Como meu HD pifou, perdi arquivos e estou muito p. da vida, tenho o pleno direito de descontar em alguém.
Pois está decidido: será em Platão.
Então. Aproveitando a onda de denuncismo, também quero fazer uma denúncia muito séria e verdadeira: PLATÃO ESCREVIA POEMINHAS... ROMÂNTICOS!
Ora, ora... Suspiros apaixonados de um filósofo nada platônico.
Taí a prova, pra quem quiser ver.
...............................................................................................................................................
(29) No quarto livro de sua obra Da Luxúria dos Antigos, Aristipos diz que Platão era apaixonado por um rapaz chamado Aster, que estudava astronomia junto com ele, e também por Díon, mencionado acima, e ainda, como dizem alguns autores, por Faidros. Evidenciam o seu amor os epigramas escritos por ele sobre essas pessoas:
“Olha os astros, meu Aster! Ah! Se eu fosse os céus para contemplar-te com muitos olhos!”
E outro:
“Entre os vivos, Aster, brilhavas como a estrela matutina; agora, morto, que brilhes como a estrela vespertina entre os finados!”
(30) E, para Díon o seguinte:
“As Parcas decretaram lágrimas a Hecabe e às mulheres de Ílion desde o seu nascimento. A ti, entretanto, Díon, que conquistaste a vitória em belas iniciativas, os deuses reservaram amplas esperanças. Jazes na pátria imensa, honrado por teus concidadãos, Díon, tu que deixaste meu coração louco de amor”.
(31) Dizem que este último epigrama foi gravado sobre a tumba de Díon em Siracusa. Consta ainda que, estando enamorado de Aléxis, e também de Faidros (já mencionado), Platão compôs o seguinte epigrama:
“Agora que eu disse ‘Somente Aléxis é belo’, todos o contemplam e por onde passa ele é olhado por todos. Por que, meu coração, mostrar o osso aos cães? Depois sofrerás. Não foi assim que perdemos Faidros?”
Platão também possuiu Arqueanassa, para quem compôs o seguinte epigrama:
“Possuo Arqueanassa, cortesã de Colofon; até em suas rugas pousa o amor picante. Ah! Infelizes que colhestes a flor de sua primeira viagem, por que chamas passastes!”
(32) Ele compôs este outro epigrama sobre Agaton:
“Enquanto beijava Agaton eu tinha a alma nos lábios, como se ela quisesse – infeliz! – passar por ele!”
E outro:
“Lanço-te esta maçã, e se queres realmente amar-me, recolhe-a e deixa-me provar a tua virgindade. Se não pensares assim – que isso não aconteça! – recolhe igualmente a maçã e vê como é breve a beleza!”
E ainda este:
“Sou esta maçã, lançada por quem te ama; cede, Xantipe, pois ambos nascemos para fenecer”.
(Diógenes Laércio – Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Brasília : UnB, 1977, p. 92 e ss)
.....................................................................................
Quem nunca escreveu um poema, que atire a primeira pedra.
Saturday, July 23, 2005
Wednesday, July 20, 2005
Direto do Cemitério
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem duma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.
Soeren Kierkegaard, Desespero Humano.
Soeren Kierkegaard, Desespero Humano.
Monday, July 18, 2005
Coisa de grego (2): a zona
Alguém pode pensar que a zona, ou o que o valha, não foi inventada. É produto do crescimento das cidades, da segregação social, etc e tal. Ledo engano. A zona foi inventada, sim, e seu autor é Sólon, legislador ateniense que viveu no século VI a.C. O mesmo que, quando general, mandou seus soldados se vestirem como mulheres.
Sólon fez diversas reformas. Acabou com a escravidão por dívidas, desvalorizou a moeda, dividiu a população de acordo com a renda, recusou-se a castigar os celibatários (sob a alegação de uma mulher, afinal de contas, é um grande aborrecimento), transformou o ócio em crime (o que é um retrocesso, claro) e, por fim, legalizou a prostituição e determinou que fosse destinado às prostitutas um espaço próprio nas cercanias da cidade de Atenas. Ele entendia que não há crime na prática da prostituição, mas achava que as mulheres que procediam deste modo deviam ser afastadas das esposas e filhas... por via das dúvidas.
Sólon fez diversas reformas. Acabou com a escravidão por dívidas, desvalorizou a moeda, dividiu a população de acordo com a renda, recusou-se a castigar os celibatários (sob a alegação de uma mulher, afinal de contas, é um grande aborrecimento), transformou o ócio em crime (o que é um retrocesso, claro) e, por fim, legalizou a prostituição e determinou que fosse destinado às prostitutas um espaço próprio nas cercanias da cidade de Atenas. Ele entendia que não há crime na prática da prostituição, mas achava que as mulheres que procediam deste modo deviam ser afastadas das esposas e filhas... por via das dúvidas.
Sunday, July 17, 2005
Criptozoologia
Você tem animais em casa? Cachorro, gato, papagaio? Formiga? Cupim, talvez? Quem sabe um pernilongo?
Nada, nadinha mesmo? Engano seu. Há uma enorme população de animais invisíveis em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, no mundo inteiro. Invisíveis mesmo, tá? Como os duendes.
Mas não se preocupe. Se eventualmente precisar de ajuda (sabe-se lá), chame os ghostbusters, aqueles cientistas que já vêm com trilha sonora de Ray Parker Jr. Hoje eles atendem pelo nome de criptozoólogos e juram que são seríssimos, mas passam o dia elaborando teses sobre animais ocultos.
Não, não. Isso não tem nada a ver com ocultismo. É ciência mesmo, tá? O único problema é que o objeto de estudo é invisível. No mais, tudo segundo a cartilha. Até mesmo um certo grau de ceticismo, claro.
Para dar sentido ao estudo científico do oculto, eis um belíssimo provérbio tibetano, pleno de sabedoria: “O animal mais astuto é aquele que nenhum homem viu".
Legal... mas bem que esses cientistas podiam ser astutos também.
Desconfio que a máxima tibetana esteja invertida. Não seria mais correto dizer: "o homem mais astuto é aquele que nenhum animal viu"?
Nada, nadinha mesmo? Engano seu. Há uma enorme população de animais invisíveis em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, no mundo inteiro. Invisíveis mesmo, tá? Como os duendes.
Mas não se preocupe. Se eventualmente precisar de ajuda (sabe-se lá), chame os ghostbusters, aqueles cientistas que já vêm com trilha sonora de Ray Parker Jr. Hoje eles atendem pelo nome de criptozoólogos e juram que são seríssimos, mas passam o dia elaborando teses sobre animais ocultos.
Não, não. Isso não tem nada a ver com ocultismo. É ciência mesmo, tá? O único problema é que o objeto de estudo é invisível. No mais, tudo segundo a cartilha. Até mesmo um certo grau de ceticismo, claro.
Para dar sentido ao estudo científico do oculto, eis um belíssimo provérbio tibetano, pleno de sabedoria: “O animal mais astuto é aquele que nenhum homem viu".
Legal... mas bem que esses cientistas podiam ser astutos também.
Desconfio que a máxima tibetana esteja invertida. Não seria mais correto dizer: "o homem mais astuto é aquele que nenhum animal viu"?
Saturday, July 16, 2005
Notícias do Senado... romano
E por falar em Sura, aquele político que teria ajudado Cícero a comprar a casa nova: Plutarco conta, em Vidas Paralelas, que Cornélio Lêntulo (ou Sura) era senador pela segunda vez quando seus deboches e sua conduta infame o levaram a ser expulso do Senado.
Em certa época, Sura (que em latim quer dizer perna) gastou grande parte do erário público sob sua responsabilidade. Chamado pelo Senado a se explicar e a devolver o dinheiro, Sura não se incomodou minimamente. Disse que não tinha contas a prestar, mas, se quisessem, podia apresentar a perna, como fazem as crianças quando cometem alguma falta no jogo. Daí o apelido.
Conta ainda Plutarco que Sura foi processado e tratou de corromper alguns juízes. Quando foi absolvido com a maioria de dois votos, ao invés de ficar feliz e comemorar a vitória, indignou-se com o prejuízo. Bastava a maioria de um voto. Ou seja, pagou dois quando um era suficiente.
Que coisa... Dá até prá ficar com peninha.
Em certa época, Sura (que em latim quer dizer perna) gastou grande parte do erário público sob sua responsabilidade. Chamado pelo Senado a se explicar e a devolver o dinheiro, Sura não se incomodou minimamente. Disse que não tinha contas a prestar, mas, se quisessem, podia apresentar a perna, como fazem as crianças quando cometem alguma falta no jogo. Daí o apelido.
Conta ainda Plutarco que Sura foi processado e tratou de corromper alguns juízes. Quando foi absolvido com a maioria de dois votos, ao invés de ficar feliz e comemorar a vitória, indignou-se com o prejuízo. Bastava a maioria de um voto. Ou seja, pagou dois quando um era suficiente.
Que coisa... Dá até prá ficar com peninha.
Wednesday, July 13, 2005
Voltaire, born again
Qualquer seita, de qualquer gênero, é sempre a aliança da dúvida e do erro. Escotistas, tomistas, realistas, nominalistas, papistas, calvinistas, molinistas e jansenitas, tudo isso são nomes de guerra.
Não há seitas em geometria; ninguém se refere a euclidianos, a arquimedianos.
Quando a verdade é evidente, torna-se impossível a formação de partidos e facções. Nunca se discute se é dia claro ao meio-dia.
----------
François Marie Arouet (Voltaire), filósofo francês, século XVIII.
Dicionário Filosófico - verbete SEITA
Não há seitas em geometria; ninguém se refere a euclidianos, a arquimedianos.
Quando a verdade é evidente, torna-se impossível a formação de partidos e facções. Nunca se discute se é dia claro ao meio-dia.
----------
François Marie Arouet (Voltaire), filósofo francês, século XVIII.
Dicionário Filosófico - verbete SEITA
Tuesday, July 12, 2005
Fácil ou impossível
Cícero (aquele, de Roma) queria comprar uma casa. Como não tinha dinheiro suficiente, aceitou um presente secreto de dois mil sestércios de Sura, que era na ocasião uma das partes em um julgamento.
Antes que a casa fosse adquirida, o caso foi descoberto e tornado público. Cícero foi acusado de receber propina.
Abalado com o escândalo, é claro que ele negou tudo veementemente: "A acusação que me fazem é tão falsa que, se eu tivesse recebido o dinheiro, teria comprado a casa".
É claro que convenceu.
Logo depois, a compra foi efetuada.
Quando a mentira foi exposta ao Senado, Cícero foi chamado a se explicar. Se não havia recebido propina, com que dinheiro comprara a casa? Era sabido que não tinha o suficiente. Por que mentiria, se houvesse agido corretamente?
Mas Cícero defendeu-se com um argumento inusitado: "Vocês certamente são homens imprudentes se não sabem que um bom administrador de seu lar deve negar que deseja comprar algo, quando há tantos interessados em adquirir a mesma coisa".
Pensando bem, faz sentido: se não demonstra interesse em comprar a casa, o preço cai. Se o preço cai, então o dinheiro que tem será suficiente, o que significa que a propina não é necessária. Portanto, é inocente do que o acusam.
Ele ficou com a casa, sim. E com a fama de bom orador.
...................................
Já dizia o futuro ex-deputado Roberto Jefferson: certas coisas são fáceis ou são impossíveis. Eis aí algo que não é fácil para o PT.
Só não sei se isso é bom ou ruim.
Antes que a casa fosse adquirida, o caso foi descoberto e tornado público. Cícero foi acusado de receber propina.
Abalado com o escândalo, é claro que ele negou tudo veementemente: "A acusação que me fazem é tão falsa que, se eu tivesse recebido o dinheiro, teria comprado a casa".
É claro que convenceu.
Logo depois, a compra foi efetuada.
Quando a mentira foi exposta ao Senado, Cícero foi chamado a se explicar. Se não havia recebido propina, com que dinheiro comprara a casa? Era sabido que não tinha o suficiente. Por que mentiria, se houvesse agido corretamente?
Mas Cícero defendeu-se com um argumento inusitado: "Vocês certamente são homens imprudentes se não sabem que um bom administrador de seu lar deve negar que deseja comprar algo, quando há tantos interessados em adquirir a mesma coisa".
Pensando bem, faz sentido: se não demonstra interesse em comprar a casa, o preço cai. Se o preço cai, então o dinheiro que tem será suficiente, o que significa que a propina não é necessária. Portanto, é inocente do que o acusam.
Ele ficou com a casa, sim. E com a fama de bom orador.
...................................
Já dizia o futuro ex-deputado Roberto Jefferson: certas coisas são fáceis ou são impossíveis. Eis aí algo que não é fácil para o PT.
Só não sei se isso é bom ou ruim.
Sunday, July 10, 2005
Ih, sujou! É homem!
Durante muito tempo, atenienses e megários brigaram pela posse da ilha de Salamina. A certa altura, os megários ocuparam a ilha. Sólon foi o general escolhido pelos atenienses para recuperar Salamina. O que fez? Enviou um espião a Mégara, fingindo ser um traidor, para contar sobre a oportunidade única de seqüestrar as mulheres mais bonitas de Atenas, que estariam em um festival em homenagem à deusa Afrodite, no templo dedicado a ela.
De fato, havia o festival. Sim, as mulheres participariam dele; apenas elas. Sim, o festival aconteceria no templo de Afrodite.
Solon precisou apenas substituir as mulheres por homens vestidos de mulheres.
Os navios se aproximaram. À distância, os megários não se deram conta da diferença e, afoitos, se atiraram na água apressadamente. Ao chegar à praia é que perceberam que havia algo errado. Não é que as mulheres tivessem barba, entende? É que não tinham cintura, e...
E tarde demais. Eram homens. Os megários foram mortos e os atenienses utilizaram seus navios para aportar tranquilamente em Salamina. Novo engodo: quem desceu dos navios não foram os megários, como se esperava, mas soldados atenienses, que tomaram a ilha.
A história não conta se ainda estavam usando vestidos.
De fato, havia o festival. Sim, as mulheres participariam dele; apenas elas. Sim, o festival aconteceria no templo de Afrodite.
Solon precisou apenas substituir as mulheres por homens vestidos de mulheres.
Os navios se aproximaram. À distância, os megários não se deram conta da diferença e, afoitos, se atiraram na água apressadamente. Ao chegar à praia é que perceberam que havia algo errado. Não é que as mulheres tivessem barba, entende? É que não tinham cintura, e...
E tarde demais. Eram homens. Os megários foram mortos e os atenienses utilizaram seus navios para aportar tranquilamente em Salamina. Novo engodo: quem desceu dos navios não foram os megários, como se esperava, mas soldados atenienses, que tomaram a ilha.
A história não conta se ainda estavam usando vestidos.
Saturday, July 09, 2005
Severino Cemitério
Só hoje me toquei que o nome do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) corresponde, em português, a algo como "Severino Cemitério".
Soren é o equivalente a Severino. Gaard, em dinamarquês, significa "jardim, pátio" e kierke, igreja. Portanto, 'pátio da igreja', local onde enterravam-se os mortos.
Pois é. Severino Cemitério. Quem diria.
Mas ele não nega, não: filho da velhice [isto é, de pais idosos] e carregando um cemitério no nome, só poderia ser o que sou.
O que será que ele quis dizer com isso?
Soren é o equivalente a Severino. Gaard, em dinamarquês, significa "jardim, pátio" e kierke, igreja. Portanto, 'pátio da igreja', local onde enterravam-se os mortos.
Pois é. Severino Cemitério. Quem diria.
Mas ele não nega, não: filho da velhice [isto é, de pais idosos] e carregando um cemitério no nome, só poderia ser o que sou.
O que será que ele quis dizer com isso?
Friday, July 08, 2005
Transforme seu cérebro
Sim, eu sei. Testes online não significam nada, mas o que posso fazer? Aparece uma pergunta, e lá vou eu marcar ‘x’. Simplesmente não consigo evitar. Eu preciso responder, entende?
Prá piorar, encontrei outro questionário na internet, e descobri que é possível checar se tenho alguma disfunção no córtex pré-frontal (o que quer que isso seja) apenas marcando "x". Perfeito! Respondo a perguntas e ainda checo minha saúde.
Como eu não sabia que tinha um córtex pré-frontal, fiquei mais interessada do que devia, porque o resultado não foi lá grande coisa. Respondi “frequentemente” e “muito frequentemente” à metade das perguntas feitas, o que me coloca no grupo de altíssimo risco. É bastante provável eu tenha alguma disfunção neurológica.
Chato isso, mas fazer o quê, né? A vida segue em frente, apesar dos e-testes.
A vantagem deste auto-teste é que ele vem junto com os segredos da boa nutrição para casos como o meu, de alto índice de respostas erradas (isto, claro, se você conseguir superar a impaciência e for capaz de ler tudo sem ir pulando o que acha que já adivinhou). Mas, se levar a sério a receita, nem pense em fazer o mesmo com o tal foco Mozart. É tortura chinesa. Música clássica três vezes por semana para quem não consegue ficar parado? Menos, menos!
Prá piorar, encontrei outro questionário na internet, e descobri que é possível checar se tenho alguma disfunção no córtex pré-frontal (o que quer que isso seja) apenas marcando "x". Perfeito! Respondo a perguntas e ainda checo minha saúde.
Como eu não sabia que tinha um córtex pré-frontal, fiquei mais interessada do que devia, porque o resultado não foi lá grande coisa. Respondi “frequentemente” e “muito frequentemente” à metade das perguntas feitas, o que me coloca no grupo de altíssimo risco. É bastante provável eu tenha alguma disfunção neurológica.
Chato isso, mas fazer o quê, né? A vida segue em frente, apesar dos e-testes.
A vantagem deste auto-teste é que ele vem junto com os segredos da boa nutrição para casos como o meu, de alto índice de respostas erradas (isto, claro, se você conseguir superar a impaciência e for capaz de ler tudo sem ir pulando o que acha que já adivinhou). Mas, se levar a sério a receita, nem pense em fazer o mesmo com o tal foco Mozart. É tortura chinesa. Música clássica três vezes por semana para quem não consegue ficar parado? Menos, menos!
Sunday, July 03, 2005
Os filósofos e os porcos (1)
A propósito de meu coleguinha João de Salisbúria, em cuja companhia passei três anos muito agradáveis: ele me contou que estudou durante 16 anos na Escola de Chartres, na França. Sem concluir os estudos, por falta de recursos, ordenou-se padre e voltou para sua terra natal, a Inglaterra. Vinte anos depois, fugindo dos desmandos de Henrique I, retornou a Chartres.
Encontrou a antiga escola nas mesmas condições em que a deixara: discutindo exatamente os mesmos problemas e ainda sem conseguir resolvê-los.
Para mostrar a inutilidade disto tudo, João lançou o seguinte dilema:
-- O porco que é levado ao mercado está suspenso pelo homem ou pela corda?
Como boa amiguinha que sou, vou examinar as possibilidades:
1. O porco está suspenso pela corda, tese que chamaremos 'artificialista' (já que a corda é algo artificial, não natural);
2. O porco está suspenso pelo homem, tese que chamaremos 'naturalista' (já que o homem é natural, não artificial).
Os defensores do naturalismo dirão que o artificial deriva do natural. Portanto, o que sustenta a corda que sustenta o porco é o homem. Logo, o porco não está, em última análise, suspenso pela corda.
Os defensores do artificialismo dirão que o homem, natural, sustenta a corda, artificial, mas é a corda, artificial, que sustenta o porco, natural. Ou seja, se o natural sustém o artificial, é o artificial que em última instância sustém o natural. Sendo assim, o porco que é levado ao mercado não está suspenso pelo homem.
Ora, se o porco não está suspenso nem pela corda e nem pelo homem, então como é que ele conseguiu chegar ao mercado?
Eis aí um sub-dilema.
Encontrou a antiga escola nas mesmas condições em que a deixara: discutindo exatamente os mesmos problemas e ainda sem conseguir resolvê-los.
Para mostrar a inutilidade disto tudo, João lançou o seguinte dilema:
-- O porco que é levado ao mercado está suspenso pelo homem ou pela corda?
Como boa amiguinha que sou, vou examinar as possibilidades:
1. O porco está suspenso pela corda, tese que chamaremos 'artificialista' (já que a corda é algo artificial, não natural);
2. O porco está suspenso pelo homem, tese que chamaremos 'naturalista' (já que o homem é natural, não artificial).
Os defensores do naturalismo dirão que o artificial deriva do natural. Portanto, o que sustenta a corda que sustenta o porco é o homem. Logo, o porco não está, em última análise, suspenso pela corda.
Os defensores do artificialismo dirão que o homem, natural, sustenta a corda, artificial, mas é a corda, artificial, que sustenta o porco, natural. Ou seja, se o natural sustém o artificial, é o artificial que em última instância sustém o natural. Sendo assim, o porco que é levado ao mercado não está suspenso pelo homem.
