puxar todo e qualquer arquivo mpg ou avi com todo e qualquer proto-músico (a saber, os nativos das décadas de 60 e 70, particularmente).
O repertório é vastíssimo e, devo dizer, horrendo.
Encontrei o Harry Nilsson novinho, novinho, cantando (e, coitado, tentando dançar) Everybody´s talking. Achei que não era o bastante e fui procurá-lo em gravações mais novas. Encontrei uma pessoa completamente diferente (até a voz parecia ter mudado), comecei a pensar sobre o efeito do tempo no ser humano e tratei de apagar os arquivos.
Encontrei um tal Gilbert O´Sullivan, cantando Alone Again com um cabelo que dispensa uso de chapéu.
Vamos para o próximo?
Lembrei do T-Rex (quem ainda se lembrar de Marc Bolan que atire a primeira pedra) e encontrei, olhe só, Elton John em início de início de começo de carreira, fazendo a percussão do T-Rex. Vou dar um jeito de chantagear o Elton com essa informação, especialmente agora que ele é recém-casado e não vai querer que seu passado venha à tona.
Sim, dei uma olhada na banda de Gary Glitter. Parece que não havia nem proto-estilistas na década de 60.
Pulei para os anos 80 e fui atrás do Lindsay Buckingham. Não vi progresso algum.
Curiosamente, isso me lembrou o ACDC (com o Bon Scott). Jailbreak. Melhor que os outros, mas cometi o engano de empolgar e procurar outros "clipes" da banda. Encontrei o Bon Scott no palco, vestido de chapeuzinho vermelho, gata borralheira, filhinha da mamãe, sei lá, com um dente de ouro enorme. Mudei de idéia. Bobagem. Prá quê ver clipes, né? Melhor só ouvir o CD.
Mas, por falar em dente, lá estava o Dan McCafferty (Nazareth) sem alguns.
Susto mesmo eu tive ao ver pela primeira (e única) vez um clipe do Uriah Heep com o David Byron cantando The Wizard . Imagine o conjunto: calça roxa de bolinha, com um índio desenhado, jaqueta xadrez, bigode Fidel, cabelo farpado e bota branca na altura dos joelhos, com salto agulha e plataforma. Puxa. Essa fantasia deve ter custado uma nota.
Nem é preciso falar do Kiss.
No fim das contas, tudo isso tem sua síntese máxima em Tommy, a ópera-rock.
Já dizia o grande sábio Shakespeare: tudo está bem quando bem acaba.
Amém.
Como seriam? Ainda vivem? Ainda gravam? Como estariam hoje?
E lá vou eu puxar todo e qualquer arquivo mpg ou avi com todo e qualquer proto-músico (a saber, os nativos das décadas de 60 e 70, particularmente).
O repertório é vastíssimo e, devo dizer, horrendo.
Encontrei o Harry Nilsson novinho, novinho, cantando (e, coitado, tentando dançar) Everybody´s talking. Achei que não era o bastante e fui procurá-lo em gravações mais novas. Encontrei uma pessoa completamente diferente (até a voz parecia ter mudado), comecei a pensar sobre o efeito do tempo no ser humano e tratei de apagar os arquivos.
Encontrei um tal Gilbert O´Sullivan, cantando Alone Again com um cabelo que dispensa uso de chapéu.
Vamos para o próximo?
Lembrei do T-Rex (quem ainda se lembrar de Marc Bolan que atire a primeira pedra) e encontrei, olhe só, Elton John em início de início de começo de carreira, fazendo a percussão do T-Rex. Vou dar um jeito de chantagear o Elton com essa informação, especialmente agora que ele é recém-casado e não vai querer que seu passado venha à tona.
Sim, dei uma olhada na banda de Gary Glitter. Parece que não havia nem proto-estilistas na década de 60.
Pulei para os anos 80 e fui atrás do Lindsay Buckingham. Não vi progresso algum.
Curiosamente, isso me lembrou o ACDC (com o Bon Scott). Jailbreak. Melhor que os outros, mas cometi o engano de empolgar e procurar outros "clipes" da banda. Encontrei o Bon Scott no palco, vestido de chapeuzinho vermelho, gata borralheira, filhinha da mamãe, sei lá, com um dente de ouro enorme. Mudei de idéia. Bobagem. Prá quê ver clipes, né? Melhor só ouvir o CD.
Mas, por falar em dente, lá estava o Dan McCafferty (Nazareth) sem alguns.
