Descartes: Seria impossível pensar no vazio sem incorrer em algum erro.
É vero.
Wednesday, October 05, 2005
Tuesday, October 04, 2005
Lizzie Borden
Tente resolver este mistério.
1892. Um comerciante abastado, mas sovina, vive em um sobrado com as duas filhas do casamento anterior e a atual mulher, com quem as filhas não se dão. Além deles, há a empregada e o cunhado que eventualmente se hospeda na casa.
Como fazia costumeiramente, o comerciante saiu para o trabalho de manhãzinha no dia 4 de agosto daquele ano. Logo após, a filha mais velha saiu para visitar uma amiga, em um bairro distante. Pouco depois o cunhado também saía.
Ficaram na casa, naquela manhã, a filha mais nova, Lizzie, a esposa e a empregada. Quando retornou à casa para almoçar, o homem foi morto a machadadas. Há cerca de uma hora sua mulher encontrava-se morta, também a machadadas, em um dos quartos.
A empregada passara a manhã fora da casa, lavando as janelas. Não ouvira coisa alguma, não vira coisa alguma.
A filha mais nova passara a manhã dentro do quarto. Também não ouvira coisa alguma e não vira coisa alguma.
Ambas não tinham vestígios de sangue nas roupas, ou qualquer outro indício de envolvimento nos assassinatos.
Os vizinhos não ouviram nada.
Lizzie Borden foi acusada das mortes, julgada e inocentada por falta de provas.
O que teria acontecido?
.....
Detalhes do novo filme sobre o tema em http://www.imdb.com/title/tt0819363/
1892. Um comerciante abastado, mas sovina, vive em um sobrado com as duas filhas do casamento anterior e a atual mulher, com quem as filhas não se dão. Além deles, há a empregada e o cunhado que eventualmente se hospeda na casa.
Como fazia costumeiramente, o comerciante saiu para o trabalho de manhãzinha no dia 4 de agosto daquele ano. Logo após, a filha mais velha saiu para visitar uma amiga, em um bairro distante. Pouco depois o cunhado também saía.
Ficaram na casa, naquela manhã, a filha mais nova, Lizzie, a esposa e a empregada. Quando retornou à casa para almoçar, o homem foi morto a machadadas. Há cerca de uma hora sua mulher encontrava-se morta, também a machadadas, em um dos quartos.
A empregada passara a manhã fora da casa, lavando as janelas. Não ouvira coisa alguma, não vira coisa alguma.
A filha mais nova passara a manhã dentro do quarto. Também não ouvira coisa alguma e não vira coisa alguma.
Ambas não tinham vestígios de sangue nas roupas, ou qualquer outro indício de envolvimento nos assassinatos.
Os vizinhos não ouviram nada.
Lizzie Borden foi acusada das mortes, julgada e inocentada por falta de provas.
O que teria acontecido?
.....
Detalhes do novo filme sobre o tema em http://www.imdb.com/title/tt0819363/
Monday, October 03, 2005
Lana caprina
Encontrei um problema absolutamente irrelevante: saber de onde vêm os buracos dos queijos.
Esta é uma questão metafísica que ainda não estou apta a responder, mas já sei que eles são resultado empírico, digamos assim, da atuação de uma bactéria chamada propionibacteria.
No meio do caminho, descobri que "turofilia" significa apreço ao queijo e "turofobia" se refere ao medo de queijo. Será possível?
Esta é uma questão metafísica que ainda não estou apta a responder, mas já sei que eles são resultado empírico, digamos assim, da atuação de uma bactéria chamada propionibacteria.
No meio do caminho, descobri que "turofilia" significa apreço ao queijo e "turofobia" se refere ao medo de queijo. Será possível?
Saturday, October 01, 2005
Cadê o mar?
Aristóteles, filósofo grego, tinha um argumento muito interessante para provar que a terra é imóvel: um carro de boi, ou coisa que o valha, ao passar por uma poça de lama, espalha a água que carrega com o movimento. Ora, a terra é redonda, como a roda. Logo, se a terra se movesse (novamente, como a roda ao passar pela poça de lama), espirraria a água do mar pelo espaço. Como não há água voando sem rumo pelo céu, é certo que a terra não se move.
Friday, September 30, 2005
Construindo pirâmides
Já imaginou tudo o que envolvia a construção de uma pirâmide, no Egito Antigo? O jogo linkado no título nos dá uma boa idéia do processo.
Você terá de escolher a localização da pirâmide, o material a ser utilizado, o tipo de estrutura, o número de escravos, arquitetos, oficiais etc, etc.
Especialmente interessante é a orientação pelas estrelas.
Aproveite para aprender também a mumificar em http://www.bbc.co.uk/history/ancient/egyptians/mummy_maker_game.shtml
Você terá de escolher a localização da pirâmide, o material a ser utilizado, o tipo de estrutura, o número de escravos, arquitetos, oficiais etc, etc.
Especialmente interessante é a orientação pelas estrelas.
Aproveite para aprender também a mumificar em http://www.bbc.co.uk/history/ancient/egyptians/mummy_maker_game.shtml
Thursday, September 29, 2005
Reação de Maillard
Por que choramos ao cortar cebolas?
O químico Emiliano Chemello explica. Se entendi, o responsável pela choradeira é um tal propanotial-S-óxido, mas o melhor de tudo é a solução: um tiocomposto. No caso, uma cebola transgênica.
Tudo bem, entendi. Mas não é muito mais fácil, digamos, não olhar? Ou dispensar logo a cebola e substituir por um daqueles copinhos de tempero pronto?
O químico Emiliano Chemello explica. Se entendi, o responsável pela choradeira é um tal propanotial-S-óxido, mas o melhor de tudo é a solução: um tiocomposto. No caso, uma cebola transgênica.
Tudo bem, entendi. Mas não é muito mais fácil, digamos, não olhar? Ou dispensar logo a cebola e substituir por um daqueles copinhos de tempero pronto?
Wednesday, September 28, 2005
Liberdade sub-tropical
É verdade que o clima tem importância, porquanto nem a zona quente nem a zona fria favorecem a liberdade do homem.
George W. F. Hegel
(In Roche & Barrère, Manual de Disparates dos Filósofos, p. 107).
George W. F. Hegel
(In Roche & Barrère, Manual de Disparates dos Filósofos, p. 107).
Tuesday, September 27, 2005
Relógios humanos
Eis os homens: relógios; uma vez montados, funcionam sem saber porquê.
Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Representação.
Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Representação.
Sunday, September 25, 2005
Dicionário de Acrônimos
Você sabe o que é um acrônimo? Conhece algum?
Sim. Conhece vários, ainda que não saiba.
Se não acreditar em mim, consulte o dicionário de acrônimos linkado no título.
Pesquisei PQP e encontrei Puta Que Pariu (Portuguese, Brazil).
Há outros. Muitos outros.
Sim. Conhece vários, ainda que não saiba.
Se não acreditar em mim, consulte o dicionário de acrônimos linkado no título.
Pesquisei PQP e encontrei Puta Que Pariu (Portuguese, Brazil).
Há outros. Muitos outros.
Saturday, September 24, 2005
Restos do banquete
No momento, tudo isto poderá ter o encanto de um novo molho ou de uma nova safra, mas os restos de todo o banquete acabam por deteriorar-se e as últimas gotas esquecidas no fundo da garrafa são sempre azedas.
Oscar Wilde - De profundis.
Oscar Wilde - De profundis.
Friday, September 23, 2005
Biografia da mentira
Dizem que só conhecemos alguém quando entendemos suas mentiras.
Tente colocar isso em prática. Não dá não.
E se a compreensão também for uma mentira?
Tente colocar isso em prática. Não dá não.
E se a compreensão também for uma mentira?
Wednesday, September 21, 2005
Coisa de grego (3): o homem invisível
Lembra da série de TV O homem invisível?
E o filme?
E o desenho animado?
Engana-se quem pensa que isto é invenção de Hollywood.
Hades, o senhor do mundo subterrâneo, raramente precisava sair de seus domínios e visitar o mundo governando pelo sol. Mas, quando o fazia, usava um capacete presenteado pelos Cíclopes, que o tornava invisível.
Presente de grego. Coisa de grego.
E o filme?
E o desenho animado?
Engana-se quem pensa que isto é invenção de Hollywood.
Hades, o senhor do mundo subterrâneo, raramente precisava sair de seus domínios e visitar o mundo governando pelo sol. Mas, quando o fazia, usava um capacete presenteado pelos Cíclopes, que o tornava invisível.
Presente de grego. Coisa de grego.
Tuesday, September 20, 2005
Os deuses ainda devem estar loucos
Caiu algo do céu, lá em Porto Reconquista, um vilarejo argentino, próximo à fronteira com o Uruguai.
Sim, os deuses enviaram uma pedra aos habitantes da pequena Reconquista. Azul, do tamanho de uma bola de futebol. Linda. Apetitosa. Enviada talvez pelos deuses astronautas.
O presente não chega a ser uma coca-cola, mas é uma pedra azul, brilhante, com um líquido no interior. Linda. Apetitosa.
Não chega a ser uma brastemp, mas Reconquista também não é Kalahari.
Enfim. Apetitosa.
A pedra foi lançada de um avião. Os deuses, que habitam pássaros gigantes, concederam esta graça aos mortais: enviaram sua própria urina, misturada a um tantinho de detergente, claro. Detergente azul, claro.
A mistura detergente + urina resultou na cor esverdeada da pedra quando se partiu ao tocar o solo. Cristalizou com a queda. Claro.
Houve quem bebesse o líquido do interior. Claro. Quem vai recusar a urina dos deuses? (aposto que Lacan pensava na urina dos deuses ao falar em dejeto do real).
Ora pois.
Não é que Wilde tinha razão? A vida realmente imita a arte.
Sim, os deuses enviaram uma pedra aos habitantes da pequena Reconquista. Azul, do tamanho de uma bola de futebol. Linda. Apetitosa. Enviada talvez pelos deuses astronautas.
O presente não chega a ser uma coca-cola, mas é uma pedra azul, brilhante, com um líquido no interior. Linda. Apetitosa.
Não chega a ser uma brastemp, mas Reconquista também não é Kalahari.
Enfim. Apetitosa.
A pedra foi lançada de um avião. Os deuses, que habitam pássaros gigantes, concederam esta graça aos mortais: enviaram sua própria urina, misturada a um tantinho de detergente, claro. Detergente azul, claro.
A mistura detergente + urina resultou na cor esverdeada da pedra quando se partiu ao tocar o solo. Cristalizou com a queda. Claro.
Houve quem bebesse o líquido do interior. Claro. Quem vai recusar a urina dos deuses? (aposto que Lacan pensava na urina dos deuses ao falar em dejeto do real).
Ora pois.
Não é que Wilde tinha razão? A vida realmente imita a arte.
Monday, September 19, 2005
Verde que te quero verde
Olha só. Queria saber como se escreve "verde" em latim, talvez porque não tenha nada prá fazer, talvez porque quisesse escrever em latim a frase "a lua é feita de queijo verde". Comecei e terminei no verde. Muito cansativo fazer todos os cálculos: nominativo aqui, segunda declinação, particípio ali, terceira, existia queijo em Roma?, o "de queijo verde" é nominativo porque o verbo é de ligação e o predicado é predicativo? Mas o predicado nominal não é o caso genitivo? Particípio é nome? Se for nome, então o predicado é nominal, daí genitivo. Mas, se não for nome, então o predicado é verbal. Se for verbal, então uso o ablativo? Mas neste caso o que faço com o verbo de ligação?
Ih, já cansei. Preciso disso não.
Mas, procurando o verde latino, fiz uma descoberta: amarelo-esverdeado é galbinus, a, um e cinza-esverdeado, glaucus, a, um. Mas "Galba" não é o nome daquele general que sucedeu a Nero? E "Glauco" não é um nome romano bastante comum?
E aí fui pesquisar de novo, para saber qual é a ligação entre o Galba/imperador e a cor verde. Achei algo ainda mais interessante: Galba, ae significa, entre outras coisas, verme e barrigão. Sim, barrigão. Confira em http://lysy2.archives.nd.edu/cgi-bin/words.exe?galba
A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Quem diria que eu acabaria por saber como se diz “barrigão” em latim?
Mas melhor ainda é saber que nunca vou precisar dessa informação.
Ih, já cansei. Preciso disso não.
Mas, procurando o verde latino, fiz uma descoberta: amarelo-esverdeado é galbinus, a, um e cinza-esverdeado, glaucus, a, um. Mas "Galba" não é o nome daquele general que sucedeu a Nero? E "Glauco" não é um nome romano bastante comum?
E aí fui pesquisar de novo, para saber qual é a ligação entre o Galba/imperador e a cor verde. Achei algo ainda mais interessante: Galba, ae significa, entre outras coisas, verme e barrigão. Sim, barrigão. Confira em http://lysy2.archives.nd.edu/cgi-bin/words.exe?galba
A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Quem diria que eu acabaria por saber como se diz “barrigão” em latim?
Mas melhor ainda é saber que nunca vou precisar dessa informação.
Sunday, September 18, 2005
Múmia de pelúcia
Sempre achei belo um fantasma esvoaçante, azul. Belo, mesmo. Estou falando de experiência estética. Simples assim.
Do mesmo modo, sempre achei um esqueleto no mínimo engraçadinho. Gracioso, digamos. Branquinho, magrinho, sorridente... Por que não?
Quando adolescente, só saía de casa acompanhada de um caixãozinho com um esqueletinho dentro, até o triste dia em que deram fim aos dois (ao caixão e ao esqueleto).
Em aula de ciências, quando estudante, o que realmente me fascinava era o esqueleto de um metro. Falo sério! Sempre quis ter um.
Outra belezinha que também acho fascinante é a múmia. Compete em beleza com o esqueleto, mas é mais difícil de encontrar. Se eu tivesse uma múmia, ela não desapareceria misteriosamente como todos os meus esqueletinhos.
Mas dá prá entender: esqueleto todo mundo é, e vai ser mais ainda um dia. Múmia, dificilmente.
Que posso fazer? Gosto e pronto.
Conselho não, tá?
Do mesmo modo, sempre achei um esqueleto no mínimo engraçadinho. Gracioso, digamos. Branquinho, magrinho, sorridente... Por que não?
Quando adolescente, só saía de casa acompanhada de um caixãozinho com um esqueletinho dentro, até o triste dia em que deram fim aos dois (ao caixão e ao esqueleto).
Em aula de ciências, quando estudante, o que realmente me fascinava era o esqueleto de um metro. Falo sério! Sempre quis ter um.
Outra belezinha que também acho fascinante é a múmia. Compete em beleza com o esqueleto, mas é mais difícil de encontrar. Se eu tivesse uma múmia, ela não desapareceria misteriosamente como todos os meus esqueletinhos.
Mas dá prá entender: esqueleto todo mundo é, e vai ser mais ainda um dia. Múmia, dificilmente.
Que posso fazer? Gosto e pronto.
Conselho não, tá?
Saturday, September 17, 2005
O pai da idéia
Descobri quem disse que a lua é feita de queijo: foi um tal John Heywood, em 1546.
Heywood era escritor e viveu durante os reinados de Henrique VIII e Maria I. Em uma de suas peças, escreveu que "A lua é feita de queijo verde". A intenção era, obviamente, expressar um sentimento em relação à lua. Mesmo assim a coisa virou mania e, com variações, tornou-se crença. Sim, crença. Já houve tempo em que se acreditava que a lua era mesmo feita de queijo.
Tudo bem, vá lá. Acredita-se em tudo. Só não entendi porque o queijo tem de ser verde.
Heywood era escritor e viveu durante os reinados de Henrique VIII e Maria I. Em uma de suas peças, escreveu que "A lua é feita de queijo verde". A intenção era, obviamente, expressar um sentimento em relação à lua. Mesmo assim a coisa virou mania e, com variações, tornou-se crença. Sim, crença. Já houve tempo em que se acreditava que a lua era mesmo feita de queijo.
Tudo bem, vá lá. Acredita-se em tudo. Só não entendi porque o queijo tem de ser verde.
Friday, September 16, 2005
Prá não dizer que não falei de flores
A propósito ainda de Agostinho: pensando bem, a castidade reduz a população mundial, aumenta os recursos naturais, preserva o meio-ambiente, diminui a criminalidade, reduz a pobreza, torna possível uma distribuição de renda mais igualitária, diminui as filas nos bancos, aumenta o número de vagas nos estacionamentos gratuitos, descongestiona o Orkut, aumenta a oferta de vagas nos empregos públicos e nas universidades e diminui o número de vereadores, deputados e senadores. Resumindo: a castidade é a solução para todos os problemas.
Isso não é uma boa coisa?
Aposto que Fibonacci concordaria comigo.
Isso não é uma boa coisa?
Aposto que Fibonacci concordaria comigo.
Thursday, September 15, 2005
Amar é... (2): ser casto!
Aurélio Agostinho, que viveu no século IV de nossa era, tinha um modo bastante peculiar de pedir algo a Deus: quero, mas esperumpoquin.
Agostinho devia achar que, para obter uma graça, seria melhor começar a pedir logo cedo. Isso não significa que Deus não fosse atender, ou que demorasse para ouvir. Pedir desde a infância ou a adolescência para obter a graça na velhice talvez tivesse o propósito de dar-se tempo suficiente para formar a convicção. Quero dizer: agora tenho certeza. Quero mesmo.
Bem, fosse como fosse, o fato é que ele tinha um grande, enorme desejo: o desejo de não ter mais desejo. Ou pelo menos de controlá-lo.
A oração em que o filósofo pede a Deus que o torne casto é digna de nota:
"Eu, jovem, tão miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, tinha-vos pedido a castidade, nestes termos: 'Dai-me a castidade e a continência, mas não ma dais já', temendo que me ouvisses logo e me curásseis imediatamente". (Confissões)
Resumindo: "Senhor, fazei-me casto, mas não já."
Como ele mesmo diz, teve receio de ser atendido.
É.
Faz sentido.
Agostinho devia achar que, para obter uma graça, seria melhor começar a pedir logo cedo. Isso não significa que Deus não fosse atender, ou que demorasse para ouvir. Pedir desde a infância ou a adolescência para obter a graça na velhice talvez tivesse o propósito de dar-se tempo suficiente para formar a convicção. Quero dizer: agora tenho certeza. Quero mesmo.
Bem, fosse como fosse, o fato é que ele tinha um grande, enorme desejo: o desejo de não ter mais desejo. Ou pelo menos de controlá-lo.
A oração em que o filósofo pede a Deus que o torne casto é digna de nota:
"Eu, jovem, tão miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, tinha-vos pedido a castidade, nestes termos: 'Dai-me a castidade e a continência, mas não ma dais já', temendo que me ouvisses logo e me curásseis imediatamente". (Confissões)
Resumindo: "Senhor, fazei-me casto, mas não já."
Como ele mesmo diz, teve receio de ser atendido.
É.
Faz sentido.
Wednesday, September 14, 2005
A verdade sobre a mentira
Descobri uma verdade inegável: a grande estrela da história da humanidade, especialmente quando o público está envolvido, é a mentira.
Hmmm-hmmm.
Ela está lá, determinando os rumos da história, orientando os políticos, interferindo nas relações entre patrões e empregados, ajudando os filhos a escapar da vigilância dos pais, patrocinando o comércio, a arte, a publicidade, a internet, o casamento, o amor, a religião, o poder.
O bom da história é que, se nem sempre é possível (ou conveniente) identificar a mentira, na maior parte das vezes é possível identificar o mentiroso.
Ah...
A técnica, complicadíssima, tem algumas regras simples, acessíveis a todos nós, pobres mortais, que não queremos ser enrolados por uma conversa pra boi dormir.
A regra mais interessante é o “aumento substancial de "ah" e "hum" enquanto se está a falar”.
Hmmm.
Isso é tão fácil, tão fácil, mas tão fácil, tão absurdamente fácil de identificar, que é risível alguém ainda ter coragem de mentir.
Ah...
Mas o bom mentiroso é capaz de disfarçar o sintoma, certo?
Hmmm.
O importante, se entendi bem, é atentar para o padrão de comportamento e para o conjunto de sintomas.
Em todo caso, identificar o mentiroso é como ver o mundo através da luneta mágica. E depois, sempre haverá alguém ansioso para ouvir mentiras, desde que belas e verdadeiras.
Hmmm-hmmm.
Ela está lá, determinando os rumos da história, orientando os políticos, interferindo nas relações entre patrões e empregados, ajudando os filhos a escapar da vigilância dos pais, patrocinando o comércio, a arte, a publicidade, a internet, o casamento, o amor, a religião, o poder.
O bom da história é que, se nem sempre é possível (ou conveniente) identificar a mentira, na maior parte das vezes é possível identificar o mentiroso.
Ah...
A técnica, complicadíssima, tem algumas regras simples, acessíveis a todos nós, pobres mortais, que não queremos ser enrolados por uma conversa pra boi dormir.
A regra mais interessante é o “aumento substancial de "ah" e "hum" enquanto se está a falar”.
Hmmm.
Isso é tão fácil, tão fácil, mas tão fácil, tão absurdamente fácil de identificar, que é risível alguém ainda ter coragem de mentir.
Ah...
Mas o bom mentiroso é capaz de disfarçar o sintoma, certo?
Hmmm.
O importante, se entendi bem, é atentar para o padrão de comportamento e para o conjunto de sintomas.
Em todo caso, identificar o mentiroso é como ver o mundo através da luneta mágica. E depois, sempre haverá alguém ansioso para ouvir mentiras, desde que belas e verdadeiras.
Tuesday, September 13, 2005
Extra... Extra... Extraterrestre!
É um pássaro? Um avião? O superman?
Não! É apenas um ET, que apareceu em uma nuvem após a tempestade, foi fotografado e pode ajudar a enriquecer alguém. Não dá prá ter certeza se vai ajudar muito, porque ET´s não são tão lucrativos quanto Maria, Jesus Cristo ou Alá. Mas deve render uns trocados.
Melhor que nada.
Não! É apenas um ET, que apareceu em uma nuvem após a tempestade, foi fotografado e pode ajudar a enriquecer alguém. Não dá prá ter certeza se vai ajudar muito, porque ET´s não são tão lucrativos quanto Maria, Jesus Cristo ou Alá. Mas deve render uns trocados.
Melhor que nada.
Monday, September 12, 2005
Filosofia engorda
Depois que parei de fumar, uma verdade tornou-se evidente: filosofia engorda.