Ora, se o porco não está suspenso nem pela corda e nem pelo homem, então como é que ele conseguiu chegar ao mercado?
Eis aí um sub-dilema.
Saturday, July 02, 2005
Asinus coronatus
Rex illiteratus est quasi asinus coronatus
(um rei iletrado é quase um asno coroado)
João de Salisbúria, filósofo, 1115-1180. Escreveu o primeiro tratado de filosofia política do período medieval, o Policraticus, de onde foi extraída essa frase.
(um rei iletrado é quase um asno coroado)
João de Salisbúria, filósofo, 1115-1180. Escreveu o primeiro tratado de filosofia política do período medieval, o Policraticus, de onde foi extraída essa frase.
É o Michael, é o Michael!
Clique no título e observe com atenção o rosto na torrada. É o Michael, não é?
Tem gente jurando que sim. Uma torradeira enviou essa mensagem durante o julgamento. No dia do veredicto, outra fatia de pão saltou de outra torradeira com o aviso: “inocente”.
Então está resolvido. A justiça humana inocentou Jackson, e a divina disse amém. Afinal, é o rei do pop.
Mas que parece, parece...
Não, não procuro essas histórias malucas. Elas é que vêm até mim. Por vontade divina.
Tem gente jurando que sim. Uma torradeira enviou essa mensagem durante o julgamento. No dia do veredicto, outra fatia de pão saltou de outra torradeira com o aviso: “inocente”.
Então está resolvido. A justiça humana inocentou Jackson, e a divina disse amém. Afinal, é o rei do pop.
Mas que parece, parece...
Não, não procuro essas histórias malucas. Elas é que vêm até mim. Por vontade divina.
Thursday, June 30, 2005
Hieróglifos para iniciantes
Sugeri aqui, há algum tempo, uma solução definitiva para todos os problemas com a língua portuguesa: recorrer a hieróglifos.
E não é que encontrei um curso online em escrita egípcia antiga?
Olhe só as vantagens do curso: quando encontrar uma múmia egípcia, você vai poder ler a inscrição. O curso também melhora a coordenação motora, porque você terá de desenhar todas aquelas figurinhas repetidas vezes. Uma palavrinha de cinco letras e lá se vão uma coruja, uma balança, um olho, uma cesta e uma cobrinha. Isto, claro, se essa palavrinha for o sujeito da oração. Se for, por exemplo, um objeto direto, então a sequência é outra: coruja, balança, olho, cesta (a raiz, tá?), um pato, uma perna e uma cabeça de macaco. Se for um objeto indireto, troque o pato, a perna e a cabeça de macaco por um leão, um homem sentado e um sacerdote. Uma conjunção, e temos um braço, um prato e um sol. Um pronome, e eis um braço e um pé. Se for um verbo, lá está a conjugação seta, peixe, mulher, vaca.
Visualize agora um parágrafo inteiro. Não é lindo?
Mas o melhor de tudo é poder escrever - e ler - da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, na horizontal (linhas) e na vertical (colunas). Imagine. Não faz a menor diferença.
E depois dizem que as pirâmides foram construídas por deuses astronautas. Com uma escrita tão flexível assim, faz-se qualquer coisa. Olhe só o exercício de raciocínio: antes de começar a ler, é preciso identificar primeiro em que direção aquele texto específico foi escrito.
Faça o curso. Se um dia visitar o Egito, ele será útil. Se não, será de graça. :-))
E não é que encontrei um curso online em escrita egípcia antiga?
Olhe só as vantagens do curso: quando encontrar uma múmia egípcia, você vai poder ler a inscrição. O curso também melhora a coordenação motora, porque você terá de desenhar todas aquelas figurinhas repetidas vezes. Uma palavrinha de cinco letras e lá se vão uma coruja, uma balança, um olho, uma cesta e uma cobrinha. Isto, claro, se essa palavrinha for o sujeito da oração. Se for, por exemplo, um objeto direto, então a sequência é outra: coruja, balança, olho, cesta (a raiz, tá?), um pato, uma perna e uma cabeça de macaco. Se for um objeto indireto, troque o pato, a perna e a cabeça de macaco por um leão, um homem sentado e um sacerdote. Uma conjunção, e temos um braço, um prato e um sol. Um pronome, e eis um braço e um pé. Se for um verbo, lá está a conjugação seta, peixe, mulher, vaca.
Visualize agora um parágrafo inteiro. Não é lindo?
Mas o melhor de tudo é poder escrever - e ler - da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, na horizontal (linhas) e na vertical (colunas). Imagine. Não faz a menor diferença.
E depois dizem que as pirâmides foram construídas por deuses astronautas. Com uma escrita tão flexível assim, faz-se qualquer coisa. Olhe só o exercício de raciocínio: antes de começar a ler, é preciso identificar primeiro em que direção aquele texto específico foi escrito.
Faça o curso. Se um dia visitar o Egito, ele será útil. Se não, será de graça. :-))
Wednesday, June 29, 2005
Movimento antropofágico intraterrestre
Um tal Scott Krause encontrou pela frente, em janeiro de 2004, seres intraterrestres antropófagos. Morto de medo, tentou escapar. Na fuga, assaltou uma loja, roubou um carro, dirigiu em alta velocidade, perdeu o controle da direção, bateu em um caminhão e matou o motorista.
O que aconteceu depois? Os tais hemadrones, os seres intraterrestres, desapareceram imediatamente. Sem levar nada. Na certa, ficaram assustados com o acidente.
Krause será julgado na próxima semana. O advogado vai, sim, insistir na história que contei acima e alegar insanidade. Krause acreditava realmente estar sendo perseguido por seres vindos do interior da terra. O que eles queriam? Um pedaço, pelo menos.
O que aconteceu depois? Os tais hemadrones, os seres intraterrestres, desapareceram imediatamente. Sem levar nada. Na certa, ficaram assustados com o acidente.
Krause será julgado na próxima semana. O advogado vai, sim, insistir na história que contei acima e alegar insanidade. Krause acreditava realmente estar sendo perseguido por seres vindos do interior da terra. O que eles queriam? Um pedaço, pelo menos.
Tuesday, June 28, 2005
P-r-e-s-t-e-n-ç-ã-o
Em Hong Kong, uma mulher passou um mês inteiro com uma sanguessuga de 5 cm no nariz, mas o melhor da história é que ela nem percebeu. Repito: um mês inteiro com uma sanguessuga no nariz e nem percebeu. Pior ainda: parece que não percebeu nem quando ganhou o bichin, ao lavar o rosto em um riacho. Só foi ao médico porque o nariz não parava de sangrar.
Será que esse é um caso de Transtorno de Déficit de Atenção? Deve ser, né? Não dá prá imaginar atenção mais deficitária que essa.
Será que esse é um caso de Transtorno de Déficit de Atenção? Deve ser, né? Não dá prá imaginar atenção mais deficitária que essa.
Monday, June 27, 2005
Assim não vale
O escultor grego Praxíteles, que viveu no séc. IV a.C., queria fazer uma estátua de Afrodite, mas precisaria, para isso, encontrar uma modelo cuja beleza estivesse à altura da deusa do amor e, ainda, alguém que aceitasse ser representada nua. A segunda parte seria ainda mais difícil, já que os gregos julgavam que o corpo feminino não deveria ser exposto. A iniciativa seria considerada, com certeza, uma séria ofensa à deusa e aos costumes.
Praxíteles resolveu o problema usando como modelo uma hetária (espécie de cortesã-sacerdotisa da antiguidade) e trabalhando às escondidas. Mesmo com todos os cuidados, foi descoberto. A esta altura, já havia concluído o trabalho (clique no título para ver a escultura).
Praxíteles e Frinéia, a hetária, foram levados a julgamento. Pelo sacrilégio, a pena seria a execução. Os acusadores alegavam que nenhum mortal poderia se igualar, em beleza, à deusa do amor.
Frinéia não se fez de rogada. Usou, para se defender, um argumento bastante simples: ficou nua diante do júri.
Inocente.
Praxíteles resolveu o problema usando como modelo uma hetária (espécie de cortesã-sacerdotisa da antiguidade) e trabalhando às escondidas. Mesmo com todos os cuidados, foi descoberto. A esta altura, já havia concluído o trabalho (clique no título para ver a escultura).
Praxíteles e Frinéia, a hetária, foram levados a julgamento. Pelo sacrilégio, a pena seria a execução. Os acusadores alegavam que nenhum mortal poderia se igualar, em beleza, à deusa do amor.
Frinéia não se fez de rogada. Usou, para se defender, um argumento bastante simples: ficou nua diante do júri.
Inocente.
Sunday, June 26, 2005
O crime que a ficção desvendou
Em 28 de julho de 1841 um cadáver foi encontrado no Rio Hudson, New Jersey, costa oeste dos Estados Unidos. Tratava-se de Mary Cecília Rogers, uma jovem de 20 anos que trabalhava em uma tabacaria de Nova Iorque e que estava desaparecida há três dias. As evidências indicavam que a mulher havia sido espancada, violentada e morta, possivelmente por duas ou três pessoas.
A violência do crime, o estado em que se encontrava o corpo, quase irreconhecível, o fato de tratar-se da “moça bonita da tabacaria” e, claro, o mistério que envolvia a história, fizeram com que o caso fosse explorado à exaustão pela imprensa. Acrescente-se a este fato um outro, também lamentável: o suicídio do noivo, que se sentia incapaz de conviver com o que Mary havia supostamente sofrido.
O que torna este crime peculiar é o fato de ter sido solucionado pela ficção, em conto do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849).
Poe acompanhou o que foi publicado sobre o assunto e escreveu o conto intitulado “O mistério de Marie Rogêt”, em que argumenta em favor de uma hipótese bastante distinta da linha de investigação da polícia. Em seguida, entregou o conto ao delegado, pedindo que investigasse sua hipótese.
Para Allan Poe, não houve estrangulamento, não houve espancamento, não houve estupro, não houve assassinato, não havia envolvimento de uma quadrilha na história. Houve crime? Sim.
Enfim, o que teria acontecido a Mary Cecília Rogers?
Leia o conto. :-))
A violência do crime, o estado em que se encontrava o corpo, quase irreconhecível, o fato de tratar-se da “moça bonita da tabacaria” e, claro, o mistério que envolvia a história, fizeram com que o caso fosse explorado à exaustão pela imprensa. Acrescente-se a este fato um outro, também lamentável: o suicídio do noivo, que se sentia incapaz de conviver com o que Mary havia supostamente sofrido.
O que torna este crime peculiar é o fato de ter sido solucionado pela ficção, em conto do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849).
Poe acompanhou o que foi publicado sobre o assunto e escreveu o conto intitulado “O mistério de Marie Rogêt”, em que argumenta em favor de uma hipótese bastante distinta da linha de investigação da polícia. Em seguida, entregou o conto ao delegado, pedindo que investigasse sua hipótese.
Para Allan Poe, não houve estrangulamento, não houve espancamento, não houve estupro, não houve assassinato, não havia envolvimento de uma quadrilha na história. Houve crime? Sim.
Enfim, o que teria acontecido a Mary Cecília Rogers?
Leia o conto. :-))
Tuesday, June 21, 2005
Quem te conhece que te compre
Nos episódios recentes envolvendo a Câmara dos Deputados, um argumento vem sendo repetido ad nauseam pelos envolvidos, quaisquer que sejam: “quem me conhece sabe muito bem que...”
Surge uma denúncia, alguém é acusado, aparece uma suspeita, e eis o refrão: "quem me conhece sabe muito bem que..."
Este argumento é obviamente falacioso e funciona da seguinte forma: tenta-se convencer uma audiência da honestidade do ofendido usando para isso o suposto bom julgamento de pessoas próximas. Como não conhecemos nem aquele que se defende, nem seus familiares e amigos próximos e menos ainda sabemos o que dizem, só nos resta confiar na palavra daquele que está sob suspeição. Ou seja, o argumento supõe a honestidade de A com base na afirmação de A de que quem conhece A sabe da honestidade de A.
É isso mesmo.
Pela frequência com que é repetido, é possível supor que seja eficiente.
Surge uma denúncia, alguém é acusado, aparece uma suspeita, e eis o refrão: "quem me conhece sabe muito bem que..."
Este argumento é obviamente falacioso e funciona da seguinte forma: tenta-se convencer uma audiência da honestidade do ofendido usando para isso o suposto bom julgamento de pessoas próximas. Como não conhecemos nem aquele que se defende, nem seus familiares e amigos próximos e menos ainda sabemos o que dizem, só nos resta confiar na palavra daquele que está sob suspeição. Ou seja, o argumento supõe a honestidade de A com base na afirmação de A de que quem conhece A sabe da honestidade de A.
É isso mesmo.
Pela frequência com que é repetido, é possível supor que seja eficiente.
Monday, June 20, 2005
A natureza oblíqua da mulher
Outra passagem digna de nota do Malleus Malleficarum, de Kramer & Sprenger, é a referência ao caráter naturalmente ‘torto’ da mulher. O argumento consiste no seguinte: Eva foi feita a partir de uma costela de Adão. Ora, as costelas são ossos curvos. Se a matéria-prima da mulher é naturalmente curva, ela só pode tender para o que é torto. Logo, não há retidão moral na mulher.
É, pois é.
É, pois é.
Sunday, June 19, 2005
Identificação datiloscópica de bruxas
Lembra da Maga Patológica e da Madame Min?
Pois é, os medievais juravam que elas existiam, viviam entre nós, faziam poções mágicas, eram malvadas, voavam e, o mais grave, transformavam homens em animais.
Esse povinho Wicca tem feito de tudo para provar que as bruxas existem (o que dá razão ao medievo), mas estou interessada mesmo é na técnica usada para separar o joio do trigo. Isto é, como saber com certeza se uma mulher é bruxa ou, digamos, honesta?
Esse é um problema masculino, claro, e vou deixar que os monges dominicanos Heinrich Kramer e Joseph Sprenger o resolvam. Eles têm dicas eficientíssimas para jamais perder a humanidade nas mãos de uma bruxa: antes de mais nada, verifique se a mulher suspeita tem olhos verdes. É um indício seguro de feitiçaria, sedução e perdição.
Se a mulher não tiver olhos verdes, isso não quer dizer nada. Pode ser bruxa assim mesmo. O diabo é ardiloso, viu? Procure então por marcas de nascença, especialmente marcas das mordidas do capeta no corpo da mulher sob suspeição. É para procurar mesmo.
Então. Não há olhos verdes e o corpo sob suspeita aparentemente não foi mordido. Resolvido o assunto? Coisa nenhuma! Tudo pode ser enganação, disfarce, maquiagem. O jeito é procurar o terceiro seio. Se houver, será bruxa com certeza. Se não houver, ainda assim pode ser bruxa. É preciso lembrar sempre que o diabo é enganador.
Frustrante: a mulher examinada não tem olhos verdes, não tem marcas de nascença e só tem dois seios. O que fazer? Desistir do assunto? Assumir que houve engano? Declarar a inocência?
Precisa não. Ainda há recursos. Passe logo para o momento seguinte: tente arrancar uma confissão sob tortura, mas faça o impossível para que ela não confesse antes. É que só uma confissão sob tortura é verdadeira. Quem confessa espontaneamente o faz por medo de ser torturado, entende?
Após tantos esforços, ainda não temos a prova inconteste? A mulher sob suspeita não tem olhos verdes, marcas de nascença, terceiro seio e, lamentavelmente, confessou antes de ser torturada. Não há ainda prova definitiva, irrefutável, absolutamente segura? Que pena. Mas ela é possível, sim.
Passe para o teste final: amarre uma pedra de bom tamanho ao corpo da mulher, que deve ser atirada com vida a um rio. Se boiar, você saberá com certeza que ela é inocente, e pode deixá-la ir em paz. Esta nunca o transformará em porco. Nem em corno, né?
Se for para o fundo do rio, é culpada. Claro, isso não tem nada a ver com o peso da pedra, mas sim com o peso da culpa. Vá para a casa em paz. Essa também nunca o transformará em porco. Nem em corno.
.......................
Sim, Kramer e Sprenger realmente existiram e, em 1484, publicaram o livro intitulado Malleus Malleficarum (O Martelo das Feiticeiras, publicado no Brasil pela Rosa dos Ventos), de onde tirei essas orientações. Com a licença do estilo na descrição, é isso mesmo.
Pois é, os medievais juravam que elas existiam, viviam entre nós, faziam poções mágicas, eram malvadas, voavam e, o mais grave, transformavam homens em animais.
Esse povinho Wicca tem feito de tudo para provar que as bruxas existem (o que dá razão ao medievo), mas estou interessada mesmo é na técnica usada para separar o joio do trigo. Isto é, como saber com certeza se uma mulher é bruxa ou, digamos, honesta?
Esse é um problema masculino, claro, e vou deixar que os monges dominicanos Heinrich Kramer e Joseph Sprenger o resolvam. Eles têm dicas eficientíssimas para jamais perder a humanidade nas mãos de uma bruxa: antes de mais nada, verifique se a mulher suspeita tem olhos verdes. É um indício seguro de feitiçaria, sedução e perdição.
Se a mulher não tiver olhos verdes, isso não quer dizer nada. Pode ser bruxa assim mesmo. O diabo é ardiloso, viu? Procure então por marcas de nascença, especialmente marcas das mordidas do capeta no corpo da mulher sob suspeição. É para procurar mesmo.
Então. Não há olhos verdes e o corpo sob suspeita aparentemente não foi mordido. Resolvido o assunto? Coisa nenhuma! Tudo pode ser enganação, disfarce, maquiagem. O jeito é procurar o terceiro seio. Se houver, será bruxa com certeza. Se não houver, ainda assim pode ser bruxa. É preciso lembrar sempre que o diabo é enganador.
Frustrante: a mulher examinada não tem olhos verdes, não tem marcas de nascença e só tem dois seios. O que fazer? Desistir do assunto? Assumir que houve engano? Declarar a inocência?
Precisa não. Ainda há recursos. Passe logo para o momento seguinte: tente arrancar uma confissão sob tortura, mas faça o impossível para que ela não confesse antes. É que só uma confissão sob tortura é verdadeira. Quem confessa espontaneamente o faz por medo de ser torturado, entende?
Após tantos esforços, ainda não temos a prova inconteste? A mulher sob suspeita não tem olhos verdes, marcas de nascença, terceiro seio e, lamentavelmente, confessou antes de ser torturada. Não há ainda prova definitiva, irrefutável, absolutamente segura? Que pena. Mas ela é possível, sim.
Passe para o teste final: amarre uma pedra de bom tamanho ao corpo da mulher, que deve ser atirada com vida a um rio. Se boiar, você saberá com certeza que ela é inocente, e pode deixá-la ir em paz. Esta nunca o transformará em porco. Nem em corno, né?
Se for para o fundo do rio, é culpada. Claro, isso não tem nada a ver com o peso da pedra, mas sim com o peso da culpa. Vá para a casa em paz. Essa também nunca o transformará em porco. Nem em corno.
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Sim, Kramer e Sprenger realmente existiram e, em 1484, publicaram o livro intitulado Malleus Malleficarum (O Martelo das Feiticeiras, publicado no Brasil pela Rosa dos Ventos), de onde tirei essas orientações. Com a licença do estilo na descrição, é isso mesmo.
Saturday, June 18, 2005
Sunday, June 12, 2005
Ôu, eu não!
Clístenes, um aristocrata grego cheio de idéias progressistas, assumiu o poder em Atenas após liderar a rebelião que derrubou o tirano Hípias.
Para afastar qualquer ameaça de retorno a um estado tirânico, Clístenes inventou e inaugurou a prática chamada “ostracismo”, que consistia no seguinte: cada membro da Assembléia popular, de que faziam parte 6000 homens, podia escrever, numa concha chamada ostrakón, o nome de um cidadão que, a seu ver, constituísse ameaça para o Estado. Se houvesse 3000 votos, o denunciado seria exilado por 10 anos, sem direito a defesa.
Quando o presidente da Assembléia perguntou aos presentes se haveria entre eles alguém que devesse ser considerado perigoso para o Estado, a resposta, que reuniu os três mil votos, foi: "Clístenes, Clístenes!"
Pelo visto só queriam a idéia, e nem era tão boa assim.
Para afastar qualquer ameaça de retorno a um estado tirânico, Clístenes inventou e inaugurou a prática chamada “ostracismo”, que consistia no seguinte: cada membro da Assembléia popular, de que faziam parte 6000 homens, podia escrever, numa concha chamada ostrakón, o nome de um cidadão que, a seu ver, constituísse ameaça para o Estado. Se houvesse 3000 votos, o denunciado seria exilado por 10 anos, sem direito a defesa.