Susto mesmo eu tive ao ver pela primeira (e única) vez um clipe do Uriah Heep com o David Byron cantando The Wizard . Imagine o conjunto: calça roxa de bolinha, com um índio desenhado, jaqueta xadrez, bigode Fidel, cabelo farpado e bota branca na altura dos joelhos, com salto agulha e plataforma. Puxa. Essa fantasia deve ter custado uma nota.
Nem é preciso falar do Kiss.
No fim das contas, tudo isso tem sua síntese máxima em Tommy, a ópera-rock.
Já dizia o grande sábio Shakespeare: tudo está bem quando bem acaba.
Amém.
Tuesday, August 29, 2006
Venha preparado para ficar
Na madrugada de 28 de abril de 1908 a casa de uma viúva de 48 anos, Belle Gunness, pegou fogo. Aparentemente, a viúva e seus três filhos haviam morrido no incêndio, mas as cinzas revelaram uma história bem diferente.
O corpo que presumivelmente seria de Belle não era compatível com o dela, e estava sem a cabeça. As crianças, três, já estavam mortas quando o incêndio começou. O caseiro e amante de Belle, Ray Lamphere, foi preso e acusado das mortes, mas a busca pela cabeça da mulher morta revelou que havia vários corpos mutilados enterrados na propriedade, alguns deles já há muitos anos.
Estima-se que Belle tenha assassinado entre 20 e 60 pessoas, em sua grande maioria homens, para receber o seguro de vida. Foram encontrados restos mortais de apenas 20 pessoas, mas as vítimas, segundo o caseiro, serviam de alimento para os animais da fazenda, o que explica não terem sido encontrados vestígios de suas passagens por lá.
Belle atraía as vítimas com um anúncio matrimonial publicado em jornais. Após o primeiro contato ela convidava a futura vítima a visitá-la, com a ressalva: venha preparado para ficar para sempre.
Belle desapareceu com todo o dinheiro que conseguira juntar; os filhos aparentemente foram mortos por ela antes do incêndio; Ray Lamphere morreu na prisão depois de confessar tê-la ajudado a matar, esquartejar e enterrar o que os porcos rejeitavam, e até hoje não entendemos muito bem essa história toda.
O corpo que presumivelmente seria de Belle não era compatível com o dela, e estava sem a cabeça. As crianças, três, já estavam mortas quando o incêndio começou. O caseiro e amante de Belle, Ray Lamphere, foi preso e acusado das mortes, mas a busca pela cabeça da mulher morta revelou que havia vários corpos mutilados enterrados na propriedade, alguns deles já há muitos anos.
Estima-se que Belle tenha assassinado entre 20 e 60 pessoas, em sua grande maioria homens, para receber o seguro de vida. Foram encontrados restos mortais de apenas 20 pessoas, mas as vítimas, segundo o caseiro, serviam de alimento para os animais da fazenda, o que explica não terem sido encontrados vestígios de suas passagens por lá.
Belle atraía as vítimas com um anúncio matrimonial publicado em jornais. Após o primeiro contato ela convidava a futura vítima a visitá-la, com a ressalva: venha preparado para ficar para sempre.
Belle desapareceu com todo o dinheiro que conseguira juntar; os filhos aparentemente foram mortos por ela antes do incêndio; Ray Lamphere morreu na prisão depois de confessar tê-la ajudado a matar, esquartejar e enterrar o que os porcos rejeitavam, e até hoje não entendemos muito bem essa história toda.
Sunday, August 27, 2006
Lá vem o fim do mundo
Um terço da população mundial desaparecerá no dia 12 de setembro de 2006.
Daqui a duas semanas, portanto.
Este evento - a destruição de um terço da população mundial em uma guerra nuclear - marcará o início do fim do mundo.
Isto é o que diz o novo louco de plantão, o biblista Yisrayl Hawkins.
A vantagem desta profecia é que a gente não precisa esperar muito prá ver acontecer.
Daqui a duas semanas, portanto.
Este evento - a destruição de um terço da população mundial em uma guerra nuclear - marcará o início do fim do mundo.
Isto é o que diz o novo louco de plantão, o biblista Yisrayl Hawkins.
A vantagem desta profecia é que a gente não precisa esperar muito prá ver acontecer.
Saturday, August 26, 2006
Caridade contraditória
Em suas Confissões Agostinho faz uma análise interessantíssima do sentimento de compaixão:
Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz, todavia aquele que fraternalmente é misericordioso preferiria que nenhuma dor houvesse de que se compadecesse. Se a benevolência fosse malévola - o que é impossível -, poderia aquele que verdadeira e sinceramente se inclina aos sentimentos de compaixão desejar que houvesse infelizes para se compadecer." Livro III, 2, 3.