Ler, ler, ficar sentada lendo e escrevendo, pensando, só pensando, lendo, escrevendo e beliscando alguma coisa, lendo, pensando, escrevendo, lendo, pensando, escrevendo, lendo, lendo de novo, pensando...
Ih. Já engordei só de pensar nisso.
Preocupada com o problema, fiz o seguinte cálculo: cada bombom de trufas tem 500 calorias em média. Cinco em um dia significam 2.500 calorias a mais. Duas horas lendo equivalem a duas horas a menos de academia, o que significa deixar de perder em torno de 400 calorias. Então, se eu deixo de perder 400 calorias, estou ganhando 400 calorias. Assim, se eu passar duas horas lendo um tratado de filosofia e comendo bombons de trufas (apenas por hipótese, claro), eu teria um saldo de 2.900 calorias a mais.
Em uma semana minha dedicação à filosofia seria bastante visível.
Ler, ler, ficar sentada lendo e escrevendo, pensando, só pensando, lendo, escrevendo e beliscando alguma coisa, lendo, pensando, escrevendo, lendo, pensando, escrevendo, lendo, lendo de novo, pensando...
Ih. Já engordei só de pensar nisso.
Preocupada com o problema, fiz o seguinte cálculo: cada bombom de trufas tem 500 calorias em média. Cinco em um dia significam 2.500 calorias a mais. Duas horas lendo equivalem a duas horas a menos de academia, o que significa deixar de perder em torno de 400 calorias. Então, se eu deixo de perder 400 calorias, estou ganhando 400 calorias. Assim, se eu passar duas horas lendo um tratado de filosofia e comendo bombons de trufas (apenas por hipótese, claro), eu teria um saldo de 2.900 calorias a mais.
Em uma semana minha dedicação à filosofia seria bastante visível.
Sunday, September 11, 2005
É possível viver sem o MSN
Há vinte nomes em meu messenger, mas nunca falo com todos ao mesmo tempo. Nem é preciso. A metade já é suficiente para me deixar com a sensação de que a internet destruiu a comunicação ao fragmentar as conversas e as relações. No mínimo, perdeu-se a continuidade.
Como é possível manter uma conversa linear, produtiva, interessante, com o programa chamando a cada cinco segundos? Como é possível manter uma conversa que seja realmente significativa se ela é intercalada com nove, dez, onze outras conversas paralelas?
Vai ver que parei no tempo.
É possível viver sem o MSN.
É possível ter amigos sem o MSN.
É possível navegar na internet sem o MSN.
É possível, mas vamos deixar como está.
Como é possível manter uma conversa linear, produtiva, interessante, com o programa chamando a cada cinco segundos? Como é possível manter uma conversa que seja realmente significativa se ela é intercalada com nove, dez, onze outras conversas paralelas?
Vai ver que parei no tempo.
É possível viver sem o MSN.
É possível ter amigos sem o MSN.
É possível navegar na internet sem o MSN.
É possível, mas vamos deixar como está.
Saturday, September 10, 2005
The dark side of the moon
A BBC garante que há algo errado com o lado escuro da lua: não é tão escuro assim. Ou melhor, o lado da lua que a terra não vê não é sempre escuro.
Portanto, que ninguém mais se refira ao "lado escuro da lua", mas sim ao "lado às vezes escuro da lua".
Não é por nada não, mas e daí?
Portanto, que ninguém mais se refira ao "lado escuro da lua", mas sim ao "lado às vezes escuro da lua".
Não é por nada não, mas e daí?
Wednesday, September 07, 2005
Aposto que não
Ninguém pode negar, em sã consciência, que Pascal (filósofo, 1623-1662) fosse dotado de grande senso prático e talento natural para o comércio.
O assunto é a crença em Deus (o que, diga-se de passagem, é infinitamente mais interessante e importante que sua existência), que Pascal resolveu com o seguinte raciocínio:
Situação 1: Você crê em Deus e ele existe.
Resultado: Beleza. Você morre e Deus está ali para recebê-lo e recompensá-lo.
Situação 2: Você crê em Deus e ele não existe.
Resultado: Você morre e nada acontece. Claro, se Deus não existe, você morre mesmo. Podia ser melhor, mas tudo bem. É a vida.
Situação 3: Você não acredita em Deus e ele não existe.
Resultado: Nada de trágico aí. Quando você morrer, não terá de prestar contas de coisa alguma, porque terá morrido mesmo.
Situaçao 4: Você não acredita em Deus e ele existe.
Resultado: Ixi. Quando morrer, vai dar de cara com ele. É que, se Deus existe, o inferno também existe, né?
Pensando bem, é melhor apostar na existência. Isto é: melhor apostar na crença. Vive-se bem e, ao morrer, pode-se viver melhor ainda.
O assunto é a crença em Deus (o que, diga-se de passagem, é infinitamente mais interessante e importante que sua existência), que Pascal resolveu com o seguinte raciocínio:
Situação 1: Você crê em Deus e ele existe.
Resultado: Beleza. Você morre e Deus está ali para recebê-lo e recompensá-lo.
Situação 2: Você crê em Deus e ele não existe.
Resultado: Você morre e nada acontece. Claro, se Deus não existe, você morre mesmo. Podia ser melhor, mas tudo bem. É a vida.
Situação 3: Você não acredita em Deus e ele não existe.
Resultado: Nada de trágico aí. Quando você morrer, não terá de prestar contas de coisa alguma, porque terá morrido mesmo.
Situaçao 4: Você não acredita em Deus e ele existe.
Resultado: Ixi. Quando morrer, vai dar de cara com ele. É que, se Deus existe, o inferno também existe, né?
Pensando bem, é melhor apostar na existência. Isto é: melhor apostar na crença. Vive-se bem e, ao morrer, pode-se viver melhor ainda.
Friday, September 02, 2005
Odeio Altman
Sim, eu confesso! Confesso, confesso: odeio Altman, Bertolucci e essa linguagem superfície-imitando-a-profundidade de filmes como Elefante, Aos treze, De olhos bem fechados, Tempestade de Gelo e todos, todos, todos (eu disse todos) os filmes de Robert Altman (evidentemente não assisti a todos, mas isso é só um detalhe).
Eu me refiro àquele tom pretensamente profundo, com diálogos lentos, lentíssimos, pausados, de subjetividades profundamente profundas e frases de efeito substanciais, ditas entre quatro paredes, secretas, verdadeiros espelhos da alma, bem ao estilo "gostaria de ver meu namorado em um vestido", vindo do fundo da alma, compreende?
Pois é. Se o modo como falamos revela o modo como raciocinamos, vai ver que o modo como expressamos nossos pensamentos diz da profundidade destes pensamentos. Altman deve achar que um filme lento, monolítico, de diálogos-monólogos intercalados com longos períodos de silêncio (pra que a gente perceba que as personagens estão pensando) é, por isso mesmo, pleno de conteúdo.
Águas paradas são profundas, certo?
Errado. Isto é exceção.
Alguém pode, por caridade, informar ao Altman o que até um mosquitinho da dengue sabe?
Eu me refiro àquele tom pretensamente profundo, com diálogos lentos, lentíssimos, pausados, de subjetividades profundamente profundas e frases de efeito substanciais, ditas entre quatro paredes, secretas, verdadeiros espelhos da alma, bem ao estilo "gostaria de ver meu namorado em um vestido", vindo do fundo da alma, compreende?
Pois é. Se o modo como falamos revela o modo como raciocinamos, vai ver que o modo como expressamos nossos pensamentos diz da profundidade destes pensamentos. Altman deve achar que um filme lento, monolítico, de diálogos-monólogos intercalados com longos períodos de silêncio (pra que a gente perceba que as personagens estão pensando) é, por isso mesmo, pleno de conteúdo.
Águas paradas são profundas, certo?
Errado. Isto é exceção.
Alguém pode, por caridade, informar ao Altman o que até um mosquitinho da dengue sabe?
Thursday, September 01, 2005
Samara envelheceu
Que pena. Hoje, só se faz filmes como antigamente.
Lembra daquela garotinha emburrada, de cabelos desgrenhados, mazinha, invencível e morta, bem morta, de O Chamado?
Pois é. Acredite: Samara saiu da TV, envelheceu, virou mãe e foi morar no telhado/sotão de uma casa, junto com o filhinho, onde se divertem do único modo que sabem: assustando e matando.
A musa japonesa está em O Grito, em nada diferente de O Chamado. Ei-la novamente: o mesmo cabelão embaraçado, o mesmo temperamento obstinado, a mesma história sem pé nem cabeça que termina assim mesmo: sem pé nem cabeça.
É verdade, há duas vantagens em O Chamado: os simbolismos na fita VHS que ninguém pode ver e a cena em que Samara sai da TV.
Eu gostaria de saber que fixação é essa dos japoneses por crianças e mulheres de cabelos desgrenhados. De onde vem?
Fiquei pensando, já que não tenho mesmo o que fazer: a morte, para os japoneses, deve ser implacável como a vingança da mulher, irracional como o cabelo desgrenhado das Samaras e inconsequente como a criança brincando de cabra-cega.
E já que fui tão longe, atrevo-me a ir mais longe ainda: Samara voltará. Não em O Chamado 2; não em O Olho 2; não em O Grito 2, mas na pele da velhinha de noventa anos, inválida, que os filhos jogaram escada abaixo em protesto contra a lei que proíbe aos filhos abandonar seus velhos à própria sorte no alto da montanha e, em prostesto também pelo fim da montanha, esquartejaram e guardaram os restos mortais da velhinha embaixo da pia da cozinha. Indignada, a velhinha tornou-se ódio. Vai matar qualquer um que abrir a torneira. Qualquer torneira. Claro, haverá sempre alguém com medo de abrir uma torneira depois de assistir ao filme.
Ainda bem que a casa está abandonada. Mas, que pena!, lá vem alguém chegando de mala e cuia.
E acabei de criar o próximo filme japonês de terror.
O triste é que verei. Apesar de tudo, ainda é melhor que Sexta Feira 13, A Hora do Pesadelo, Pânico etc etc etc.
Lembra daquela garotinha emburrada, de cabelos desgrenhados, mazinha, invencível e morta, bem morta, de O Chamado?
Pois é. Acredite: Samara saiu da TV, envelheceu, virou mãe e foi morar no telhado/sotão de uma casa, junto com o filhinho, onde se divertem do único modo que sabem: assustando e matando.
A musa japonesa está em O Grito, em nada diferente de O Chamado. Ei-la novamente: o mesmo cabelão embaraçado, o mesmo temperamento obstinado, a mesma história sem pé nem cabeça que termina assim mesmo: sem pé nem cabeça.
É verdade, há duas vantagens em O Chamado: os simbolismos na fita VHS que ninguém pode ver e a cena em que Samara sai da TV.
Eu gostaria de saber que fixação é essa dos japoneses por crianças e mulheres de cabelos desgrenhados. De onde vem?
Fiquei pensando, já que não tenho mesmo o que fazer: a morte, para os japoneses, deve ser implacável como a vingança da mulher, irracional como o cabelo desgrenhado das Samaras e inconsequente como a criança brincando de cabra-cega.
E já que fui tão longe, atrevo-me a ir mais longe ainda: Samara voltará. Não em O Chamado 2; não em O Olho 2; não em O Grito 2, mas na pele da velhinha de noventa anos, inválida, que os filhos jogaram escada abaixo em protesto contra a lei que proíbe aos filhos abandonar seus velhos à própria sorte no alto da montanha e, em prostesto também pelo fim da montanha, esquartejaram e guardaram os restos mortais da velhinha embaixo da pia da cozinha. Indignada, a velhinha tornou-se ódio. Vai matar qualquer um que abrir a torneira. Qualquer torneira. Claro, haverá sempre alguém com medo de abrir uma torneira depois de assistir ao filme.
Ainda bem que a casa está abandonada. Mas, que pena!, lá vem alguém chegando de mala e cuia.
E acabei de criar o próximo filme japonês de terror.
O triste é que verei. Apesar de tudo, ainda é melhor que Sexta Feira 13, A Hora do Pesadelo, Pânico etc etc etc.
Monday, August 29, 2005
Adão, Eva, o paraíso... e o tédio!
Diz o Severino Cemitério:
Sozinho no paraíso, Adão ficou bastante entediado. Para aliviá-lo desse mal, Deus lhe enviou Eva, e os dois passaram a ficar entediados juntos. Então Deus enviou-lhes os filhos e todos se entediaram em família. Povoaram o mundo, e passamos a nos entediar em massa (Soeren Kierkegaard. Either/Or, Crop Rotation).
Ou seja, o tédio entrou no mundo na exata medida da população: quanto mais gente, mais tédio.
Puxa. Ainda bem que o segredo da felicidade é a cegueira!
Sozinho no paraíso, Adão ficou bastante entediado. Para aliviá-lo desse mal, Deus lhe enviou Eva, e os dois passaram a ficar entediados juntos. Então Deus enviou-lhes os filhos e todos se entediaram em família. Povoaram o mundo, e passamos a nos entediar em massa (Soeren Kierkegaard. Either/Or, Crop Rotation).
Ou seja, o tédio entrou no mundo na exata medida da população: quanto mais gente, mais tédio.
Puxa. Ainda bem que o segredo da felicidade é a cegueira!
Sunday, August 28, 2005
Soprando velinhas
Viva! Este é o centésimo post do brogue! Cem posts, cem assuntos, cem dias.
Quando olho para trás e penso em tudo que vivi, tantas emoções...
Não acreditava que iria tão longe.
Mas o bom de tudo é que sopramos as cem velinhas ganhando mais que parabéns ou máximas de presente: meu humildíssimo brogue passou a ser respeitado pelos spammers. E de língua inglesa, ainda por cima.
Quem diria.
Não imaginei que pudesse ir tão longe.
Quando olho para trás e penso em tudo que vivi, tantas emoções...
Não acreditava que iria tão longe.
Mas o bom de tudo é que sopramos as cem velinhas ganhando mais que parabéns ou máximas de presente: meu humildíssimo brogue passou a ser respeitado pelos spammers. E de língua inglesa, ainda por cima.
Quem diria.
Não imaginei que pudesse ir tão longe.
Saturday, August 27, 2005
Espirro, logo não penso
Relendo Pascal, encontrei esta pérola:
O espirro absorve todas as funções da alma, tanto quanto o trabalho, mas não se tiram dele idênticas ilações em relação à grandeza do homem, por ser contra a sua vontade. Embora se provoque o espirro, é contra a vontade que este ocorre; não é provocado por si mesmo, mas com objetivo diferente; e, assim, não há prova de fraqueza e servidão do homem nessa ação. (Pensamentos, 160)
Resumindo:
- O trabalho e o espirro absorvem toda a energia do homem
- O espirro não é uma ação voluntária, ainda que provocada
- Aquilo que é voluntário é sinal de fraqueza e servidão
- Logo, espirrar não é sinal de fraqueza e servidão.
É isso mesmo, ou acabei de surtar?
A propósito, é bom que se diga: nenhuma filosofia do espirro que se preze deve passar pela fisiologia do espirro. De jeito nenhum.
O espirro absorve todas as funções da alma, tanto quanto o trabalho, mas não se tiram dele idênticas ilações em relação à grandeza do homem, por ser contra a sua vontade. Embora se provoque o espirro, é contra a vontade que este ocorre; não é provocado por si mesmo, mas com objetivo diferente; e, assim, não há prova de fraqueza e servidão do homem nessa ação. (Pensamentos, 160)
Resumindo:
- O trabalho e o espirro absorvem toda a energia do homem
- O espirro não é uma ação voluntária, ainda que provocada
- Aquilo que é voluntário é sinal de fraqueza e servidão
- Logo, espirrar não é sinal de fraqueza e servidão.
É isso mesmo, ou acabei de surtar?
A propósito, é bom que se diga: nenhuma filosofia do espirro que se preze deve passar pela fisiologia do espirro. De jeito nenhum.
Friday, August 26, 2005
Hamlet titubeou
Estava pensando no dilema de Hamlet: vingar o pai matando a mãe e arcar com as consequências práticas e funestas desta decisão, ou não fazer nada e arcar com as consequências morais da omissão.
Então me ocorreu: e se Hamlet recuasse? E se preferisse herdar o trono? E se o irmão de Ofélia o matasse? E se vingasse o pai e sobrevivesse, o que faria depois? E se ele fosse apenas um louco? E se voltasse para a Inglaterra e abandonasse definitivamente seu país? E se...?
Há um universo de possibilidades aí. Gostaria de explorá-lo.
Bem, a idéia eu já tive. Agora só falta escrever o livro.
Pena que não tenha tempo.
Então me ocorreu: e se Hamlet recuasse? E se preferisse herdar o trono? E se o irmão de Ofélia o matasse? E se vingasse o pai e sobrevivesse, o que faria depois? E se ele fosse apenas um louco? E se voltasse para a Inglaterra e abandonasse definitivamente seu país? E se...?
Há um universo de possibilidades aí. Gostaria de explorá-lo.
Bem, a idéia eu já tive. Agora só falta escrever o livro.
Pena que não tenha tempo.
Thursday, August 25, 2005
Os filósofos e a felicidade (2)
Blaise Pascal (século XVII) também tem algo a nos dizer sobre a felicidade:
Quando, às vezes, me pus a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e os castigos a que eles se expõem, na corte e na guerra, originando tantas contendas, tantas paixões, tantos cometimentos audazes, e muitas vezes funestos, descobri que toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto (Pensamentos, 139).
Ora, ora, quem diria... Tão fácil, tão perto, e a gente nem imaginava! Olhe só:
- Felicidade é saber ficar quieto dentro de um quarto;
- Eu sei ficar quieta dentro de um quarto;
- Portanto, eu sou feliz.
Ainda bem, porque podia ser pior:
- Felicidade é querer ficar quieto dentro do quarto;
- Nem sempre eu quero ficar quieta dentro do quarto;
- Logo, nem sempre eu sou feliz.
Ou, ainda:
- Felicidade é não gostar de ficar quieto dentro do quarto;
- Eu geralmente gosto de ficar quieta dentro do quarto;
- Logo, eu raramente sou feliz.
Sei lá, mas tenho a impressão de que, quando os filósofos se põem a falar em felicidade, tudo está perdido. :-) São muito melhores quando chafurdam no vazio existencial, no nada, na inutilidade da vida, no absurdo, na angústia, no desespero, na ausência de sentido et cetera et cetera et cetera et cetera.
Ou não?
Quando, às vezes, me pus a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e os castigos a que eles se expõem, na corte e na guerra, originando tantas contendas, tantas paixões, tantos cometimentos audazes, e muitas vezes funestos, descobri que toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto (Pensamentos, 139).
Ora, ora, quem diria... Tão fácil, tão perto, e a gente nem imaginava! Olhe só:
- Felicidade é saber ficar quieto dentro de um quarto;
- Eu sei ficar quieta dentro de um quarto;
- Portanto, eu sou feliz.
Ainda bem, porque podia ser pior:
- Felicidade é querer ficar quieto dentro do quarto;
- Nem sempre eu quero ficar quieta dentro do quarto;
- Logo, nem sempre eu sou feliz.
Ou, ainda:
- Felicidade é não gostar de ficar quieto dentro do quarto;
- Eu geralmente gosto de ficar quieta dentro do quarto;
- Logo, eu raramente sou feliz.
Sei lá, mas tenho a impressão de que, quando os filósofos se põem a falar em felicidade, tudo está perdido. :-) São muito melhores quando chafurdam no vazio existencial, no nada, na inutilidade da vida, no absurdo, na angústia, no desespero, na ausência de sentido et cetera et cetera et cetera et cetera.
Ou não?
Wednesday, August 24, 2005
Até tu?
Assistnd ao flm "Socied Secrt III" no Telecine, ontem, fiq bast irritada kom as legds. Naum bastasse o flm ser pura prd d tmp, as legds eraum taquigráficas (êta palavrinha fora de contexto!) e o prtgz, prah lah d incipiente (outra palavrinha fora de contexto!). Desanimei. Ow, tv naum eh soh teen naum. Tah crto q u flmin era tp assim mto teen d+, ms nem td neh. rs rs rs rs rs. Entaum q tal fzr legds prah gnt grd tb. Blz????!! k k k k k k k k k k
Km eh q terminou o flmin, mez? Q foi q aconteceu kom os Skull? Naum vi ateh o fim.
Km eh q terminou o flmin, mez? Q foi q aconteceu kom os Skull? Naum vi ateh o fim.
Tuesday, August 23, 2005
Os filósofos e a felicidade (1)
Esta é de Schopenhauer (que, como todo bom pensador, também diz asneiras):
Quanto mais o nosso círculo de amigos se restringe, maior é a nossa felicidade: por isso é que os cegos são muito menos infelizes do que pensamos, fator que está na origem da tranquilidade que os caracteriza, bem como no ar plácido que o seu rosto deixa transparecer.
Ora... tá certo que restringir o número de amigos é boa coisa, mas não entendi como é que se conclui daí que os cegos são mais felizes.
O argumento é o seguinte:
- Os cegos são tranquilos,
- Os cegos têm um ar plácido
- Os cegos têm poucos amigos
- A tranquilidade, o ar plácido e o número reduzido de amigos são sinais de felicidade
- Logo, os cegos são felizes.
Puxa.
Nem vou dizer o que estou pensando.
Quanto mais o nosso círculo de amigos se restringe, maior é a nossa felicidade: por isso é que os cegos são muito menos infelizes do que pensamos, fator que está na origem da tranquilidade que os caracteriza, bem como no ar plácido que o seu rosto deixa transparecer.
Ora... tá certo que restringir o número de amigos é boa coisa, mas não entendi como é que se conclui daí que os cegos são mais felizes.
O argumento é o seguinte:
- Os cegos são tranquilos,
- Os cegos têm um ar plácido
- Os cegos têm poucos amigos
- A tranquilidade, o ar plácido e o número reduzido de amigos são sinais de felicidade
- Logo, os cegos são felizes.
Puxa.
Nem vou dizer o que estou pensando.
Saturday, August 20, 2005
Friday, August 19, 2005
Crematística
Descobri que o ato de acumular e produzir dinheiro é uma arte, e tem um nome: crematística. Engraçado, porque "crema" em grego quer dizer "coisa útil". Há algo mais útil que dinheiro?
Ah, sim. Aristóteles achava que "crematística" é uma espécie de prática abusiva que gera lucros para poucos às custas de muitos. É. Mas isso é outra coisa. Também tem a ver com o útil, mas é outra coisa, viu?
Ah, sim. Aristóteles achava que "crematística" é uma espécie de prática abusiva que gera lucros para poucos às custas de muitos. É. Mas isso é outra coisa. Também tem a ver com o útil, mas é outra coisa, viu?