Quando o presidente da Assembléia perguntou aos presentes se haveria entre eles alguém que devesse ser considerado perigoso para o Estado, a resposta, que reuniu os três mil votos, foi: "Clístenes, Clístenes!"
Pelo visto só queriam a idéia, e nem era tão boa assim.
Monday, June 06, 2005
Receita caseira para fazer insetos e ratos
A quem interessar possa: há uma receita infalível para fazer insetos e ratos. O procedimento é muito semelhante ao de um bolo: basta seguir as instruções.
Quem garante a veracidade do que estou dizendo é o médico e químico flamengo Jean Baptiste Van Helmont, que viveu no século XVII. Eis duas de suas receitas infalíveis, constantes do livro "Obras de Medicina e de Física":
“Faça um buraco em um tijolo e ponha ali erva de manjericão bem triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos escorpiões”.
Para produzir ratos, basta “comprimir uma camisa de mulher, suja, em um vaso guarnecido de trigo. Espere 21 dias. O fermento vindo da camisa, modificado pelo odor dos grãos, transformará em rato o próprio trigo”.
Van Helmont estudou Filosofia e Direito antes de se dedicar à Medicina. Olha só. Nem precisava, né?
Mas surpreendente mesmo é que, em uma Europa infestada de ratos, o homem tenha tido criatividade suficiente para estudar um modo de fabricar... ratos!
Ah, tá, o experimento era sobre geração espontânea. Certo.
Quem garante a veracidade do que estou dizendo é o médico e químico flamengo Jean Baptiste Van Helmont, que viveu no século XVII. Eis duas de suas receitas infalíveis, constantes do livro "Obras de Medicina e de Física":
“Faça um buraco em um tijolo e ponha ali erva de manjericão bem triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos escorpiões”.
Para produzir ratos, basta “comprimir uma camisa de mulher, suja, em um vaso guarnecido de trigo. Espere 21 dias. O fermento vindo da camisa, modificado pelo odor dos grãos, transformará em rato o próprio trigo”.
Van Helmont estudou Filosofia e Direito antes de se dedicar à Medicina. Olha só. Nem precisava, né?
Mas surpreendente mesmo é que, em uma Europa infestada de ratos, o homem tenha tido criatividade suficiente para estudar um modo de fabricar... ratos!
Ah, tá, o experimento era sobre geração espontânea. Certo.
Sunday, June 05, 2005
Meu joelho não é normal
Venho sentindo dores nos joelhos há cerca de dois meses. Segundo o médico que me atendeu esta semana, o caso é de uma simplicidade atroz: meu joelho não é normal. Simples assim.
Os exames não detectaram lesão, doença, fratura ou arranhão. Nada, exceto osso mal formado. Esquisito mesmo. Patela pontiaguda, para ser mais exata.
Legal, né? Com tanto problema sem solução no mundo, eu tinha de arrumar logo uma solução sem problema.
Confesso que fiquei um tanto decepcionada. Nadinha, mesmo? Após esse tempo todo sentindo dores, esperava que pelo menos houvesse um remedinho pra tomar; quem sabe, talvez, um gesso, ou eventualmente uma cirurgia. Qualquer coisa que justificasse passar esse tempo todo mancando. Eu já estava até fazendo planos para comprar uma bengala. Mas não. A única coisa a fazer é eliminar todo e qualquer gatilho para as dores: salto alto, escada, bicicleta, peso excessivo, longas horas em pé etc. E mais nada.
O lado bom de tudo isso? Descobri que minhas pernas não são finas. O joelho é que é largo.
Os exames não detectaram lesão, doença, fratura ou arranhão. Nada, exceto osso mal formado. Esquisito mesmo. Patela pontiaguda, para ser mais exata.
Legal, né? Com tanto problema sem solução no mundo, eu tinha de arrumar logo uma solução sem problema.
Confesso que fiquei um tanto decepcionada. Nadinha, mesmo? Após esse tempo todo sentindo dores, esperava que pelo menos houvesse um remedinho pra tomar; quem sabe, talvez, um gesso, ou eventualmente uma cirurgia. Qualquer coisa que justificasse passar esse tempo todo mancando. Eu já estava até fazendo planos para comprar uma bengala. Mas não. A única coisa a fazer é eliminar todo e qualquer gatilho para as dores: salto alto, escada, bicicleta, peso excessivo, longas horas em pé etc. E mais nada.
O lado bom de tudo isso? Descobri que minhas pernas não são finas. O joelho é que é largo.
Kierkegaard, alive & kicking
Perante um desmaio, grita-se: Água! Água de Colônia! Gotas de Hofmann! Mas perante alguém que desespera, grita-se: possível, possível! Só o possível o pode salvar! Uma possibilidade: e o nosso desesperado recomeça a respirar, revive, porque sem possível, por assim dizer, não se respira.
(Desespero Humano)
(Desespero Humano)
Monday, May 30, 2005
Como parar de fumar sem nem mesmo tentar
Hoje estou completando dez dias sem fumar. Nada de mais. O caso é que não tive intenção alguma de me privar do cigarro, ainda que temporariamente, ou de parar de fumar. Continuo sem intenção, mas continuo sem fumar.
Como não pensava realmente em parar, resolvi testar minha resistência: deixei uma carteira aberta à minha frente, todos os dias. Como era uma brincadeira, eu podia me dar ao luxo de resistir. Quando cansasse de brincar, acenderia um cigarro.
Pois é, isso já se estendeu por 10 dias, e a carteira continua intacta. O problema é que me dei conta agora de que estou mesmo deixando de fumar e me apavorei. Como vou passar por todas as dificuldades da vida sem acender um cigarro? Além do mais, isso significa me proibir de fazer o que gosto.
Então cheguei à seguinte conclusão: como o que eu desejava era testar minha resistência e fortalecer meu espírito, não tenho mais nada que provar a mim mesma, portanto posso fumar o quanto quiser. E, se posso, então não estou me interditando. Se não estou me interditando, não preciso me rebelar. Se não preciso me rebelar, sou livre para decidir o que fazer. E, já que sou livre, por que não continuar me testando?
É, eu sei, há modos mais simples de deixar de fumar. Mas cada é um cada um, né?
Como não pensava realmente em parar, resolvi testar minha resistência: deixei uma carteira aberta à minha frente, todos os dias. Como era uma brincadeira, eu podia me dar ao luxo de resistir. Quando cansasse de brincar, acenderia um cigarro.
Pois é, isso já se estendeu por 10 dias, e a carteira continua intacta. O problema é que me dei conta agora de que estou mesmo deixando de fumar e me apavorei. Como vou passar por todas as dificuldades da vida sem acender um cigarro? Além do mais, isso significa me proibir de fazer o que gosto.
Então cheguei à seguinte conclusão: como o que eu desejava era testar minha resistência e fortalecer meu espírito, não tenho mais nada que provar a mim mesma, portanto posso fumar o quanto quiser. E, se posso, então não estou me interditando. Se não estou me interditando, não preciso me rebelar. Se não preciso me rebelar, sou livre para decidir o que fazer. E, já que sou livre, por que não continuar me testando?
É, eu sei, há modos mais simples de deixar de fumar. Mas cada é um cada um, né?
Saturday, May 28, 2005
Tristes Trópicos
Li, ainda agora, no jornal O Popular: "Em fevereiro último, Claude Lévi-Strauss (...) deu entrevista ao jornal Le Monde, de Paris, relembrando sua passagem pelo Brasil, onde colheu subsídios para escrever o notável 'Tristes Trópicos'".
Como assim, cara pálida?
Como assim, cara pálida?
Friday, May 27, 2005
Condenado à morte?
A pior tragédia provocada por erupção vulcânica do século XX aconteceu na ilha de Martinica, no Caribe, em 8 de maio de 1902. Dois fatos me chamam a atenção, em relação à erupção do Monte Pelée.
Em primeiro lugar, a cidade de Saint Pierre foi inteiramente destruída, com um saldo de cerca de 30 mil mortos, e um sobrevivente. Toda a população da cidade foi dizimada em três minutos, mas uma pessoa sobreviveu sem lesões, arranhão, nada, nada: na cadeia da cidade havia um prisioneiro, Ludger Sylbaris, condenado à morte. Como a cadeia estava localizada no subterrâneo, praticamente sem ventilação, ele não foi atingido pelos gases. Sobreviveu ainda a três dias sem água ou alimentação. Impressionante, não é? Quando foi encontrado, estava fraco e confuso, mas ainda vivo. Morreu pouco tempo depois.
Será que executaram a sentença?
O segundo fato digno de nota é que a tragédia poderia ter sido evitada, não fossem as eleições que aconteceriam em breve. Houve tremores antes da grande erupção e a população, temerosa, quis deixar a cidade. O prefeito, candidato à reeleição, convenceu os moradores de que não havia motivo para alarme. Ele tinha receio de que, se todos fugissem, as eleições marcadas para breve seriam um fracasso, o que poderia resultar na perda do mandato.
Bem, as eleições não aconteceram, de qualquer jeito. Pode-se dizer, também, que ele não chegou a perder o cargo.
Em primeiro lugar, a cidade de Saint Pierre foi inteiramente destruída, com um saldo de cerca de 30 mil mortos, e um sobrevivente. Toda a população da cidade foi dizimada em três minutos, mas uma pessoa sobreviveu sem lesões, arranhão, nada, nada: na cadeia da cidade havia um prisioneiro, Ludger Sylbaris, condenado à morte. Como a cadeia estava localizada no subterrâneo, praticamente sem ventilação, ele não foi atingido pelos gases. Sobreviveu ainda a três dias sem água ou alimentação. Impressionante, não é? Quando foi encontrado, estava fraco e confuso, mas ainda vivo. Morreu pouco tempo depois.
Será que executaram a sentença?
O segundo fato digno de nota é que a tragédia poderia ter sido evitada, não fossem as eleições que aconteceriam em breve. Houve tremores antes da grande erupção e a população, temerosa, quis deixar a cidade. O prefeito, candidato à reeleição, convenceu os moradores de que não havia motivo para alarme. Ele tinha receio de que, se todos fugissem, as eleições marcadas para breve seriam um fracasso, o que poderia resultar na perda do mandato.
Bem, as eleições não aconteceram, de qualquer jeito. Pode-se dizer, também, que ele não chegou a perder o cargo.
Thursday, May 26, 2005
Amar é... (1): Casar!
Hegel, logo após o casamento:
“Que diferença a que sinto agora, relativamente a mim mesmo e às relações com os outros, devido a esta união que tem o exclusivo de reconduzir o homem a si próprio, levando-o à mais completa realização”.
Hegel, quatro anos depois:
“Desposei há quatro anos uma mulher daqui, com o apelido de solteira von Tucher, e tenho dois rapazes saudáveis; afinal, bem vistas as coisas, não tenho do que me queixar. De qualquer modo, a vida humana raramente consegue escapar às dores, às dificuldades, às contrariedades, aos sonhos.”
Preciso comentar? :-)))
..........................
Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
“Que diferença a que sinto agora, relativamente a mim mesmo e às relações com os outros, devido a esta união que tem o exclusivo de reconduzir o homem a si próprio, levando-o à mais completa realização”.
Hegel, quatro anos depois:
“Desposei há quatro anos uma mulher daqui, com o apelido de solteira von Tucher, e tenho dois rapazes saudáveis; afinal, bem vistas as coisas, não tenho do que me queixar. De qualquer modo, a vida humana raramente consegue escapar às dores, às dificuldades, às contrariedades, aos sonhos.”
Preciso comentar? :-)))
..........................
Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Wednesday, May 25, 2005
Prurido cognitivo
Você já passou dias e dias tentando pensar em outra coisa que não seja o pocotó da eguinha? Sua mente insiste, contra sua vontade, no “pocotó, pocotó, pocotó” e você bem que tenta, mas o pocotó não vai embora de jeito nenhum? Faça o que fizer, pense o que pensar, e lá está o pocotó, atormentando sua mente?
Não, não. Estou falando do pocotó mesmo.
Pois é, você não está sozinho. Acontece o mesmo com o resto da humanidade. Sabia disso, né?
A novidade dos cientistas a esse respeito é que esses pocotós ficam em nossa cabeça porque criam uma espécie de “prurido cognitivo”. Como a coisa não é localizada, não há cataplasma que resolva. Nem mesmo um cataplasma cognitivo.
Sempre achamos que o jeito é esperar passar. Ledo engano. É possível, sim, retirar o pocotó da cabeça sem dor, cirurgia, ventosaterapia, sangria cognitiva ou qualquer procedimento mais agressivo. Só não é possível evitar os efeitos colaterais.
Há uma estratégia que promete sucesso, a “técnica de substituição”. Quando o pocotó vier, comece logo a repetir: “vida, minha vida...” ou ainda “quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar...”
Pense bem. O que é melhor?
O problema é que logo você terá de fazer a mesma coisa com a Sandra Rosa Madalena, substituindo por “macho, macho man”, e esta por “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, que você sempre poderá apagar de sua mente depressinha se ficar repetindo “Telma, eu não sou gay”. Abandone a Telma em seguida e vá para a festa no apê.
E vá tocando a vida assim. Eu garanto: alternativa é que não vai faltar.
Eu sei, a solução não é das melhores; a gente fica pulando de galho em galho, né? Mas o bom da coisa toda é que não se fixa em nenhum. E, claro, não vai ficar pensando só no pocotó.
Não, não. Estou falando do pocotó mesmo.
Pois é, você não está sozinho. Acontece o mesmo com o resto da humanidade. Sabia disso, né?
A novidade dos cientistas a esse respeito é que esses pocotós ficam em nossa cabeça porque criam uma espécie de “prurido cognitivo”. Como a coisa não é localizada, não há cataplasma que resolva. Nem mesmo um cataplasma cognitivo.
Sempre achamos que o jeito é esperar passar. Ledo engano. É possível, sim, retirar o pocotó da cabeça sem dor, cirurgia, ventosaterapia, sangria cognitiva ou qualquer procedimento mais agressivo. Só não é possível evitar os efeitos colaterais.
Há uma estratégia que promete sucesso, a “técnica de substituição”. Quando o pocotó vier, comece logo a repetir: “vida, minha vida...” ou ainda “quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar...”
Pense bem. O que é melhor?
O problema é que logo você terá de fazer a mesma coisa com a Sandra Rosa Madalena, substituindo por “macho, macho man”, e esta por “Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduz”, que você sempre poderá apagar de sua mente depressinha se ficar repetindo “Telma, eu não sou gay”. Abandone a Telma em seguida e vá para a festa no apê.
E vá tocando a vida assim. Eu garanto: alternativa é que não vai faltar.
Eu sei, a solução não é das melhores; a gente fica pulando de galho em galho, né? Mas o bom da coisa toda é que não se fixa em nenhum. E, claro, não vai ficar pensando só no pocotó.
Tuesday, May 24, 2005
Contradição máxima
O grande projeto de meus três últimos anos se resume em ser capaz de construir um teorema de lógica tão difícil para mim que eu não consiga resolver.
Ainda não foi possível, mas já fiz progressos evidentes: no semestre passado criei um teorema com certo grau de dificuldade, daqueles capazes de te exaurir quando você consegue chegar à resposta. Passados uns dois meses, voltei a ele. Não encontrei a resposta de imediato e tive certeza de que havia cometido algum engano na montagem. Testei para saber se era mesmo possível, com os recursos disponíveis, chegar à resposta indicada. Era. Fiquei muito feliz. Finalmente um teorema válido, criado por mim, que eu não conseguia resolver! Até que enfim!
Mas então enxerguei a saída e o entusiasmo foi embora.
Na semana passada criei outro ainda mais difícil, mais longo e mais cansativo, mas terei de esperar alguns meses para esquecer como foi feito e tentar resolvê-lo. Estou esperançosa. É que embaralhei bem, entende?
Mas também ando um tantinho preocupada. Está ficando cada vez mais difícil dificultar as coisas para mim, porque logo identifico os mecanismos que criei para me desviar da solução. Com a experiência a gente vai ficando esperto, né? Mesmo que tente com muita garra, persistência e prestidigitação, tô ficando sem recursos.
De qualquer forma, não seria uma experiência enriquecedora elaborar uma trama para me enganar, esquecer dela e cair feito um patinho? O máximo da contradição!
Ou seria o máximo da lerdeza?
Só não sei o que sentiria depois: se ficaria contente por ter conseguido me ludibriar; indignada, por ter querido enganar; envergonhada, por ser otária a ponto de cair na minha armadilha; chateada, por ter sido capaz de arquitetar um modo de enganar a mim mesma, ou apenas confusa, por ter sido bem sucedida.
Ainda não foi possível, mas já fiz progressos evidentes: no semestre passado criei um teorema com certo grau de dificuldade, daqueles capazes de te exaurir quando você consegue chegar à resposta. Passados uns dois meses, voltei a ele. Não encontrei a resposta de imediato e tive certeza de que havia cometido algum engano na montagem. Testei para saber se era mesmo possível, com os recursos disponíveis, chegar à resposta indicada. Era. Fiquei muito feliz. Finalmente um teorema válido, criado por mim, que eu não conseguia resolver! Até que enfim!
Mas então enxerguei a saída e o entusiasmo foi embora.
Na semana passada criei outro ainda mais difícil, mais longo e mais cansativo, mas terei de esperar alguns meses para esquecer como foi feito e tentar resolvê-lo. Estou esperançosa. É que embaralhei bem, entende?
Mas também ando um tantinho preocupada. Está ficando cada vez mais difícil dificultar as coisas para mim, porque logo identifico os mecanismos que criei para me desviar da solução. Com a experiência a gente vai ficando esperto, né? Mesmo que tente com muita garra, persistência e prestidigitação, tô ficando sem recursos.
De qualquer forma, não seria uma experiência enriquecedora elaborar uma trama para me enganar, esquecer dela e cair feito um patinho? O máximo da contradição!
Ou seria o máximo da lerdeza?
Só não sei o que sentiria depois: se ficaria contente por ter conseguido me ludibriar; indignada, por ter querido enganar; envergonhada, por ser otária a ponto de cair na minha armadilha; chateada, por ter sido capaz de arquitetar um modo de enganar a mim mesma, ou apenas confusa, por ter sido bem sucedida.
Monday, May 23, 2005
Briga filosófica (1): Hegel X Schopenhauer
1º. Round - Schopenhauer (sobre a filosofia do espírito):
Não, nada restará de Hegel, dado que ele não pensou, antes se limitou a fazer malabarismos com as palavras. O que é que ele logrou alcançar realmente com todo o seu pedantesco e declamatório aparelho? Nada mais conseguiu do que substituir o senso comum por sabe-se lá que culto seco e ininteligível de um Grande Pã progressivo que se agita vivamente como um diabo debaixo da lógica desgastada do ser, do não-ser e do porvir, o qual para nada mais serve, no percurso cansativo e estéril para o qual o seu inventor o remete, do que para imitar os esquilos ou para fazer sonhar os condutores das carruagens puxadas por cavalos.
2º. Round - Hegel (sobre O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer):
A primeira parte é desprovida de sentido, completamente sem relevo, miserável, trivial. É a mais sensaborona e incoerente tagarelice que, do alto de uma cátedra, um cérebro raso pode ejacular no momento da digestão.
3º. Round - Schopenhauer (sobre Hegel):
Hegel? Um excrementador que provoca náuseas, um charlatão estampado, um novo-rico da cultura, um triste senhor... Atente-se nas suas produções: o que é que elas são para além de um vazio, fútil e enjoativo amontoado de palavras? E, contudo, quão brilhante se apresenta a carreira desta filosófica criatura ministerial! Para tanto bastaram uns poucos compadrios aviltantes que proclamaram a glorificação deste pseudofilósofo vil, tendo tais vozes ecoado de tal modo nos crânios vazios de milhares de cretinos, que ainda hoje se estão propagando: assim se conseguiu transformar em grande filósofo um cérebro mais do que mediano, aliás, um charlatão de baixo nível.
Eitcha!
Estou recolhendo apostas.
.......................
Pra ninguém dizer que inventei: Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Não, nada restará de Hegel, dado que ele não pensou, antes se limitou a fazer malabarismos com as palavras. O que é que ele logrou alcançar realmente com todo o seu pedantesco e declamatório aparelho? Nada mais conseguiu do que substituir o senso comum por sabe-se lá que culto seco e ininteligível de um Grande Pã progressivo que se agita vivamente como um diabo debaixo da lógica desgastada do ser, do não-ser e do porvir, o qual para nada mais serve, no percurso cansativo e estéril para o qual o seu inventor o remete, do que para imitar os esquilos ou para fazer sonhar os condutores das carruagens puxadas por cavalos.
2º. Round - Hegel (sobre O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer):
A primeira parte é desprovida de sentido, completamente sem relevo, miserável, trivial. É a mais sensaborona e incoerente tagarelice que, do alto de uma cátedra, um cérebro raso pode ejacular no momento da digestão.