Se entendi, a idéia fundamental é que a caridade é uma coisa muita estranha, porque é preciso que haja infelicidade alheia para que possamos nos condoer dela.
No fim, como toda filosofia cristã que se preze, salvam-se todos (sobreviventes, mortos e feridos), mas fica a percepção, genial, de que a compaixão sempre carrega consigo uma certa satisfação por estarmos em condição de senti-la.
Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz, todavia aquele que fraternalmente é misericordioso preferiria que nenhuma dor houvesse de que se compadecesse. Se a benevolência fosse malévola - o que é impossível -, poderia aquele que verdadeira e sinceramente se inclina aos sentimentos de compaixão desejar que houvesse infelizes para se compadecer." Livro III, 2, 3.
Se entendi, a idéia fundamental é que a caridade é uma coisa muita estranha, porque é preciso que haja infelicidade alheia para que possamos nos condoer dela.
No fim, como toda filosofia cristã que se preze, salvam-se todos (sobreviventes, mortos e feridos), mas fica a percepção, genial, de que a compaixão sempre carrega consigo uma certa satisfação por estarmos em condição de senti-la.
Friday, August 25, 2006
A empresa de Cristo
Um recurso dos mais comuns no trato de uma idéia particular em livros de auto-ajuda, psicologia, marketing e administração, é o de relacioná-la com alguma figura real ou mitológica.
Deve ser para dar um toque de originalidade ao trabalho.
Enfim.
Um tal Bob Briner, veterano da prática, horrorizou: foi buscar logo a figura mais importante dos últimos dois mil anos para defender um modelo de administração de empresas, e escreveu Os Métodos de Administração de Jesus. A premissa básica é que a empresa continua ativa após dois mil anos. Logo, só pode ser boa.
O que Briner esqueceu de dizer é que o dono da empresa morreu por causa dela; um de seus executivos vendeu a alma ao capeta; dois dos remanescentes brigaram pela presidência, o que resultou em divisão interna e um outro remanescente nem mesmo acreditava que a empresa fosse tão boa assim. Ou seja, nunca vestiu a camisa.
Ah, tá. O que importa é a empresa, não os executivos. Entendi.
Deve ser para dar um toque de originalidade ao trabalho.
Enfim.
Um tal Bob Briner, veterano da prática, horrorizou: foi buscar logo a figura mais importante dos últimos dois mil anos para defender um modelo de administração de empresas, e escreveu Os Métodos de Administração de Jesus. A premissa básica é que a empresa continua ativa após dois mil anos. Logo, só pode ser boa.
O que Briner esqueceu de dizer é que o dono da empresa morreu por causa dela; um de seus executivos vendeu a alma ao capeta; dois dos remanescentes brigaram pela presidência, o que resultou em divisão interna e um outro remanescente nem mesmo acreditava que a empresa fosse tão boa assim. Ou seja, nunca vestiu a camisa.
Ah, tá. O que importa é a empresa, não os executivos. Entendi.
Thursday, August 24, 2006
Google Books Brasil
A quem interessar possa: o Google Books, um sistema de buscas que permite visualizar trechos de livros, já tem uma interface brasileira.
Fui testar, é claro, e pesquisei "Capitu". Se não encontrasse a mulher mais famosa da literatura brasileira, melhor esperar seis meses para pesquisar novamente. Mas não. Há entradas em português, inglês e francês para "Capitu".
Daí pesquisei "Protagoras" e encontrei o diálogo de Platão. Resolvi abusar e testei "Philostratus". Não é que tem?
Recomendo.
Para se informar melhor:
http://info.abril.com.br/aberto/infonews/082006/23082006-12.shl
Fui testar, é claro, e pesquisei "Capitu". Se não encontrasse a mulher mais famosa da literatura brasileira, melhor esperar seis meses para pesquisar novamente. Mas não. Há entradas em português, inglês e francês para "Capitu".
Daí pesquisei "Protagoras" e encontrei o diálogo de Platão. Resolvi abusar e testei "Philostratus". Não é que tem?
Recomendo.
Para se informar melhor:
http://info.abril.com.br/aberto/infonews/082006/23082006-12.shl
Wednesday, August 23, 2006
Curso de milagres
E por falar em milagres, se você está pensando em se candidatar a Madre Tereza de Calcutá, São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Januário, São Jorge etc. etc., a hora é esta.
Não perca mais tempo na vida. Invista agora em seu futuro fazendo o Curso em Milagres. Venha estudar milagres conosco e seja um em um milhão.
A primeira parcela é gratuita.
Aproveite a chance e ganhe um desconto de 50% na primeira mensalidade.
Venha!
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Venha!