Wednesday, August 17, 2005
Faculdade de astrologia
Oba! A profissão de astrólogo acaba de ser regulamentada, com direito a carteirinha profissional expedida pelo Ministério do Trabalho e tudo o mais.
Agora já podemos fazer um curso superior em Ciências Astrológicas, quem sabe uma pós-graduação em Mapa Astral, talvez ainda um doutorado-sanduíche em Sinestria no Tibet, com extensão em Tarot em Rizhao, na província chinesa de Shandong. Vai dar até prá aproveitar e visitar um mosteiro budista. Tudo pelo científico, claro.
Agora já podemos fazer um curso superior em Ciências Astrológicas, quem sabe uma pós-graduação em Mapa Astral, talvez ainda um doutorado-sanduíche em Sinestria no Tibet, com extensão em Tarot em Rizhao, na província chinesa de Shandong. Vai dar até prá aproveitar e visitar um mosteiro budista. Tudo pelo científico, claro.
Wednesday, August 10, 2005
Istópi
Se há algo realmente insuportável na internet é o tal SMS.
Recebo mensagens duas, três vezes por semana dessa porcaria, algumas delas de mim mesma.
É que recebi o convite de pessoa conhecida, fui ao site, digitei a senha do e-mail e puf!, todos os endereços em minha caixa de correio foram anexados a uma espécie de mala direta do site e vão receber, ad aeternum, convites meus para o tal SMS.
A ironia é que, como o endereço de uma de minhas caixas de correio estava em outra, recebo toda semana convites de mim mesma para mim mesma. Demais, né?
Sim, já tentei, mas não consigo acessar o site para apagar o convite. É que me pedem a senha novamente, entende? Aí eu desisto. :-))
Recebo mensagens duas, três vezes por semana dessa porcaria, algumas delas de mim mesma.
É que recebi o convite de pessoa conhecida, fui ao site, digitei a senha do e-mail e puf!, todos os endereços em minha caixa de correio foram anexados a uma espécie de mala direta do site e vão receber, ad aeternum, convites meus para o tal SMS.
A ironia é que, como o endereço de uma de minhas caixas de correio estava em outra, recebo toda semana convites de mim mesma para mim mesma. Demais, né?
Sim, já tentei, mas não consigo acessar o site para apagar o convite. É que me pedem a senha novamente, entende? Aí eu desisto. :-))
Tuesday, August 09, 2005
Bacon e o Dia da Geladeira
Lembro de um episódio da antiga “Família Dinossauro”, em que alguém propõe que seja criado o “Dia da Geladeira”, em homenagem à invenção que tornou mais fácil a vida dos carnívoros.
Eu penso que a data deva ser comemorada todo 9 de abril, data da morte de Bacon.
Sir Francis Bacon, lord inglês, filósofo-cientista, morreu em 09 de abril de 1626, aos 65 anos, mas a associação de Bacon com a geladeira vai muito além do óbvio: ele é o pai da idéia.
Bacon havia percebido que a carne de animais mortos, quando coberta pela neve, resistia algum tempo à putrefação. Ele imaginou que, se fosse possível conservar a temperatura baixa em uma espécie de câmara escura, os alimentos poderiam ser melhor conservados.
O que fez, então? Recheou de neve uma ave morta. Parece que ele pretendia calcular quanto tempo a carne resistiria à decomposição. Durante o experimento, Bacon apanhou um resfriado que acabou por matá-lo em poucos dias.
Não é no mínimo curioso que o mártir da geladeira seja um Bacon?
.................................................................
Em tempo: A geladeira foi inventada por Carl von Linde em 1876. Para maiores informações, clique no título deste post.
Eu penso que a data deva ser comemorada todo 9 de abril, data da morte de Bacon.
Sir Francis Bacon, lord inglês, filósofo-cientista, morreu em 09 de abril de 1626, aos 65 anos, mas a associação de Bacon com a geladeira vai muito além do óbvio: ele é o pai da idéia.
Bacon havia percebido que a carne de animais mortos, quando coberta pela neve, resistia algum tempo à putrefação. Ele imaginou que, se fosse possível conservar a temperatura baixa em uma espécie de câmara escura, os alimentos poderiam ser melhor conservados.
O que fez, então? Recheou de neve uma ave morta. Parece que ele pretendia calcular quanto tempo a carne resistiria à decomposição. Durante o experimento, Bacon apanhou um resfriado que acabou por matá-lo em poucos dias.
Não é no mínimo curioso que o mártir da geladeira seja um Bacon?
.................................................................
Em tempo: A geladeira foi inventada por Carl von Linde em 1876. Para maiores informações, clique no título deste post.
Monday, August 08, 2005
Foi Deus quem quis assim
Impagável:
Homem, tu és senhor.
A mulher é tua escrava,
pois Deus assim o quis.
(Aurélio Agostinho)
É vero...
Homem, tu és senhor.
A mulher é tua escrava,
pois Deus assim o quis.
(Aurélio Agostinho)
É vero...
Sunday, August 07, 2005
Melhor revezar
Estava pensando... Se alguém inventasse a pílula da felicidade, o que aconteceria?
- Os médicos passariam a ter um número reduzidíssimo de pacientes;
- As farmácias praticamente fechariam as portas;
- As academias de ginástica ficariam vazias – quem se preocuparia em manter a forma, se a promessa de felicidade não fosse o prêmio?
- Os parques de diversão iriam à falência;
- Os circos virariam história;
- Os psicólogos perderiam o emprego;
- A indústria de cosméticos desapareceria da face da terra;
- A televisão perderia 99,9% de sua utilidade;
- Ninguém mais estudaria;
- Não haveria trabalho;
- Não haveria guerras;
- Schopenhauer, o pessimista, seria o maior filósofo que já existiu... Para estabelecer o contraditório e salvar o imaginário, entende?
Quem é que dizia mesmo que este é o melhor dos mundos? Ah, sim, o Pangloss...
Não é que ele tinha razão?
- Os médicos passariam a ter um número reduzidíssimo de pacientes;
- As farmácias praticamente fechariam as portas;
- As academias de ginástica ficariam vazias – quem se preocuparia em manter a forma, se a promessa de felicidade não fosse o prêmio?
- Os parques de diversão iriam à falência;
- Os circos virariam história;
- Os psicólogos perderiam o emprego;
- A indústria de cosméticos desapareceria da face da terra;
- A televisão perderia 99,9% de sua utilidade;
- Ninguém mais estudaria;
- Não haveria trabalho;
- Não haveria guerras;
- Schopenhauer, o pessimista, seria o maior filósofo que já existiu... Para estabelecer o contraditório e salvar o imaginário, entende?
Quem é que dizia mesmo que este é o melhor dos mundos? Ah, sim, o Pangloss...
Não é que ele tinha razão?
Saturday, August 06, 2005
Claro que é só luz
Tentou uma nova dieta, sem resultado? Experimentou terapias alternativas e nada? Jejuou, rezou e não emagreceu? Alegre-se! Eu tenho a solução definitiva para seu caso: você só precisa virar um ser de luz. Natural, claro.
Seu alimento, a partir de agora, será o prana, espécie de energia espiritual obtida através da absorção da luz solar. Funciona assim: você está morrendo de fome. Então se arrasta até um lugar ensolarado, respira profundamente e espera até que a absorção dos raios de sol pela pele te alimente.
Faça tudo sem pressa; saboreie o sol devagar. Se possível, consulte um bom entendedor em alimento solar, para saber a que horas o prato será melhor servido. Mas fique atento. Se perder a hora da refeição, vai passar fome até o dia seguinte.
Ainda não está convencido? Pense melhor. O propósito desta seita é buscar o etéreo, a leveza, a fluidez. E depois, seita é prá isso mesmo: fazer o paraíso chegar logo. Nessa, ele chega em uma semana. Até lá, você ganha a silhueta que sempre pediu a Deus.
Seu alimento, a partir de agora, será o prana, espécie de energia espiritual obtida através da absorção da luz solar. Funciona assim: você está morrendo de fome. Então se arrasta até um lugar ensolarado, respira profundamente e espera até que a absorção dos raios de sol pela pele te alimente.
Faça tudo sem pressa; saboreie o sol devagar. Se possível, consulte um bom entendedor em alimento solar, para saber a que horas o prato será melhor servido. Mas fique atento. Se perder a hora da refeição, vai passar fome até o dia seguinte.
Ainda não está convencido? Pense melhor. O propósito desta seita é buscar o etéreo, a leveza, a fluidez. E depois, seita é prá isso mesmo: fazer o paraíso chegar logo. Nessa, ele chega em uma semana. Até lá, você ganha a silhueta que sempre pediu a Deus.
Morreu o criptozoólogo
Falando em criptozoologia, aquela pseudociência que procura animais ocultos: morreu, no último dia 4, o homem que procurava o monstro do Lago Ness, vulgo Nessy.
Dan Scott Taylor Jr., o Criptozoólogo, chegou a construir um submarino amarelo (amarelo mesmo!) para procurar o monstro. Achou não. Mas nos fez lembrar dos Beatles.
Dan Scott Taylor Jr., o Criptozoólogo, chegou a construir um submarino amarelo (amarelo mesmo!) para procurar o monstro. Achou não. Mas nos fez lembrar dos Beatles.
Friday, August 05, 2005
Problemata esotérica
Fiquei pensando: se sabemos a data e a hora de nascimento do mundo, então já dá prá fazer o mapa astral da criança. Mas então esbarrei em uma dificuldade seríssima: qual é o local de nascimento do mundo?
A pergunta não é boba, não. Olhe só: o local de nascimento do mundo não pode ser no mundo, porque o mundo não existia antes do mundo existir, compreende? Pois então. O lugar teria de ser em outro lugar. Mas como poderia ser em outro lugar se todo lugar que há e pode haver está no próprio mundo, que está acabando de nascer?
Isto significa, então, que o lugar foi criado junto com o mundo e com o nascimento. Eu quero dizer: antes do mundo nascer, ninguém nascia. O mundo foi o primeiro, então com ele nasceu também o nascimento, no sem-lugar que deu lugar ao nascimento do lugar. Agora ficou mais claro?
Sendo assim, o problema todo pode ser resolvido de um modo bastante simples e, eu diria, até simplório: o mapa astral do mundo não pode ter as coordenadas do local de nascimento. Isto significa dizer que não é possível fazer-se um mapa astral preciso da criança.
Tudo bem. O que salva a lavoura é que já podemos saber se o mundo é taurino, capricorniano, canceriano etc. Onde nasceu, nunca saberemos, mas o bom da história é que isso nunca será um problema. No máximo, uma problemata.
A pergunta não é boba, não. Olhe só: o local de nascimento do mundo não pode ser no mundo, porque o mundo não existia antes do mundo existir, compreende? Pois então. O lugar teria de ser em outro lugar. Mas como poderia ser em outro lugar se todo lugar que há e pode haver está no próprio mundo, que está acabando de nascer?
Isto significa, então, que o lugar foi criado junto com o mundo e com o nascimento. Eu quero dizer: antes do mundo nascer, ninguém nascia. O mundo foi o primeiro, então com ele nasceu também o nascimento, no sem-lugar que deu lugar ao nascimento do lugar. Agora ficou mais claro?
Sendo assim, o problema todo pode ser resolvido de um modo bastante simples e, eu diria, até simplório: o mapa astral do mundo não pode ter as coordenadas do local de nascimento. Isto significa dizer que não é possível fazer-se um mapa astral preciso da criança.
Tudo bem. O que salva a lavoura é que já podemos saber se o mundo é taurino, capricorniano, canceriano etc. Onde nasceu, nunca saberemos, mas o bom da história é que isso nunca será um problema. No máximo, uma problemata.
Thursday, August 04, 2005
Não me convidaram prá essa festa
Perdemos a chance. No último dia 23 de outubro devíamos ter feito uma grande festa de aniversário, com bolos, balões, “parabéns pra você” e tudo o mais.
Quantas primaveras? Seis mil. Seis mil velinhas no bolo. Seis mil anos. 3.990.000 dias (sem contar os bissextos, mas deixa pra lá).
Quem seria esse aniversariante que completou 6.000 anos no último dia 23 de outubro? Quem nasceu em 23 de outubro de 4004 a.C., exatamente às 9 horas da manhã?
Muito bem, você acertou! Fácil essa, né? Quem nasceu há 6.000 anos atrás não foi o Raul Seixas, foi o mundo. Não o planeta, não a espécie humana, mas sim o mundo, o universo, tudo o que existe: 23 de outubro de 4004 a.C. às 9 da manhã!
Quem garante a data é o irlandês James Ussher, em livro publicado em 1654.
Aceito a data; vá lá. Mas não percebo o que teria levado Ussher a concluir que o mundo foi criado às 9 da manhã. Tá, entendo que o mundo precisaria ser criado durante o dia, em função da luz natural, mas por que às 9 exatamente?
Quantas primaveras? Seis mil. Seis mil velinhas no bolo. Seis mil anos. 3.990.000 dias (sem contar os bissextos, mas deixa pra lá).
Quem seria esse aniversariante que completou 6.000 anos no último dia 23 de outubro? Quem nasceu em 23 de outubro de 4004 a.C., exatamente às 9 horas da manhã?
Muito bem, você acertou! Fácil essa, né? Quem nasceu há 6.000 anos atrás não foi o Raul Seixas, foi o mundo. Não o planeta, não a espécie humana, mas sim o mundo, o universo, tudo o que existe: 23 de outubro de 4004 a.C. às 9 da manhã!
Quem garante a data é o irlandês James Ussher, em livro publicado em 1654.
Aceito a data; vá lá. Mas não percebo o que teria levado Ussher a concluir que o mundo foi criado às 9 da manhã. Tá, entendo que o mundo precisaria ser criado durante o dia, em função da luz natural, mas por que às 9 exatamente?
Tuesday, August 02, 2005
Eu, tu, eles e o cão
Assim não dá.
Sou obrigada, por força das circunstâncias, a falar de Kierkegaard outra vez. O Severino Cemitério, lembra? É que fica difícil resistir. Gosto demais.
Enfim. Estive lendo recentemente o livro The Present Age (na verdade, um artigo um tantinho extenso) e encontrei uma passagem particularmente interessante e atual. Eu poderia resumir o livro dizendo que se trata da análise das relações entre o indivíduo, o público e a imprensa.
Kierkegaard diz o seguinte: o público tem um cãozinho de estimação, a imprensa, cuja função primeira é diverti-lo. Quando alguém tenta ser diferente, o público manda o cachorro atacá-lo. Quando se entedia, ordena ao cachorro que pare, e tudo volta ao normal.
E conclui: é assim que o público nivela.
Sou obrigada, por força das circunstâncias, a falar de Kierkegaard outra vez. O Severino Cemitério, lembra? É que fica difícil resistir. Gosto demais.
Enfim. Estive lendo recentemente o livro The Present Age (na verdade, um artigo um tantinho extenso) e encontrei uma passagem particularmente interessante e atual. Eu poderia resumir o livro dizendo que se trata da análise das relações entre o indivíduo, o público e a imprensa.
Kierkegaard diz o seguinte: o público tem um cãozinho de estimação, a imprensa, cuja função primeira é diverti-lo. Quando alguém tenta ser diferente, o público manda o cachorro atacá-lo. Quando se entedia, ordena ao cachorro que pare, e tudo volta ao normal.
E conclui: é assim que o público nivela.
Monday, August 01, 2005
Faraós e arraiolos
Encontrei esta passagem no tratado sofista anônimo Dissoi Logoi (ou Duplos Argumentos), escrito em torno de 400 a.C.:
"(17) Os Egípcios não consideram apropriadas as mesmas coisas que os outros povos: em nosso país observamos que convém às mulheres bordar e trabalhar, mas no deles é decente que os homens assim o façam; às mulheres, convém fazer o que os homens fazem em nosso país."
Esquisito... A passagem diz claramente que no Egito de 400 a.C. os homens bordavam e as mulheres cuidavam do mesmo que os homens gregos, ou seja, da guerra e da política.
O autor do tratado pretende defender o relativismo cultural, ao modo do que Heródoto já havia feito na História. Para comprovar sua tese, ressalta a diferença de costumes entre os gregos e os demais povos. É de se supor, portanto, que estivesse falando não somente do que era tido como verdadeiro, mas também sabido e notório.
Mesmo assim, é no mínimo bizarro supor que no Egito Antigo as mulheres lutassem ou governassem, e que os farós ficassem em casa (leia-se nos palácios) bordando. Não, não. Há alguma coisa errada aí.
Vai ver que a solução do mistério encontra-se no significado de "bordar".
"(17) Os Egípcios não consideram apropriadas as mesmas coisas que os outros povos: em nosso país observamos que convém às mulheres bordar e trabalhar
Esquisito... A passagem diz claramente que no Egito de 400 a.C. os homens bordavam e as mulheres cuidavam do mesmo que os homens gregos, ou seja, da guerra e da política.
O autor do tratado pretende defender o relativismo cultural, ao modo do que Heródoto já havia feito na História. Para comprovar sua tese, ressalta a diferença de costumes entre os gregos e os demais povos. É de se supor, portanto, que estivesse falando não somente do que era tido como verdadeiro, mas também sabido e notório.
Mesmo assim, é no mínimo bizarro supor que no Egito Antigo as mulheres lutassem ou governassem, e que os farós ficassem em casa (leia-se nos palácios) bordando. Não, não. Há alguma coisa errada aí.
Vai ver que a solução do mistério encontra-se no significado de "bordar".
Besta sou eu
Há pouco tempo atrás me aconteceu o máximo da coincidência: em pleno Carnaval, lá estava eu, aproveitando o feriado para lavar roupa. É, pois é. Lavar roupa. Acontece. Enfim. Continuando, pleno Carnaval e lá estava eu, no tanque, ouvindo rádio.
Lá pelas tantas, irritadíssima com a programação da rádio, que só tocava samba, pensei: “que festa besta; que coisa besta ficar cantando, dançando e caindo de bêbado; que gente besta, que música besta, que rádio besta!”. E a rádio começou a tocar “Besta é tu, besta é tu”...
Juro que aconteceu exatamente assim. Pensei: pior. Besta sou eu, que ao invés de me divertir no Carnaval, vou para o tanque... Besta sou eu, que devia ter colocado um CD pra tocar; besta sou eu, que fico aí, trabalhando em feriado e achando que besta é quem se diverte. Bem merecido. Quem mandou ser besta?
Lá pelas tantas, irritadíssima com a programação da rádio, que só tocava samba, pensei: “que festa besta; que coisa besta ficar cantando, dançando e caindo de bêbado; que gente besta, que música besta, que rádio besta!”. E a rádio começou a tocar “Besta é tu, besta é tu”...
Juro que aconteceu exatamente assim. Pensei: pior. Besta sou eu, que ao invés de me divertir no Carnaval, vou para o tanque... Besta sou eu, que devia ter colocado um CD pra tocar; besta sou eu, que fico aí, trabalhando em feriado e achando que besta é quem se diverte. Bem merecido. Quem mandou ser besta?
Sunday, July 31, 2005
Não inventa
Depois que escrevi o último post, fiquei pensando: se fosse eu montando um álbum de fotografias do zoológico, as fotos estariam dispostas em uma certa ordem, classificadas conforme o assunto e com um código específico, de forma a que eu pudesse visualizar exatamente em que seqüência do álbum se encontra cada foto, sem precisar abri-lo. O código seria o seguinte: Z (para Zoológico, diferenciando de F – Família, A – Amigos, E – ex-namorados, e assim por diante), m para mamíferos (diferenciando, claro, de a – aves, r – répteis etc.), p para paquiderme e, por último, a letra correspondente ao nome do animal específico (por exemplo, e para elefante), seguido de uma numeração, caso houvesse mais de uma foto para cada animal. Assim, cada fotografia traria no canto inferior direito uma etiqueta com um código semelhante a este: Zmpe1. Pronto!
Se alguém me perguntasse onde está a foto da jaguatirica, eu teria imediatamente a imagem mental Zmfj e poderia informar no mesmo instante. Não seria ótimo?
Isso tudo, claro, com uma listagem digitalizada, que eu pudesse imprimir sempre que necessário, e que funcionasse como índice para o álbum. Assim ninguém precisaria sequer me perguntar coisa alguma. Bastaria checar a listagem.
É... Ter um álbum de fotografias dá trabalho.
Ainda bem que o álbum não é meu.
Se alguém me perguntasse onde está a foto da jaguatirica, eu teria imediatamente a imagem mental Zmfj e poderia informar no mesmo instante. Não seria ótimo?
Isso tudo, claro, com uma listagem digitalizada, que eu pudesse imprimir sempre que necessário, e que funcionasse como índice para o álbum. Assim ninguém precisaria sequer me perguntar coisa alguma. Bastaria checar a listagem.
É... Ter um álbum de fotografias dá trabalho.
Ainda bem que o álbum não é meu.
Saturday, July 30, 2005
Posso perguntar qual é a sua graça?
Definitivamente, minha irmã foi animal em outra encarnação.
Conhece alguém que vai ao zoológico só para fotografar os bichos? Acha pouco? E se eu contar que ela montou um álbum de fotografias do zoológico (do zoológico mesmo!), está apoiando uma sociedade protetora dos animais e um dia será vegetariana?
É verdade que ultimamente resolveu que vai fazer um curso para aprender a empalhar animais, mas isto é só um detalhe.
Bem, nessas idas e vindas ela me apareceu com essa lista de nomes de animais pra lá de esquisitos (os nomes) e jura que eles (os animais) existem ou existiram:
Ai-Ai
Ajurucuruca
Alma de gato
Bacurau-tesoura-gigante
Bico-de-lacre
Biturong
Cafezinho
Caga-sebo
Cambaxirra
Carão
Caxinguelê
Cegonha bico de sapato
Corruíra
Cucuruta
Cuiú-cuiú
Cuxiú preto
Dasiurídeo
Diabo da Tasmânia
Formigueiro da lagoa
Fradinho
Fumaça azul
Jamanta
Jaritacaca
Mão pelada
Mejera (ou será “Megera”?)