3º. Round - Schopenhauer (sobre Hegel):
Hegel? Um excrementador que provoca náuseas, um charlatão estampado, um novo-rico da cultura, um triste senhor... Atente-se nas suas produções: o que é que elas são para além de um vazio, fútil e enjoativo amontoado de palavras? E, contudo, quão brilhante se apresenta a carreira desta filosófica criatura ministerial! Para tanto bastaram uns poucos compadrios aviltantes que proclamaram a glorificação deste pseudofilósofo vil, tendo tais vozes ecoado de tal modo nos crânios vazios de milhares de cretinos, que ainda hoje se estão propagando: assim se conseguiu transformar em grande filósofo um cérebro mais do que mediano, aliás, um charlatão de baixo nível.
Eitcha!
Estou recolhendo apostas.
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Pra ninguém dizer que inventei: Roche/Barrère. Manual de disparates dos filósofos. Terramar, Lisboa.
Sunday, May 22, 2005
O supra-sumo da consciência política
Não, não vou falar do Lula. Nem pensar. Meu assunto é outro: a consciência política invejável e a extrema coragem de Zenão de Eléia.
O filósofo grego Zenão nasceu na cidade de Eléia e viveu no século IV a.C. Diógenes Laércio, uma espécie de fofoqueiro da antiguidade, conta-nos que Zenão odiava o tirano de sua cidade. Planejou uma conspiração contra ele, mas fracassou e foi pego. Obrigado sob tortura a nomear seus cúmplices, acusou os amigos do tirano, para deixá-lo só.
Imagino que em seguida o tirano tenha ‘perguntado’ se ele sabia de mais alguma coisa. Zenão confirmou, havia sim algo que ainda não contara, mas insistiu que ninguém deveria ouvi-lo. O tirano precisava aproximar-se um pouquinho mais, e ainda mais um pouco, para poder contar-lhe ao pé do ouvido. Só assim iria falar.
Nearcos, o tirano, aproximou-se. O que fez Zenão? Mordeu a orelha do homem com tanta vontade, mas com tanta vontade, que ninguém conseguiu separá-los. Soltou não. Foi preciso que alguém da guarda viesse em socorro do tirano e matasse Zenão, para que Nearcos ficasse livre e sem orelha.
Outra versão diz que não foi a orelha que Zenão mordeu, e sim o nariz, mas realmente tanto faz. De qualquer forma, mordeu.
Já pensou se a moda pega? Mike Tyson bem que gostaria.
Ah, sim, a referência. Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas de filósofos ilustres, IX, 26.
O filósofo grego Zenão nasceu na cidade de Eléia e viveu no século IV a.C. Diógenes Laércio, uma espécie de fofoqueiro da antiguidade, conta-nos que Zenão odiava o tirano de sua cidade. Planejou uma conspiração contra ele, mas fracassou e foi pego. Obrigado sob tortura a nomear seus cúmplices, acusou os amigos do tirano, para deixá-lo só.
Imagino que em seguida o tirano tenha ‘perguntado’ se ele sabia de mais alguma coisa. Zenão confirmou, havia sim algo que ainda não contara, mas insistiu que ninguém deveria ouvi-lo. O tirano precisava aproximar-se um pouquinho mais, e ainda mais um pouco, para poder contar-lhe ao pé do ouvido. Só assim iria falar.
Nearcos, o tirano, aproximou-se. O que fez Zenão? Mordeu a orelha do homem com tanta vontade, mas com tanta vontade, que ninguém conseguiu separá-los. Soltou não. Foi preciso que alguém da guarda viesse em socorro do tirano e matasse Zenão, para que Nearcos ficasse livre e sem orelha.
Outra versão diz que não foi a orelha que Zenão mordeu, e sim o nariz, mas realmente tanto faz. De qualquer forma, mordeu.
Já pensou se a moda pega? Mike Tyson bem que gostaria.
Ah, sim, a referência. Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas de filósofos ilustres, IX, 26.
Thursday, May 19, 2005
Esquerda, direita, volver!
Estou com um processo no Detran, para tirar a carteira de motorista, desde 1998. Sim, 1998. Quando abri o processo, estava firmemente decidida a resolver esse assunto de vez, e continuo firmemente decidida. Eu não posso dizer que termino tudo que começo, mas com certeza continuo tentando. :-))
Em 2000, fiz a prova de volante. Consegui deixar o avaliador bastante assustado e somar 20 pontos negativos. Não, não estava nervosa. Pedi ao novo instrutor, em nova escola, que me avaliasse com sinceridade, para que eu pudesse identificar a dificuldade e superá-la. Concluída a aula, perguntei: “e aí, o que você acha?” Ele respirou profundamente e atirou: “meu anjo, você enxerga mal, não tem reflexo, não presta atenção em nada, é muuuuito lerda e, pra piorar, nem sabe a diferença entre esquerda e direita. Quer dirigir como?”
Pois é. Eu pedi sinceridade.
De fato, minha visão é muito ruim, mas para isso existe correção. O reflexo, consegui melhorar. Eu tinha um certo medo do trânsito que, com a prática (lá se vão quase 7 anos de experiência!), perdi. Já estou ficando experiente também em mudar de auto-escola, de instrutor e de carro e em perceber que não é por aí, não. Quanto a prestar atenção ao que acontece à minha volta, com muito esforço consegui ascender do péssimo para o tolerável. A lerdeza? É, sou lerda mesmo. Mas quando o caso é saber a diferença entre esquerda e direita, aí fica impossível.
“Vire à esquerda”, diz o instrutor. Certo, entendi, mas devo ir para que lado?
Aprendi a resolver o problema perguntando antes: “Por aqui?” E aí ele responde: “Não! Esquerda.” E então eu sei que estou na direção errada, e vou para a certa. Simples assim. Bem, nem tanto. A seta fica um tantinho confusa, mas isso é só um detalhe.
Enfim. Estou tentando me enganar com o argumento de que, quando estiver dirigindo realmente, não terei alguém ao meu lado me dizendo o que devo fazer. Assim, vou poder virar pra lá e pra cá sem precisar saber antes se é esquerda ou direita. Será que funciona?
Em 2000, fiz a prova de volante. Consegui deixar o avaliador bastante assustado e somar 20 pontos negativos. Não, não estava nervosa. Pedi ao novo instrutor, em nova escola, que me avaliasse com sinceridade, para que eu pudesse identificar a dificuldade e superá-la. Concluída a aula, perguntei: “e aí, o que você acha?” Ele respirou profundamente e atirou: “meu anjo, você enxerga mal, não tem reflexo, não presta atenção em nada, é muuuuito lerda e, pra piorar, nem sabe a diferença entre esquerda e direita. Quer dirigir como?”
Pois é. Eu pedi sinceridade.
De fato, minha visão é muito ruim, mas para isso existe correção. O reflexo, consegui melhorar. Eu tinha um certo medo do trânsito que, com a prática (lá se vão quase 7 anos de experiência!), perdi. Já estou ficando experiente também em mudar de auto-escola, de instrutor e de carro e em perceber que não é por aí, não. Quanto a prestar atenção ao que acontece à minha volta, com muito esforço consegui ascender do péssimo para o tolerável. A lerdeza? É, sou lerda mesmo. Mas quando o caso é saber a diferença entre esquerda e direita, aí fica impossível.
“Vire à esquerda”, diz o instrutor. Certo, entendi, mas devo ir para que lado?
Aprendi a resolver o problema perguntando antes: “Por aqui?” E aí ele responde: “Não! Esquerda.” E então eu sei que estou na direção errada, e vou para a certa. Simples assim. Bem, nem tanto. A seta fica um tantinho confusa, mas isso é só um detalhe.
Enfim. Estou tentando me enganar com o argumento de que, quando estiver dirigindo realmente, não terei alguém ao meu lado me dizendo o que devo fazer. Assim, vou poder virar pra lá e pra cá sem precisar saber antes se é esquerda ou direita. Será que funciona?
Wednesday, May 18, 2005
A cerca de Hume
Hoje o que me chama a atenção é a cerca de Hume. Pode ser também a cerca de Kant, a cerca de Hegel, a cerca de Descartes, a cerca de Rousseau. Não importa de quem seja a cerca, o que importa é a cerca de.
Eu sei, a coisa fica um pouco mais complicada quando o caso é a cerca de Parmênides, porque não dá pra saber com certeza se ele tinha uma. Sim, a cerca é uma das coisas mais antigas da humanidade, e veio logo depois que alguém disse “isso é meu” e criou, assim, a propriedade privada. Mas a dificuldade mesmo é saber se Parmênides tinha alguma propriedade. Em todo caso, é certíssima a inexistência de cerca em Heráclito de Éfeso.
A cerca de Rousseau? Beleza. É o marco decisivo entre o bom selvagem e o homem civil. O mundo civilizado, intelectualizado, bom de papo, começou bem aí: na cerca.
A cerca de Hume? Não é muito conhecida. Eu quero dizer, não sabemos se era de arame farpado, madeira, ou qualquer outro material que não utilizamos mais com esse propósito. Mesmo assim, sabemos com certeza que havia uma cerca, já que ele tinha posses. Então é possível escrever sobre ela. Há que se inventar, mas é possível.
O correto mesmo, para quem não quiser se dar mal, é deixar o "a cerca de" para filósofos políticos ou epistemólogos. Pode ser que a marcação de território faça algum sentido.
Eu sei, a coisa fica um pouco mais complicada quando o caso é a cerca de Parmênides, porque não dá pra saber com certeza se ele tinha uma. Sim, a cerca é uma das coisas mais antigas da humanidade, e veio logo depois que alguém disse “isso é meu” e criou, assim, a propriedade privada. Mas a dificuldade mesmo é saber se Parmênides tinha alguma propriedade. Em todo caso, é certíssima a inexistência de cerca em Heráclito de Éfeso.
A cerca de Rousseau? Beleza. É o marco decisivo entre o bom selvagem e o homem civil. O mundo civilizado, intelectualizado, bom de papo, começou bem aí: na cerca.
A cerca de Hume? Não é muito conhecida. Eu quero dizer, não sabemos se era de arame farpado, madeira, ou qualquer outro material que não utilizamos mais com esse propósito. Mesmo assim, sabemos com certeza que havia uma cerca, já que ele tinha posses. Então é possível escrever sobre ela. Há que se inventar, mas é possível.
O correto mesmo, para quem não quiser se dar mal, é deixar o "a cerca de" para filósofos políticos ou epistemólogos. Pode ser que a marcação de território faça algum sentido.
Sunday, May 15, 2005
Coisa de grego (1): o gesto
Já que estou falando de Aristófanes, há uma passagem curiosa, em As Nuvens (630), peça escrita em 423 a.C.:
Sócrates: “Hum, talvez possa aprender os ritmos mais depressa!...”
Estrepsíades: “De que me servirão os ritmos para o pão de cada dia?”
Sócrates: “Antes de tudo, para ser um homem de espírito na sociedade, alguém que é capaz de perceber dentre os ritmos qual o enóplio e, ao contrário, qual o dátilo”.
Estrepsíades: “O dátilo? Por Zeus, mas eu sei!”
Sócrates: “Então diga... (apontando o dedo indicador). Qual é o outro ‘dátilo’ além deste dedo aqui?”
Estrepsíades: “Outrora, quando criança, eu usava este aqui...” (erguendo o dedo médio).
E a nota da tradutora, Gilda M. R. Starzynski, Coleção Os Pensadores, vol. 2, Abril Cultural, 1972: “O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a alguém, significava que se considerava essa pessoa como um devasso, habituado a práticas contra a natureza”.
É isso mesmo, ou estou entendendo tudo errado? Impensável Sócrates recebendo esse tipo de resposta. Ao menos, em um diálogo de Platão.
Parece que somos muito mais gregos do que imaginamos.
Quem diria?
Sócrates: “Hum, talvez possa aprender os ritmos mais depressa!...”
Estrepsíades: “De que me servirão os ritmos para o pão de cada dia?”
Sócrates: “Antes de tudo, para ser um homem de espírito na sociedade, alguém que é capaz de perceber dentre os ritmos qual o enóplio e, ao contrário, qual o dátilo”.
Estrepsíades: “O dátilo? Por Zeus, mas eu sei!”
Sócrates: “Então diga... (apontando o dedo indicador). Qual é o outro ‘dátilo’ além deste dedo aqui?”
Estrepsíades: “Outrora, quando criança, eu usava este aqui...” (erguendo o dedo médio).
E a nota da tradutora, Gilda M. R. Starzynski, Coleção Os Pensadores, vol. 2, Abril Cultural, 1972: “O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a alguém, significava que se considerava essa pessoa como um devasso, habituado a práticas contra a natureza”.
É isso mesmo, ou estou entendendo tudo errado? Impensável Sócrates recebendo esse tipo de resposta. Ao menos, em um diálogo de Platão.
Parece que somos muito mais gregos do que imaginamos.
Quem diria?
Saturday, May 14, 2005
A pergunta que não me fizeram
Há uma perguntinha que ninguém me fez. Esperei, esperei, e nada. Então pensei: por que será? Curiosidade todo mundo tem, então descartei essa hipótese. Também pode ser que ninguém leia esse blog, claro, mas prefiro supor que já partiram do pressuposto de que inventei a criatura. Não inventei, não.
Mas o que ninguém quis saber, afinal? Quem foi Pandeleteu, o homem da sacolinha de idéias, ora.
O homem provavelmente existiu, e era um sofista. A referência a ele se deve a uma passagem de Aristófanes, em As Nuvens: “...roía umas idéias de Pandeleteu, tiradas duma sacolinha” (920). E é só.
Pesquisei? Claro. Ainda não encontrei nada. Mas não tem importância, porque a idéia de roer idéia já me basta.
Mas o que ninguém quis saber, afinal? Quem foi Pandeleteu, o homem da sacolinha de idéias, ora.
O homem provavelmente existiu, e era um sofista. A referência a ele se deve a uma passagem de Aristófanes, em As Nuvens: “...roía umas idéias de Pandeleteu, tiradas duma sacolinha” (920). E é só.
Pesquisei? Claro. Ainda não encontrei nada. Mas não tem importância, porque a idéia de roer idéia já me basta.
Friday, May 13, 2005
Encontrei o mapa do inferno
Inferno não é para qualquer um. É preciso um esforço incessante, de toda uma vida, para se chegar lá. Mas, resolvido esse ponto, há outra dificuldade em que ninguém parece pensar: o senso de direção em um lugar desconhecido. O que fazer? Para onde ir? Esquerda ou direita? Imagine o pânico que vai sentir, se você se perder lá dentro. Acontece.
Mas é possível evitar a desorientação no inferno. É só levar um mapa. Cuide disso agora, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Clique no título.
Clicou? Então observe a trilha. Ela nos levará a Caronte, um velhinho espectral que o ajudará a atravessar o pântano. Não se esqueça de levar duas moedas de ouro para pagá-lo, que nem no inferno se trabalha de graça.
Em seguida você será recebido por Cérbero, um cãozinho muito amável para com quem entra. Só não tente fugir.
Mais à frente está o vale de lágrimas, onde poderá chorar à vontade e lamentar ter partido desta para pior. Até então, enquanto os deuses não tiverem decidido seu destino final, você estará no purgatório. Mas o purgatório terá fim na planície de julgamento, e só há dois veredictos possíveis: culpado ou inocente. Esquerda ou direita.
Faça o impossível para não seguir a trilha à esquerda. Chore, esperneie, minta, negue tudo, argumente que foi enganado, suplique por clemência. Não vai adiantar nada, mas tente assim mesmo. Este é o caminho dos maus. Ele o levará ao Tártaro: escuro, flamejante, escaldante, insuportavelmente quente e cheio de coisa morta lá dentro, como o caldeirão da bruxa. Os castigos são horrendos, que o digam Íxion, Tântalo e Sísifo.
Mas, se você tiver sido bom, então Hades e Perséfone o receberão em seu castelo, para um lauto jantar. Alimentado, continue seguindo a trilha da direta. Ela o levará aos Campos Elísios, o lugar de repouso eterno.
Para quem vai habitar o Tártaro, é fundamental que se lembre de tudo que fez. Afinal, é castigo. Mas para os bons, é importante que esqueçam a vida anterior, ou não serão felizes. Será preciso, então, mergulhar no Lethe, o rio do esquecimento. Ou beber de sua água, tanto faz. Quando sair dele, já terá esquecido tudo e poderá passar a eternidade em paz, aproveitando a brisa. Sim, isso pode parecer cruel, mas veja por outro lado: não sentirá saudade, nostalgia, nada. Só a brisa. Melhor que carregar pedra.
Paraíso, inferno, purgatório, vale de lágrimas, planície de julgamento, juízo final, brisa e descanso eterno para os bons, fogo e trabalho incessante para os maus...
Você já viu esse filme antes. Essa versão pode não ser a primeira, mas eu garanto que é anterior.
Mas é possível evitar a desorientação no inferno. É só levar um mapa. Cuide disso agora, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Clique no título.
Clicou? Então observe a trilha. Ela nos levará a Caronte, um velhinho espectral que o ajudará a atravessar o pântano. Não se esqueça de levar duas moedas de ouro para pagá-lo, que nem no inferno se trabalha de graça.
Em seguida você será recebido por Cérbero, um cãozinho muito amável para com quem entra. Só não tente fugir.
Mais à frente está o vale de lágrimas, onde poderá chorar à vontade e lamentar ter partido desta para pior. Até então, enquanto os deuses não tiverem decidido seu destino final, você estará no purgatório. Mas o purgatório terá fim na planície de julgamento, e só há dois veredictos possíveis: culpado ou inocente. Esquerda ou direita.
Faça o impossível para não seguir a trilha à esquerda. Chore, esperneie, minta, negue tudo, argumente que foi enganado, suplique por clemência. Não vai adiantar nada, mas tente assim mesmo. Este é o caminho dos maus. Ele o levará ao Tártaro: escuro, flamejante, escaldante, insuportavelmente quente e cheio de coisa morta lá dentro, como o caldeirão da bruxa. Os castigos são horrendos, que o digam Íxion, Tântalo e Sísifo.
Mas, se você tiver sido bom, então Hades e Perséfone o receberão em seu castelo, para um lauto jantar. Alimentado, continue seguindo a trilha da direta. Ela o levará aos Campos Elísios, o lugar de repouso eterno.
Para quem vai habitar o Tártaro, é fundamental que se lembre de tudo que fez. Afinal, é castigo. Mas para os bons, é importante que esqueçam a vida anterior, ou não serão felizes. Será preciso, então, mergulhar no Lethe, o rio do esquecimento. Ou beber de sua água, tanto faz. Quando sair dele, já terá esquecido tudo e poderá passar a eternidade em paz, aproveitando a brisa. Sim, isso pode parecer cruel, mas veja por outro lado: não sentirá saudade, nostalgia, nada. Só a brisa. Melhor que carregar pedra.
Paraíso, inferno, purgatório, vale de lágrimas, planície de julgamento, juízo final, brisa e descanso eterno para os bons, fogo e trabalho incessante para os maus...
Você já viu esse filme antes. Essa versão pode não ser a primeira, mas eu garanto que é anterior.
Thursday, May 12, 2005
Ganhei
Durante toda minha infância e adolescência tardia acalentei o sonho de ter um joão-bobo, mas só ganhava bonequinhas barbie. Ninguém nasce Amélia, né?
Mas nada como um dia após o outro. Acabei de realizar meu sonho de consumo: ganhei o joão-bobo na última sexta-feira. Ganhei mesmo!
Estou batendo tanto nele que o bichin já aprendeu até a voar. E como voa!
Xô stress! Xô enxaqueca! Todos os meus problemas podem agora ser resolvidos com um chute bem dado, uma cotovelada esperta, um tapa na cara. Mas o melhor de tudo é que ele é bom de abraçar também.
Quem foi que inventou esse brinquedinho?
Ôu, eu quero mais!
Mas nada como um dia após o outro. Acabei de realizar meu sonho de consumo: ganhei o joão-bobo na última sexta-feira. Ganhei mesmo!
Estou batendo tanto nele que o bichin já aprendeu até a voar. E como voa!
Xô stress! Xô enxaqueca! Todos os meus problemas podem agora ser resolvidos com um chute bem dado, uma cotovelada esperta, um tapa na cara. Mas o melhor de tudo é que ele é bom de abraçar também.
Quem foi que inventou esse brinquedinho?
Ôu, eu quero mais!
Wednesday, May 11, 2005
Como ser o bam-bam das reuniões
Não sei por que, mas sempre que compareço a reuniões, sinto uma vontade inexplicável de martelar furiosamente um teclado. Escrevendo.
Hoje, no entanto, meu espírito é de infinita bondade (resultado talvez do cansaço que a tal reunião me impôs): pensando unicamente no bem de todos e felicidade geral da nação, resolvi criar algumas regras de participação em reuniões.