Monday, August 21, 2006
Ho-ra do lei-ti-nhooo...
Shiva aprecia um leitinho quente.
Clique no título e veja a foto: parece o Alien, mas é apenas Shiva (ou Buda, sei lá) bebendo leite. Ou melhor, é apenas uma estátua de Shiva/Buda que, surpreendentemente, gosta de leite.
Prá resumir, a coisa toda funciona assim:
1. as câmeras de TV são ligadas;
2. serve-se leite para as estátuas em uma colher;
3. as câmeras de TV continuam ligadas;
4. o leite desaparece;
5. as câmeras de TV focalizam as colheres vazias;
6. as câmeras de TV mostram o espanto nos rostos dos espectadores.
Conclusão óbvia?
Shiva gosta de leite e bebe tudo tudo.
Clique no título e veja a foto: parece o Alien, mas é apenas Shiva (ou Buda, sei lá) bebendo leite. Ou melhor, é apenas uma estátua de Shiva/Buda que, surpreendentemente, gosta de leite.
Prá resumir, a coisa toda funciona assim:
1. as câmeras de TV são ligadas;
2. serve-se leite para as estátuas em uma colher;
3. as câmeras de TV continuam ligadas;
4. o leite desaparece;
5. as câmeras de TV focalizam as colheres vazias;
6. as câmeras de TV mostram o espanto nos rostos dos espectadores.
Conclusão óbvia?
Shiva gosta de leite e bebe tudo tudo.
Sunday, August 20, 2006
Nefelibata (12): Cirrustratus
Se você é um alegre Cirrostratus, as nuvens formavam, no momento de seu nascimento, uma camada fina e branca de cristais de gelo. A posição de Cirrus na casa 4 de Stratus, em conjunção de Nimbos com Stratus na casa 6, em quadratura com Cumulonimbus, sugere um temperamento supersensível, que atrai os estados emocionais das pessoas à volta. Em vista disso, o nativo de Cirrustratus é enérgico e independente. Adora ter a atenção dos outros e de brilhar. Sua poderosa vontade confere-lhe capacidade de mando e não admite ser contrariado. Seu orgulho, passionalidade e individualidade criam-lhe atritos. Sua forte natureza psíquica torna-o muito emotivo e magnético e a intensidade com que se dedica aos assuntos que lhe interessam levam-no a ser criativo em meditação transcendental, ginástica, yoga e política.
Sol em Cirrus
Lua em Stratus
Ascendente em Cumulus
Sol em Cirrus
Lua em Stratus
Ascendente em Cumulus
Thursday, August 17, 2006
Celebridade instantânea
Você não conhece o Jeremias? Como assim?
Não conhece mesmo? Então vou te apresentar.
Jeremias é um bebum que volta e meia é preso pela polícia de Caruaru, Pernambuco. Já virou figura folclórica e celebridade instantânea. Daqui a pouco será contratado pela Globo para fazer um bêbado na novela das oito. Quer apostar?
Não conhece mesmo? Então vou te apresentar.
Jeremias é um bebum que volta e meia é preso pela polícia de Caruaru, Pernambuco. Já virou figura folclórica e celebridade instantânea. Daqui a pouco será contratado pela Globo para fazer um bêbado na novela das oito. Quer apostar?
Monday, August 14, 2006
Cavalos, mulheres ou cachorros
Não vou falar sobre cavalos, mulheres ou cachorros. Só quero contar que o velho Schopenhauer, filósofo do século XIX, morava em uma pensão, muito provavelmente para fazer jus à sua fama de bom comerciante, em companhia de um cãozinho poodle (o jovem Schopenhauer).
Todas as noites, sentava-se silenciosamente em uma mesa de canto, em um restaurante e, antes da refeição, colocava uma moeda à sua frente. Ao sair, recolhia a moeda, sem dizer nada.
Alguém não resistiu à curiosidade. Do que se tratava aquele hábito tão estranho?
"É uma aposta que faço comigo mesmo", respondeu Schopenhauer. "No dia em que os soldados que sempre vêm aqui jantar falarem de outra coisa que não seja cavalo, mulher ou cachorro, esta moeda irá para a caixa de coleta de esmola".
A moeda continuou no bolso do paletó.
Todas as noites, sentava-se silenciosamente em uma mesa de canto, em um restaurante e, antes da refeição, colocava uma moeda à sua frente. Ao sair, recolhia a moeda, sem dizer nada.
Alguém não resistiu à curiosidade. Do que se tratava aquele hábito tão estranho?