Mejera-comum
Mumbebo
Opossum
Papa-taoca
Pangolim
Pássaro-do-paraíso-rei-da-saxônia
Patativa do brejo
Peixe-gato de vidro
Peixe-gato invertido
Pequena lavadeira
Picanço
Piriquitambóia
Ptármiga
Quaquica
Rabo ruivo
Saíra apunhalada
Saracura-três-potes
Socó-dorminhoco
Ticódromo
Tirano do paraíso
Trinca-ferro
Trinta-réis
Triste-pia
Tuim
Ventoinha
Vira-pedra
Conhece alguém que vai ao zoológico só para fotografar os bichos? Acha pouco? E se eu contar que ela montou um álbum de fotografias do zoológico (do zoológico mesmo!), está apoiando uma sociedade protetora dos animais e um dia será vegetariana?
É verdade que ultimamente resolveu que vai fazer um curso para aprender a empalhar animais, mas isto é só um detalhe.
Bem, nessas idas e vindas ela me apareceu com essa lista de nomes de animais pra lá de esquisitos (os nomes) e jura que eles (os animais) existem ou existiram:
Ai-Ai
Ajurucuruca
Alma de gato
Bacurau-tesoura-gigante
Bico-de-lacre
Biturong
Cafezinho
Caga-sebo
Cambaxirra
Carão
Caxinguelê
Cegonha bico de sapato
Corruíra
Cucuruta
Cuiú-cuiú
Cuxiú preto
Dasiurídeo
Diabo da Tasmânia
Formigueiro da lagoa
Fradinho
Fumaça azul
Jamanta
Jaritacaca
Mão pelada
Mejera (ou será “Megera”?)
Mejera-comum
Mumbebo
Opossum
Papa-taoca
Pangolim
Pássaro-do-paraíso-rei-da-saxônia
Patativa do brejo
Peixe-gato de vidro
Peixe-gato invertido
Pequena lavadeira
Picanço
Piriquitambóia
Ptármiga
Quaquica
Rabo ruivo
Saíra apunhalada
Saracura-três-potes
Socó-dorminhoco
Ticódromo
Tirano do paraíso
Trinca-ferro
Trinta-réis
Triste-pia
Tuim
Ventoinha
Vira-pedra
Sunday, July 24, 2005
Só queria entender
Alguém pode me explicar por que todo mundo acha interessante que a palavra “saudade” só exista em português? Não consigo entender qual é a graça nisso. “Porta” também só existe em português, assim como “laranja”, “rascunho”, “estojo” e uma infinidade de outras palavras.
O que faz com que “saudade” seja diferente de “porcaria”? Pensei: talvez seja porque “saudade” não tenha tradução ipsis litteris e “porcaria” tenha. Será? Mas traduzir “saudade” pelo sentido “miss something” não dá exatamente no mesmo? Juro que não entendo.
Em todas as línguas há palavras que são muito próprias da cultura a que servem, ou seja, são produto de uma visão de mundo, com suas singularidades e idiossincrasias.
Por que, no caso de “saudade”, isso é tão extraordinário? Alguém me explica?
O que faz com que “saudade” seja diferente de “porcaria”? Pensei: talvez seja porque “saudade” não tenha tradução ipsis litteris e “porcaria” tenha. Será? Mas traduzir “saudade” pelo sentido “miss something” não dá exatamente no mesmo? Juro que não entendo.
Em todas as línguas há palavras que são muito próprias da cultura a que servem, ou seja, são produto de uma visão de mundo, com suas singularidades e idiossincrasias.
Por que, no caso de “saudade”, isso é tão extraordinário? Alguém me explica?
Saturday, July 23, 2005
Ah, o amor!
Como meu HD pifou, perdi arquivos e estou muito p. da vida, tenho o pleno direito de descontar em alguém.
Pois está decidido: será em Platão.
Então. Aproveitando a onda de denuncismo, também quero fazer uma denúncia muito séria e verdadeira: PLATÃO ESCREVIA POEMINHAS... ROMÂNTICOS!
Ora, ora... Suspiros apaixonados de um filósofo nada platônico.
Taí a prova, pra quem quiser ver.
...............................................................................................................................................
(29) No quarto livro de sua obra Da Luxúria dos Antigos, Aristipos diz que Platão era apaixonado por um rapaz chamado Aster, que estudava astronomia junto com ele, e também por Díon, mencionado acima, e ainda, como dizem alguns autores, por Faidros. Evidenciam o seu amor os epigramas escritos por ele sobre essas pessoas:
“Olha os astros, meu Aster! Ah! Se eu fosse os céus para contemplar-te com muitos olhos!”
E outro:
“Entre os vivos, Aster, brilhavas como a estrela matutina; agora, morto, que brilhes como a estrela vespertina entre os finados!”
(30) E, para Díon o seguinte:
“As Parcas decretaram lágrimas a Hecabe e às mulheres de Ílion desde o seu nascimento. A ti, entretanto, Díon, que conquistaste a vitória em belas iniciativas, os deuses reservaram amplas esperanças. Jazes na pátria imensa, honrado por teus concidadãos, Díon, tu que deixaste meu coração louco de amor”.
(31) Dizem que este último epigrama foi gravado sobre a tumba de Díon em Siracusa. Consta ainda que, estando enamorado de Aléxis, e também de Faidros (já mencionado), Platão compôs o seguinte epigrama:
“Agora que eu disse ‘Somente Aléxis é belo’, todos o contemplam e por onde passa ele é olhado por todos. Por que, meu coração, mostrar o osso aos cães? Depois sofrerás. Não foi assim que perdemos Faidros?”
Platão também possuiu Arqueanassa, para quem compôs o seguinte epigrama:
“Possuo Arqueanassa, cortesã de Colofon; até em suas rugas pousa o amor picante. Ah! Infelizes que colhestes a flor de sua primeira viagem, por que chamas passastes!”
(32) Ele compôs este outro epigrama sobre Agaton:
“Enquanto beijava Agaton eu tinha a alma nos lábios, como se ela quisesse – infeliz! – passar por ele!”
E outro:
“Lanço-te esta maçã, e se queres realmente amar-me, recolhe-a e deixa-me provar a tua virgindade. Se não pensares assim – que isso não aconteça! – recolhe igualmente a maçã e vê como é breve a beleza!”
E ainda este:
“Sou esta maçã, lançada por quem te ama; cede, Xantipe, pois ambos nascemos para fenecer”.
(Diógenes Laércio – Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília : UnB, 1977, p. 92 e ss)
.....................................................................................
Quem nunca escreveu um poema, que atire a primeira pedra.
Pois está decidido: será em Platão.
Então. Aproveitando a onda de denuncismo, também quero fazer uma denúncia muito séria e verdadeira: PLATÃO ESCREVIA POEMINHAS... ROMÂNTICOS!
Ora, ora... Suspiros apaixonados de um filósofo nada platônico.
Taí a prova, pra quem quiser ver.
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(29) No quarto livro de sua obra Da Luxúria dos Antigos, Aristipos diz que Platão era apaixonado por um rapaz chamado Aster, que estudava astronomia junto com ele, e também por Díon, mencionado acima, e ainda, como dizem alguns autores, por Faidros. Evidenciam o seu amor os epigramas escritos por ele sobre essas pessoas:
“Olha os astros, meu Aster! Ah! Se eu fosse os céus para contemplar-te com muitos olhos!”
E outro:
“Entre os vivos, Aster, brilhavas como a estrela matutina; agora, morto, que brilhes como a estrela vespertina entre os finados!”
(30) E, para Díon o seguinte:
“As Parcas decretaram lágrimas a Hecabe e às mulheres de Ílion desde o seu nascimento. A ti, entretanto, Díon, que conquistaste a vitória em belas iniciativas, os deuses reservaram amplas esperanças. Jazes na pátria imensa, honrado por teus concidadãos, Díon, tu que deixaste meu coração louco de amor”.
(31) Dizem que este último epigrama foi gravado sobre a tumba de Díon em Siracusa. Consta ainda que, estando enamorado de Aléxis, e também de Faidros (já mencionado), Platão compôs o seguinte epigrama:
“Agora que eu disse ‘Somente Aléxis é belo’, todos o contemplam e por onde passa ele é olhado por todos. Por que, meu coração, mostrar o osso aos cães? Depois sofrerás. Não foi assim que perdemos Faidros?”
Platão também possuiu Arqueanassa, para quem compôs o seguinte epigrama:
“Possuo Arqueanassa, cortesã de Colofon; até em suas rugas pousa o amor picante. Ah! Infelizes que colhestes a flor de sua primeira viagem, por que chamas passastes!”
(32) Ele compôs este outro epigrama sobre Agaton:
“Enquanto beijava Agaton eu tinha a alma nos lábios, como se ela quisesse – infeliz! – passar por ele!”
E outro:
“Lanço-te esta maçã, e se queres realmente amar-me, recolhe-a e deixa-me provar a tua virgindade. Se não pensares assim – que isso não aconteça! – recolhe igualmente a maçã e vê como é breve a beleza!”
E ainda este:
“Sou esta maçã, lançada por quem te ama; cede, Xantipe, pois ambos nascemos para fenecer”.
(Diógenes Laércio – Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília : UnB, 1977, p. 92 e ss)
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Quem nunca escreveu um poema, que atire a primeira pedra.
Wednesday, July 20, 2005
Direto do Cemitério
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem duma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.
Soeren Kierkegaard, Desespero Humano.
Soeren Kierkegaard, Desespero Humano.
Monday, July 18, 2005
Coisa de grego (2): a zona
Alguém pode pensar que a zona, ou o que o valha, não foi inventada. É produto do crescimento das cidades, da segregação social, etc e tal. Ledo engano. A zona foi inventada, sim, e seu autor é Sólon, legislador ateniense que viveu no século VI a.C. O mesmo que, quando general, mandou seus soldados se vestirem como mulheres.
Sólon fez diversas reformas. Acabou com a escravidão por dívidas, desvalorizou a moeda, dividiu a população de acordo com a renda, recusou-se a castigar os celibatários (sob a alegação de uma mulher, afinal de contas, é um grande aborrecimento), transformou o ócio em crime (o que é um retrocesso, claro) e, por fim, legalizou a prostituição e determinou que fosse destinado às prostitutas um espaço próprio nas cercanias da cidade de Atenas. Ele entendia que não há crime na prática da prostituição, mas achava que as mulheres que procediam deste modo deviam ser afastadas das esposas e filhas... por via das dúvidas.
Sólon fez diversas reformas. Acabou com a escravidão por dívidas, desvalorizou a moeda, dividiu a população de acordo com a renda, recusou-se a castigar os celibatários (sob a alegação de uma mulher, afinal de contas, é um grande aborrecimento), transformou o ócio em crime (o que é um retrocesso, claro) e, por fim, legalizou a prostituição e determinou que fosse destinado às prostitutas um espaço próprio nas cercanias da cidade de Atenas. Ele entendia que não há crime na prática da prostituição, mas achava que as mulheres que procediam deste modo deviam ser afastadas das esposas e filhas... por via das dúvidas.
Sunday, July 17, 2005
Criptozoologia
Você tem animais em casa? Cachorro, gato, papagaio? Formiga? Cupim, talvez? Quem sabe um pernilongo?
Nada, nadinha mesmo? Engano seu. Há uma enorme população de animais invisíveis em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, no mundo inteiro. Invisíveis mesmo, tá? Como os duendes.
Mas não se preocupe. Se eventualmente precisar de ajuda (sabe-se lá), chame os ghostbusters, aqueles cientistas que já vêm com trilha sonora de Ray Parker Jr. Hoje eles atendem pelo nome de criptozoólogos e juram que são seríssimos, mas passam o dia elaborando teses sobre animais ocultos.
Não, não. Isso não tem nada a ver com ocultismo. É ciência mesmo, tá? O único problema é que o objeto de estudo é invisível. No mais, tudo segundo a cartilha. Até mesmo um certo grau de ceticismo, claro.
Para dar sentido ao estudo científico do oculto, eis um belíssimo provérbio tibetano, pleno de sabedoria: “O animal mais astuto é aquele que nenhum homem viu".
Legal... mas bem que esses cientistas podiam ser astutos também.
Desconfio que a máxima tibetana esteja invertida. Não seria mais correto dizer: "o homem mais astuto é aquele que nenhum animal viu"?
Nada, nadinha mesmo? Engano seu. Há uma enorme população de animais invisíveis em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, no mundo inteiro. Invisíveis mesmo, tá? Como os duendes.
Mas não se preocupe. Se eventualmente precisar de ajuda (sabe-se lá), chame os ghostbusters, aqueles cientistas que já vêm com trilha sonora de Ray Parker Jr. Hoje eles atendem pelo nome de criptozoólogos e juram que são seríssimos, mas passam o dia elaborando teses sobre animais ocultos.
Não, não. Isso não tem nada a ver com ocultismo. É ciência mesmo, tá? O único problema é que o objeto de estudo é invisível. No mais, tudo segundo a cartilha. Até mesmo um certo grau de ceticismo, claro.
Para dar sentido ao estudo científico do oculto, eis um belíssimo provérbio tibetano, pleno de sabedoria: “O animal mais astuto é aquele que nenhum homem viu".
Legal... mas bem que esses cientistas podiam ser astutos também.
Desconfio que a máxima tibetana esteja invertida. Não seria mais correto dizer: "o homem mais astuto é aquele que nenhum animal viu"?
Saturday, July 16, 2005
Notícias do Senado... romano
E por falar em Sura, aquele político que teria ajudado Cícero a comprar a casa nova: Plutarco conta, em Vidas Paralelas, que Cornélio Lêntulo (ou Sura) era senador pela segunda vez quando seus deboches e sua conduta infame o levaram a ser expulso do Senado.
Em certa época, Sura (que em latim quer dizer perna) gastou grande parte do erário público sob sua responsabilidade. Chamado pelo Senado a se explicar e a devolver o dinheiro, Sura não se incomodou minimamente. Disse que não tinha contas a prestar, mas, se quisessem, podia apresentar a perna, como fazem as crianças quando cometem alguma falta no jogo. Daí o apelido.
Conta ainda Plutarco que Sura foi processado e tratou de corromper alguns juízes. Quando foi absolvido com a maioria de dois votos, ao invés de ficar feliz e comemorar a vitória, indignou-se com o prejuízo. Bastava a maioria de um voto. Ou seja, pagou dois quando um era suficiente.
Que coisa... Dá até prá ficar com peninha.
Em certa época, Sura (que em latim quer dizer perna) gastou grande parte do erário público sob sua responsabilidade. Chamado pelo Senado a se explicar e a devolver o dinheiro, Sura não se incomodou minimamente. Disse que não tinha contas a prestar, mas, se quisessem, podia apresentar a perna, como fazem as crianças quando cometem alguma falta no jogo. Daí o apelido.
Conta ainda Plutarco que Sura foi processado e tratou de corromper alguns juízes. Quando foi absolvido com a maioria de dois votos, ao invés de ficar feliz e comemorar a vitória, indignou-se com o prejuízo. Bastava a maioria de um voto. Ou seja, pagou dois quando um era suficiente.
Que coisa... Dá até prá ficar com peninha.
Wednesday, July 13, 2005
Voltaire, born again
Qualquer seita, de qualquer gênero, é sempre a aliança da dúvida e do erro. Escotistas, tomistas, realistas, nominalistas, papistas, calvinistas, molinistas e jansenitas, tudo isso são nomes de guerra.
Não há seitas em geometria; ninguém se refere a euclidianos, a arquimedianos.
Quando a verdade é evidente, torna-se impossível a formação de partidos e facções. Nunca se discute se é dia claro ao meio-dia.
----------
François Marie Arouet (Voltaire), filósofo francês, século XVIII.
Dicionário Filosófico - verbete SEITA
Não há seitas em geometria; ninguém se refere a euclidianos, a arquimedianos.
Quando a verdade é evidente, torna-se impossível a formação de partidos e facções. Nunca se discute se é dia claro ao meio-dia.
----------
François Marie Arouet (Voltaire), filósofo francês, século XVIII.
Dicionário Filosófico - verbete SEITA
Tuesday, July 12, 2005
Fácil ou impossível
Cícero (aquele, de Roma) queria comprar uma casa. Como não tinha dinheiro suficiente, aceitou um presente secreto de dois mil sestércios de Sura, que era na ocasião uma das partes em um julgamento.
Antes que a casa fosse adquirida, o caso foi descoberto e tornado público. Cícero foi acusado de receber propina.
Abalado com o escândalo, é claro que ele negou tudo veementemente: "A acusação que me fazem é tão falsa que, se eu tivesse recebido o dinheiro, teria comprado a casa".
É claro que convenceu.
Logo depois, a compra foi efetuada.
Quando a mentira foi exposta ao Senado, Cícero foi chamado a se explicar. Se não havia recebido propina, com que dinheiro comprara a casa? Era sabido que não tinha o suficiente. Por que mentiria, se houvesse agido corretamente?
Mas Cícero defendeu-se com um argumento inusitado: "Vocês certamente são homens imprudentes se não sabem que um bom administrador de seu lar deve negar que deseja comprar algo, quando há tantos interessados em adquirir a mesma coisa".
Pensando bem, faz sentido: se não demonstra interesse em comprar a casa, o preço cai. Se o preço cai, então o dinheiro que tem será suficiente, o que significa que a propina não é necessária. Portanto, é inocente do que o acusam.
Ele ficou com a casa, sim. E com a fama de bom orador.
...................................
Já dizia o futuro ex-deputado Roberto Jefferson: certas coisas são fáceis ou são impossíveis. Eis aí algo que não é fácil para o PT.
Só não sei se isso é bom ou ruim.
Antes que a casa fosse adquirida, o caso foi descoberto e tornado público. Cícero foi acusado de receber propina.
Abalado com o escândalo, é claro que ele negou tudo veementemente: "A acusação que me fazem é tão falsa que, se eu tivesse recebido o dinheiro, teria comprado a casa".
É claro que convenceu.
Logo depois, a compra foi efetuada.
Quando a mentira foi exposta ao Senado, Cícero foi chamado a se explicar. Se não havia recebido propina, com que dinheiro comprara a casa? Era sabido que não tinha o suficiente. Por que mentiria, se houvesse agido corretamente?
Mas Cícero defendeu-se com um argumento inusitado: "Vocês certamente são homens imprudentes se não sabem que um bom administrador de seu lar deve negar que deseja comprar algo, quando há tantos interessados em adquirir a mesma coisa".
Pensando bem, faz sentido: se não demonstra interesse em comprar a casa, o preço cai. Se o preço cai, então o dinheiro que tem será suficiente, o que significa que a propina não é necessária. Portanto, é inocente do que o acusam.
Ele ficou com a casa, sim. E com a fama de bom orador.
...................................
Já dizia o futuro ex-deputado Roberto Jefferson: certas coisas são fáceis ou são impossíveis. Eis aí algo que não é fácil para o PT.
Só não sei se isso é bom ou ruim.
Sunday, July 10, 2005
Ih, sujou! É homem!
Durante muito tempo, atenienses e megários brigaram pela posse da ilha de Salamina. A certa altura, os megários ocuparam a ilha. Sólon foi o general escolhido pelos atenienses para recuperar Salamina. O que fez? Enviou um espião a Mégara, fingindo ser um traidor, para contar sobre a oportunidade única de seqüestrar as mulheres mais bonitas de Atenas, que estariam em um festival em homenagem à deusa Afrodite, no templo dedicado a ela.
De fato, havia o festival. Sim, as mulheres participariam dele; apenas elas. Sim, o festival aconteceria no templo de Afrodite.
Solon precisou apenas substituir as mulheres por homens vestidos de mulheres.
Os navios se aproximaram. À distância, os megários não se deram conta da diferença e, afoitos, se atiraram na água apressadamente. Ao chegar à praia é que perceberam que havia algo errado. Não é que as mulheres tivessem barba, entende? É que não tinham cintura, e...
E tarde demais. Eram homens. Os megários foram mortos e os atenienses utilizaram seus navios para aportar tranquilamente em Salamina. Novo engodo: quem desceu dos navios não foram os megários, como se esperava, mas soldados atenienses, que tomaram a ilha.
A história não conta se ainda estavam usando vestidos.
De fato, havia o festival. Sim, as mulheres participariam dele; apenas elas. Sim, o festival aconteceria no templo de Afrodite.
Solon precisou apenas substituir as mulheres por homens vestidos de mulheres.
Os navios se aproximaram. À distância, os megários não se deram conta da diferença e, afoitos, se atiraram na água apressadamente. Ao chegar à praia é que perceberam que havia algo errado. Não é que as mulheres tivessem barba, entende? É que não tinham cintura, e...
E tarde demais. Eram homens. Os megários foram mortos e os atenienses utilizaram seus navios para aportar tranquilamente em Salamina. Novo engodo: quem desceu dos navios não foram os megários, como se esperava, mas soldados atenienses, que tomaram a ilha.
A história não conta se ainda estavam usando vestidos.
Saturday, July 09, 2005
Severino Cemitério
Só hoje me toquei que o nome do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) corresponde, em português, a algo como "Severino Cemitério".
Soren é o equivalente a Severino. Gaard, em dinamarquês, significa "jardim, pátio" e kierke, igreja. Portanto, 'pátio da igreja', local onde enterravam-se os mortos.
Pois é. Severino Cemitério. Quem diria.
Mas ele não nega, não: filho da velhice [isto é, de pais idosos] e carregando um cemitério no nome, só poderia ser o que sou.
O que será que ele quis dizer com isso?
Soren é o equivalente a Severino. Gaard, em dinamarquês, significa "jardim, pátio" e kierke, igreja. Portanto, 'pátio da igreja', local onde enterravam-se os mortos.
Pois é. Severino Cemitério. Quem diria.
Mas ele não nega, não: filho da velhice [isto é, de pais idosos] e carregando um cemitério no nome, só poderia ser o que sou.
O que será que ele quis dizer com isso?
Friday, July 08, 2005
Transforme seu cérebro
Sim, eu sei. Testes online não significam nada, mas o que posso fazer? Aparece uma pergunta, e lá vou eu marcar ‘x’. Simplesmente não consigo evitar. Eu preciso responder, entende?
Prá piorar, encontrei outro questionário na internet, e descobri que é possível checar se tenho alguma disfunção no córtex pré-frontal (o que quer que isso seja) apenas marcando "x". Perfeito! Respondo a perguntas e ainda checo minha saúde.
Como eu não sabia que tinha um córtex pré-frontal, fiquei mais interessada do que devia, porque o resultado não foi lá grande coisa. Respondi “frequentemente” e “muito frequentemente” à metade das perguntas feitas, o que me coloca no grupo de altíssimo risco. É bastante provável eu tenha alguma disfunção neurológica.
Chato isso, mas fazer o quê, né? A vida segue em frente, apesar dos e-testes.