É claro, ninguém vai segui-las e ainda me faltará o espírito democrático (já que não foram previamente discutidas em reuniões). Mas a gente tenta, assim mesmo.
Comecemos por uma regrinha fundamental: encontre uma boa desculpa para sair mais cedo. Não será necessário ouvir tudo.
Isso é difícil, né? O desejo de contribuir fala mais alto. Tudo bem, eu entendo. Por isso preparei um plano alternativo:
1. Comece por criar uma teoria da conspiração, mas seja esperto o bastante para não dar margem a questionamentos inconvenientes. Apenas sugira que as coisas não são tão simples quanto parecem. O resto caminha sozinho. Daí a pouco todo mundo estará raciocinando do mesmo jeito e ninguém saberá dizer onde está a conspiração. Pero que hay, hay.
2. Não tenha pressa em falar. Pelo contrário, esforce-se para ser o último. Só assim poderá dizer que, após ouvir atentamente os posicionamentos anteriores, você gostaria de ressaltar que... E o resto é com você. Seja criativo, fique atento e pesque algo que passou despercebido. Seja lá o que for que vá dizer, seu discurso já terá um ar de síntese e, portanto, estará automaticamente um grau acima de todos os pontos de vista particulares. Nunca parecerá mais uma inutilidade perspectivada.
3. Use “a nível de” tantas vezes quantas for capaz. Isso é bastante satisfatório tanto a nível de convencimento quanto, e principalmente, a nível de persuasão.
4. Nunca se esqueça de diagnosticar o caráter demasiadamente epistêmico dos comentários dos colegas, mas procure fazê-lo sem demora, senão outro o fará. A rapidez de raciocínio aqui é decisiva para o sucesso.
5. Esclareça que qualquer alteração na rotina (por exemplo, a mudança da sala A para a sala B, ou do prédio A para o prédio B) só pode ser feita a partir de uma discussão cuidadosa de todos os aspectos filosóficos, teológicos, humanistas, antropológicos e, por que não dizer?, democráticos envolvidos na questão, que estabelecem uma diferença significativa entre a sala A e a sala B e, numa dimensão maior, entre o prédio A e o prédio B.
6. Demonstre a gravidade da situação de indigência intelectual do país (por exemplo, criando uma lista interminável com os erros de português horrendos que os universitários cometem) mas peloamordedeus, nunca, jamais, em tempo algum o faça com um português pra inglês ver. Sim, eu entendo que o porquê disso acontecer é devido o descaso sofrido pelas disciplinas de humanidades a nível de mundo, enquanto sujeitas ao caráter pragmatista, ideológico e mercadológico do mundo de hoje. Certo, mas dê uma melhoradinha nisso aí, tá? E vê lá se não vai melhorar o discurso acrescentando um Zeitgeist bem pronunciadinho. Não é por aí não.
7. Deixe sempre muito claro que você está falando de você enquanto você, e somente enquanto você. Isso é para evitar que alguém entenda que está falando de você enquanto todos.
8. Insista veementemente no chavão do espírito democrático: as decisões arbitrárias devem ser impostas às novas gerações, não a nós. Isto seria mais democrático, sem dúvida (mas como assim, cara pálida?).
Siga minhas regras e seja um feliz e bem sucedido participante de reuniões. Vá por mim, ela funcionam.
Mas o fundamental é não perder jamais o ar de menino ressentido diante da autoridade, porque o pai tomou decisões que o envolvem sem antes consultá-lo. Afinal, filósofo também é ser humano, né?
Hoje, no entanto, meu espírito é de infinita bondade (resultado talvez do cansaço que a tal reunião me impôs): pensando unicamente no bem de todos e felicidade geral da nação, resolvi criar algumas regras de participação em reuniões.
É claro, ninguém vai segui-las e ainda me faltará o espírito democrático (já que não foram previamente discutidas em reuniões). Mas a gente tenta, assim mesmo.
Comecemos por uma regrinha fundamental: encontre uma boa desculpa para sair mais cedo. Não será necessário ouvir tudo.
Isso é difícil, né? O desejo de contribuir fala mais alto. Tudo bem, eu entendo. Por isso preparei um plano alternativo:
1. Comece por criar uma teoria da conspiração, mas seja esperto o bastante para não dar margem a questionamentos inconvenientes. Apenas sugira que as coisas não são tão simples quanto parecem. O resto caminha sozinho. Daí a pouco todo mundo estará raciocinando do mesmo jeito e ninguém saberá dizer onde está a conspiração. Pero que hay, hay.
2. Não tenha pressa em falar. Pelo contrário, esforce-se para ser o último. Só assim poderá dizer que, após ouvir atentamente os posicionamentos anteriores, você gostaria de ressaltar que... E o resto é com você. Seja criativo, fique atento e pesque algo que passou despercebido. Seja lá o que for que vá dizer, seu discurso já terá um ar de síntese e, portanto, estará automaticamente um grau acima de todos os pontos de vista particulares. Nunca parecerá mais uma inutilidade perspectivada.
3. Use “a nível de” tantas vezes quantas for capaz. Isso é bastante satisfatório tanto a nível de convencimento quanto, e principalmente, a nível de persuasão.
4. Nunca se esqueça de diagnosticar o caráter demasiadamente epistêmico dos comentários dos colegas, mas procure fazê-lo sem demora, senão outro o fará. A rapidez de raciocínio aqui é decisiva para o sucesso.
5. Esclareça que qualquer alteração na rotina (por exemplo, a mudança da sala A para a sala B, ou do prédio A para o prédio B) só pode ser feita a partir de uma discussão cuidadosa de todos os aspectos filosóficos, teológicos, humanistas, antropológicos e, por que não dizer?, democráticos envolvidos na questão, que estabelecem uma diferença significativa entre a sala A e a sala B e, numa dimensão maior, entre o prédio A e o prédio B.
6. Demonstre a gravidade da situação de indigência intelectual do país (por exemplo, criando uma lista interminável com os erros de português horrendos que os universitários cometem) mas peloamordedeus, nunca, jamais, em tempo algum o faça com um português pra inglês ver. Sim, eu entendo que o porquê disso acontecer é devido o descaso sofrido pelas disciplinas de humanidades a nível de mundo, enquanto sujeitas ao caráter pragmatista, ideológico e mercadológico do mundo de hoje. Certo, mas dê uma melhoradinha nisso aí, tá? E vê lá se não vai melhorar o discurso acrescentando um Zeitgeist bem pronunciadinho. Não é por aí não.
7. Deixe sempre muito claro que você está falando de você enquanto você, e somente enquanto você. Isso é para evitar que alguém entenda que está falando de você enquanto todos.
8. Insista veementemente no chavão do espírito democrático: as decisões arbitrárias devem ser impostas às novas gerações, não a nós. Isto seria mais democrático, sem dúvida (mas como assim, cara pálida?).
Siga minhas regras e seja um feliz e bem sucedido participante de reuniões. Vá por mim, ela funcionam.
Mas o fundamental é não perder jamais o ar de menino ressentido diante da autoridade, porque o pai tomou decisões que o envolvem sem antes consultá-lo. Afinal, filósofo também é ser humano, né?
Tuesday, May 10, 2005
Desencapetamento
Encapetado, esta é para você! Sim, você mesmo, que tem o diabo no corpo, ou você aí do lado, que anseia por um diabo que a carregue: chegou um produto novo no mercado, com amostra grátis, que vai resolver todos os seus problemas. Trata-se de uma técnica novíssima, ainda não aprovada pelo Ministério da Saúde, e de eficiência duvidosa, como tudo que é novo: o desencapetamento!
A técnica consiste em “orações fortes contra macumba, bruxaria, feitiçaria, saravá e reza de São Cipriano”. Seja liberto de todo mal ao receber o banho do alívio com alecrim e arruda, na Igreja Internacional da Graça de Deus. Você assistirá a um verdadeiro show da fé e ainda passará por uma sessão de descarrego, junto com outra, de descapirotização, para a retirada completa de Satanás.
Tá esperando o quê? Vem logo, antes que acabe! A oferta é por tempo limitado. Além do mais, diabo impregna e depois fica difícil se livrar dele. Se você for o desencapetado número 1.000, ainda poderá virar pastor, com renda líquida vitalícia garantida.
Agora, se nada disso adiantar, não desanime. Veja o lado bom de ter o diabo no corpo: você vai poder fazer tudo o que lhe der na telha, e culpar o capeta. É pra isso que ele serve, afinal.
A técnica consiste em “orações fortes contra macumba, bruxaria, feitiçaria, saravá e reza de São Cipriano”. Seja liberto de todo mal ao receber o banho do alívio com alecrim e arruda, na Igreja Internacional da Graça de Deus. Você assistirá a um verdadeiro show da fé e ainda passará por uma sessão de descarrego, junto com outra, de descapirotização, para a retirada completa de Satanás.
Tá esperando o quê? Vem logo, antes que acabe! A oferta é por tempo limitado. Além do mais, diabo impregna e depois fica difícil se livrar dele. Se você for o desencapetado número 1.000, ainda poderá virar pastor, com renda líquida vitalícia garantida.
Agora, se nada disso adiantar, não desanime. Veja o lado bom de ter o diabo no corpo: você vai poder fazer tudo o que lhe der na telha, e culpar o capeta. É pra isso que ele serve, afinal.
Sunday, May 08, 2005
Banho mata
Estava assistindo a um documentário da Discovery sobre Alexandre Magno e lembrei do Vidas Paralelas, de Plutarco. Ele conta, sobre Alexandre, que o homem tinha um hábito muito esquisito e que provavelmente ocasionou sua morte: ele tomava banho frequentemente.
Não houve conspiração para matá-lo, envenenamento por encomenda de Aristóteles, erro médico, fatalidade, nada disso. Ele morreu por causa da sua esquisitisse de tomar banho todo dia: segundo Plutarco, ao se aproximar da Babilônia, Alexandre avistou um rio. Imediatamente, parou a comitiva e foi se banhar antes de entrar na cidade. E ganhou a febre que o matou exatamente aí. No rio.
Dizem que a aversão do Europeu à água vem daí. No século XVII as mulheres tinham de usar pó em excesso no rosto, para esconder a sujeira. O problema é que o pó atraía as moscas. Então, para disfarçar, os modistas da época inventaram uma solução mágica: já que as moscas não iam embora mesmo, o jeito foi desenhá-las no rosto empapado de talco. Assim, nunca se poderia saber se a mosca era original ou fabricada. Engenhoso, sem dúvida. Mas fico pensando: sempre que alguém quisesse ir à ópera teria de contratar um desenhista. Para enganar, a mosca tinha de ser perfeita, claro.
Deve ser por isso que cada família nobre contratava um pintor particular. Para encher o rosto das moças de moscas.
Por outro lado, não era sabido e notório que no rosto de uma bela donzela havia moscas e... moscas?
Olhe só... Acabei de descobrir para quê servia o leque.
Não houve conspiração para matá-lo, envenenamento por encomenda de Aristóteles, erro médico, fatalidade, nada disso. Ele morreu por causa da sua esquisitisse de tomar banho todo dia: segundo Plutarco, ao se aproximar da Babilônia, Alexandre avistou um rio. Imediatamente, parou a comitiva e foi se banhar antes de entrar na cidade. E ganhou a febre que o matou exatamente aí. No rio.
Dizem que a aversão do Europeu à água vem daí. No século XVII as mulheres tinham de usar pó em excesso no rosto, para esconder a sujeira. O problema é que o pó atraía as moscas. Então, para disfarçar, os modistas da época inventaram uma solução mágica: já que as moscas não iam embora mesmo, o jeito foi desenhá-las no rosto empapado de talco. Assim, nunca se poderia saber se a mosca era original ou fabricada. Engenhoso, sem dúvida. Mas fico pensando: sempre que alguém quisesse ir à ópera teria de contratar um desenhista. Para enganar, a mosca tinha de ser perfeita, claro.
Deve ser por isso que cada família nobre contratava um pintor particular. Para encher o rosto das moças de moscas.
Por outro lado, não era sabido e notório que no rosto de uma bela donzela havia moscas e... moscas?
Olhe só... Acabei de descobrir para quê servia o leque.
De onde vem o pitaco?
Não sei. Não faço a menor idéia.
Mas sei de onde veio Pítaco, poeta grego: de Mitilene, na ilha de Lesbos. Viveu entre os séculos VI e VII a.C. e ficou conhecido como um dos sete sábios da Grécia. Sua feiúra também era famosa. Foi rei de sua cidade, depois de derrubar o tirano, e abdicou do trono dez anos depois.
Algumas de suas máximas:
- O cargo revela o homem;
- Não fale mal de amigo, nem bem de inimigo.
- Não devemos divulgar nossos planos antecipadamente, pois se eles falharem, ninguém rirá de nós;
- Atente para o momento oportuno;
- Contra a necessidade nem os deuses lutam.
Mas sei de onde veio Pítaco, poeta grego: de Mitilene, na ilha de Lesbos. Viveu entre os séculos VI e VII a.C. e ficou conhecido como um dos sete sábios da Grécia. Sua feiúra também era famosa. Foi rei de sua cidade, depois de derrubar o tirano, e abdicou do trono dez anos depois.
Algumas de suas máximas:
- O cargo revela o homem;
- Não fale mal de amigo, nem bem de inimigo.
- Não devemos divulgar nossos planos antecipadamente, pois se eles falharem, ninguém rirá de nós;
- Atente para o momento oportuno;
- Contra a necessidade nem os deuses lutam.
Friday, May 06, 2005
Estupro acidental
Fiquei impressionada com a sabedoria do Severino. Estupro é um acidente horrendo. Ô Severino, dá um tempo. Por essa lógica, assassinato é acidente, roubo é acidente, latrocínio é acidente, seqüestro é acidente, pedofilia é acidente. E o autor é apenas um descuidado, um inconseqüente, um irresponsável. É isso mesmo? Só falta o Severino dizer que a intenção é da vítima, já que está retirando a intenção do autor.
Ou será que ele queria dizer que estupro é algo acidental? Mas como é possível um “estupro acidental”? Sim, pode ser um “acidente”, considerando todos os eventos possíveis na vida de alguém; considerando o caráter contingencial do fato, quero dizer. Mas, convenhamos, isso é filosofia demais para qualquer Severino. Melhor entender a coisa ao pé da letra: como é possível um ‘acidente’ desta natureza? Alguém caiu sobre alguém assim, do nada, sem nada, e ops?
Não, não. Nada disso. A coisa toda é bem mais simples: o homem apenas se expressou mal. Isso acontece, gente.
Lembrei daquele caso da mulher encontrada morta com 70 facadas. O marido alegou, em sua defesa, que ela se matou. Imagine. As 69 estocadas anteriores à fatal não serviram para nada, nem para desanimá-la, menos ainda para enfraquecê-la. Continuou tentando, tentando, tentando e tentando de novo... e mais uma vez, e novamente, até acertar a pontaria e atingir o coração. Isso é que é uma vontade inabalável.
Mas triste mesmo será um Severino na presidência do país. Considerando que o Rio já elegou um jegue para deputado (ou vereador, sei lá), tudo é possível.
Ou será que ele queria dizer que estupro é algo acidental? Mas como é possível um “estupro acidental”? Sim, pode ser um “acidente”, considerando todos os eventos possíveis na vida de alguém; considerando o caráter contingencial do fato, quero dizer. Mas, convenhamos, isso é filosofia demais para qualquer Severino. Melhor entender a coisa ao pé da letra: como é possível um ‘acidente’ desta natureza? Alguém caiu sobre alguém assim, do nada, sem nada, e ops?
Não, não. Nada disso. A coisa toda é bem mais simples: o homem apenas se expressou mal. Isso acontece, gente.
Lembrei daquele caso da mulher encontrada morta com 70 facadas. O marido alegou, em sua defesa, que ela se matou. Imagine. As 69 estocadas anteriores à fatal não serviram para nada, nem para desanimá-la, menos ainda para enfraquecê-la. Continuou tentando, tentando, tentando e tentando de novo... e mais uma vez, e novamente, até acertar a pontaria e atingir o coração. Isso é que é uma vontade inabalável.
Mas triste mesmo será um Severino na presidência do país. Considerando que o Rio já elegou um jegue para deputado (ou vereador, sei lá), tudo é possível.
Wednesday, May 04, 2005
Está chegando a hora
O fim está próximo. Um tal de Malaquias, que viveu no século XII, profetizou que, durante o papapo do 112º. papa na seqüência, haverá o juízo final, quando Deus separará os maus dos bons. Claro, os bons são os católicos e correligionários. Os maus... bem, estes são em número ainda maior.
Bento XIV é o 111º., que tem 78 anos, o que significa que o fim está próximo. Para ele e para nós.
Mas a questão é: o que fazer diante do fim do mundo? Arrepender-se? Dar adeus à dieta? Desistir da lipo? Dar adeus à intenção de parar de fumar? Comprar aquele carrinho tão sonhado? Dizer ao chefe tudo o que gostaria? Abastecer a despensa? Vender tudo o que tem e doar aos pobres? Aceitar Jesus como seu salvador? Reconciliar-se com Deus?
Istópi! Isso é apelo à força. Prá ficar só na falácia.
Mas talvez eu queira saber, mesmo, o que vão fazer os crentes. Provavelmente, dar pulos de alegria. Enfim, separados do joio.
Tem alguma coisa errada aí, não tem não?
Bento XIV é o 111º., que tem 78 anos, o que significa que o fim está próximo. Para ele e para nós.
Mas a questão é: o que fazer diante do fim do mundo? Arrepender-se? Dar adeus à dieta? Desistir da lipo? Dar adeus à intenção de parar de fumar? Comprar aquele carrinho tão sonhado? Dizer ao chefe tudo o que gostaria? Abastecer a despensa? Vender tudo o que tem e doar aos pobres? Aceitar Jesus como seu salvador? Reconciliar-se com Deus?
Istópi! Isso é apelo à força. Prá ficar só na falácia.
Mas talvez eu queira saber, mesmo, o que vão fazer os crentes. Provavelmente, dar pulos de alegria. Enfim, separados do joio.
Tem alguma coisa errada aí, não tem não?
Monday, May 02, 2005
Tem feijãozinho sobrando aí
No começo do século XIX o interesse do cientista americano Samuel George Morton em história natural (e naturalmente eugenia) o levou a realizar um experimento um tanto curioso, com um resultado nada surpreendente.
Tratava-se de determinar a capacidade cognitiva de várias ‘raças’ humanas a partir do volume e densidade do crânio. Seu experimento consistia em preencher vários crânios com feijões, quando então os pesava. Aquele que tivesse maior densidade teria pertencido ao homem mais inteligente (ou melhor, à raça com maior capacidade cognitiva). O resultado “comprovou” que os negros possuem crânios muito mais leves. Consequentemente, têm uma capacidade cognitiva bastante limitada e, em comparação com os brancos, cujos crânios obviamente pesavam bem mais, são muito menos inteligentes.
Pois é. Imaginem o sucesso que o homem fez. A ciência havia enfim demonstrado o que todos os brancos daquela época já sabiam: que os negros são inferiores intelectualmente e, portanto, que a escravidão se justifica. É claro, também deve ter ajudado a enriquecer os que viviam da plantação de feijão. Só não agradou aos religiosos que defendiam a escravidão. É que estes achavam que a escravidão tinha qualquer coisa a ver com Caim (a marca na testa) ou com Cão (aquele filho de Noé, que riu do pai bêbado e nu).
O que ninguém se interessou em saber é que Morton, distraído, cansado ao final de um longo dia, assim, sem-querer-querendo, deixou cair mais feijõezinhos no crânio do homem branco.
E ainda dizem que o cientista é fiel ao experimento.
É verdade que depois ele refez o teste (trocando os feijões por bolinhas de chumbo) e a diferença caiu um pouco (por que será?), mas ainda com vantagem para o branco. E uma terceira vez, agora comparando o volume e a densidade do crânio com o tipo físico. Neste último teste, não houve diferença.
Nem é preciso dizer que o primeiro é que fez sucesso.
Confesso que não entendi bem isso de alguém ser mais inteligente porque tem mais feijão na cabeça.
Veja também http://www.amphilsoc.org/library/mole/m/mortonsg.htm
Tratava-se de determinar a capacidade cognitiva de várias ‘raças’ humanas a partir do volume e densidade do crânio. Seu experimento consistia em preencher vários crânios com feijões, quando então os pesava. Aquele que tivesse maior densidade teria pertencido ao homem mais inteligente (ou melhor, à raça com maior capacidade cognitiva). O resultado “comprovou” que os negros possuem crânios muito mais leves. Consequentemente, têm uma capacidade cognitiva bastante limitada e, em comparação com os brancos, cujos crânios obviamente pesavam bem mais, são muito menos inteligentes.