"É uma aposta que faço comigo mesmo", respondeu Schopenhauer. "No dia em que os soldados que sempre vêm aqui jantar falarem de outra coisa que não seja cavalo, mulher ou cachorro, esta moeda irá para a caixa de coleta de esmola".
A moeda continuou no bolso do paletó.
Friday, August 11, 2006
Greta Garbo, quem diria
E não é que Aquiles, o destemido, invulnerável (exceto pelo calcanhar), corajoso, forte etc e tal, se vestiu de mulher para fugir do alistamento militar?
Quem diria...
Mas vamos lá, conceder um pouco de razão ao herói: é que sua mãe, a deusa Tétis, o avisou de que ele morreria na guerra contra a cidade de Tróia e aconselhou o filho a não se alistar. Aquiles prontamente obedeceu: vestiu-se de mulher e escondeu-se em meio às moçoilas.
Ulisses desconfiou da artimanha. Para encontrar o fujão, fingiu-se de mercador e observou o comportamento das jovens: todas queriam comprar penduricalhos e bugigangas; só uma estava interessada nas armas.
Ei-lo.
O resultado é que Aquiles morreu ao final da guerra, como havia predito sua mãe.
Quem diria...
Mas vamos lá, conceder um pouco de razão ao herói: é que sua mãe, a deusa Tétis, o avisou de que ele morreria na guerra contra a cidade de Tróia e aconselhou o filho a não se alistar. Aquiles prontamente obedeceu: vestiu-se de mulher e escondeu-se em meio às moçoilas.
Ulisses desconfiou da artimanha. Para encontrar o fujão, fingiu-se de mercador e observou o comportamento das jovens: todas queriam comprar penduricalhos e bugigangas; só uma estava interessada nas armas.
Ei-lo.
O resultado é que Aquiles morreu ao final da guerra, como havia predito sua mãe.
Wednesday, August 09, 2006
A utilidade da justiça
Na República de Platão (I, 333c), Sócrates pergunta a Glauco:
- Quando é que, sendo preciso fazer uso de ouro ou prata em comum, o justo será mais útil do que os outros?
E Glauco responde, com grande sabedoria:
- Quando se tratar de fazer um depósito que fique a salvo, ó Sócrates.
É vero...
- Quando é que, sendo preciso fazer uso de ouro ou prata em comum, o justo será mais útil do que os outros?
E Glauco responde, com grande sabedoria:
- Quando se tratar de fazer um depósito que fique a salvo, ó Sócrates.
É vero...
Monday, August 07, 2006
Nefelibatas em perigo
Estou preocupada. Plutão não é mais planeta. Foi rebaixado. O que será de nós, pobres Nefelibatas, que dependemos dele para saber a exata configuração do céu no momento dos nascimentos?
Já sei: é só apelar para o simbólico e dizer que a "geografia" do céu pouco importa; o que importa é o que significa. Mesmo que a gente tenha defendido sempre que o significado depende da "geografia", não se preocupe. As pessoas têm memória curtíssima e uma boa vontade extraordinária. Vai dar tudo certo.
Já sei: é só apelar para o simbólico e dizer que a "geografia" do céu pouco importa; o que importa é o que significa. Mesmo que a gente tenha defendido sempre que o significado depende da "geografia", não se preocupe. As pessoas têm memória curtíssima e uma boa vontade extraordinária. Vai dar tudo certo.
Saturday, August 05, 2006
Coitado...
Parece que conseguiram capturar e matar um Chupa-Cabra.
É claro, coisas assim não acontecem em qualquer lugar: só podia ser nos Estados Unidos, a terra do Pé Grande, do Jesus da Batata Frita, da Maria do Sanduíche, do Elvis e, claro, do Michael Jackson. Em terra assim tão fértil, Chupa-Cabra deve ser lugar-comum.
Pois é. Acharam e mataram o bichim, que agora vai ter o DNA examinado. Supõe-se que seja um animal híbrido, o resultado de uma mistura entre coiotes, cães selvagens e hienas. Estranhíssimo, mas não tem importância. O que importa é que todos os adoradores de esquisitices podem rir por último: elas existem.
É claro, coisas assim não acontecem em qualquer lugar: só podia ser nos Estados Unidos, a terra do Pé Grande, do Jesus da Batata Frita, da Maria do Sanduíche, do Elvis e, claro, do Michael Jackson. Em terra assim tão fértil, Chupa-Cabra deve ser lugar-comum.
Pois é. Acharam e mataram o bichim, que agora vai ter o DNA examinado. Supõe-se que seja um animal híbrido, o resultado de uma mistura entre coiotes, cães selvagens e hienas. Estranhíssimo, mas não tem importância. O que importa é que todos os adoradores de esquisitices podem rir por último: elas existem.