A vantagem deste auto-teste é que ele vem junto com os segredos da boa nutrição para casos como o meu, de alto índice de respostas erradas (isto, claro, se você conseguir superar a impaciência e for capaz de ler tudo sem ir pulando o que acha que já adivinhou). Mas, se levar a sério a receita, nem pense em fazer o mesmo com o tal foco Mozart. É tortura chinesa. Música clássica três vezes por semana para quem não consegue ficar parado? Menos, menos!
Prá piorar, encontrei outro questionário na internet, e descobri que é possível checar se tenho alguma disfunção no córtex pré-frontal (o que quer que isso seja) apenas marcando "x". Perfeito! Respondo a perguntas e ainda checo minha saúde.
Como eu não sabia que tinha um córtex pré-frontal, fiquei mais interessada do que devia, porque o resultado não foi lá grande coisa. Respondi “frequentemente” e “muito frequentemente” à metade das perguntas feitas, o que me coloca no grupo de altíssimo risco. É bastante provável eu tenha alguma disfunção neurológica.
Chato isso, mas fazer o quê, né? A vida segue em frente, apesar dos e-testes.
A vantagem deste auto-teste é que ele vem junto com os segredos da boa nutrição para casos como o meu, de alto índice de respostas erradas (isto, claro, se você conseguir superar a impaciência e for capaz de ler tudo sem ir pulando o que acha que já adivinhou). Mas, se levar a sério a receita, nem pense em fazer o mesmo com o tal foco Mozart. É tortura chinesa. Música clássica três vezes por semana para quem não consegue ficar parado? Menos, menos!
Sunday, July 03, 2005
Os filósofos e os porcos (1)
A propósito de meu coleguinha João de Salisbúria, em cuja companhia passei três anos muito agradáveis: ele me contou que estudou durante 16 anos na Escola de Chartres, na França. Sem concluir os estudos, por falta de recursos, ordenou-se padre e voltou para sua terra natal, a Inglaterra. Vinte anos depois, fugindo dos desmandos de Henrique I, retornou a Chartres.
Encontrou a antiga escola nas mesmas condições em que a deixara: discutindo exatamente os mesmos problemas e ainda sem conseguir resolvê-los.
Para mostrar a inutilidade disto tudo, João lançou o seguinte dilema:
-- O porco que é levado ao mercado está suspenso pelo homem ou pela corda?
Como boa amiguinha que sou, vou examinar as possibilidades:
1. O porco está suspenso pela corda, tese que chamaremos 'artificialista' (já que a corda é algo artificial, não natural);
2. O porco está suspenso pelo homem, tese que chamaremos 'naturalista' (já que o homem é natural, não artificial).
Os defensores do naturalismo dirão que o artificial deriva do natural. Portanto, o que sustenta a corda que sustenta o porco é o homem. Logo, o porco não está, em última análise, suspenso pela corda.
Os defensores do artificialismo dirão que o homem, natural, sustenta a corda, artificial, mas é a corda, artificial, que sustenta o porco, natural. Ou seja, se o natural sustém o artificial, é o artificial que em última instância sustém o natural. Sendo assim, o porco que é levado ao mercado não está suspenso pelo homem.
Ora, se o porco não está suspenso nem pela corda e nem pelo homem, então como é que ele conseguiu chegar ao mercado?
Eis aí um sub-dilema.
Encontrou a antiga escola nas mesmas condições em que a deixara: discutindo exatamente os mesmos problemas e ainda sem conseguir resolvê-los.
Para mostrar a inutilidade disto tudo, João lançou o seguinte dilema:
-- O porco que é levado ao mercado está suspenso pelo homem ou pela corda?
Como boa amiguinha que sou, vou examinar as possibilidades:
1. O porco está suspenso pela corda, tese que chamaremos 'artificialista' (já que a corda é algo artificial, não natural);
2. O porco está suspenso pelo homem, tese que chamaremos 'naturalista' (já que o homem é natural, não artificial).
Os defensores do naturalismo dirão que o artificial deriva do natural. Portanto, o que sustenta a corda que sustenta o porco é o homem. Logo, o porco não está, em última análise, suspenso pela corda.
Os defensores do artificialismo dirão que o homem, natural, sustenta a corda, artificial, mas é a corda, artificial, que sustenta o porco, natural. Ou seja, se o natural sustém o artificial, é o artificial que em última instância sustém o natural. Sendo assim, o porco que é levado ao mercado não está suspenso pelo homem.
Ora, se o porco não está suspenso nem pela corda e nem pelo homem, então como é que ele conseguiu chegar ao mercado?
Eis aí um sub-dilema.
Saturday, July 02, 2005
Asinus coronatus
Rex illiteratus est quasi asinus coronatus
(um rei iletrado é quase um asno coroado)
João de Salisbúria, filósofo, 1115-1180. Escreveu o primeiro tratado de filosofia política do período medieval, o Policraticus, de onde foi extraída essa frase.
(um rei iletrado é quase um asno coroado)
João de Salisbúria, filósofo, 1115-1180. Escreveu o primeiro tratado de filosofia política do período medieval, o Policraticus, de onde foi extraída essa frase.
É o Michael, é o Michael!
Clique no título e observe com atenção o rosto na torrada. É o Michael, não é?
Tem gente jurando que sim. Uma torradeira enviou essa mensagem durante o julgamento. No dia do veredicto, outra fatia de pão saltou de outra torradeira com o aviso: “inocente”.
Então está resolvido. A justiça humana inocentou Jackson, e a divina disse amém. Afinal, é o rei do pop.
Mas que parece, parece...
Não, não procuro essas histórias malucas. Elas é que vêm até mim. Por vontade divina.
Tem gente jurando que sim. Uma torradeira enviou essa mensagem durante o julgamento. No dia do veredicto, outra fatia de pão saltou de outra torradeira com o aviso: “inocente”.
Então está resolvido. A justiça humana inocentou Jackson, e a divina disse amém. Afinal, é o rei do pop.
Mas que parece, parece...
Não, não procuro essas histórias malucas. Elas é que vêm até mim. Por vontade divina.
Thursday, June 30, 2005
Hieróglifos para iniciantes
Sugeri aqui, há algum tempo, uma solução definitiva para todos os problemas com a língua portuguesa: recorrer a hieróglifos.
E não é que encontrei um curso online em escrita egípcia antiga?
Olhe só as vantagens do curso: quando encontrar uma múmia egípcia, você vai poder ler a inscrição. O curso também melhora a coordenação motora, porque você terá de desenhar todas aquelas figurinhas repetidas vezes. Uma palavrinha de cinco letras e lá se vão uma coruja, uma balança, um olho, uma cesta e uma cobrinha. Isto, claro, se essa palavrinha for o sujeito da oração. Se for, por exemplo, um objeto direto, então a sequência é outra: coruja, balança, olho, cesta (a raiz, tá?), um pato, uma perna e uma cabeça de macaco. Se for um objeto indireto, troque o pato, a perna e a cabeça de macaco por um leão, um homem sentado e um sacerdote. Uma conjunção, e temos um braço, um prato e um sol. Um pronome, e eis um braço e um pé. Se for um verbo, lá está a conjugação seta, peixe, mulher, vaca.
Visualize agora um parágrafo inteiro. Não é lindo?
Mas o melhor de tudo é poder escrever - e ler - da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, na horizontal (linhas) e na vertical (colunas). Imagine. Não faz a menor diferença.
E depois dizem que as pirâmides foram construídas por deuses astronautas. Com uma escrita tão flexível assim, faz-se qualquer coisa. Olhe só o exercício de raciocínio: antes de começar a ler, é preciso identificar primeiro em que direção aquele texto específico foi escrito.
Faça o curso. Se um dia visitar o Egito, ele será útil. Se não, será de graça. :-))
E não é que encontrei um curso online em escrita egípcia antiga?
Olhe só as vantagens do curso: quando encontrar uma múmia egípcia, você vai poder ler a inscrição. O curso também melhora a coordenação motora, porque você terá de desenhar todas aquelas figurinhas repetidas vezes. Uma palavrinha de cinco letras e lá se vão uma coruja, uma balança, um olho, uma cesta e uma cobrinha. Isto, claro, se essa palavrinha for o sujeito da oração. Se for, por exemplo, um objeto direto, então a sequência é outra: coruja, balança, olho, cesta (a raiz, tá?), um pato, uma perna e uma cabeça de macaco. Se for um objeto indireto, troque o pato, a perna e a cabeça de macaco por um leão, um homem sentado e um sacerdote. Uma conjunção, e temos um braço, um prato e um sol. Um pronome, e eis um braço e um pé. Se for um verbo, lá está a conjugação seta, peixe, mulher, vaca.
Visualize agora um parágrafo inteiro. Não é lindo?
Mas o melhor de tudo é poder escrever - e ler - da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, na horizontal (linhas) e na vertical (colunas). Imagine. Não faz a menor diferença.
E depois dizem que as pirâmides foram construídas por deuses astronautas. Com uma escrita tão flexível assim, faz-se qualquer coisa. Olhe só o exercício de raciocínio: antes de começar a ler, é preciso identificar primeiro em que direção aquele texto específico foi escrito.
Faça o curso. Se um dia visitar o Egito, ele será útil. Se não, será de graça. :-))
Wednesday, June 29, 2005
Movimento antropofágico intraterrestre
Um tal Scott Krause encontrou pela frente, em janeiro de 2004, seres intraterrestres antropófagos. Morto de medo, tentou escapar. Na fuga, assaltou uma loja, roubou um carro, dirigiu em alta velocidade, perdeu o controle da direção, bateu em um caminhão e matou o motorista.
O que aconteceu depois? Os tais hemadrones, os seres intraterrestres, desapareceram imediatamente. Sem levar nada. Na certa, ficaram assustados com o acidente.
Krause será julgado na próxima semana. O advogado vai, sim, insistir na história que contei acima e alegar insanidade. Krause acreditava realmente estar sendo perseguido por seres vindos do interior da terra. O que eles queriam? Um pedaço, pelo menos.
O que aconteceu depois? Os tais hemadrones, os seres intraterrestres, desapareceram imediatamente. Sem levar nada. Na certa, ficaram assustados com o acidente.
Krause será julgado na próxima semana. O advogado vai, sim, insistir na história que contei acima e alegar insanidade. Krause acreditava realmente estar sendo perseguido por seres vindos do interior da terra. O que eles queriam? Um pedaço, pelo menos.
Tuesday, June 28, 2005
P-r-e-s-t-e-n-ç-ã-o
Em Hong Kong, uma mulher passou um mês inteiro com uma sanguessuga de 5 cm no nariz, mas o melhor da história é que ela nem percebeu. Repito: um mês inteiro com uma sanguessuga no nariz e nem percebeu. Pior ainda: parece que não percebeu nem quando ganhou o bichin, ao lavar o rosto em um riacho. Só foi ao médico porque o nariz não parava de sangrar.
Será que esse é um caso de Transtorno de Déficit de Atenção? Deve ser, né? Não dá prá imaginar atenção mais deficitária que essa.
Será que esse é um caso de Transtorno de Déficit de Atenção? Deve ser, né? Não dá prá imaginar atenção mais deficitária que essa.
Monday, June 27, 2005
Assim não vale
O escultor grego Praxíteles, que viveu no séc. IV a.C., queria fazer uma estátua de Afrodite, mas precisaria, para isso, encontrar uma modelo cuja beleza estivesse à altura da deusa do amor e, ainda, alguém que aceitasse ser representada nua. A segunda parte seria ainda mais difícil, já que os gregos julgavam que o corpo feminino não deveria ser exposto. A iniciativa seria considerada, com certeza, uma séria ofensa à deusa e aos costumes.
Praxíteles resolveu o problema usando como modelo uma hetária (espécie de cortesã-sacerdotisa da antiguidade) e trabalhando às escondidas. Mesmo com todos os cuidados, foi descoberto. A esta altura, já havia concluído o trabalho (clique no título para ver a escultura).
Praxíteles e Frinéia, a hetária, foram levados a julgamento. Pelo sacrilégio, a pena seria a execução. Os acusadores alegavam que nenhum mortal poderia se igualar, em beleza, à deusa do amor.
Frinéia não se fez de rogada. Usou, para se defender, um argumento bastante simples: ficou nua diante do júri.
Inocente.
Praxíteles resolveu o problema usando como modelo uma hetária (espécie de cortesã-sacerdotisa da antiguidade) e trabalhando às escondidas. Mesmo com todos os cuidados, foi descoberto. A esta altura, já havia concluído o trabalho (clique no título para ver a escultura).
Praxíteles e Frinéia, a hetária, foram levados a julgamento. Pelo sacrilégio, a pena seria a execução. Os acusadores alegavam que nenhum mortal poderia se igualar, em beleza, à deusa do amor.
Frinéia não se fez de rogada. Usou, para se defender, um argumento bastante simples: ficou nua diante do júri.
Inocente.
Sunday, June 26, 2005
O crime que a ficção desvendou
Em 28 de julho de 1841 um cadáver foi encontrado no Rio Hudson, New Jersey, costa oeste dos Estados Unidos. Tratava-se de Mary Cecília Rogers, uma jovem de 20 anos que trabalhava em uma tabacaria de Nova Iorque e que estava desaparecida há três dias. As evidências indicavam que a mulher havia sido espancada, violentada e morta, possivelmente por duas ou três pessoas.
A violência do crime, o estado em que se encontrava o corpo, quase irreconhecível, o fato de tratar-se da “moça bonita da tabacaria” e, claro, o mistério que envolvia a história, fizeram com que o caso fosse explorado à exaustão pela imprensa. Acrescente-se a este fato um outro, também lamentável: o suicídio do noivo, que se sentia incapaz de conviver com o que Mary havia supostamente sofrido.
O que torna este crime peculiar é o fato de ter sido solucionado pela ficção, em conto do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849).
Poe acompanhou o que foi publicado sobre o assunto e escreveu o conto intitulado “O mistério de Marie Rogêt”, em que argumenta em favor de uma hipótese bastante distinta da linha de investigação da polícia. Em seguida, entregou o conto ao delegado, pedindo que investigasse sua hipótese.
Para Allan Poe, não houve estrangulamento, não houve espancamento, não houve estupro, não houve assassinato, não havia envolvimento de uma quadrilha na história. Houve crime? Sim.
Enfim, o que teria acontecido a Mary Cecília Rogers?
Leia o conto. :-))
A violência do crime, o estado em que se encontrava o corpo, quase irreconhecível, o fato de tratar-se da “moça bonita da tabacaria” e, claro, o mistério que envolvia a história, fizeram com que o caso fosse explorado à exaustão pela imprensa. Acrescente-se a este fato um outro, também lamentável: o suicídio do noivo, que se sentia incapaz de conviver com o que Mary havia supostamente sofrido.
O que torna este crime peculiar é o fato de ter sido solucionado pela ficção, em conto do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849).
Poe acompanhou o que foi publicado sobre o assunto e escreveu o conto intitulado “O mistério de Marie Rogêt”, em que argumenta em favor de uma hipótese bastante distinta da linha de investigação da polícia. Em seguida, entregou o conto ao delegado, pedindo que investigasse sua hipótese.
Para Allan Poe, não houve estrangulamento, não houve espancamento, não houve estupro, não houve assassinato, não havia envolvimento de uma quadrilha na história. Houve crime? Sim.
Enfim, o que teria acontecido a Mary Cecília Rogers?
Leia o conto. :-))
Tuesday, June 21, 2005
Quem te conhece que te compre
Nos episódios recentes envolvendo a Câmara dos Deputados, um argumento vem sendo repetido ad nauseam pelos envolvidos, quaisquer que sejam: “quem me conhece sabe muito bem que...”
Surge uma denúncia, alguém é acusado, aparece uma suspeita, e eis o refrão: "quem me conhece sabe muito bem que..."
Este argumento é obviamente falacioso e funciona da seguinte forma: tenta-se convencer uma audiência da honestidade do ofendido usando para isso o suposto bom julgamento de pessoas próximas. Como não conhecemos nem aquele que se defende, nem seus familiares e amigos próximos e menos ainda sabemos o que dizem, só nos resta confiar na palavra daquele que está sob suspeição. Ou seja, o argumento supõe a honestidade de A com base na afirmação de A de que quem conhece A sabe da honestidade de A.
É isso mesmo.
Pela frequência com que é repetido, é possível supor que seja eficiente.
Surge uma denúncia, alguém é acusado, aparece uma suspeita, e eis o refrão: "quem me conhece sabe muito bem que..."
Este argumento é obviamente falacioso e funciona da seguinte forma: tenta-se convencer uma audiência da honestidade do ofendido usando para isso o suposto bom julgamento de pessoas próximas. Como não conhecemos nem aquele que se defende, nem seus familiares e amigos próximos e menos ainda sabemos o que dizem, só nos resta confiar na palavra daquele que está sob suspeição. Ou seja, o argumento supõe a honestidade de A com base na afirmação de A de que quem conhece A sabe da honestidade de A.
É isso mesmo.
Pela frequência com que é repetido, é possível supor que seja eficiente.
Monday, June 20, 2005
A natureza oblíqua da mulher
Outra passagem digna de nota do Malleus Malleficarum, de Kramer & Sprenger, é a referência ao caráter naturalmente ‘torto’ da mulher. O argumento consiste no seguinte: Eva foi feita a partir de uma costela de Adão. Ora, as costelas são ossos curvos. Se a matéria-prima da mulher é naturalmente curva, ela só pode tender para o que é torto. Logo, não há retidão moral na mulher.
É, pois é.
É, pois é.
Sunday, June 19, 2005
Identificação datiloscópica de bruxas
Lembra da Maga Patológica e da Madame Min?
Pois é, os medievais juravam que elas existiam, viviam entre nós, faziam poções mágicas, eram malvadas, voavam e, o mais grave, transformavam homens em animais.
Esse povinho Wicca tem feito de tudo para provar que as bruxas existem (o que dá razão ao medievo), mas estou interessada mesmo é na técnica usada para separar o joio do trigo. Isto é, como saber com certeza se uma mulher é bruxa ou, digamos, honesta?
Esse é um problema masculino, claro, e vou deixar que os monges dominicanos Heinrich Kramer e Joseph Sprenger o resolvam. Eles têm dicas eficientíssimas para jamais perder a humanidade nas mãos de uma bruxa: antes de mais nada, verifique se a mulher suspeita tem olhos verdes. É um indício seguro de feitiçaria, sedução e perdição.
Se a mulher não tiver olhos verdes, isso não quer dizer nada. Pode ser bruxa assim mesmo. O diabo é ardiloso, viu? Procure então por marcas de nascença, especialmente marcas das mordidas do capeta no corpo da mulher sob suspeição. É para procurar mesmo.
Então. Não há olhos verdes e o corpo sob suspeita aparentemente não foi mordido. Resolvido o assunto? Coisa nenhuma! Tudo pode ser enganação, disfarce, maquiagem. O jeito é procurar o terceiro seio. Se houver, será bruxa com certeza. Se não houver, ainda assim pode ser bruxa. É preciso lembrar sempre que o diabo é enganador.
Frustrante: a mulher examinada não tem olhos verdes, não tem marcas de nascença e só tem dois seios. O que fazer? Desistir do assunto? Assumir que houve engano? Declarar a inocência?
Precisa não. Ainda há recursos. Passe logo para o momento seguinte: tente arrancar uma confissão sob tortura, mas faça o impossível para que ela não confesse antes. É que só uma confissão sob tortura é verdadeira. Quem confessa espontaneamente o faz por medo de ser torturado, entende?
Após tantos esforços, ainda não temos a prova inconteste? A mulher sob suspeita não tem olhos verdes, marcas de nascença, terceiro seio e, lamentavelmente, confessou antes de ser torturada. Não há ainda prova definitiva, irrefutável, absolutamente segura? Que pena. Mas ela é possível, sim.
Passe para o teste final: amarre uma pedra de bom tamanho ao corpo da mulher, que deve ser atirada com vida a um rio. Se boiar, você saberá com certeza que ela é inocente, e pode deixá-la ir em paz. Esta nunca o transformará em porco. Nem em corno, né?
Se for para o fundo do rio, é culpada. Claro, isso não tem nada a ver com o peso da pedra, mas sim com o peso da culpa. Vá para a casa em paz. Essa também nunca o transformará em porco. Nem em corno.
.......................
Sim, Kramer e Sprenger realmente existiram e, em 1484, publicaram o livro intitulado Malleus Malleficarum (O Martelo das Feiticeiras, publicado no Brasil pela Rosa dos Ventos), de onde tirei essas orientações. Com a licença do estilo na descrição, é isso mesmo.
Pois é, os medievais juravam que elas existiam, viviam entre nós, faziam poções mágicas, eram malvadas, voavam e, o mais grave, transformavam homens em animais.
Esse povinho Wicca tem feito de tudo para provar que as bruxas existem (o que dá razão ao medievo), mas estou interessada mesmo é na técnica usada para separar o joio do trigo. Isto é, como saber com certeza se uma mulher é bruxa ou, digamos, honesta?
Esse é um problema masculino, claro, e vou deixar que os monges dominicanos Heinrich Kramer e Joseph Sprenger o resolvam. Eles têm dicas eficientíssimas para jamais perder a humanidade nas mãos de uma bruxa: antes de mais nada, verifique se a mulher suspeita tem olhos verdes. É um indício seguro de feitiçaria, sedução e perdição.
Se a mulher não tiver olhos verdes, isso não quer dizer nada. Pode ser bruxa assim mesmo. O diabo é ardiloso, viu? Procure então por marcas de nascença, especialmente marcas das mordidas do capeta no corpo da mulher sob suspeição. É para procurar mesmo.
Então. Não há olhos verdes e o corpo sob suspeita aparentemente não foi mordido. Resolvido o assunto? Coisa nenhuma! Tudo pode ser enganação, disfarce, maquiagem. O jeito é procurar o terceiro seio. Se houver, será bruxa com certeza. Se não houver, ainda assim pode ser bruxa. É preciso lembrar sempre que o diabo é enganador.
Frustrante: a mulher examinada não tem olhos verdes, não tem marcas de nascença e só tem dois seios. O que fazer? Desistir do assunto? Assumir que houve engano? Declarar a inocência?
Precisa não. Ainda há recursos. Passe logo para o momento seguinte: tente arrancar uma confissão sob tortura, mas faça o impossível para que ela não confesse antes. É que só uma confissão sob tortura é verdadeira. Quem confessa espontaneamente o faz por medo de ser torturado, entende?