Pois é. Imaginem o sucesso que o homem fez. A ciência havia enfim demonstrado o que todos os brancos daquela época já sabiam: que os negros são inferiores intelectualmente e, portanto, que a escravidão se justifica. É claro, também deve ter ajudado a enriquecer os que viviam da plantação de feijão. Só não agradou aos religiosos que defendiam a escravidão. É que estes achavam que a escravidão tinha qualquer coisa a ver com Caim (a marca na testa) ou com Cão (aquele filho de Noé, que riu do pai bêbado e nu).
O que ninguém se interessou em saber é que Morton, distraído, cansado ao final de um longo dia, assim, sem-querer-querendo, deixou cair mais feijõezinhos no crânio do homem branco.
E ainda dizem que o cientista é fiel ao experimento.
É verdade que depois ele refez o teste (trocando os feijões por bolinhas de chumbo) e a diferença caiu um pouco (por que será?), mas ainda com vantagem para o branco. E uma terceira vez, agora comparando o volume e a densidade do crânio com o tipo físico. Neste último teste, não houve diferença.
Nem é preciso dizer que o primeiro é que fez sucesso.
Confesso que não entendi bem isso de alguém ser mais inteligente porque tem mais feijão na cabeça.
Veja também http://www.amphilsoc.org/library/mole/m/mortonsg.htm
Sunday, May 01, 2005
Ops!
Socorro! Big Brother do inconsciente! Tava demorando, né?
Os cientistas descobriram um modo de ler nossos pensamentos. E o mais grave: eles se dizem capazes de ler, por ressonância magnética, o que nós nem sabemos que estamos pensando.
O que isto significa? Que os males da mente poderão ser melhor diagnosticados e tratados preventivamente, ou que nossos comportamentos, interesses, inclinações, gostos e paixões poderão ser manipulados?
Sei não. Pela reportagem (que pode ser acessada clicando no título acima), parece que a experiência passa por uma espécie de manipulação da reação, com algo do tipo mensagem subliminar. Mas ainda é cedo para dizer qualquer coisa, até mesmo se o experimento garante o resultado pretendido.
Em todo caso, não quero ninguém lendo meus pensamentos. Já é demais pensá-los e dar tanta bandeira.
Os cientistas descobriram um modo de ler nossos pensamentos. E o mais grave: eles se dizem capazes de ler, por ressonância magnética, o que nós nem sabemos que estamos pensando.
O que isto significa? Que os males da mente poderão ser melhor diagnosticados e tratados preventivamente, ou que nossos comportamentos, interesses, inclinações, gostos e paixões poderão ser manipulados?
Sei não. Pela reportagem (que pode ser acessada clicando no título acima), parece que a experiência passa por uma espécie de manipulação da reação, com algo do tipo mensagem subliminar. Mas ainda é cedo para dizer qualquer coisa, até mesmo se o experimento garante o resultado pretendido.
Em todo caso, não quero ninguém lendo meus pensamentos. Já é demais pensá-los e dar tanta bandeira.
Saturday, April 30, 2005
Caixão é para mortos
No século XVIII acontecia com certa frequência de alguém ser enterrado ainda em vida, por engano. Para evitar que isso acontecesse, usou-se o seguinte procedimento: amarrava-se uma cordinha no dedo mindinho do morto que, por sua vez, estava presa (a cordinha) a uma estaca, ao lado da sepultura, com um sininho na ponta. Se o "morto" acordasse, bastaria mover o dedo mindinho, que o sino avisaria o coveiro. Inteligente, não?
Agora imaginem uma ventania. Que trabalheira! Teriam de desenterrar todos os mortos, porque os sininhos estariam enlouquecidos.
Além do medo de barata, só tenho outro medo irracional: acordar em um caixão. Pensando seriamente no problema, resolvi tomar uma atitude: avisei a todos de minha família que quero ser cremada. Assim, não corro risco algum.
Mas a surpresa, mesmo, foi com a reação da família: "ah, então se estiver viva, porque só vai acordar em um caixão se não tiver morrido realmente, quer que a matemos?"
Ué... Se eu acordar em um caixão, alguém vai saber? E nesse caso não vou morrer do mesmo jeito? Se quiser cuidar disso, tem de ser enquanto estou viva, né não? E, depois, eu só quero ter certeza de que vou estar mesmo morta.
Mas, já que ser cremada está fora de questão, sugeri o sininho. Tipo amarrar uma cordinha no meu dedo mindinho, para que eu possa avisar sem fazer muito esforço. Economia de oxigênio, né? Dá prá esperar mais tempo pelo socorro.
Qual nada. A reação da família foi ainda pior. Nem me deixaram explicar direito o que deveriam fazer. :-)))
De um jeito ou de outro, tive de desistir da empreitada. Mas fiquei pensando: e se acontecer mesmo de eu acordar em um caixão? Pior ainda, em um caixão cheio de baratas? Ai! Pode não. Não, não, não.
Talvez escreva um bilhetinho. Mas e se ninguém encontrar?
Agora imaginem uma ventania. Que trabalheira! Teriam de desenterrar todos os mortos, porque os sininhos estariam enlouquecidos.
Além do medo de barata, só tenho outro medo irracional: acordar em um caixão. Pensando seriamente no problema, resolvi tomar uma atitude: avisei a todos de minha família que quero ser cremada. Assim, não corro risco algum.
Mas a surpresa, mesmo, foi com a reação da família: "ah, então se estiver viva, porque só vai acordar em um caixão se não tiver morrido realmente, quer que a matemos?"
Ué... Se eu acordar em um caixão, alguém vai saber? E nesse caso não vou morrer do mesmo jeito? Se quiser cuidar disso, tem de ser enquanto estou viva, né não? E, depois, eu só quero ter certeza de que vou estar mesmo morta.
Mas, já que ser cremada está fora de questão, sugeri o sininho. Tipo amarrar uma cordinha no meu dedo mindinho, para que eu possa avisar sem fazer muito esforço. Economia de oxigênio, né? Dá prá esperar mais tempo pelo socorro.
Qual nada. A reação da família foi ainda pior. Nem me deixaram explicar direito o que deveriam fazer. :-)))
De um jeito ou de outro, tive de desistir da empreitada. Mas fiquei pensando: e se acontecer mesmo de eu acordar em um caixão? Pior ainda, em um caixão cheio de baratas? Ai! Pode não. Não, não, não.
Talvez escreva um bilhetinho. Mas e se ninguém encontrar?
Velharias 2: Trotes
TROTES COM CALOUROS SÃO NECESSÁRIOS
Crescem as evidências de que, sem exercícios, a capacidade intelectual do calouro fica reduzida
Em meados da década de 60 cientistas de todo o mundo despertaram para uma questão preocupante, que vem se intensificando a cada ano: a grande leva de calouros que a Universidade produz, em oposição à significativa redução no número de veteranos predadores, espécie hoje ameaçada de extinção.
Embora o fenômeno ainda não tenha atraído a atenção de cientistas brasileiros, é certo que alguns de seus desdobramentos já vêm instigando os pesquisadores, em especial no que tange à prática dos chamados "trotes universitários". Estes, segundo nos mostram as pesquisas recentes no setor, vêm sofrendo severas e constantes ações restritivas e punitivas. Entretanto, como veremos a seguir, os trotes exercem um efeito bastante salutar sobre a capacidade cognitiva dos calouros.
Definições
A universidade é o local com condições mais favoráveis para a produção de calouros. Evidentemente há calouros em quase todos os lugares, mas, por alguma razão ainda desconhecida, não são chamados calouros. Nas universidades, entretanto, a cada ano centenas deles invadem as salas de aula cheios de fantasia sobre seu habitat natural.
Como são uma espécie gregária, os calouros sempre andam em bandos. Todos os anos, em maior quantidade durante o verão e em menor durante o inverno, eles abandonam seu lugar de origem e migram para a universidade, onde imediatamente se agrupam em panelinhas. São pacíficos, ordeiros e bem intencionados, mas muito bobinhos.
Em princípio, verificou-se que os calouros são invariavelmente carecas, o que sugere um estranho ritual de iniciação que exclui as fêmeas. Esta ausência parece indicar uma espécie de organização patriarcal entre eles, mas os estudos nessa área ainda são insuficientes e só dispomos de alguns dados preliminares. O que sabemos com certeza é que as fêmeas, mesmo excluídas do ritual, se adaptam melhor ao novo habitat, talvez pela ansiedade em provar que têm talento e cintura fina.
Estímulos Nervosos
Uma experiência realizada com ratos de laboratório comprovou que os calouros respondem imediatamente a estímulos nervosos positivos e negativos, desde que convenientemente motivados. Em 1997 foram feitos estudos comparativos, colocando um calouro num corredor polonês e outro na sala de aula. O que se pôde constatar é que o cérebro do calouro que permaneceu na sala de aula continuou em seu estado cognitivo primitivo, por não ter sido submetido a estímulos nervosos. O calouro do corredor polonês, no entanto, respondeu imediatamente aos estímulos nervosos pulando janelas, saltando muros ou simplesmente correndo, o que significa excelente capacidade cognitiva e resposta sensorial imediata, quando adequadamente motivado.
No entanto, a possibilidade remotíssima de acabar com a espécie, o que resultaria em grave desequilíbrio ecológico aos campi, vem reduzindo gradativamente a incidência de trotes.
A ciência moderna ainda não comprovou, mas é bastante provável que haja uma terceira espécie nos campi, ainda não identificada, que seria predadora de veteranos, principalmente daqueles que se dedicam a trotes como o do corredor polonês.
Usar ou Perder
Em 2003 o Dr. Arnold Schwarzenegger, neurologista da Universidade da Califórnia, comprovou que a inatividade provoca deterioração mental. Em contrapartida, o mesmo Dr. Schwartzenegger garantiu que os trotes provocam uma espécie de alongamento do cérebro dos calouros.
A idéia de que músculos ociosos acabam por atrofiar-se é antiga. Bichinhos criados com poucos desafios tornam-se ineptos para o estudo e para a vida. Assim, segundo o especialista, a prática de atividades desafiadoras pode auxiliar os calouros a enfrentar dificuldades ou situações vexatórias, melhorando seu desempenho escolar.
A grande questão da atualidade é, portanto, evitar que os trotes desapareçam, posto que sua ausência implica no surgimento de uma sub-raça de calouros, estagnada intelectualmente.
Os Predadores
Os calouros sentem-se vitoriosos na batalha por uma vaga. Julgam que sua cabeça cheia de teoremas, fórmulas e revistas playboy os levará ao altar da fama. Mas eis que esta espécie tão cordata e obsequiosa esbarra em um perigoso inimigo, dono do espaço a ser conquistado: os temíveis veteranos, predadores de calouros.
Os veteranos, embora cruéis, atacam suas vítimas apenas nas primeiras semanas. Convivendo com seus aparentados, os macacos, sentem-se ameaçados por este invasor, movidos por um estranho "complexo de castração".
Embora várias teorias tenham surgido para explicar o fenômeno, tentaremos nos concentrar nas duas principais: alguns pesquisadores suecos, ainda anos 80, provaram que o cérebro do veterano regride 1,5 pontos por ano na escala de QI. Uma regressão pouco significativa, mas que parece ser a força motriz dos trotes.
Outros pesquisadores descobriram que o quociente intelectual de um indivíduo é inversamente proporcional à quantidade de fios de cabelo que ele possui. Ou seja, cada fio de cabelo, ao brotar no couro cabeludo, bloquearia a passagem de oxigênio para o cérebro. Assim, numa longa cabeleira teríamos um cérebro sem oxigenação, o que é suficiente para explicar porque os veteranos preferem o bosque às salas de aula.
Esta teria sido a razão que levou alguns renomados cientistas a admitir publicamente que a careca do calouro é uma provocação aos veteranos. Desta forma, os trotes não passariam de uma reação involuntária a uma provocação também involuntária.
Novos Avanços da Ciência
O grande sonho da Calouromedicina, ramo da ciência relativamente novo, é estabelecer um paralelo entre a memória do calouro e sua compulsão por imitar, tendo em vista que os calouros de hoje serão os predadores de amanhã.
Observa-se uma verdadeira explosão de pesquisas na área. Nos anos 70, pesquisadores do Instituto de Massachussets, EUA, deram os primeiros passos neste sentido, mas não conseguiram resolver o problema. Em vista disso, apenas alguns mapas parciais vem sendo traçados.
Como não é possível realizar experiências com o cérebro humano, os cientistas têm recorrido a animais com sistemas nervosos bem simples, como as lesmas, que possuem apenas memória hábil e, portanto, um cérebro bastante similar ao do calouro.
O método básico consistia em treinar a memória das lesmas em laboratório, com trotes semelhantes aos praticados nos corredores universitários, visando induzi-las a praticar essas ações em seus semelhantes. O curioso da pesquisa é que as lesmas se recusaram a massacrar seus iguais, o que comprova mais uma vez a espantosa semelhança entre lesmas e calouros, porque, como sabemos, estes últimos jamais praticam trotes entre si.
Aprendendo a Reagir
Como já dissemos, a Calouromedicina é uma ciência nova, com um vasto campo de trabalho ainda inexplorado e um número ilimitado de incógnitas que talvez somente a geração futura consiga desvendar. Em vista disso, resta-nos dar um conselho aos calouros: sejam predadores também. Façam amanhã o que fazem com vocês hoje. Mas cuidado para não acabar com a espécie.
Crescem as evidências de que, sem exercícios, a capacidade intelectual do calouro fica reduzida
Em meados da década de 60 cientistas de todo o mundo despertaram para uma questão preocupante, que vem se intensificando a cada ano: a grande leva de calouros que a Universidade produz, em oposição à significativa redução no número de veteranos predadores, espécie hoje ameaçada de extinção.
Embora o fenômeno ainda não tenha atraído a atenção de cientistas brasileiros, é certo que alguns de seus desdobramentos já vêm instigando os pesquisadores, em especial no que tange à prática dos chamados "trotes universitários". Estes, segundo nos mostram as pesquisas recentes no setor, vêm sofrendo severas e constantes ações restritivas e punitivas. Entretanto, como veremos a seguir, os trotes exercem um efeito bastante salutar sobre a capacidade cognitiva dos calouros.
Definições
A universidade é o local com condições mais favoráveis para a produção de calouros. Evidentemente há calouros em quase todos os lugares, mas, por alguma razão ainda desconhecida, não são chamados calouros. Nas universidades, entretanto, a cada ano centenas deles invadem as salas de aula cheios de fantasia sobre seu habitat natural.
Como são uma espécie gregária, os calouros sempre andam em bandos. Todos os anos, em maior quantidade durante o verão e em menor durante o inverno, eles abandonam seu lugar de origem e migram para a universidade, onde imediatamente se agrupam em panelinhas. São pacíficos, ordeiros e bem intencionados, mas muito bobinhos.
Em princípio, verificou-se que os calouros são invariavelmente carecas, o que sugere um estranho ritual de iniciação que exclui as fêmeas. Esta ausência parece indicar uma espécie de organização patriarcal entre eles, mas os estudos nessa área ainda são insuficientes e só dispomos de alguns dados preliminares. O que sabemos com certeza é que as fêmeas, mesmo excluídas do ritual, se adaptam melhor ao novo habitat, talvez pela ansiedade em provar que têm talento e cintura fina.
Estímulos Nervosos
Uma experiência realizada com ratos de laboratório comprovou que os calouros respondem imediatamente a estímulos nervosos positivos e negativos, desde que convenientemente motivados. Em 1997 foram feitos estudos comparativos, colocando um calouro num corredor polonês e outro na sala de aula. O que se pôde constatar é que o cérebro do calouro que permaneceu na sala de aula continuou em seu estado cognitivo primitivo, por não ter sido submetido a estímulos nervosos. O calouro do corredor polonês, no entanto, respondeu imediatamente aos estímulos nervosos pulando janelas, saltando muros ou simplesmente correndo, o que significa excelente capacidade cognitiva e resposta sensorial imediata, quando adequadamente motivado.
No entanto, a possibilidade remotíssima de acabar com a espécie, o que resultaria em grave desequilíbrio ecológico aos campi, vem reduzindo gradativamente a incidência de trotes.
A ciência moderna ainda não comprovou, mas é bastante provável que haja uma terceira espécie nos campi, ainda não identificada, que seria predadora de veteranos, principalmente daqueles que se dedicam a trotes como o do corredor polonês.
Usar ou Perder
Em 2003 o Dr. Arnold Schwarzenegger, neurologista da Universidade da Califórnia, comprovou que a inatividade provoca deterioração mental. Em contrapartida, o mesmo Dr. Schwartzenegger garantiu que os trotes provocam uma espécie de alongamento do cérebro dos calouros.
A idéia de que músculos ociosos acabam por atrofiar-se é antiga. Bichinhos criados com poucos desafios tornam-se ineptos para o estudo e para a vida. Assim, segundo o especialista, a prática de atividades desafiadoras pode auxiliar os calouros a enfrentar dificuldades ou situações vexatórias, melhorando seu desempenho escolar.
A grande questão da atualidade é, portanto, evitar que os trotes desapareçam, posto que sua ausência implica no surgimento de uma sub-raça de calouros, estagnada intelectualmente.
Os Predadores
Os calouros sentem-se vitoriosos na batalha por uma vaga. Julgam que sua cabeça cheia de teoremas, fórmulas e revistas playboy os levará ao altar da fama. Mas eis que esta espécie tão cordata e obsequiosa esbarra em um perigoso inimigo, dono do espaço a ser conquistado: os temíveis veteranos, predadores de calouros.
Os veteranos, embora cruéis, atacam suas vítimas apenas nas primeiras semanas. Convivendo com seus aparentados, os macacos, sentem-se ameaçados por este invasor, movidos por um estranho "complexo de castração".
Embora várias teorias tenham surgido para explicar o fenômeno, tentaremos nos concentrar nas duas principais: alguns pesquisadores suecos, ainda anos 80, provaram que o cérebro do veterano regride 1,5 pontos por ano na escala de QI. Uma regressão pouco significativa, mas que parece ser a força motriz dos trotes.
Outros pesquisadores descobriram que o quociente intelectual de um indivíduo é inversamente proporcional à quantidade de fios de cabelo que ele possui. Ou seja, cada fio de cabelo, ao brotar no couro cabeludo, bloquearia a passagem de oxigênio para o cérebro. Assim, numa longa cabeleira teríamos um cérebro sem oxigenação, o que é suficiente para explicar porque os veteranos preferem o bosque às salas de aula.
Esta teria sido a razão que levou alguns renomados cientistas a admitir publicamente que a careca do calouro é uma provocação aos veteranos. Desta forma, os trotes não passariam de uma reação involuntária a uma provocação também involuntária.
Novos Avanços da Ciência
O grande sonho da Calouromedicina, ramo da ciência relativamente novo, é estabelecer um paralelo entre a memória do calouro e sua compulsão por imitar, tendo em vista que os calouros de hoje serão os predadores de amanhã.
Observa-se uma verdadeira explosão de pesquisas na área. Nos anos 70, pesquisadores do Instituto de Massachussets, EUA, deram os primeiros passos neste sentido, mas não conseguiram resolver o problema. Em vista disso, apenas alguns mapas parciais vem sendo traçados.
Como não é possível realizar experiências com o cérebro humano, os cientistas têm recorrido a animais com sistemas nervosos bem simples, como as lesmas, que possuem apenas memória hábil e, portanto, um cérebro bastante similar ao do calouro.
O método básico consistia em treinar a memória das lesmas em laboratório, com trotes semelhantes aos praticados nos corredores universitários, visando induzi-las a praticar essas ações em seus semelhantes. O curioso da pesquisa é que as lesmas se recusaram a massacrar seus iguais, o que comprova mais uma vez a espantosa semelhança entre lesmas e calouros, porque, como sabemos, estes últimos jamais praticam trotes entre si.
Aprendendo a Reagir
Como já dissemos, a Calouromedicina é uma ciência nova, com um vasto campo de trabalho ainda inexplorado e um número ilimitado de incógnitas que talvez somente a geração futura consiga desvendar. Em vista disso, resta-nos dar um conselho aos calouros: sejam predadores também. Façam amanhã o que fazem com vocês hoje. Mas cuidado para não acabar com a espécie.
Velharias 1: Filosofia para a morte das baratas
Esta é dos meus tempos de Cronista da Folha de Alface:
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DA IMORTALIDADE DA ALMA DAS BARATAS
Um diálogo entre Sócrates e Símias, convenientemente esquecido por Platão
SÓCRATES
Diga-me, ó Símias: não é precisamente a alma desligada e posta fora do corpo que caracteriza o que chamamos filosofar?
SÍMIAS
Isto é correto.
SÓCRATES
E não crês que as baratas têm uma alma desligada do corpo?
SÍMIAS
Certamente que sim.
SÓCRATES
E que, da mesma forma, sua alma é posta fora do corpo?