Thursday, August 03, 2006
Os filósofos e os porcos espinhos
Já dizia Schopenhauer (no Mundo como Vontade e Representação, livro IV) que os seres humanos são como porcos espinhos: o frio do inverno os obriga a se juntar para se aquecer, mas mal se aproximam e já se afastam novamente, cheios de dores e feridas provocadas pelo contato.
Tuesday, August 01, 2006
Poeira das estrelas
Prá quem não viu ou quer ver de novo o primeiro episódio da série "Poeira das Estrelas", do Marcelo Gleiser.
Sunday, July 30, 2006
Delírios de Rousseau (1): Nobres animais
Já dizia Jean-Jacques Rousseau:
"Aí estão, sem dúvida, os motivos pelos quais os negros e os selvagens dão tão pouca importância aos animais ferozes que possam encontrar nos bosques. Os caraíbas da Venezuela, entre outros, vivem, a esse respeito, na mais profunda segurança e sem o menor inconveniente. Embora vivam quase nus, diz François Correal, não deixam de corajosamente expor-se nas matas, armados unicamente de flecha e arco. Jamais se ouviu falar, no entanto, que alguns deles tenham sido devorados pelos animais." [Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, 1a. parte].
Sei não, mas acho que ele pensava que os animais selvagens respeitam a coragem.
Será?
"Aí estão, sem dúvida, os motivos pelos quais os negros e os selvagens dão tão pouca importância aos animais ferozes que possam encontrar nos bosques. Os caraíbas da Venezuela, entre outros, vivem, a esse respeito, na mais profunda segurança e sem o menor inconveniente. Embora vivam quase nus, diz François Correal, não deixam de corajosamente expor-se nas matas, armados unicamente de flecha e arco. Jamais se ouviu falar, no entanto, que alguns deles tenham sido devorados pelos animais." [Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, 1a. parte].
Sei não, mas acho que ele pensava que os animais selvagens respeitam a coragem.
Será?
Thursday, July 27, 2006
Bordeline
Diógenes Laércio conta que, quando o filho de um tal Crates atingiu a idade adulta, o pai o levou a um bordel e lhe disse: "foi assim que me casei".
O que isso pode significar?
O que isso pode significar?
Wednesday, July 26, 2006
Não alimente o troll
Um troll é alguém que entra em uma comunidade online e envia mensagens ofensivas, rudes ou repetitivas apenas para irritar e atrapalhar o andamento das discussões. O troll é o indivíduo que participa de discussões com o objetivo de gerar o caos. Se você responder às provocações ou tentar chamá-lo à razão, estará somente alimentando o círculo vicioso: o troll diz que você é um troll, você reage, ele usa sua reação para mostrar que tem razão, e assim por diante. O melhor a fazer é ignorar.
Monday, July 24, 2006
Escola de Escravos
Li na Ética a Nicômaco, de Aristóteles (I,1), que em Siracusa um preceptor abriu uma escola para ensinar, sob pagamento, as crianças a serem escravas. Fiquei imaginando como é que uma coisa assim pode funcionar. É claro que o dono do escravo teria de pagar para que ele aprendesse o ofício que lhe seria destinado, mas o escravo não aprendia o ofício com os mais velhos, sem custo algum para o dono? Então. Acho que essa escola fechou logo que abriu.
Friday, July 21, 2006
Universalizável
Recebi por e-mail:
Um pescador estava tomando cuidado de vários cestos de caranguejos vivos. Quase todos tinham tampa, com exceção de um. Um comprador parou e perguntou porque apenas aquele cesto não tinha tampa: "É que são caranguejos brasileiros." - respondeu o pescador. "Quando um está subindo, os outros puxam para baixo..."
Acho que há um engano aí. Estamos falando de ser humano, e não apenas de brasileiros.
Um pescador estava tomando cuidado de vários cestos de caranguejos vivos. Quase todos tinham tampa, com exceção de um. Um comprador parou e perguntou porque apenas aquele cesto não tinha tampa: "É que são caranguejos brasileiros." - respondeu o pescador. "Quando um está subindo, os outros puxam para baixo..."
Acho que há um engano aí. Estamos falando de ser humano, e não apenas de brasileiros.
Tuesday, July 18, 2006
Morro de pena
Estava assistindo, outro dia, a um documentário do NetGeo sobre fobias e fiquei muito espantada ao descobrir que uma mulher tem fobia de pena de ave.
Isso mesmo, pena. Não pássaros, mas sim penas.
Como é que pode?
Eu sei que fobia é exatamente medo irracional, mas isso é demais, né não?