Após tantos esforços, ainda não temos a prova inconteste? A mulher sob suspeita não tem olhos verdes, marcas de nascença, terceiro seio e, lamentavelmente, confessou antes de ser torturada. Não há ainda prova definitiva, irrefutável, absolutamente segura? Que pena. Mas ela é possível, sim.
Passe para o teste final: amarre uma pedra de bom tamanho ao corpo da mulher, que deve ser atirada com vida a um rio. Se boiar, você saberá com certeza que ela é inocente, e pode deixá-la ir em paz. Esta nunca o transformará em porco. Nem em corno, né?
Se for para o fundo do rio, é culpada. Claro, isso não tem nada a ver com o peso da pedra, mas sim com o peso da culpa. Vá para a casa em paz. Essa também nunca o transformará em porco. Nem em corno.
.......................
Sim, Kramer e Sprenger realmente existiram e, em 1484, publicaram o livro intitulado Malleus Malleficarum (O Martelo das Feiticeiras, publicado no Brasil pela Rosa dos Ventos), de onde tirei essas orientações. Com a licença do estilo na descrição, é isso mesmo.
Saturday, June 18, 2005
Sunday, June 12, 2005
Ôu, eu não!
Clístenes, um aristocrata grego cheio de idéias progressistas, assumiu o poder em Atenas após liderar a rebelião que derrubou o tirano Hípias.
Para afastar qualquer ameaça de retorno a um estado tirânico, Clístenes inventou e inaugurou a prática chamada “ostracismo”, que consistia no seguinte: cada membro da Assembléia popular, de que faziam parte 6000 homens, podia escrever, numa concha chamada ostrakón, o nome de um cidadão que, a seu ver, constituísse ameaça para o Estado. Se houvesse 3000 votos, o denunciado seria exilado por 10 anos, sem direito a defesa.
Quando o presidente da Assembléia perguntou aos presentes se haveria entre eles alguém que devesse ser considerado perigoso para o Estado, a resposta, que reuniu os três mil votos, foi: "Clístenes, Clístenes!"
Pelo visto só queriam a idéia, e nem era tão boa assim.
Para afastar qualquer ameaça de retorno a um estado tirânico, Clístenes inventou e inaugurou a prática chamada “ostracismo”, que consistia no seguinte: cada membro da Assembléia popular, de que faziam parte 6000 homens, podia escrever, numa concha chamada ostrakón, o nome de um cidadão que, a seu ver, constituísse ameaça para o Estado. Se houvesse 3000 votos, o denunciado seria exilado por 10 anos, sem direito a defesa.
Quando o presidente da Assembléia perguntou aos presentes se haveria entre eles alguém que devesse ser considerado perigoso para o Estado, a resposta, que reuniu os três mil votos, foi: "Clístenes, Clístenes!"
Pelo visto só queriam a idéia, e nem era tão boa assim.
Monday, June 06, 2005
Receita caseira para fazer insetos e ratos
A quem interessar possa: há uma receita infalível para fazer insetos e ratos. O procedimento é muito semelhante ao de um bolo: basta seguir as instruções.
Quem garante a veracidade do que estou dizendo é o médico e químico flamengo Jean Baptiste Van Helmont, que viveu no século XVII. Eis duas de suas receitas infalíveis, constantes do livro "Obras de Medicina e de Física":
“Faça um buraco em um tijolo e ponha ali erva de manjericão bem triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos escorpiões”.
Para produzir ratos, basta “comprimir uma camisa de mulher, suja, em um vaso guarnecido de trigo. Espere 21 dias. O fermento vindo da camisa, modificado pelo odor dos grãos, transformará em rato o próprio trigo”.
Van Helmont estudou Filosofia e Direito antes de se dedicar à Medicina. Olha só. Nem precisava, né?
Mas surpreendente mesmo é que, em uma Europa infestada de ratos, o homem tenha tido criatividade suficiente para estudar um modo de fabricar... ratos!
Ah, tá, o experimento era sobre geração espontânea. Certo.
Quem garante a veracidade do que estou dizendo é o médico e químico flamengo Jean Baptiste Van Helmont, que viveu no século XVII. Eis duas de suas receitas infalíveis, constantes do livro "Obras de Medicina e de Física":
“Faça um buraco em um tijolo e ponha ali erva de manjericão bem triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos escorpiões”.
Para produzir ratos, basta “comprimir uma camisa de mulher, suja, em um vaso guarnecido de trigo. Espere 21 dias. O fermento vindo da camisa, modificado pelo odor dos grãos, transformará em rato o próprio trigo”.
Van Helmont estudou Filosofia e Direito antes de se dedicar à Medicina. Olha só. Nem precisava, né?
Mas surpreendente mesmo é que, em uma Europa infestada de ratos, o homem tenha tido criatividade suficiente para estudar um modo de fabricar... ratos!
Ah, tá, o experimento era sobre geração espontânea. Certo.
Sunday, June 05, 2005
Meu joelho não é normal
Venho sentindo dores nos joelhos há cerca de dois meses. Segundo o médico que me atendeu esta semana, o caso é de uma simplicidade atroz: meu joelho não é normal. Simples assim.
Os exames não detectaram lesão, doença, fratura ou arranhão. Nada, exceto osso mal formado. Esquisito mesmo. Patela pontiaguda, para ser mais exata.
Legal, né? Com tanto problema sem solução no mundo, eu tinha de arrumar logo uma solução sem problema.
Confesso que fiquei um tanto decepcionada. Nadinha, mesmo? Após esse tempo todo sentindo dores, esperava que pelo menos houvesse um remedinho pra tomar; quem sabe, talvez, um gesso, ou eventualmente uma cirurgia. Qualquer coisa que justificasse passar esse tempo todo mancando. Eu já estava até fazendo planos para comprar uma bengala. Mas não. A única coisa a fazer é eliminar todo e qualquer gatilho para as dores: salto alto, escada, bicicleta, peso excessivo, longas horas em pé etc. E mais nada.
O lado bom de tudo isso? Descobri que minhas pernas não são finas. O joelho é que é largo.
Os exames não detectaram lesão, doença, fratura ou arranhão. Nada, exceto osso mal formado. Esquisito mesmo. Patela pontiaguda, para ser mais exata.
Legal, né? Com tanto problema sem solução no mundo, eu tinha de arrumar logo uma solução sem problema.
Confesso que fiquei um tanto decepcionada. Nadinha, mesmo? Após esse tempo todo sentindo dores, esperava que pelo menos houvesse um remedinho pra tomar; quem sabe, talvez, um gesso, ou eventualmente uma cirurgia. Qualquer coisa que justificasse passar esse tempo todo mancando. Eu já estava até fazendo planos para comprar uma bengala. Mas não. A única coisa a fazer é eliminar todo e qualquer gatilho para as dores: salto alto, escada, bicicleta, peso excessivo, longas horas em pé etc. E mais nada.
O lado bom de tudo isso? Descobri que minhas pernas não são finas. O joelho é que é largo.
Kierkegaard, alive & kicking
Perante um desmaio, grita-se: Água! Água de Colônia! Gotas de Hofmann! Mas perante alguém que desespera, grita-se: possível, possível! Só o possível o pode salvar! Uma possibilidade: e o nosso desesperado recomeça a respirar, revive, porque sem possível, por assim dizer, não se respira.
(Desespero Humano)
(Desespero Humano)
Monday, May 30, 2005
Como parar de fumar sem nem mesmo tentar
Hoje estou completando dez dias sem fumar. Nada de mais. O caso é que não tive intenção alguma de me privar do cigarro, ainda que temporariamente, ou de parar de fumar. Continuo sem intenção, mas continuo sem fumar.
Como não pensava realmente em parar, resolvi testar minha resistência: deixei uma carteira aberta à minha frente, todos os dias. Como era uma brincadeira, eu podia me dar ao luxo de resistir. Quando cansasse de brincar, acenderia um cigarro.
Pois é, isso já se estendeu por 10 dias, e a carteira continua intacta. O problema é que me dei conta agora de que estou mesmo deixando de fumar e me apavorei. Como vou passar por todas as dificuldades da vida sem acender um cigarro? Além do mais, isso significa me proibir de fazer o que gosto.
Então cheguei à seguinte conclusão: como o que eu desejava era testar minha resistência e fortalecer meu espírito, não tenho mais nada que provar a mim mesma, portanto posso fumar o quanto quiser. E, se posso, então não estou me interditando. Se não estou me interditando, não preciso me rebelar. Se não preciso me rebelar, sou livre para decidir o que fazer. E, já que sou livre, por que não continuar me testando?
É, eu sei, há modos mais simples de deixar de fumar. Mas cada é um cada um, né?
Como não pensava realmente em parar, resolvi testar minha resistência: deixei uma carteira aberta à minha frente, todos os dias. Como era uma brincadeira, eu podia me dar ao luxo de resistir. Quando cansasse de brincar, acenderia um cigarro.
Pois é, isso já se estendeu por 10 dias, e a carteira continua intacta. O problema é que me dei conta agora de que estou mesmo deixando de fumar e me apavorei. Como vou passar por todas as dificuldades da vida sem acender um cigarro? Além do mais, isso significa me proibir de fazer o que gosto.
Então cheguei à seguinte conclusão: como o que eu desejava era testar minha resistência e fortalecer meu espírito, não tenho mais nada que provar a mim mesma, portanto posso fumar o quanto quiser. E, se posso, então não estou me interditando. Se não estou me interditando, não preciso me rebelar. Se não preciso me rebelar, sou livre para decidir o que fazer. E, já que sou livre, por que não continuar me testando?
É, eu sei, há modos mais simples de deixar de fumar. Mas cada é um cada um, né?
Saturday, May 28, 2005
Tristes Trópicos
Li, ainda agora, no jornal O Popular: "Em fevereiro último, Claude Lévi-Strauss (...) deu entrevista ao jornal Le Monde, de Paris, relembrando sua passagem pelo Brasil, onde colheu subsídios para escrever o notável 'Tristes Trópicos'".
Como assim, cara pálida?
Como assim, cara pálida?
Friday, May 27, 2005
Condenado à morte?
A pior tragédia provocada por erupção vulcânica do século XX aconteceu na ilha de Martinica, no Caribe, em 8 de maio de 1902. Dois fatos me chamam a atenção, em relação à erupção do Monte Pelée.
Em primeiro lugar, a cidade de Saint Pierre foi inteiramente destruída, com um saldo de cerca de 30 mil mortos, e um sobrevivente. Toda a população da cidade foi dizimada em três minutos, mas uma pessoa sobreviveu sem lesões, arranhão, nada, nada: na cadeia da cidade havia um prisioneiro, Ludger Sylbaris, condenado à morte. Como a cadeia estava localizada no subterrâneo, praticamente sem ventilação, ele não foi atingido pelos gases. Sobreviveu ainda a três dias sem água ou alimentação. Impressionante, não é? Quando foi encontrado, estava fraco e confuso, mas ainda vivo. Morreu pouco tempo depois.
Será que executaram a sentença?
O segundo fato digno de nota é que a tragédia poderia ter sido evitada, não fossem as eleições que aconteceriam em breve. Houve tremores antes da grande erupção e a população, temerosa, quis deixar a cidade. O prefeito, candidato à reeleição, convenceu os moradores de que não havia motivo para alarme. Ele tinha receio de que, se todos fugissem, as eleições marcadas para breve seriam um fracasso, o que poderia resultar na perda do mandato.
Bem, as eleições não aconteceram, de qualquer jeito. Pode-se dizer, também, que ele não chegou a perder o cargo.
Em primeiro lugar, a cidade de Saint Pierre foi inteiramente destruída, com um saldo de cerca de 30 mil mortos, e um sobrevivente. Toda a população da cidade foi dizimada em três minutos, mas uma pessoa sobreviveu sem lesões, arranhão, nada, nada: na cadeia da cidade havia um prisioneiro, Ludger Sylbaris, condenado à morte. Como a cadeia estava localizada no subterrâneo, praticamente sem ventilação, ele não foi atingido pelos gases. Sobreviveu ainda a três dias sem água ou alimentação. Impressionante, não é? Quando foi encontrado, estava fraco e confuso, mas ainda vivo. Morreu pouco tempo depois.
Será que executaram a sentença?
O segundo fato digno de nota é que a tragédia poderia ter sido evitada, não fossem as eleições que aconteceriam em breve. Houve tremores antes da grande erupção e a população, temerosa, quis deixar a cidade. O prefeito, candidato à reeleição, convenceu os moradores de que não havia motivo para alarme. Ele tinha receio de que, se todos fugissem, as eleições marcadas para breve seriam um fracasso, o que poderia resultar na perda do mandato.
Bem, as eleições não aconteceram, de qualquer jeito. Pode-se dizer, também, que ele não chegou a perder o cargo.
Thursday, May 26, 2005
Amar é... (1): Casar!
Hegel, logo após o casamento:
“Que diferença a que sinto agora, relativamente a mim mesmo e às relações com os outros, devido a esta união que tem o exclusivo de reconduzir o homem a si próprio, levando-o à mais completa realização”.
Hegel, quatro anos depois:
“Desposei há quatro anos uma mulher daqui, com o apelido de solteira von Tucher, e tenho dois rapazes saudáveis; afinal, bem vistas as coisas, não tenho do que me queixar. De qualquer modo, a vida humana raramente consegue escapar às dores, às dificuldades, às contrariedades, aos sonhos.”
Preciso comentar? :-)))
..........................
Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
“Que diferença a que sinto agora, relativamente a mim mesmo e às relações com os outros, devido a esta união que tem o exclusivo de reconduzir o homem a si próprio, levando-o à mais completa realização”.
Hegel, quatro anos depois:
“Desposei há quatro anos uma mulher daqui, com o apelido de solteira von Tucher, e tenho dois rapazes saudáveis; afinal, bem vistas as coisas, não tenho do que me queixar. De qualquer modo, a vida humana raramente consegue escapar às dores, às dificuldades, às contrariedades, aos sonhos.”
Preciso comentar? :-)))
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Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Wednesday, May 25, 2005
Prurido cognitivo
Você já passou dias e dias tentando pensar em outra coisa que não seja o pocotó da eguinha? Sua mente insiste, contra sua vontade, no “pocotó, pocotó, pocotó” e você bem que tenta, mas o pocotó não vai embora de jeito nenhum? Faça o que fizer, pense o que pensar, e lá está o pocotó, atormentando sua mente?
Não, não. Estou falando do pocotó mesmo.
Pois é, você não está sozinho. Acontece o mesmo com o resto da humanidade. Sabia disso, né?
A novidade dos cientistas a esse respeito é que esses pocotós ficam em nossa cabeça porque criam uma espécie de “prurido cognitivo”. Como a coisa não é localizada, não há cataplasma que resolva. Nem mesmo um cataplasma cognitivo.
Sempre achamos que o jeito é esperar passar. Ledo engano. É possível, sim, retirar o pocotó da cabeça sem dor, cirurgia, ventosaterapia, sangria cognitiva ou qualquer procedimento mais agressivo. Só não é possível evitar os efeitos colaterais.
Há uma estratégia que promete sucesso, a “técnica de substituição”. Quando o pocotó vier, comece logo a repetir: “vida, minha vida...” ou ainda “quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar...”
Pense bem. O que é melhor?
O problema é que logo você terá de fazer a mesma coisa com a Sandra Rosa Madalena, substituindo por “macho, macho man”, e esta por “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, que você sempre poderá apagar de sua mente depressinha se ficar repetindo “Telma, eu não sou gay”. Abandone a Telma em seguida e vá para a festa no apê.
E vá tocando a vida assim. Eu garanto: alternativa é que não vai faltar.
Eu sei, a solução não é das melhores; a gente fica pulando de galho em galho, né? Mas o bom da coisa toda é que não se fixa em nenhum. E, claro, não vai ficar pensando só no pocotó.
Não, não. Estou falando do pocotó mesmo.
Pois é, você não está sozinho. Acontece o mesmo com o resto da humanidade. Sabia disso, né?
A novidade dos cientistas a esse respeito é que esses pocotós ficam em nossa cabeça porque criam uma espécie de “prurido cognitivo”. Como a coisa não é localizada, não há cataplasma que resolva. Nem mesmo um cataplasma cognitivo.
Sempre achamos que o jeito é esperar passar. Ledo engano. É possível, sim, retirar o pocotó da cabeça sem dor, cirurgia, ventosaterapia, sangria cognitiva ou qualquer procedimento mais agressivo. Só não é possível evitar os efeitos colaterais.
Há uma estratégia que promete sucesso, a “técnica de substituição”. Quando o pocotó vier, comece logo a repetir: “vida, minha vida...” ou ainda “quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar...”
Pense bem. O que é melhor?
O problema é que logo você terá de fazer a mesma coisa com a Sandra Rosa Madalena, substituindo por “macho, macho man”, e esta por “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, que você sempre poderá apagar de sua mente depressinha se ficar repetindo “Telma, eu não sou gay”. Abandone a Telma em seguida e vá para a festa no apê.
E vá tocando a vida assim. Eu garanto: alternativa é que não vai faltar.
Eu sei, a solução não é das melhores; a gente fica pulando de galho em galho, né? Mas o bom da coisa toda é que não se fixa em nenhum. E, claro, não vai ficar pensando só no pocotó.
Tuesday, May 24, 2005
Contradição máxima
O grande projeto de meus três últimos anos se resume em ser capaz de construir um teorema de lógica tão difícil para mim que eu não consiga resolver.
Ainda não foi possível, mas já fiz progressos evidentes: no semestre passado criei um teorema com certo grau de dificuldade, daqueles capazes de te exaurir quando você consegue chegar à resposta. Passados uns dois meses, voltei a ele. Não encontrei a resposta de imediato e tive certeza de que havia cometido algum engano na montagem. Testei para saber se era mesmo possível, com os recursos disponíveis, chegar à resposta indicada. Era. Fiquei muito feliz. Finalmente um teorema válido, criado por mim, que eu não conseguia resolver! Até que enfim!
Mas então enxerguei a saída e o entusiasmo foi embora.
Na semana passada criei outro ainda mais difícil, mais longo e mais cansativo, mas terei de esperar alguns meses para esquecer como foi feito e tentar resolvê-lo. Estou esperançosa. É que embaralhei bem, entende?
Mas também ando um tantinho preocupada. Está ficando cada vez mais difícil dificultar as coisas para mim, porque logo identifico os mecanismos que criei para me desviar da solução. Com a experiência a gente vai ficando esperto, né? Mesmo que tente com muita garra, persistência e prestidigitação, tô ficando sem recursos.
De qualquer forma, não seria uma experiência enriquecedora elaborar uma trama para me enganar, esquecer dela e cair feito um patinho? O máximo da contradição!
Ou seria o máximo da lerdeza?
Só não sei o que sentiria depois: se ficaria contente por ter conseguido me ludibriar; indignada, por ter querido enganar; envergonhada, por ser otária a ponto de cair na minha armadilha; chateada, por ter sido capaz de arquitetar um modo de enganar a mim mesma, ou apenas confusa, por ter sido bem sucedida.
Ainda não foi possível, mas já fiz progressos evidentes: no semestre passado criei um teorema com certo grau de dificuldade, daqueles capazes de te exaurir quando você consegue chegar à resposta. Passados uns dois meses, voltei a ele. Não encontrei a resposta de imediato e tive certeza de que havia cometido algum engano na montagem. Testei para saber se era mesmo possível, com os recursos disponíveis, chegar à resposta indicada. Era. Fiquei muito feliz. Finalmente um teorema válido, criado por mim, que eu não conseguia resolver! Até que enfim!
Mas então enxerguei a saída e o entusiasmo foi embora.
Na semana passada criei outro ainda mais difícil, mais longo e mais cansativo, mas terei de esperar alguns meses para esquecer como foi feito e tentar resolvê-lo. Estou esperançosa. É que embaralhei bem, entende?
Mas também ando um tantinho preocupada. Está ficando cada vez mais difícil dificultar as coisas para mim, porque logo identifico os mecanismos que criei para me desviar da solução. Com a experiência a gente vai ficando esperto, né? Mesmo que tente com muita garra, persistência e prestidigitação, tô ficando sem recursos.
De qualquer forma, não seria uma experiência enriquecedora elaborar uma trama para me enganar, esquecer dela e cair feito um patinho? O máximo da contradição!
Ou seria o máximo da lerdeza?
Só não sei o que sentiria depois: se ficaria contente por ter conseguido me ludibriar; indignada, por ter querido enganar; envergonhada, por ser otária a ponto de cair na minha armadilha; chateada, por ter sido capaz de arquitetar um modo de enganar a mim mesma, ou apenas confusa, por ter sido bem sucedida.
Monday, May 23, 2005
Briga filosófica (1): Hegel X Schopenhauer
1º. Round - Schopenhauer (sobre a filosofia do espírito):
Não, nada restará de Hegel, dado que ele não pensou, antes se limitou a fazer malabarismos com as palavras. O que é que ele logrou alcançar realmente com todo o seu pedantesco e declamatório aparelho? Nada mais conseguiu do que substituir o senso comum por sabe-se lá que culto seco e ininteligível de um Grande Pã progressivo que se agita vivamente como um diabo debaixo da lógica desgastada do ser, do não-ser e do porvir, o qual para nada mais serve, no percurso cansativo e estéril para o qual o seu inventor o remete, do que para imitar os esquilos ou para fazer sonhar os condutores das carruagens puxadas por cavalos.
2º. Round - Hegel (sobre O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer):
A primeira parte é desprovida de sentido, completamente sem relevo, miserável, trivial. É a mais sensaborona e incoerente tagarelice que, do alto de uma cátedra, um cérebro raso pode ejacular no momento da digestão.
3º. Round - Schopenhauer (sobre Hegel):
Hegel? Um excrementador que provoca náuseas, um charlatão estampado, um novo-rico da cultura, um triste senhor... Atente-se nas suas produções: o que é que elas são para além de um vazio, fútil e enjoativo amontoado de palavras? E, contudo, quão brilhante se apresenta a carreira desta filosófica criatura ministerial! Para tanto bastaram uns poucos compadrios aviltantes que proclamaram a glorificação deste pseudofilósofo vil, tendo tais vozes ecoado de tal modo nos crânios vazios de milhares de cretinos, que ainda hoje se estão propagando: assim se conseguiu transformar em grande filósofo um cérebro mais do que mediano, aliás, um charlatão de baixo nível.
Eitcha!
Estou recolhendo apostas.
.......................