SÍMIAS
Precisamente.
SÓCRATES
Se é assim, concordas então que é preciso conhecer as baratas para bem filosofar?
SÍMIAS
Se tu o dizes, é porque é verdade.
SÓCRATES
Vejamos, então, caro Símias: por¬ventura a ausência de baratas não é próprio das casas em que seus moradores têm horror a elas?
SÍMIAS
Necessariamente.
SÓCRATES
E que, assim como há o desprezo pelas baratas, há também o desprezo pelos filósofos?
SÍMIAS
Bem o dizes.
SÓCRATES
Basta, então, que tenhas a bondade de refletir um momento sobre este animalzinho para que percebas toda a sua grandeza.
SÍMIAS
Que queres dizer, ó Sócrates?
SÓCRATES
Sabes que, assim como acontece com a alma do filósofo, a alma das baratas se inclina para o que está acima delas?
SÍMIAS
Por certo que sim. Elas se esforçam para voar.
SÓCRATES
Bem o compreendes, ó Símias. Mas, semelhantemente aos homens, nem todas podem voar, ainda que, no tocante às baratas, seja evidente que todas elas se inclinem nesta direção. Compete-nos, pois, no exercício da busca à verdade, investigarmos primeiramente este animalzinho.
SÍMIAS
Como és sábio, ó Sócrates!
SÓCRATES
Se estamos de acordo sobre este ponto, passemos então ao seguinte. Não há, a meu ver, algo que seja mais verdadeiro que isto: que o vôo da barata é rasante e que ela mantém o trasei¬ro levemente inclinado num ângulo de 35 graus.
SÍMIAS
Sim, por certo.
SÓCRATES
Consideremos, pois, que freqüentemente ela se desequilibra e vem parar direto em nossas costas ou cabeças.
SÍMIAS
O que dizes é a mais pura verdade.
SÓCRATES
Por conseguinte, não há absolutamente razão alguma para que as baratas possuam asas e voem.
SÍMIAS
Absolutamente nenhuma.
SÓCRATES
Sendo assim, devemos considerar as razões que levariam uma barata a ter asas e tentar voar.
SÍMIAS
Mas de que forma, ó sábio Sócrates, esta investigação nos levará à compreensão do que chamamos filosofar?
SÓCRATES
Diga-me antes, caro Símias, o que entendes por filosofar.
SÍMIAS
Parece-me, Sócrates, que consiste na busca da verdade.
SÓCRATES
Bem o compreendes, ó Símias. Sendo assim, diga-me: quando investigamos as baratas, não estamos, ao mesmo tempo, procurando compreender a verdade sobre as baratas?
SÍMIAS
É o que parece, quando tu o dizes desta forma.
SÓCRATES
Sendo assim, parece-nos que devemos investigar antes outra questão e, respondendo à segunda, venhamos a responder à primeira, o que nos levará a outra questão, respondida após termos encontrado respostas para as demais.
SÍMIAS
Parece-me um tanto confuso, ó Sócrates.
SÓCRATES
E é, com efeito. Diga-me, Símias, não é verdade que tudo o que existe, existe de algo e para algo?
SÍMIAS
Ouço com prazer tua explicação.
SÓCRATES
Não ignoras tu que a barata, ao ver um retrato de si mesma, pode recordar a si mesma?
SÍMIAS
Seguramente que sim.
SÓCRATES
Sendo assim, o ponto de partida da barata é precisamente seu ponto de chegada.
SÍMIAS
Assim, pois, o que pretenderias, ó Sócrates? Acaso afirmas sem dúvida que existe o igual em si mesmo e que a barata, quando recorda, recorda seu igual?
SÓCRATES
E por que não, com efeito? Não concordamos anteriormente que a alma é superior ao corpo?
SÍMIAS
Não tenho a tua sabedoria, caríssimo Sócrates, nem a tua memória.
SÓCRATES
Com certeza tens, mas não o sabes. Em todo caso, não concordas que estes animais, como existentes, existem de algo e para algo?
SÍMIAS
Por certo.
SÓCRATES
Por conseguinte, as baratas existem de outras baratas e para outras baratas?
SÍMIAS
Naturalmente que sim.
SÓCRATES
Assim, pois, obtemos este princípio geral da criação, segundo o qual é das coisas que vem as coisas e, assim como são as pessoas, são também as criaturas.
SÍMIAS
Perfeitamente.
SÓCRATES
Temos disto urna prova magnífica: interroga-se uma barata. Se as perguntas forem bem conduzidas, por si mesma ela dirá como são as coisas.
SÍMIAS
Tens razão, ó grande Sócrates.
SÓCRATES
Entretanto, ó Símias, há algo mais a ser investigado. Se as baratas vêm de outras baratas, é correto dizer que o conhecimento que possuem e não sabem que possuem vêm de outros conhecimentos de outras baratas.
SÍMAS
Por Héracles, vejo que tens razão.
SÓCRATES
E o fazes, Símias, porque, assim como as baratas, tens memória, embora não o soubesses até bem pouco.
SÍMIAS
Compreendo, Sócrates, e percebo agora quão parecidos somos com os insetos.
SÓCRATES
É verdade, mas não te esqueças de que, assim como alguns insetos se distinguem de outros insetos, alguns homens se distinguem de outros insetos.
SÍMIAS
Assim, pois, pergunto novamente: o que pretendes, ó ditoso Sócrates?
SÓCRATES
Não te aborreças, caro Símias. Procura em ti mesmo as respostas.
SÍMIAS
Tu afirmaste, ditoso e sábio Sócrates, que estes animais deveriam entregar seus próprios corpos ao abandono.
SÓCRATES
Bem o recordas.
SÍMIAS
E, entregando a si mesmo ao abandono, encontraria a si mesmo?
SÓCRATES
Parece-me claro que este animal somente alcançaria o açúcar verdadeiro se renegasse sua condição de barata existente.
SÍMIAS
Assim, ó Sócrates, crês que as baratas somente seriam verdadeiramente baratas renegando sua existência?
SÓCRATES
É precisamente o que acabei de afirmar.
SÍMIAS
E que, por conseguinte, seria necessário que morressem para que vivessem?
SÓCRATES
É o que digo.
SÍMIAS
Esclareça-me pois, ditoso Sócrates, de que forma precisamente a filosofia para a morte das baratas pode de fato resultar na morte das baratas.
SÓCRATES
Tua pergunta demonstra toda tua sabedoria, Símias. Entretanto, para que te responda, precisamos antes investigar outra questão e, respondendo a esta por meio de outra, retornemos ao questionamento que tu tão sabiamente fizestes. Só então poderemos saber com absoluta certeza de que forma a filosofia das baratas pode efetivamente contribuir para inspirar nelas o desejo espontâneo de morrer. Tenhas um pouco mais de paciência, caro Símias, e retornemos à questão anterior. Assim, pois, vejamos que...
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DA IMORTALIDADE DA ALMA DAS BARATAS
Um diálogo entre Sócrates e Símias, convenientemente esquecido por Platão
SÓCRATES
Diga-me, ó Símias: não é precisamente a alma desligada e posta fora do corpo que caracteriza o que chamamos filosofar?
SÍMIAS
Isto é correto.
SÓCRATES
E não crês que as baratas têm uma alma desligada do corpo?
SÍMIAS
Certamente que sim.
SÓCRATES
E que, da mesma forma, sua alma é posta fora do corpo?
SÍMIAS
Precisamente.
SÓCRATES
Se é assim, concordas então que é preciso conhecer as baratas para bem filosofar?
SÍMIAS
Se tu o dizes, é porque é verdade.
SÓCRATES
Vejamos, então, caro Símias: por¬ventura a ausência de baratas não é próprio das casas em que seus moradores têm horror a elas?
SÍMIAS
Necessariamente.
SÓCRATES
E que, assim como há o desprezo pelas baratas, há também o desprezo pelos filósofos?
SÍMIAS
Bem o dizes.
SÓCRATES
Basta, então, que tenhas a bondade de refletir um momento sobre este animalzinho para que percebas toda a sua grandeza.
SÍMIAS
Que queres dizer, ó Sócrates?
SÓCRATES
Sabes que, assim como acontece com a alma do filósofo, a alma das baratas se inclina para o que está acima delas?
SÍMIAS
Por certo que sim. Elas se esforçam para voar.
SÓCRATES
Bem o compreendes, ó Símias. Mas, semelhantemente aos homens, nem todas podem voar, ainda que, no tocante às baratas, seja evidente que todas elas se inclinem nesta direção. Compete-nos, pois, no exercício da busca à verdade, investigarmos primeiramente este animalzinho.
SÍMIAS
Como és sábio, ó Sócrates!
SÓCRATES
Se estamos de acordo sobre este ponto, passemos então ao seguinte. Não há, a meu ver, algo que seja mais verdadeiro que isto: que o vôo da barata é rasante e que ela mantém o trasei¬ro levemente inclinado num ângulo de 35 graus.
SÍMIAS
Sim, por certo.
SÓCRATES
Consideremos, pois, que freqüentemente ela se desequilibra e vem parar direto em nossas costas ou cabeças.
SÍMIAS
O que dizes é a mais pura verdade.
SÓCRATES
Por conseguinte, não há absolutamente razão alguma para que as baratas possuam asas e voem.
SÍMIAS
Absolutamente nenhuma.
SÓCRATES
Sendo assim, devemos considerar as razões que levariam uma barata a ter asas e tentar voar.
SÍMIAS
Mas de que forma, ó sábio Sócrates, esta investigação nos levará à compreensão do que chamamos filosofar?
SÓCRATES
Diga-me antes, caro Símias, o que entendes por filosofar.
SÍMIAS
Parece-me, Sócrates, que consiste na busca da verdade.
SÓCRATES
Bem o compreendes, ó Símias. Sendo assim, diga-me: quando investigamos as baratas, não estamos, ao mesmo tempo, procurando compreender a verdade sobre as baratas?
SÍMIAS
É o que parece, quando tu o dizes desta forma.
SÓCRATES
Sendo assim, parece-nos que devemos investigar antes outra questão e, respondendo à segunda, venhamos a responder à primeira, o que nos levará a outra questão, respondida após termos encontrado respostas para as demais.
SÍMIAS
Parece-me um tanto confuso, ó Sócrates.
SÓCRATES
E é, com efeito. Diga-me, Símias, não é verdade que tudo o que existe, existe de algo e para algo?
SÍMIAS
Ouço com prazer tua explicação.
SÓCRATES
Não ignoras tu que a barata, ao ver um retrato de si mesma, pode recordar a si mesma?
SÍMIAS
Seguramente que sim.
SÓCRATES
Sendo assim, o ponto de partida da barata é precisamente seu ponto de chegada.
SÍMIAS
Assim, pois, o que pretenderias, ó Sócrates? Acaso afirmas sem dúvida que existe o igual em si mesmo e que a barata, quando recorda, recorda seu igual?
SÓCRATES
E por que não, com efeito? Não concordamos anteriormente que a alma é superior ao corpo?
SÍMIAS
Não tenho a tua sabedoria, caríssimo Sócrates, nem a tua memória.
SÓCRATES
Com certeza tens, mas não o sabes. Em todo caso, não concordas que estes animais, como existentes, existem de algo e para algo?
SÍMIAS
Por certo.
SÓCRATES
Por conseguinte, as baratas existem de outras baratas e para outras baratas?
SÍMIAS
Naturalmente que sim.
SÓCRATES
Assim, pois, obtemos este princípio geral da criação, segundo o qual é das coisas que vem as coisas e, assim como são as pessoas, são também as criaturas.
SÍMIAS
Perfeitamente.
SÓCRATES
Temos disto urna prova magnífica: interroga-se uma barata. Se as perguntas forem bem conduzidas, por si mesma ela dirá como são as coisas.
SÍMIAS
Tens razão, ó grande Sócrates.
SÓCRATES
Entretanto, ó Símias, há algo mais a ser investigado. Se as baratas vêm de outras baratas, é correto dizer que o conhecimento que possuem e não sabem que possuem vêm de outros conhecimentos de outras baratas.
SÍMAS
Por Héracles, vejo que tens razão.
SÓCRATES
E o fazes, Símias, porque, assim como as baratas, tens memória, embora não o soubesses até bem pouco.
SÍMIAS
Compreendo, Sócrates, e percebo agora quão parecidos somos com os insetos.
SÓCRATES
É verdade, mas não te esqueças de que, assim como alguns insetos se distinguem de outros insetos, alguns homens se distinguem de outros insetos.
SÍMIAS
Assim, pois, pergunto novamente: o que pretendes, ó ditoso Sócrates?
SÓCRATES
Não te aborreças, caro Símias. Procura em ti mesmo as respostas.
SÍMIAS
Tu afirmaste, ditoso e sábio Sócrates, que estes animais deveriam entregar seus próprios corpos ao abandono.
SÓCRATES
Bem o recordas.
SÍMIAS
E, entregando a si mesmo ao abandono, encontraria a si mesmo?
SÓCRATES
Parece-me claro que este animal somente alcançaria o açúcar verdadeiro se renegasse sua condição de barata existente.
SÍMIAS
Assim, ó Sócrates, crês que as baratas somente seriam verdadeiramente baratas renegando sua existência?
SÓCRATES
É precisamente o que acabei de afirmar.
SÍMIAS
E que, por conseguinte, seria necessário que morressem para que vivessem?
SÓCRATES
É o que digo.
SÍMIAS
Esclareça-me pois, ditoso Sócrates, de que forma precisamente a filosofia para a morte das baratas pode de fato resultar na morte das baratas.
SÓCRATES
Tua pergunta demonstra toda tua sabedoria, Símias. Entretanto, para que te responda, precisamos antes investigar outra questão e, respondendo a esta por meio de outra, retornemos ao questionamento que tu tão sabiamente fizestes. Só então poderemos saber com absoluta certeza de que forma a filosofia das baratas pode efetivamente contribuir para inspirar nelas o desejo espontâneo de morrer. Tenhas um pouco mais de paciência, caro Símias, e retornemos à questão anterior. Assim, pois, vejamos que...
Friday, April 29, 2005
Santa Ceia
Pois é, nem só de batata vive o filho do homem. Bastou aparecer em uma batatinha frita, e Cristo já virou arroz de festa. Anda circulando esfomeado por esse mundão de meu deus cheio de fast food, pizzas, cachorros quentes, pastéis de rodoviária e geladeiras. Desse jeito não tem Cristo que agüente. Vai acabar engordando.
Mas a vantagem de Cristo engordar é que vai ficar irreconhecível, o que significa que podemos voltar a comer em paz, sem culpa ou arrependimento.
Eis as últimas de Cristo:
- Pão: Em 2002, na Índia, a imagem de Jesus foi vista em um pedaço de pão. Até aí nada de mais. Afinal, pão é o corpo dele, né?
- Peixe empanado: o canadense Fred Whan achou a conta do almoço alta demais, mas pagou com o milagre da refeição: um peixe empanado com a imagem de Jesus Cristo.
- Ostra: em 2003 o italiano Matteo Brandi encontrou uma ostra com o rosto de Cristo e está esperando comprador. Mal encontrou Jesus e já vai vender...
Ah, e não é só Cristo não. A mãe resolveu dar as caras também:
- Sanduíche: Em 1984, a americana Diane Duyser descobriu que seu sanduíche vinha com o selo da Virgem Maria. Prova: dez anos se passaram, e nada de mofo. No ano passado, um cassino comprou o sanduíche por US$ 28 mil... Esse é o verdadeiro testemunho da fé: uma vida que mudou radicalmente depois do encontro com Maria.
E olha ali o Alá:
- Em 2004, palestinos encontraram a palavra Alá no pêlo de um cordeiro. Em árabe, claro. Acreditem em mim, esse cordeiro nunca vai ser normal.
Aí estão os links:
Pão: http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/south_asia/2484195.stm
Peixe empanado: http://www.globetechnology.com/servlet/
story/RTGAM.20041124.gtnats24-8/BNStory/Technology
Ostra: http://tv.terra.com.br/jornaldoterra/interna/
0%2C%2COI49926-EI1039%2C00.html
Sanduíche: http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/
internacional/2004/11/23/jorint20041123006.html
Cordeiro: http://www.palestinetoday.org/gallery/March-0004/March_24_04_allah_spelled_out_in_Arabic_on_Hebron
_lamb_coat_Photo_By_Nayef_Hashlamoun
Mas a vantagem de Cristo engordar é que vai ficar irreconhecível, o que significa que podemos voltar a comer em paz, sem culpa ou arrependimento.
Eis as últimas de Cristo:
- Pão: Em 2002, na Índia, a imagem de Jesus foi vista em um pedaço de pão. Até aí nada de mais. Afinal, pão é o corpo dele, né?
- Peixe empanado: o canadense Fred Whan achou a conta do almoço alta demais, mas pagou com o milagre da refeição: um peixe empanado com a imagem de Jesus Cristo.
- Ostra: em 2003 o italiano Matteo Brandi encontrou uma ostra com o rosto de Cristo e está esperando comprador. Mal encontrou Jesus e já vai vender...
Ah, e não é só Cristo não. A mãe resolveu dar as caras também:
- Sanduíche: Em 1984, a americana Diane Duyser descobriu que seu sanduíche vinha com o selo da Virgem Maria. Prova: dez anos se passaram, e nada de mofo. No ano passado, um cassino comprou o sanduíche por US$ 28 mil... Esse é o verdadeiro testemunho da fé: uma vida que mudou radicalmente depois do encontro com Maria.
E olha ali o Alá:
- Em 2004, palestinos encontraram a palavra Alá no pêlo de um cordeiro. Em árabe, claro. Acreditem em mim, esse cordeiro nunca vai ser normal.
Aí estão os links:
Pão: http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/south_asia/2484195.stm
Peixe empanado: http://www.globetechnology.com/servlet/
story/RTGAM.20041124.gtnats24-8/BNStory/Technology
Ostra: http://tv.terra.com.br/jornaldoterra/interna/
0%2C%2COI49926-EI1039%2C00.html
Sanduíche: http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/
internacional/2004/11/23/jorint20041123006.html
Cordeiro: http://www.palestinetoday.org/gallery/March-0004/March_24_04_allah_spelled_out_in_Arabic_on_Hebron
_lamb_coat_Photo_By_Nayef_Hashlamoun
Thursday, April 28, 2005
Sapo não!
A internet é mesmo maravilhosa. Pesquisei no Google a palavra "sapo", porque queria encontrar o site português com esse nome, e sabem o que descobri, assim, por acaso? Que uma mulher iraniana pariu um sapo cinza! É mole ou quer mais? Não deve ter sido um parto difícil, né? A coisa é escorregadia. Difícil é saber o que fazer com o bichin depois.
E ainda tem gente culpando a sujeira da piscina... Eu, hein? Haja sujeira.
Freud, socorro! Vá lá beijar a coisinha (Bettelheim e os irmãos Grimm que o digam); vá lá chover sapos, mas parir o bichin é coisa prá lá de Bagdá. Ou prá cá? Whatever. Tô fora. Piscina, never more.
Ah, o link com a foto da belezinha? Claro, por que não? Clique no título.
E ainda tem gente culpando a sujeira da piscina... Eu, hein? Haja sujeira.
Freud, socorro! Vá lá beijar a coisinha (Bettelheim e os irmãos Grimm que o digam); vá lá chover sapos, mas parir o bichin é coisa prá lá de Bagdá. Ou prá cá? Whatever. Tô fora. Piscina, never more.
Ah, o link com a foto da belezinha? Claro, por que não? Clique no título.
Tuesday, April 26, 2005
Não compre salmão, compre saúde
E por falar em problema, lembrei da barraquinha de Antífon.
Antífon era um sofista grego, que viveu entre os séculos V e IV a.C. Não sabemos quase nada sobre ele e pouca coisa restou do que escreveu (alguns fragmentos reunidos sob o título Alétheia). É possivel que ele e Antífon de Ramno, orador e político ateniense de grande expressão, executado em 411 a.C., tenham sido a mesma pessoa, mas não se sabe com certeza.
O que sabemos é que ele abriu uma barraquinha na cidade de Corinto, anunciando que podia curar todas as doenças. A idéia era a seguinte: todos os males, sejam do corpo ou da alma, podem ser tratados por intermédio da palavra.
Esta era uma idéia recorrente na sofística, e um registro mais preciso disso está no Górgias de Platão e no Elogio de Helena do próprio Górgias, mas o curioso a respeito de Antífon é que ele chegou a transformá-la em um pequeno negócio. Certamente não oferecia saúde de graça, e muito menos vendia a preço de banana. Considerando o perfil dos sofistas, dificilmente. Devia ser negócio mesmo. O fato é que ele oferecia seus serviços em uma espécie de sala, ou barraca, perto da praça do mercado, no centro de Corinto.