Se fosse medo de baratas, vá lá. Afinal, baratas são animais horrendos, estão vivas e atacam seres humanos, mas de onde poderia vir um medo tão absolutamente irracional de penas de aves? O que há nelas para se temer?
Sobretudo, o que terá acontecido durante a infância dessa pobre criatura?
Isso mesmo, pena. Não pássaros, mas sim penas.
Como é que pode?
Eu sei que fobia é exatamente medo irracional, mas isso é demais, né não?
Se fosse medo de baratas, vá lá. Afinal, baratas são animais horrendos, estão vivas e atacam seres humanos, mas de onde poderia vir um medo tão absolutamente irracional de penas de aves? O que há nelas para se temer?
Sobretudo, o que terá acontecido durante a infância dessa pobre criatura?
Friday, July 14, 2006
Confesso que li
A essência do uno é ser uma espécie de ponto de partida do número; com efeito, a primeira medida é um ponto de partida, porque o nosso instrumento inicial de obtenção de conhecimento de uma coisa é a primeira medida de cada classe de objetos; o uno, então, é o ponto de partida do que é cognoscível no tocante a cada coisa particular. A unidade, porém, não é a mesma em todas as classes, uma vez que numa é o quarto de intervalo, ao passo que numa outra é a vogal ou a consoante. E há uma outra unidade para a gravidade e uma outra para o movimento. Mas em todos os casos a unidade é indivisível, seja do ponto de vista da quantidade, seja daquele da espécie (isto é, formalmente). Deste modo, aquilo que é quantitativamente, e enquanto quantitativo totalmente indivisível, e é destituído de posição, é chamado de unidade; e aquilo que é totalmente indivisível e tem posição, é chamado de ponto; aquilo que é divisível simplesmente, de linha, duplamente, de plano, e o que é quantitativamente divisível triplamente de corpo. E, invertendo-se a ordem, aquilo que é divisível duplamente é um plano, divisível simplesmente uma linha, enquanto aquilo que não é, de modo algum, quantitativamente divisível é um ponto ou uma unidade: não tendo posição, uma unidade e a tendo, um ponto.
Aristóteles, Metafísica V (e).
Aristóteles, Metafísica V (e).
Monday, July 10, 2006
Friday, July 07, 2006
Coisa de grego (5): Protagonismo
Quem é o protagonista da novela das oito? E da novela das sete? E da novela das seis?
A rigor, teríamos de rever os primeiros capítulos para saber.
É que protagonista vem de proto (primeiro, origem) e agon (conflito). As disputas verbais entre as personagens constituía a base do teatro grego clássico. Protagonista (ou protoagon) era simplesmente o primeiro a falar, na disputa verbal. Por ser o primeiro a falar (ou entrar em cena), o protagonista gerava ou apresentava o conflito que dava sentido à peça e, por isso, podia ser considerado a personagem principal. Daí o sentido que lhe damos hoje.
A rigor, teríamos de rever os primeiros capítulos para saber.
É que protagonista vem de proto (primeiro, origem) e agon (conflito). As disputas verbais entre as personagens constituía a base do teatro grego clássico. Protagonista (ou protoagon) era simplesmente o primeiro a falar, na disputa verbal. Por ser o primeiro a falar (ou entrar em cena), o protagonista gerava ou apresentava o conflito que dava sentido à peça e, por isso, podia ser considerado a personagem principal. Daí o sentido que lhe damos hoje.
Tuesday, July 04, 2006
Achamos um elo perdido
Foram encontrados, em 2004, no Canadá, fósseis de animais que supostamente seriam o elo entre os animais terrestres e os peixes. Estes animais, de cerca de 383 milhões de anos, seriam semelhantes a crocodilos, mas com barbatanas. Os cientistas acreditam que sejam de uma espécie intermediária entre os animais aquáticos e os anfíbios.
Vamos ter de esperar passar o entusiasmo para que a descoberta seja avaliada com maior isenção, mas, se for como os cientistas estão dizendo, os evolucionistas têm mesmo muito o que comemorar.
Vamos ter de esperar passar o entusiasmo para que a descoberta seja avaliada com maior isenção, mas, se for como os cientistas estão dizendo, os evolucionistas têm mesmo muito o que comemorar.
Monday, July 03, 2006
Fogo sagrado
Jesus está de volta, e em grande estilo. Desta vez, deixou marcas de dedos nos braços de um fiel.