Pra ninguém dizer que inventei: Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Não, nada restará de Hegel, dado que ele não pensou, antes se limitou a fazer malabarismos com as palavras. O que é que ele logrou alcançar realmente com todo o seu pedantesco e declamatório aparelho? Nada mais conseguiu do que substituir o senso comum por sabe-se lá que culto seco e ininteligível de um Grande Pã progressivo que se agita vivamente como um diabo debaixo da lógica desgastada do ser, do não-ser e do porvir, o qual para nada mais serve, no percurso cansativo e estéril para o qual o seu inventor o remete, do que para imitar os esquilos ou para fazer sonhar os condutores das carruagens puxadas por cavalos.
2º. Round - Hegel (sobre O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer):
A primeira parte é desprovida de sentido, completamente sem relevo, miserável, trivial. É a mais sensaborona e incoerente tagarelice que, do alto de uma cátedra, um cérebro raso pode ejacular no momento da digestão.
3º. Round - Schopenhauer (sobre Hegel):
Hegel? Um excrementador que provoca náuseas, um charlatão estampado, um novo-rico da cultura, um triste senhor... Atente-se nas suas produções: o que é que elas são para além de um vazio, fútil e enjoativo amontoado de palavras? E, contudo, quão brilhante se apresenta a carreira desta filosófica criatura ministerial! Para tanto bastaram uns poucos compadrios aviltantes que proclamaram a glorificação deste pseudofilósofo vil, tendo tais vozes ecoado de tal modo nos crânios vazios de milhares de cretinos, que ainda hoje se estão propagando: assim se conseguiu transformar em grande filósofo um cérebro mais do que mediano, aliás, um charlatão de baixo nível.
Eitcha!
Estou recolhendo apostas.
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Pra ninguém dizer que inventei: Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Sunday, May 22, 2005
O supra-sumo da consciência política
Não, não vou falar do Lula. Nem pensar. Meu assunto é outro: a consciência política invejável e a extrema coragem de Zenão de Eléia.
O filósofo grego Zenão nasceu na cidade de Eléia e viveu no século IV a.C. Diógenes Laércio, uma espécie de fofoqueiro da antiguidade, conta-nos que Zenão odiava o tirano de sua cidade. Planejou uma conspiração contra ele, mas fracassou e foi pego. Obrigado sob tortura a nomear seus cúmplices, acusou os amigos do tirano, para deixá-lo só.
Imagino que em seguida o tirano tenha ‘perguntado’ se ele sabia de mais alguma coisa. Zenão confirmou, havia sim algo que ainda não contara, mas insistiu que ninguém deveria ouvi-lo. O tirano precisava aproximar-se um pouquinho mais, e ainda mais um pouco, para poder contar-lhe ao pé do ouvido. Só assim iria falar.
Nearcos, o tirano, aproximou-se. O que fez Zenão? Mordeu a orelha do homem com tanta vontade, mas com tanta vontade, que ninguém conseguiu separá-los. Soltou não. Foi preciso que alguém da guarda viesse em socorro do tirano e matasse Zenão, para que Nearcos ficasse livre e sem orelha.
Outra versão diz que não foi a orelha que Zenão mordeu, e sim o nariz, mas realmente tanto faz. De qualquer forma, mordeu.
Já pensou se a moda pega? Mike Tyson bem que gostaria.
Ah, sim, a referência. Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas de filósofos ilustres, IX, 26.
O filósofo grego Zenão nasceu na cidade de Eléia e viveu no século IV a.C. Diógenes Laércio, uma espécie de fofoqueiro da antiguidade, conta-nos que Zenão odiava o tirano de sua cidade. Planejou uma conspiração contra ele, mas fracassou e foi pego. Obrigado sob tortura a nomear seus cúmplices, acusou os amigos do tirano, para deixá-lo só.
Imagino que em seguida o tirano tenha ‘perguntado’ se ele sabia de mais alguma coisa. Zenão confirmou, havia sim algo que ainda não contara, mas insistiu que ninguém deveria ouvi-lo. O tirano precisava aproximar-se um pouquinho mais, e ainda mais um pouco, para poder contar-lhe ao pé do ouvido. Só assim iria falar.
Nearcos, o tirano, aproximou-se. O que fez Zenão? Mordeu a orelha do homem com tanta vontade, mas com tanta vontade, que ninguém conseguiu separá-los. Soltou não. Foi preciso que alguém da guarda viesse em socorro do tirano e matasse Zenão, para que Nearcos ficasse livre e sem orelha.
Outra versão diz que não foi a orelha que Zenão mordeu, e sim o nariz, mas realmente tanto faz. De qualquer forma, mordeu.
Já pensou se a moda pega? Mike Tyson bem que gostaria.
Ah, sim, a referência. Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas de filósofos ilustres, IX, 26.
Thursday, May 19, 2005
Esquerda, direita, volver!
Estou com um processo no Detran, para tirar a carteira de motorista, desde 1998. Sim, 1998. Quando abri o processo, estava firmemente decidida a resolver esse assunto de vez, e continuo firmemente decidida. Eu não posso dizer que termino tudo que começo, mas com certeza continuo tentando. :-))
Em 2000, fiz a prova de volante. Consegui deixar o avaliador bastante assustado e somar 20 pontos negativos. Não, não estava nervosa. Pedi ao novo instrutor, em nova escola, que me avaliasse com sinceridade, para que eu pudesse identificar a dificuldade e superá-la. Concluída a aula, perguntei: “e aí, o que você acha?” Ele respirou profundamente e atirou: “meu anjo, você enxerga mal, não tem reflexo, não presta atenção em nada, é muuuuito lerda e, pra piorar, nem sabe a diferença entre esquerda e direita. Quer dirigir como?”
Pois é. Eu pedi sinceridade.
De fato, minha visão é muito ruim, mas para isso existe correção. O reflexo, consegui melhorar. Eu tinha um certo medo do trânsito que, com a prática (lá se vão quase 7 anos de experiência!), perdi. Já estou ficando experiente também em mudar de auto-escola, de instrutor e de carro e em perceber que não é por aí, não. Quanto a prestar atenção ao que acontece à minha volta, com muito esforço consegui ascender do péssimo para o tolerável. A lerdeza? É, sou lerda mesmo. Mas quando o caso é saber a diferença entre esquerda e direita, aí fica impossível.
“Vire à esquerda”, diz o instrutor. Certo, entendi, mas devo ir para que lado?
Aprendi a resolver o problema perguntando antes: “Por aqui?” E aí ele responde: “Não! Esquerda.” E então eu sei que estou na direção errada, e vou para a certa. Simples assim. Bem, nem tanto. A seta fica um tantinho confusa, mas isso é só um detalhe.
Enfim. Estou tentando me enganar com o argumento de que, quando estiver dirigindo realmente, não terei alguém ao meu lado me dizendo o que devo fazer. Assim, vou poder virar pra lá e pra cá sem precisar saber antes se é esquerda ou direita. Será que funciona?
Em 2000, fiz a prova de volante. Consegui deixar o avaliador bastante assustado e somar 20 pontos negativos. Não, não estava nervosa. Pedi ao novo instrutor, em nova escola, que me avaliasse com sinceridade, para que eu pudesse identificar a dificuldade e superá-la. Concluída a aula, perguntei: “e aí, o que você acha?” Ele respirou profundamente e atirou: “meu anjo, você enxerga mal, não tem reflexo, não presta atenção em nada, é muuuuito lerda e, pra piorar, nem sabe a diferença entre esquerda e direita. Quer dirigir como?”
Pois é. Eu pedi sinceridade.
De fato, minha visão é muito ruim, mas para isso existe correção. O reflexo, consegui melhorar. Eu tinha um certo medo do trânsito que, com a prática (lá se vão quase 7 anos de experiência!), perdi. Já estou ficando experiente também em mudar de auto-escola, de instrutor e de carro e em perceber que não é por aí, não. Quanto a prestar atenção ao que acontece à minha volta, com muito esforço consegui ascender do péssimo para o tolerável. A lerdeza? É, sou lerda mesmo. Mas quando o caso é saber a diferença entre esquerda e direita, aí fica impossível.
“Vire à esquerda”, diz o instrutor. Certo, entendi, mas devo ir para que lado?
Aprendi a resolver o problema perguntando antes: “Por aqui?” E aí ele responde: “Não! Esquerda.” E então eu sei que estou na direção errada, e vou para a certa. Simples assim. Bem, nem tanto. A seta fica um tantinho confusa, mas isso é só um detalhe.
Enfim. Estou tentando me enganar com o argumento de que, quando estiver dirigindo realmente, não terei alguém ao meu lado me dizendo o que devo fazer. Assim, vou poder virar pra lá e pra cá sem precisar saber antes se é esquerda ou direita. Será que funciona?
Wednesday, May 18, 2005
A cerca de Hume
Hoje o que me chama a atenção é a cerca de Hume. Pode ser também a cerca de Kant, a cerca de Hegel, a cerca de Descartes, a cerca de Rousseau. Não importa de quem seja a cerca, o que importa é a cerca de.
Eu sei, a coisa fica um pouco mais complicada quando o caso é a cerca de Parmênides, porque não dá pra saber com certeza se ele tinha uma. Sim, a cerca é uma das coisas mais antigas da humanidade, e veio logo depois que alguém disse “isso é meu” e criou, assim, a propriedade privada. Mas a dificuldade mesmo é saber se Parmênides tinha alguma propriedade. Em todo caso, é certíssima a inexistência de cerca em Heráclito de Éfeso.
A cerca de Rousseau? Beleza. É o marco decisivo entre o bom selvagem e o homem civil. O mundo civilizado, intelectualizado, bom de papo, começou bem aí: na cerca.
A cerca de Hume? Não é muito conhecida. Eu quero dizer, não sabemos se era de arame farpado, madeira, ou qualquer outro material que não utilizamos mais com esse propósito. Mesmo assim, sabemos com certeza que havia uma cerca, já que ele tinha posses. Então é possível escrever sobre ela. Há que se inventar, mas é possível.
O correto mesmo, para quem não quiser se dar mal, é deixar o "a cerca de" para filósofos políticos ou epistemólogos. Pode ser que a marcação de território faça algum sentido.
Eu sei, a coisa fica um pouco mais complicada quando o caso é a cerca de Parmênides, porque não dá pra saber com certeza se ele tinha uma. Sim, a cerca é uma das coisas mais antigas da humanidade, e veio logo depois que alguém disse “isso é meu” e criou, assim, a propriedade privada. Mas a dificuldade mesmo é saber se Parmênides tinha alguma propriedade. Em todo caso, é certíssima a inexistência de cerca em Heráclito de Éfeso.
A cerca de Rousseau? Beleza. É o marco decisivo entre o bom selvagem e o homem civil. O mundo civilizado, intelectualizado, bom de papo, começou bem aí: na cerca.
A cerca de Hume? Não é muito conhecida. Eu quero dizer, não sabemos se era de arame farpado, madeira, ou qualquer outro material que não utilizamos mais com esse propósito. Mesmo assim, sabemos com certeza que havia uma cerca, já que ele tinha posses. Então é possível escrever sobre ela. Há que se inventar, mas é possível.
O correto mesmo, para quem não quiser se dar mal, é deixar o "a cerca de" para filósofos políticos ou epistemólogos. Pode ser que a marcação de território faça algum sentido.
Sunday, May 15, 2005
Coisa de grego (1): o gesto
Já que estou falando de Aristófanes, há uma passagem curiosa, em As Nuvens (630), peça escrita em 423 a.C.:
Sócrates: “Hum, talvez possa aprender os ritmos mais depressa!...”
Estrepsíades: “De que me servirão os ritmos para o pão de cada dia?”
Sócrates: “Antes de tudo, para ser um homem de espírito na sociedade, alguém que é capaz de perceber dentre os ritmos qual o enóplio e, ao contrário, qual o dátilo”.
Estrepsíades: “O dátilo? Por Zeus, mas eu sei!”
Sócrates: “Então diga... (apontando o dedo indicador). Qual é o outro ‘dátilo’ além deste dedo aqui?”
Estrepsíades: “Outrora, quando criança, eu usava este aqui...” (erguendo o dedo médio).
E a nota da tradutora, Gilda M. R. Starzynski, Coleção Os Pensadores, vol. 2, Abril Cultural, 1972: “O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a alguém, significava que se considerava essa pessoa como um devasso, habituado a práticas contra a natureza”.
É isso mesmo, ou estou entendendo tudo errado? Impensável Sócrates recebendo esse tipo de resposta. Ao menos, em um diálogo de Platão.
Parece que somos muito mais gregos do que imaginamos.
Quem diria?
Sócrates: “Hum, talvez possa aprender os ritmos mais depressa!...”
Estrepsíades: “De que me servirão os ritmos para o pão de cada dia?”
Sócrates: “Antes de tudo, para ser um homem de espírito na sociedade, alguém que é capaz de perceber dentre os ritmos qual o enóplio e, ao contrário, qual o dátilo”.
Estrepsíades: “O dátilo? Por Zeus, mas eu sei!”
Sócrates: “Então diga... (apontando o dedo indicador). Qual é o outro ‘dátilo’ além deste dedo aqui?”
Estrepsíades: “Outrora, quando criança, eu usava este aqui...” (erguendo o dedo médio).
E a nota da tradutora, Gilda M. R. Starzynski, Coleção Os Pensadores, vol. 2, Abril Cultural, 1972: “O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a alguém, significava que se considerava essa pessoa como um devasso, habituado a práticas contra a natureza”.
É isso mesmo, ou estou entendendo tudo errado? Impensável Sócrates recebendo esse tipo de resposta. Ao menos, em um diálogo de Platão.
Parece que somos muito mais gregos do que imaginamos.
Quem diria?
Saturday, May 14, 2005
A pergunta que não me fizeram
Há uma perguntinha que ninguém me fez. Esperei, esperei, e nada. Então pensei: por que será? Curiosidade todo mundo tem, então descartei essa hipótese. Também pode ser que ninguém leia esse blog, claro, mas prefiro supor que já partiram do pressuposto de que inventei a criatura. Não inventei, não.
Mas o que ninguém quis saber, afinal? Quem foi Pandeleteu, o homem da sacolinha de idéias, ora.
O homem provavelmente existiu, e era um sofista. A referência a ele se deve a uma passagem de Aristófanes, em As Nuvens: “...roía umas idéias de Pandeleteu, tiradas duma sacolinha” (920). E é só.
Pesquisei? Claro. Ainda não encontrei nada. Mas não tem importância, porque a idéia de roer idéia já me basta.
Mas o que ninguém quis saber, afinal? Quem foi Pandeleteu, o homem da sacolinha de idéias, ora.
O homem provavelmente existiu, e era um sofista. A referência a ele se deve a uma passagem de Aristófanes, em As Nuvens: “...roía umas idéias de Pandeleteu, tiradas duma sacolinha” (920). E é só.
Pesquisei? Claro. Ainda não encontrei nada. Mas não tem importância, porque a idéia de roer idéia já me basta.
Friday, May 13, 2005
Encontrei o mapa do inferno
Inferno não é para qualquer um. É preciso um esforço incessante, de toda uma vida, para se chegar lá. Mas, resolvido esse ponto, há outra dificuldade em que ninguém parece pensar: o senso de direção em um lugar desconhecido. O que fazer? Para onde ir? Esquerda ou direita? Imagine o pânico que vai sentir, se você se perder lá dentro. Acontece.
Mas é possível evitar a desorientação no inferno. É só levar um mapa. Cuide disso agora, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Clique no título.
Clicou? Então observe a trilha. Ela nos levará a Caronte, um velhinho espectral que o ajudará a atravessar o pântano. Não se esqueça de levar duas moedas de ouro para pagá-lo, que nem no inferno se trabalha de graça.
Em seguida você será recebido por Cérbero, um cãozinho muito amável para com quem entra. Só não tente fugir.
Mais à frente está o vale de lágrimas, onde poderá chorar à vontade e lamentar ter partido desta para pior. Até então, enquanto os deuses não tiverem decidido seu destino final, você estará no purgatório. Mas o purgatório terá fim na planície de julgamento, e só há dois veredictos possíveis: culpado ou inocente. Esquerda ou direita.
Faça o impossível para não seguir a trilha à esquerda. Chore, esperneie, minta, negue tudo, argumente que foi enganado, suplique por clemência. Não vai adiantar nada, mas tente assim mesmo. Este é o caminho dos maus. Ele o levará ao Tártaro: escuro, flamejante, escaldante, insuportavelmente quente e cheio de coisa morta lá dentro, como o caldeirão da bruxa. Os castigos são horrendos, que o digam Íxion, Tântalo e Sísifo.
Mas, se você tiver sido bom, então Hades e Perséfone o receberão em seu castelo, para um lauto jantar. Alimentado, continue seguindo a trilha da direta. Ela o levará aos Campos Elísios, o lugar de repouso eterno.
Para quem vai habitar o Tártaro, é fundamental que se lembre de tudo que fez. Afinal, é castigo. Mas para os bons, é importante que esqueçam a vida anterior, ou não serão felizes. Será preciso, então, mergulhar no Lethe, o rio do esquecimento. Ou beber de sua água, tanto faz. Quando sair dele, já terá esquecido tudo e poderá passar a eternidade em paz, aproveitando a brisa. Sim, isso pode parecer cruel, mas veja por outro lado: não sentirá saudade, nostalgia, nada. Só a brisa. Melhor que carregar pedra.
Paraíso, inferno, purgatório, vale de lágrimas, planície de julgamento, juízo final, brisa e descanso eterno para os bons, fogo e trabalho incessante para os maus...
Você já viu esse filme antes. Essa versão pode não ser a primeira, mas eu garanto que é anterior.
Mas é possível evitar a desorientação no inferno. É só levar um mapa. Cuide disso agora, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Clique no título.
Clicou? Então observe a trilha. Ela nos levará a Caronte, um velhinho espectral que o ajudará a atravessar o pântano. Não se esqueça de levar duas moedas de ouro para pagá-lo, que nem no inferno se trabalha de graça.
Em seguida você será recebido por Cérbero, um cãozinho muito amável para com quem entra. Só não tente fugir.
Mais à frente está o vale de lágrimas, onde poderá chorar à vontade e lamentar ter partido desta para pior. Até então, enquanto os deuses não tiverem decidido seu destino final, você estará no purgatório. Mas o purgatório terá fim na planície de julgamento, e só há dois veredictos possíveis: culpado ou inocente. Esquerda ou direita.
Faça o impossível para não seguir a trilha à esquerda. Chore, esperneie, minta, negue tudo, argumente que foi enganado, suplique por clemência. Não vai adiantar nada, mas tente assim mesmo. Este é o caminho dos maus. Ele o levará ao Tártaro: escuro, flamejante, escaldante, insuportavelmente quente e cheio de coisa morta lá dentro, como o caldeirão da bruxa. Os castigos são horrendos, que o digam Íxion, Tântalo e Sísifo.
Mas, se você tiver sido bom, então Hades e Perséfone o receberão em seu castelo, para um lauto jantar. Alimentado, continue seguindo a trilha da direta. Ela o levará aos Campos Elísios, o lugar de repouso eterno.
Para quem vai habitar o Tártaro, é fundamental que se lembre de tudo que fez. Afinal, é castigo. Mas para os bons, é importante que esqueçam a vida anterior, ou não serão felizes. Será preciso, então, mergulhar no Lethe, o rio do esquecimento. Ou beber de sua água, tanto faz. Quando sair dele, já terá esquecido tudo e poderá passar a eternidade em paz, aproveitando a brisa. Sim, isso pode parecer cruel, mas veja por outro lado: não sentirá saudade, nostalgia, nada. Só a brisa. Melhor que carregar pedra.
Paraíso, inferno, purgatório, vale de lágrimas, planície de julgamento, juízo final, brisa e descanso eterno para os bons, fogo e trabalho incessante para os maus...
Você já viu esse filme antes. Essa versão pode não ser a primeira, mas eu garanto que é anterior.
Thursday, May 12, 2005
Ganhei
Durante toda minha infância e adolescência tardia acalentei o sonho de ter um joão-bobo, mas só ganhava bonequinhas barbie. Ninguém nasce Amélia, né?
Mas nada como um dia após o outro. Acabei de realizar meu sonho de consumo: ganhei o joão-bobo na última sexta-feira. Ganhei mesmo!
Estou batendo tanto nele que o bichin já aprendeu até a voar. E como voa!
Xô stress! Xô enxaqueca! Todos os meus problemas podem agora ser resolvidos com um chute bem dado, uma cotovelada esperta, um tapa na cara. Mas o melhor de tudo é que ele é bom de abraçar também.
Quem foi que inventou esse brinquedinho?
Ôu, eu quero mais!
Mas nada como um dia após o outro. Acabei de realizar meu sonho de consumo: ganhei o joão-bobo na última sexta-feira. Ganhei mesmo!
Estou batendo tanto nele que o bichin já aprendeu até a voar. E como voa!
Xô stress! Xô enxaqueca! Todos os meus problemas podem agora ser resolvidos com um chute bem dado, uma cotovelada esperta, um tapa na cara. Mas o melhor de tudo é que ele é bom de abraçar também.
Quem foi que inventou esse brinquedinho?
Ôu, eu quero mais!
Wednesday, May 11, 2005
Como ser o bam-bam das reuniões
Não sei por que, mas sempre que compareço a reuniões, sinto uma vontade inexplicável de martelar furiosamente um teclado. Escrevendo.
Hoje, no entanto, meu espírito é de infinita bondade (resultado talvez do cansaço que a tal reunião me impôs): pensando unicamente no bem de todos e felicidade geral da nação, resolvi criar algumas regras de participação em reuniões.
É claro, ninguém vai segui-las e ainda me faltará o espírito democrático (já que não foram previamente discutidas em reuniões). Mas a gente tenta, assim mesmo.
Comecemos por uma regrinha fundamental: encontre uma boa desculpa para sair mais cedo. Não será necessário ouvir tudo.
Isso é difícil, né? O desejo de contribuir fala mais alto. Tudo bem, eu entendo. Por isso preparei um plano alternativo:
1. Comece por criar uma teoria da conspiração, mas seja esperto o bastante para não dar margem a questionamentos inconvenientes. Apenas sugira que as coisas não são tão simples quanto parecem. O resto caminha sozinho. Daí a pouco todo mundo estará raciocinando do mesmo jeito e ninguém saberá dizer onde está a conspiração. Pero que hay, hay.
2. Não tenha pressa em falar. Pelo contrário, esforce-se para ser o último. Só assim poderá dizer que, após ouvir atentamente os posicionamentos anteriores, você gostaria de ressaltar que... E o resto é com você. Seja criativo, fique atento e pesque algo que passou despercebido. Seja lá o que for que vá dizer, seu discurso já terá um ar de síntese e, portanto, estará automaticamente um grau acima de todos os pontos de vista particulares. Nunca parecerá mais uma inutilidade perspectivada.