Em 9 de novembro de 1994 um tal Raymond, recém-chegado em um monastério, acendou cinco velas e começou a rezar. De repente, sentiu que havia alguma mudança no ambiente: o vento ficou mais forte, a temperatura começou a subir e as chamas das cinco velas pararam de se mover, embora continuassem queimando. Então Raymond sentiu como se estivesse sendo transportado da escuridão para uma luz intensa, e retornou ao mundo real após quatro horas, com marcas de queimadura no braço direito em formato de cinco dedos (veja a foto no site). Desde então a experiência tem se repetido com frequência. A julgar pela história, Cristo pretende queimar o braço de Raymond sempre que tiver algo a dizer. Mas tudo bem. Raymond gosta e ainda está ficando famoso.
Em 9 de novembro de 1994 um tal Raymond, recém-chegado em um monastério, acendou cinco velas e começou a rezar. De repente, sentiu que havia alguma mudança no ambiente: o vento ficou mais forte, a temperatura começou a subir e as chamas das cinco velas pararam de se mover, embora continuassem queimando. Então Raymond sentiu como se estivesse sendo transportado da escuridão para uma luz intensa, e retornou ao mundo real após quatro horas, com marcas de queimadura no braço direito em formato de cinco dedos (veja a foto no site). Desde então a experiência tem se repetido com frequência. A julgar pela história, Cristo pretende queimar o braço de Raymond sempre que tiver algo a dizer. Mas tudo bem. Raymond gosta e ainda está ficando famoso.
Saturday, July 01, 2006
Nefelibata (11): Cumulonimbus
Prosseguindo em nossa jornada de apresentação dos signos nefelibatas
(aqueles que são orientados pela posição das nuvens no céu no momento do nascimento), passemos agora ao penúltimo signo: o Cumulonimbus.
As nuvens Cumulonimbus são altas, espalhadas no céu, às vezes assumindo o formato de uma bigorna. Associam-se a chuvas fortes, raios, granizo e tornados. Portanto, se você é um nativo desta nuvem, evite más companhias e cuide bem de suas finanças, pois você tende a ter problemas mundanos relacionados a dinheiro, especialmente a convicção de que, se não gastá-lo, ele terá valor. Será melhor simplesmente deixar passar uma semana ou duas antes de começar a guardar dinheiro, Cumulonimbus. Normalmente você não é de deixar nada para o dia seguinte, mas pondere sobre o benefício que advirá de uma atitude paciente: você passará duas semanas gastando tudo o que tem. Depois, é só deixar que a sua natureza otimista se encarregue do resto: minimize a crise financeira considerando que você já tem quase tudo de que precisa e não terá mais que guardar dinheiro.
Alerta de trânsito
Entre os dias 01/07 (hoje) e 14/07, a nuvem Cirrus estará transitando pela sua quarta casa nefelibata, em oposição a Stratus. Este é o momento certo para ficar em casa. Momento propício também para viagens. Grande satisfação e realização pessoal podem ser encontradas na arrumação do quarto. Sobretudo, não se leve muito a sério, Cumulonimbus. Este é a regra número um do manual do bom e sábio nefelibata: não perca a grande chance de não se levar a sério deixando para amanhã o que poderia ser feito hoje.
(aqueles que são orientados pela posição das nuvens no céu no momento do nascimento), passemos agora ao penúltimo signo: o Cumulonimbus.
As nuvens Cumulonimbus são altas, espalhadas no céu, às vezes assumindo o formato de uma bigorna. Associam-se a chuvas fortes, raios, granizo e tornados. Portanto, se você é um nativo desta nuvem, evite más companhias e cuide bem de suas finanças, pois você tende a ter problemas mundanos relacionados a dinheiro, especialmente a convicção de que, se não gastá-lo, ele terá valor. Será melhor simplesmente deixar passar uma semana ou duas antes de começar a guardar dinheiro, Cumulonimbus. Normalmente você não é de deixar nada para o dia seguinte, mas pondere sobre o benefício que advirá de uma atitude paciente: você passará duas semanas gastando tudo o que tem. Depois, é só deixar que a sua natureza otimista se encarregue do resto: minimize a crise financeira considerando que você já tem quase tudo de que precisa e não terá mais que guardar dinheiro.
Alerta de trânsito
Entre os dias 01/07 (hoje) e 14/07, a nuvem Cirrus estará transitando pela sua quarta casa nefelibata, em oposição a Stratus. Este é o momento certo para ficar em casa. Momento propício também para viagens. Grande satisfação e realização pessoal podem ser encontradas na arrumação do quarto. Sobretudo, não se leve muito a sério, Cumulonimbus. Este é a regra número um do manual do bom e sábio nefelibata: não perca a grande chance de não se levar a sério deixando para amanhã o que poderia ser feito hoje.
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