3. Use “a nível de” tantas vezes quantas for capaz. Isso é bastante satisfatório tanto a nível de convencimento quanto, e principalmente, a nível de persuasão.
4. Nunca se esqueça de diagnosticar o caráter demasiadamente epistêmico dos comentários dos colegas, mas procure fazê-lo sem demora, senão outro o fará. A rapidez de raciocínio aqui é decisiva para o sucesso.
5. Esclareça que qualquer alteração na rotina (por exemplo, a mudança da sala A para a sala B, ou do prédio A para o prédio B) só pode ser feita a partir de uma discussão cuidadosa de todos os aspectos filosóficos, teológicos, humanistas, antropológicos e, por que não dizer?, democráticos envolvidos na questão, que estabelecem uma diferença significativa entre a sala A e a sala B e, numa dimensão maior, entre o prédio A e o prédio B.
6. Demonstre a gravidade da situação de indigência intelectual do país (por exemplo, criando uma lista interminável com os erros de português horrendos que os universitários cometem) mas peloamordedeus, nunca, jamais, em tempo algum o faça com um português pra inglês ver. Sim, eu entendo que o porquê disso acontecer é devido o descaso sofrido pelas disciplinas de humanidades a nível de mundo, enquanto sujeitas ao caráter pragmatista, ideológico e mercadológico do mundo de hoje. Certo, mas dê uma melhoradinha nisso aí, tá? E vê lá se não vai melhorar o discurso acrescentando um Zeitgeist bem pronunciadinho. Não é por aí não.
7. Deixe sempre muito claro que você está falando de você enquanto você, e somente enquanto você. Isso é para evitar que alguém entenda que está falando de você enquanto todos.
8. Insista veementemente no chavão do espírito democrático: as decisões arbitrárias devem ser impostas às novas gerações, não a nós. Isto seria mais democrático, sem dúvida (mas como assim, cara pálida?).
Siga minhas regras e seja um feliz e bem sucedido participante de reuniões. Vá por mim, ela funcionam.
Mas o fundamental é não perder jamais o ar de menino ressentido diante da autoridade, porque o pai tomou decisões que o envolvem sem antes consultá-lo. Afinal, filósofo também é ser humano, né?
Hoje, no entanto, meu espírito é de infinita bondade (resultado talvez do cansaço que a tal reunião me impôs): pensando unicamente no bem de todos e felicidade geral da nação, resolvi criar algumas regras de participação em reuniões.
É claro, ninguém vai segui-las e ainda me faltará o espírito democrático (já que não foram previamente discutidas em reuniões). Mas a gente tenta, assim mesmo.
Comecemos por uma regrinha fundamental: encontre uma boa desculpa para sair mais cedo. Não será necessário ouvir tudo.
Isso é difícil, né? O desejo de contribuir fala mais alto. Tudo bem, eu entendo. Por isso preparei um plano alternativo:
1. Comece por criar uma teoria da conspiração, mas seja esperto o bastante para não dar margem a questionamentos inconvenientes. Apenas sugira que as coisas não são tão simples quanto parecem. O resto caminha sozinho. Daí a pouco todo mundo estará raciocinando do mesmo jeito e ninguém saberá dizer onde está a conspiração. Pero que hay, hay.
2. Não tenha pressa em falar. Pelo contrário, esforce-se para ser o último. Só assim poderá dizer que, após ouvir atentamente os posicionamentos anteriores, você gostaria de ressaltar que... E o resto é com você. Seja criativo, fique atento e pesque algo que passou despercebido. Seja lá o que for que vá dizer, seu discurso já terá um ar de síntese e, portanto, estará automaticamente um grau acima de todos os pontos de vista particulares. Nunca parecerá mais uma inutilidade perspectivada.
3. Use “a nível de” tantas vezes quantas for capaz. Isso é bastante satisfatório tanto a nível de convencimento quanto, e principalmente, a nível de persuasão.
4. Nunca se esqueça de diagnosticar o caráter demasiadamente epistêmico dos comentários dos colegas, mas procure fazê-lo sem demora, senão outro o fará. A rapidez de raciocínio aqui é decisiva para o sucesso.
5. Esclareça que qualquer alteração na rotina (por exemplo, a mudança da sala A para a sala B, ou do prédio A para o prédio B) só pode ser feita a partir de uma discussão cuidadosa de todos os aspectos filosóficos, teológicos, humanistas, antropológicos e, por que não dizer?, democráticos envolvidos na questão, que estabelecem uma diferença significativa entre a sala A e a sala B e, numa dimensão maior, entre o prédio A e o prédio B.
6. Demonstre a gravidade da situação de indigência intelectual do país (por exemplo, criando uma lista interminável com os erros de português horrendos que os universitários cometem) mas peloamordedeus, nunca, jamais, em tempo algum o faça com um português pra inglês ver. Sim, eu entendo que o porquê disso acontecer é devido o descaso sofrido pelas disciplinas de humanidades a nível de mundo, enquanto sujeitas ao caráter pragmatista, ideológico e mercadológico do mundo de hoje. Certo, mas dê uma melhoradinha nisso aí, tá? E vê lá se não vai melhorar o discurso acrescentando um Zeitgeist bem pronunciadinho. Não é por aí não.
7. Deixe sempre muito claro que você está falando de você enquanto você, e somente enquanto você. Isso é para evitar que alguém entenda que está falando de você enquanto todos.
8. Insista veementemente no chavão do espírito democrático: as decisões arbitrárias devem ser impostas às novas gerações, não a nós. Isto seria mais democrático, sem dúvida (mas como assim, cara pálida?).
Siga minhas regras e seja um feliz e bem sucedido participante de reuniões. Vá por mim, ela funcionam.
Mas o fundamental é não perder jamais o ar de menino ressentido diante da autoridade, porque o pai tomou decisões que o envolvem sem antes consultá-lo. Afinal, filósofo também é ser humano, né?
Tuesday, May 10, 2005
Desencapetamento
Encapetado, esta é para você! Sim, você mesmo, que tem o diabo no corpo, ou você aí do lado, que anseia por um diabo que a carregue: chegou um produto novo no mercado, com amostra grátis, que vai resolver todos os seus problemas. Trata-se de uma técnica novíssima, ainda não aprovada pelo Ministério da Saúde, e de eficiência duvidosa, como tudo que é novo: o desencapetamento!
A técnica consiste em “orações fortes contra macumba, bruxaria, feitiçaria, saravá e reza de São Cipriano”. Seja liberto de todo mal ao receber o banho do alívio com alecrim e arruda, na Igreja Internacional da Graça de Deus. Você assistirá a um verdadeiro show da fé e ainda passará por uma sessão de descarrego, junto com outra, de descapirotização, para a retirada completa de Satanás.
Tá esperando o quê? Vem logo, antes que acabe! A oferta é por tempo limitado. Além do mais, diabo impregna e depois fica difícil se livrar dele. Se você for o desencapetado número 1.000, ainda poderá virar pastor, com renda líquida vitalícia garantida.
Agora, se nada disso adiantar, não desanime. Veja o lado bom de ter o diabo no corpo: você vai poder fazer tudo o que lhe der na telha, e culpar o capeta. É pra isso que ele serve, afinal.
A técnica consiste em “orações fortes contra macumba, bruxaria, feitiçaria, saravá e reza de São Cipriano”. Seja liberto de todo mal ao receber o banho do alívio com alecrim e arruda, na Igreja Internacional da Graça de Deus. Você assistirá a um verdadeiro show da fé e ainda passará por uma sessão de descarrego, junto com outra, de descapirotização, para a retirada completa de Satanás.
Tá esperando o quê? Vem logo, antes que acabe! A oferta é por tempo limitado. Além do mais, diabo impregna e depois fica difícil se livrar dele. Se você for o desencapetado número 1.000, ainda poderá virar pastor, com renda líquida vitalícia garantida.
Agora, se nada disso adiantar, não desanime. Veja o lado bom de ter o diabo no corpo: você vai poder fazer tudo o que lhe der na telha, e culpar o capeta. É pra isso que ele serve, afinal.
Sunday, May 08, 2005
Banho mata
Estava assistindo a um documentário da Discovery sobre Alexandre Magno e lembrei do Vidas Paralelas, de Plutarco. Ele conta, sobre Alexandre, que o homem tinha um hábito muito esquisito e que provavelmente ocasionou sua morte: ele tomava banho frequentemente.
Não houve conspiração para matá-lo, envenenamento por encomenda de Aristóteles, erro médico, fatalidade, nada disso. Ele morreu por causa da sua esquisitisse de tomar banho todo dia: segundo Plutarco, ao se aproximar da Babilônia, Alexandre avistou um rio. Imediatamente, parou a comitiva e foi se banhar antes de entrar na cidade. E ganhou a febre que o matou exatamente aí. No rio.
Dizem que a aversão do Europeu à água vem daí. No século XVII as mulheres tinham de usar pó em excesso no rosto, para esconder a sujeira. O problema é que o pó atraía as moscas. Então, para disfarçar, os modistas da época inventaram uma solução mágica: já que as moscas não iam embora mesmo, o jeito foi desenhá-las no rosto empapado de talco. Assim, nunca se poderia saber se a mosca era original ou fabricada. Engenhoso, sem dúvida. Mas fico pensando: sempre que alguém quisesse ir à ópera teria de contratar um desenhista. Para enganar, a mosca tinha de ser perfeita, claro.
Deve ser por isso que cada família nobre contratava um pintor particular. Para encher o rosto das moças de moscas.
Por outro lado, não era sabido e notório que no rosto de uma bela donzela havia moscas e... moscas?
Olhe só... Acabei de descobrir para quê servia o leque.
Não houve conspiração para matá-lo, envenenamento por encomenda de Aristóteles, erro médico, fatalidade, nada disso. Ele morreu por causa da sua esquisitisse de tomar banho todo dia: segundo Plutarco, ao se aproximar da Babilônia, Alexandre avistou um rio. Imediatamente, parou a comitiva e foi se banhar antes de entrar na cidade. E ganhou a febre que o matou exatamente aí. No rio.
Dizem que a aversão do Europeu à água vem daí. No século XVII as mulheres tinham de usar pó em excesso no rosto, para esconder a sujeira. O problema é que o pó atraía as moscas. Então, para disfarçar, os modistas da época inventaram uma solução mágica: já que as moscas não iam embora mesmo, o jeito foi desenhá-las no rosto empapado de talco. Assim, nunca se poderia saber se a mosca era original ou fabricada. Engenhoso, sem dúvida. Mas fico pensando: sempre que alguém quisesse ir à ópera teria de contratar um desenhista. Para enganar, a mosca tinha de ser perfeita, claro.
Deve ser por isso que cada família nobre contratava um pintor particular. Para encher o rosto das moças de moscas.
Por outro lado, não era sabido e notório que no rosto de uma bela donzela havia moscas e... moscas?
Olhe só... Acabei de descobrir para quê servia o leque.
De onde vem o pitaco?
Não sei. Não faço a menor idéia.
Mas sei de onde veio Pítaco, poeta grego: de Mitilene, na ilha de Lesbos. Viveu entre os séculos VI e VII a.C. e ficou conhecido como um dos sete sábios da Grécia. Sua feiúra também era famosa. Foi rei de sua cidade, depois de derrubar o tirano, e abdicou do trono dez anos depois.
Algumas de suas máximas:
- O cargo revela o homem;
- Não fale mal de amigo, nem bem de inimigo.
- Não devemos divulgar nossos planos antecipadamente, pois se eles falharem, ninguém rirá de nós;
- Atente para o momento oportuno;
- Contra a necessidade nem os deuses lutam.
Mas sei de onde veio Pítaco, poeta grego: de Mitilene, na ilha de Lesbos. Viveu entre os séculos VI e VII a.C. e ficou conhecido como um dos sete sábios da Grécia. Sua feiúra também era famosa. Foi rei de sua cidade, depois de derrubar o tirano, e abdicou do trono dez anos depois.
Algumas de suas máximas:
- O cargo revela o homem;
- Não fale mal de amigo, nem bem de inimigo.
- Não devemos divulgar nossos planos antecipadamente, pois se eles falharem, ninguém rirá de nós;
- Atente para o momento oportuno;
- Contra a necessidade nem os deuses lutam.
Friday, May 06, 2005
Estupro acidental
Fiquei impressionada com a sabedoria do Severino. Estupro é um acidente horrendo. Ô Severino, dá um tempo. Por essa lógica, assassinato é acidente, roubo é acidente, latrocínio é acidente, seqüestro é acidente, pedofilia é acidente. E o autor é apenas um descuidado, um inconseqüente, um irresponsável. É isso mesmo? Só falta o Severino dizer que a intenção é da vítima, já que está retirando a intenção do autor.
Ou será que ele queria dizer que estupro é algo acidental? Mas como é possível um “estupro acidental”? Sim, pode ser um “acidente”, considerando todos os eventos possíveis na vida de alguém; considerando o caráter contingencial do fato, quero dizer. Mas, convenhamos, isso é filosofia demais para qualquer Severino. Melhor entender a coisa ao pé da letra: como é possível um ‘acidente’ desta natureza? Alguém caiu sobre alguém assim, do nada, sem nada, e ops?
Não, não. Nada disso. A coisa toda é bem mais simples: o homem apenas se expressou mal. Isso acontece, gente.
Lembrei daquele caso da mulher encontrada morta com 70 facadas. O marido alegou, em sua defesa, que ela se matou. Imagine. As 69 estocadas anteriores à fatal não serviram para nada, nem para desanimá-la, menos ainda para enfraquecê-la. Continuou tentando, tentando, tentando e tentando de novo... e mais uma vez, e novamente, até acertar a pontaria e atingir o coração. Isso é que é uma vontade inabalável.
Mas triste mesmo será um Severino na presidência do país. Considerando que o Rio já elegou um jegue para deputado (ou vereador, sei lá), tudo é possível.
Ou será que ele queria dizer que estupro é algo acidental? Mas como é possível um “estupro acidental”? Sim, pode ser um “acidente”, considerando todos os eventos possíveis na vida de alguém; considerando o caráter contingencial do fato, quero dizer. Mas, convenhamos, isso é filosofia demais para qualquer Severino. Melhor entender a coisa ao pé da letra: como é possível um ‘acidente’ desta natureza? Alguém caiu sobre alguém assim, do nada, sem nada, e ops?
Não, não. Nada disso. A coisa toda é bem mais simples: o homem apenas se expressou mal. Isso acontece, gente.
Lembrei daquele caso da mulher encontrada morta com 70 facadas. O marido alegou, em sua defesa, que ela se matou. Imagine. As 69 estocadas anteriores à fatal não serviram para nada, nem para desanimá-la, menos ainda para enfraquecê-la. Continuou tentando, tentando, tentando e tentando de novo... e mais uma vez, e novamente, até acertar a pontaria e atingir o coração. Isso é que é uma vontade inabalável.
Mas triste mesmo será um Severino na presidência do país. Considerando que o Rio já elegou um jegue para deputado (ou vereador, sei lá), tudo é possível.
Wednesday, May 04, 2005
Está chegando a hora
O fim está próximo. Um tal de Malaquias, que viveu no século XII, profetizou que, durante o papapo do 112º. papa na seqüência, haverá o juízo final, quando Deus separará os maus dos bons. Claro, os bons são os católicos e correligionários. Os maus... bem, estes são em número ainda maior.
Bento XIV é o 111º., que tem 78 anos, o que significa que o fim está próximo. Para ele e para nós.
Mas a questão é: o que fazer diante do fim do mundo? Arrepender-se? Dar adeus à dieta? Desistir da lipo? Dar adeus à intenção de parar de fumar? Comprar aquele carrinho tão sonhado? Dizer ao chefe tudo o que gostaria? Abastecer a despensa? Vender tudo o que tem e doar aos pobres? Aceitar Jesus como seu salvador? Reconciliar-se com Deus?
Istópi! Isso é apelo à força. Prá ficar só na falácia.
Mas talvez eu queira saber, mesmo, o que vão fazer os crentes. Provavelmente, dar pulos de alegria. Enfim, separados do joio.
Tem alguma coisa errada aí, não tem não?
Bento XIV é o 111º., que tem 78 anos, o que significa que o fim está próximo. Para ele e para nós.
Mas a questão é: o que fazer diante do fim do mundo? Arrepender-se? Dar adeus à dieta? Desistir da lipo? Dar adeus à intenção de parar de fumar? Comprar aquele carrinho tão sonhado? Dizer ao chefe tudo o que gostaria? Abastecer a despensa? Vender tudo o que tem e doar aos pobres? Aceitar Jesus como seu salvador? Reconciliar-se com Deus?
Istópi! Isso é apelo à força. Prá ficar só na falácia.
Mas talvez eu queira saber, mesmo, o que vão fazer os crentes. Provavelmente, dar pulos de alegria. Enfim, separados do joio.
Tem alguma coisa errada aí, não tem não?
Monday, May 02, 2005
Tem feijãozinho sobrando aí
No começo do século XIX o interesse do cientista americano Samuel George Morton em história natural (e naturalmente eugenia) o levou a realizar um experimento um tanto curioso, com um resultado nada surpreendente.
Tratava-se de determinar a capacidade cognitiva de várias ‘raças’ humanas a partir do volume e densidade do crânio. Seu experimento consistia em preencher vários crânios com feijões, quando então os pesava. Aquele que tivesse maior densidade teria pertencido ao homem mais inteligente (ou melhor, à raça com maior capacidade cognitiva). O resultado “comprovou” que os negros possuem crânios muito mais leves. Consequentemente, têm uma capacidade cognitiva bastante limitada e, em comparação com os brancos, cujos crânios obviamente pesavam bem mais, são muito menos inteligentes.
Pois é. Imaginem o sucesso que o homem fez. A ciência havia enfim demonstrado o que todos os brancos daquela época já sabiam: que os negros são inferiores intelectualmente e, portanto, que a escravidão se justifica. É claro, também deve ter ajudado a enriquecer os que viviam da plantação de feijão. Só não agradou aos religiosos que defendiam a escravidão. É que estes achavam que a escravidão tinha qualquer coisa a ver com Caim (a marca na testa) ou com Cão (aquele filho de Noé, que riu do pai bêbado e nu).
O que ninguém se interessou em saber é que Morton, distraído, cansado ao final de um longo dia, assim, sem-querer-querendo, deixou cair mais feijõezinhos no crânio do homem branco.
E ainda dizem que o cientista é fiel ao experimento.
É verdade que depois ele refez o teste (trocando os feijões por bolinhas de chumbo) e a diferença caiu um pouco (por que será?), mas ainda com vantagem para o branco. E uma terceira vez, agora comparando o volume e a densidade do crânio com o tipo físico. Neste último teste, não houve diferença.
Nem é preciso dizer que o primeiro é que fez sucesso.
Confesso que não entendi bem isso de alguém ser mais inteligente porque tem mais feijão na cabeça.
Veja também http://www.amphilsoc.org/library/mole/m/mortonsg.htm
Tratava-se de determinar a capacidade cognitiva de várias ‘raças’ humanas a partir do volume e densidade do crânio. Seu experimento consistia em preencher vários crânios com feijões, quando então os pesava. Aquele que tivesse maior densidade teria pertencido ao homem mais inteligente (ou melhor, à raça com maior capacidade cognitiva). O resultado “comprovou” que os negros possuem crânios muito mais leves. Consequentemente, têm uma capacidade cognitiva bastante limitada e, em comparação com os brancos, cujos crânios obviamente pesavam bem mais, são muito menos inteligentes.
Pois é. Imaginem o sucesso que o homem fez. A ciência havia enfim demonstrado o que todos os brancos daquela época já sabiam: que os negros são inferiores intelectualmente e, portanto, que a escravidão se justifica. É claro, também deve ter ajudado a enriquecer os que viviam da plantação de feijão. Só não agradou aos religiosos que defendiam a escravidão. É que estes achavam que a escravidão tinha qualquer coisa a ver com Caim (a marca na testa) ou com Cão (aquele filho de Noé, que riu do pai bêbado e nu).
O que ninguém se interessou em saber é que Morton, distraído, cansado ao final de um longo dia, assim, sem-querer-querendo, deixou cair mais feijõezinhos no crânio do homem branco.
E ainda dizem que o cientista é fiel ao experimento.
É verdade que depois ele refez o teste (trocando os feijões por bolinhas de chumbo) e a diferença caiu um pouco (por que será?), mas ainda com vantagem para o branco. E uma terceira vez, agora comparando o volume e a densidade do crânio com o tipo físico. Neste último teste, não houve diferença.
Nem é preciso dizer que o primeiro é que fez sucesso.
Confesso que não entendi bem isso de alguém ser mais inteligente porque tem mais feijão na cabeça.
Veja também http://www.amphilsoc.org/library/mole/m/mortonsg.htm
Sunday, May 01, 2005
Ops!
Socorro! Big Brother do inconsciente! Tava demorando, né?
Os cientistas descobriram um modo de ler nossos pensamentos. E o mais grave: eles se dizem capazes de ler, por ressonância magnética, o que nós nem sabemos que estamos pensando.
O que isto significa? Que os males da mente poderão ser melhor diagnosticados e tratados preventivamente, ou que nossos comportamentos, interesses, inclinações, gostos e paixões poderão ser manipulados?
Sei não. Pela reportagem (que pode ser acessada clicando no título acima), parece que a experiência passa por uma espécie de manipulação da reação, com algo do tipo mensagem subliminar. Mas ainda é cedo para dizer qualquer coisa, até mesmo se o experimento garante o resultado pretendido.
Em todo caso, não quero ninguém lendo meus pensamentos. Já é demais pensá-los e dar tanta bandeira.
Os cientistas descobriram um modo de ler nossos pensamentos. E o mais grave: eles se dizem capazes de ler, por ressonância magnética, o que nós nem sabemos que estamos pensando.
O que isto significa? Que os males da mente poderão ser melhor diagnosticados e tratados preventivamente, ou que nossos comportamentos, interesses, inclinações, gostos e paixões poderão ser manipulados?
Sei não. Pela reportagem (que pode ser acessada clicando no título acima), parece que a experiência passa por uma espécie de manipulação da reação, com algo do tipo mensagem subliminar. Mas ainda é cedo para dizer qualquer coisa, até mesmo se o experimento garante o resultado pretendido.
Em todo caso, não quero ninguém lendo meus pensamentos. Já é demais pensá-los e dar tanta bandeira.
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