Fico imaginando a barraquinha de Antífon, com um anúncio do tipo “Curo todos os males sem dor ou anestesia geral”, ao lado de barraquinhas de peixe, hortaliças, adereços, sandálias, mantas, incenso etc. Só pode ter sido bem sucedido.
Antífon era um sofista grego, que viveu entre os séculos V e IV a.C. Não sabemos quase nada sobre ele e pouca coisa restou do que escreveu (alguns fragmentos reunidos sob o título Alétheia). É possivel que ele e Antífon de Ramno, orador e político ateniense de grande expressão, executado em 411 a.C., tenham sido a mesma pessoa, mas não se sabe com certeza.
O que sabemos é que ele abriu uma barraquinha na cidade de Corinto, anunciando que podia curar todas as doenças. A idéia era a seguinte: todos os males, sejam do corpo ou da alma, podem ser tratados por intermédio da palavra.
Esta era uma idéia recorrente na sofística, e um registro mais preciso disso está no Górgias de Platão e no Elogio de Helena do próprio Górgias, mas o curioso a respeito de Antífon é que ele chegou a transformá-la em um pequeno negócio. Certamente não oferecia saúde de graça, e muito menos vendia a preço de banana. Considerando o perfil dos sofistas, dificilmente. Devia ser negócio mesmo. O fato é que ele oferecia seus serviços em uma espécie de sala, ou barraca, perto da praça do mercado, no centro de Corinto.
Fico imaginando a barraquinha de Antífon, com um anúncio do tipo “Curo todos os males sem dor ou anestesia geral”, ao lado de barraquinhas de peixe, hortaliças, adereços, sandálias, mantas, incenso etc. Só pode ter sido bem sucedido.
Fim dos problemas com a língua portuguesa
Sabe aquelas dificuldadezinhas com que a gente sempre esbarra, ao escrever? Sim, aquelas dúvidas sobre concordância, regência, pontuação, conjugação? Lembra do primeiro grau, em que tínhamos de saber se uma conjunção era subordinada ou coordenada, mas nunca sabíamos o que fazer com ela? Tá lembrando daquela coisa "eu ouvia, tu ouvias, ele ouvia, nós ouvíamos e vós, o que 'estavam' fazendo mesmo?"
Pois é, chegou a ultra-hiper-super solução para todos os problemas com a língua portuguesa, absolutamente todos: é só usar hieróglifos, ora essa! Como é que ninguém pensou nisso antes?
Clique no título desta mensagem e poderá fazer isso em três tempos.
É claro, ninguém vai conseguir ler, mas pense pelo lado positivo: ninguém saberá também quando errou.
Pois é, chegou a ultra-hiper-super solução para todos os problemas com a língua portuguesa, absolutamente todos: é só usar hieróglifos, ora essa! Como é que ninguém pensou nisso antes?
Clique no título desta mensagem e poderá fazer isso em três tempos.
É claro, ninguém vai conseguir ler, mas pense pelo lado positivo: ninguém saberá também quando errou.
Monday, April 25, 2005
Pirateando íbis
Quem acha que pirataria é coisa nova, que a tecnologia trouxe a reboque, engana-se redondamente. Arqueólogos encontraram em uma tumba, no Egito, um número impressionante de íbis mumificadas, em bom estado de conservação. Até aí nada de novo. A íbis era um animal sagrado. Por ser um pássaro, representava a liberdade. Os egípcios da época dos faraós tinham o costume de presentear os mortos, especialmente os ilustres, com uma íbis mumificada, para que o pássaro concedesse ao espírito do morto a liberdade, ou qualquer coisa assim. Bem, esse morto recebeu centenas de pássaros mumificados. O curioso da história toda é que, após o exame de raio X dos animais mumificados, descobriu-se que a esmagadora maioria era falsificada. Dentro das bandagens havia de tudo, menos pássaro.
Conclusão? A pirataria é coisa velha, velhíssima.
Será que as famílias que compraram os animais embalsamados para presentear o morto sabiam que estavam comprando gato por lebre? Provavelmente não, já que só especialistas sabiam mumificar e, depois de concluído o trabalho, dificilmente alguém iria examinar o que havia por trás das bandagens. Já que a íbis era um animal sagrado, é pouco provável que alguém ousasse sequer desconfiar da prática.
Mas também pode ser que soubessem e que comprassem assim mesmo porque devia custar bem menos que o original (tipo uns 10%, para valer a pena o sacrilégio). O morto, é claro, haveria de perdoar a pequena falha.
O que vale é a intenção, né?
Conclusão? A pirataria é coisa velha, velhíssima.
Será que as famílias que compraram os animais embalsamados para presentear o morto sabiam que estavam comprando gato por lebre? Provavelmente não, já que só especialistas sabiam mumificar e, depois de concluído o trabalho, dificilmente alguém iria examinar o que havia por trás das bandagens. Já que a íbis era um animal sagrado, é pouco provável que alguém ousasse sequer desconfiar da prática.
Mas também pode ser que soubessem e que comprassem assim mesmo porque devia custar bem menos que o original (tipo uns 10%, para valer a pena o sacrilégio). O morto, é claro, haveria de perdoar a pequena falha.
O que vale é a intenção, né?
Saturday, April 23, 2005
É perigoso estudar grego
Há armadilhas perigosíssimas para quem se inicia no estudo do grego. Evitar ler qualquer coisa em voz alta é o segredo para escapar delas. Mas, se tiver de ler, prepare-se. Tome fôlego, respire fundo, crie coragem e, sobretudo, esteja pronto para qualquer eventualidade. Nunca se sabe o que vai dizer, quando estiver concentrado em decifrar o que está lendo.
Mas não desanime. Pensando no bem-estar do aluno empolgadíssimo e nada previdente, preparei um manual de regras básicas para que ele não meta os pés pelas mãos na aula de grego:
1. Comece tomando cuidado com o alfabeto. A letrinha θ, correspondente ao “th” inglês, chama-se “theta”. A pronúncia é théta, viu? Prestenção.
2. O verbo ακουω (eu escuto) é outra encrenca das boas. Leia-se, na primeira pessoa do singular, acúuo. Claro, pode ser o nosso verbo defectivo “acuar” na primeira pessoa do singular, mas sabe-se lá. Melhor evitar, né?
3. Agora, se não me escutar, triste mesmo será tentar dizer esse dito cujo na terceira pessoa do plural do indicativo ativo: ακουουσιν (pronuncia-se acúuzin e significa “eles ouvem”). Melhor fugir pela tangente: diga "eles são surdos". Claro, também pode soar como alguém lá do sertão de meu deus tentando dizer “a cozinha” ou “acuso sim”, mas vá por mim. Inclua-se fora desta antes que seja tarde demais.
4. Não tenha pressa em pronunciar o verbo de ligação ειμι (ser/estar) na primeira pessoa do plural do imperfeito, porque pode acabar jogando um iota (i) onde há um éta (e): Ημεν pronuncia-se “émen”, tá?
5. Fuja de qualquer situação em que tenha de perdoar em grego. Olha só o que lá pelas tantas terá de dizer: συγχωρησον! Algo como “sinrrórezon”, com a dificuldade adicional de que o "X" (a letra khi) é aspirado. Impronunciável, né? Melhor tomar cuidado com o que vai dizer.
Mas o mais interessante é a palavrinha ωταριον: otárion. Quando a vi pela primeira vez, pensei: nossa, então é daí que vem o otário! Pois é, engano meu. Otarion significa orelha. É, isso mesmo, orelha. Daí fiquei pensando: será que “otário” é aquele que escuta mas não ouve?
Sim, estou prestando atenção na aula.
Bem, há muito mais, mas vou creditar as preciosidades mais perigosas na conta das coisas que não se diz e não se escreve nem de brincadeira, se se quiser manter a boa educação.
Para concluir: alguém já se sentiu incomodado em sair por aí dizendo “bom dia” a todo mundo que vê, ou eu sou a única? Sei não. É cacofônico demais pro meu gosto. Alguém devia consertar essas coisas. Vai que a gente erra... E aí? Quem é que paga a conta?
Mas não desanime. Pensando no bem-estar do aluno empolgadíssimo e nada previdente, preparei um manual de regras básicas para que ele não meta os pés pelas mãos na aula de grego:
1. Comece tomando cuidado com o alfabeto. A letrinha θ, correspondente ao “th” inglês, chama-se “theta”. A pronúncia é théta, viu? Prestenção.
2. O verbo ακουω (eu escuto) é outra encrenca das boas. Leia-se, na primeira pessoa do singular, acúuo. Claro, pode ser o nosso verbo defectivo “acuar” na primeira pessoa do singular, mas sabe-se lá. Melhor evitar, né?
3. Agora, se não me escutar, triste mesmo será tentar dizer esse dito cujo na terceira pessoa do plural do indicativo ativo: ακουουσιν (pronuncia-se acúuzin e significa “eles ouvem”). Melhor fugir pela tangente: diga "eles são surdos". Claro, também pode soar como alguém lá do sertão de meu deus tentando dizer “a cozinha” ou “acuso sim”, mas vá por mim. Inclua-se fora desta antes que seja tarde demais.
4. Não tenha pressa em pronunciar o verbo de ligação ειμι (ser/estar) na primeira pessoa do plural do imperfeito, porque pode acabar jogando um iota (i) onde há um éta (e): Ημεν pronuncia-se “émen”, tá?
5. Fuja de qualquer situação em que tenha de perdoar em grego. Olha só o que lá pelas tantas terá de dizer: συγχωρησον! Algo como “sinrrórezon”, com a dificuldade adicional de que o "X" (a letra khi) é aspirado. Impronunciável, né? Melhor tomar cuidado com o que vai dizer.
Mas o mais interessante é a palavrinha ωταριον: otárion. Quando a vi pela primeira vez, pensei: nossa, então é daí que vem o otário! Pois é, engano meu. Otarion significa orelha. É, isso mesmo, orelha. Daí fiquei pensando: será que “otário” é aquele que escuta mas não ouve?
Sim, estou prestando atenção na aula.
Bem, há muito mais, mas vou creditar as preciosidades mais perigosas na conta das coisas que não se diz e não se escreve nem de brincadeira, se se quiser manter a boa educação.
Para concluir: alguém já se sentiu incomodado em sair por aí dizendo “bom dia” a todo mundo que vê, ou eu sou a única? Sei não. É cacofônico demais pro meu gosto. Alguém devia consertar essas coisas. Vai que a gente erra... E aí? Quem é que paga a conta?
Embarquei na nau dos loucos e viajei
Hoje tive um sonho extraordinário. Sonhei que havia enlouquecido.
Bem, não exatamente. Eu tinha enlouquecido mesmo, mas como estava realmente louca, achava que não. :-))) Explico: eu percebia uma situação de um modo peculiar, bastante peculiar, o que incomodava as pessoas. Insistiam em dizer que as coisas não eram como eu as via, mas não adiantava. Então me internaram em uma instituição, contra minha vontade, e fui direto para uma salinha de dois metros quadrados. :-))) Quando me vi entre quatro paredes, com todo mundo insistindo que eu não estava em meu juízo perfeito, inclusive um médico prá lá de doido, comecei a duvidar de mim mesma. E entender que estava mesmo louca.
Nesse instante preciso, acordei.
O sonho da loucura acabou exatamente quando comecei a compreender. Ou seja, quando a razão falou mais alto.
Acabou a loucura, acabou o sonho.
E o pior é que sonhei mesmo. Exatamente como contei.
Bem, não exatamente. Eu tinha enlouquecido mesmo, mas como estava realmente louca, achava que não. :-))) Explico: eu percebia uma situação de um modo peculiar, bastante peculiar, o que incomodava as pessoas. Insistiam em dizer que as coisas não eram como eu as via, mas não adiantava. Então me internaram em uma instituição, contra minha vontade, e fui direto para uma salinha de dois metros quadrados. :-))) Quando me vi entre quatro paredes, com todo mundo insistindo que eu não estava em meu juízo perfeito, inclusive um médico prá lá de doido, comecei a duvidar de mim mesma. E entender que estava mesmo louca.
Nesse instante preciso, acordei.
O sonho da loucura acabou exatamente quando comecei a compreender. Ou seja, quando a razão falou mais alto.
Acabou a loucura, acabou o sonho.
E o pior é que sonhei mesmo. Exatamente como contei.
Tuesday, April 19, 2005
Habemus papam?
Pra encerrar a conversa:
A fumacinha branca veio. Habemus papam. Habemus Bento XVI.
Que nome interessante, não? É só trocar o 'n' por 'a' e temos o décimo-sexto beato. Isso, sem falar que Bento quer dizer “ungido”. Vem do adjetivo latino benedictus, a, um (originalmente o particípio passado do verbo benedico, benedicere, benedixi, benedictus, que significa benzer, abençoar, ungir). Trocando em miúdos: bento significa abençoado, ungido, sagrado, aprovado.
O que essa escolha pode querer dizer, considerando-se o caso anterior, em que o polonês intitulou-se ‘João Paulo II’? De João e Paulo, dois seguidores de Cristo, passamos para o Bento, cujo nome já diz ser ‘ungido’. Certo, João e Paulo viraram santos, mas foi por suas ações. O Bento já nasceu santo. Um progresso evidente.
Bem, vou deixar o homem em paz. Já está em fim de carreira mesmo e, depois, deve ser realmente muito abençoado. Chegou lá, né? E por obra e graça do espírito santo.
A fumacinha branca veio. Habemus papam. Habemus Bento XVI.
Que nome interessante, não? É só trocar o 'n' por 'a' e temos o décimo-sexto beato. Isso, sem falar que Bento quer dizer “ungido”. Vem do adjetivo latino benedictus, a, um (originalmente o particípio passado do verbo benedico, benedicere, benedixi, benedictus, que significa benzer, abençoar, ungir). Trocando em miúdos: bento significa abençoado, ungido, sagrado, aprovado.
O que essa escolha pode querer dizer, considerando-se o caso anterior, em que o polonês intitulou-se ‘João Paulo II’? De João e Paulo, dois seguidores de Cristo, passamos para o Bento, cujo nome já diz ser ‘ungido’. Certo, João e Paulo viraram santos, mas foi por suas ações. O Bento já nasceu santo. Um progresso evidente.
Bem, vou deixar o homem em paz. Já está em fim de carreira mesmo e, depois, deve ser realmente muito abençoado. Chegou lá, né? E por obra e graça do espírito santo.
Extra! Extra! Racismo no Vaticano!
Peraí! Pára, pára tudo! Tem coisa errada na fumaça do papa!
A fumacinha preta lá na chaminé do papa simboliza o negativo: insucesso, impasse, desacordo etc. A fumacinha branca simboliza o positivo: sucesso, coesão, consenso, entendimento etc.
Cadê o povinho do politicamente correto prá dizer agora que fumacinha preta é racismo? E não adianta inventar desculpa, não. Ela bem que podia ser azul, verde, vermelha, roxa etc (amarelo pode não. Cor-de-rosa também é melhor evitar).
Afinal, é simbólico ou não é?
E por falar nisso, abaixo a fumacinha do preconceito! Que tal uma passeata contra o preconceito racial implícito nas noções de claro/escuro, trevas/luz, escuridão/iluminação?
A fumacinha preta lá na chaminé do papa simboliza o negativo: insucesso, impasse, desacordo etc. A fumacinha branca simboliza o positivo: sucesso, coesão, consenso, entendimento etc.
Cadê o povinho do politicamente correto prá dizer agora que fumacinha preta é racismo? E não adianta inventar desculpa, não. Ela bem que podia ser azul, verde, vermelha, roxa etc (amarelo pode não. Cor-de-rosa também é melhor evitar).
Afinal, é simbólico ou não é?
E por falar nisso, abaixo a fumacinha do preconceito! Que tal uma passeata contra o preconceito racial implícito nas noções de claro/escuro, trevas/luz, escuridão/iluminação?
A fumacinha do papa
Como todo mundo, também estou esperando ansiosamente para ver a fumacinha branca do papa. Até que enfim, né? Mas, decepção!, a fumacinha expelida ontem foi negra. Hoje também. Chegará o dia em que a fumacinha do papa será tão branca quanto a castidade? Pode até ser, mas por enquanto a coisa está preta.
Sunday, April 17, 2005
Blow Up, de Antonioni
Hoje quero falar de cinema. Sugiro a quem goste de filmes que saem do circuito ação/violência/terror que veja o filme ‘Blow up” (com o detestável subtítulo em português ‘Depois daquele beijo’), de Antonioni (1967). Aí está, em minha opinião, um grande filme. A história é baseada em um conto de Julio Cortázar e gira em torno de um fotógrafo que, com a intenção de fotografar uma cena idílica para compor as ilustrações de um livro, acaba registrando, sem perceber, um assassinato.
A riqueza do filme não está na história em si, mas na forma como é contada. As seqüências são lentas (com momentos de quase inércia), sem trilha sonora. Prepare-se. Os únicos sons do filme são os que a personagem ouve. O mundo é como ele o vê. No entanto, ao longo do filme a personagem principal vai aos poucos descobrindo que a cena que presenciara e fotografara em um parque, de um casal se beijando, não era real. A partir de ampliações das fotografias, a personagem vai aos poucos desconstruindo a imagem idílica e construindo, subjetivamente, um real que nada tem de idílico. O problema é que este real é uma síntese que se dá no interior de uma subjetividade. Por isso, não pode ser comunicada. A cena final, genial, mostra a personagem em absoluta consciência de sua solidão e, ao mesmo tempo, compactuando com o simbólico. Extraordinário.
Dizer mais é estragar a surpresa. Mas vale a pena ver. E refletir sobre o filme.
A riqueza do filme não está na história em si, mas na forma como é contada. As seqüências são lentas (com momentos de quase inércia), sem trilha sonora. Prepare-se. Os únicos sons do filme são os que a personagem ouve. O mundo é como ele o vê. No entanto, ao longo do filme a personagem principal vai aos poucos descobrindo que a cena que presenciara e fotografara em um parque, de um casal se beijando, não era real. A partir de ampliações das fotografias, a personagem vai aos poucos desconstruindo a imagem idílica e construindo, subjetivamente, um real que nada tem de idílico. O problema é que este real é uma síntese que se dá no interior de uma subjetividade. Por isso, não pode ser comunicada. A cena final, genial, mostra a personagem em absoluta consciência de sua solidão e, ao mesmo tempo, compactuando com o simbólico. Extraordinário.
Dizer mais é estragar a surpresa. Mas vale a pena ver. E refletir sobre o filme.
Wednesday, April 13, 2005
Nunca faça testes online
Fiz um testezinho pela internet, para saber a quantas anda minha relação com deus. Saiu 'ateísmo'. E agora? O que faço com o Elvis?
Eis o resultado: ateísmo (96%), Budismo (63%), Satanismo (63%), agnosticismo (63%), Cristianismo (33%), Paganismo (33%), Judaísmo (25%), Hinduísmo (17%), Islamismo (17%).
No mesmo site há também um teste para saber que filosofia você segue (no meu caso deu hedonismo, com 90%, olha só!) e, ainda, que desordem mental você tem. Esse último é bem safado. Eu respondi 'disagree' para tudo (claro, se é um teste para saber se você tem alguma doença mental, a melhor resposta para cada situação doentia é o não). Só que aí apareceu uma janelinha me obrigando - sim, obrigando - a escolher uma entre as opções apresentadas (já que tinha recusado todas antes). Fiz o teste duas vezes, para testá-lo (acho que isso já dá prova do meu estado mental). Da primeira, saiu 8% para depressão e 0% para o resto. Da segunda, como as opções eram outras e tinha de escolher uma, optei pela mais inofensiva: sinto que estou no controle quando passo dias em dieta rigorosa, qualquer coisa assim (o que absolutamente não é o caso). Então saiu, claro, que tenho alguma desordem ligada à alimentação, 8% e 0% para o resto.
Ou seja, burlando ou não o teste, sofro de alguma desordem mental, porque sempre terei de dizer "sim" a uma situação doentia. :-)))
Melhor deixar prá lá.
Eis o resultado: ateísmo (96%), Budismo (63%), Satanismo (63%), agnosticismo (63%), Cristianismo (33%), Paganismo (33%), Judaísmo (25%), Hinduísmo (17%), Islamismo (17%).
No mesmo site há também um teste para saber que filosofia você segue (no meu caso deu hedonismo, com 90%, olha só!) e, ainda, que desordem mental você tem. Esse último é bem safado. Eu respondi 'disagree' para tudo (claro, se é um teste para saber se você tem alguma doença mental, a melhor resposta para cada situação doentia é o não). Só que aí apareceu uma janelinha me obrigando - sim, obrigando - a escolher uma entre as opções apresentadas (já que tinha recusado todas antes). Fiz o teste duas vezes, para testá-lo (acho que isso já dá prova do meu estado mental). Da primeira, saiu 8% para depressão e 0% para o resto. Da segunda, como as opções eram outras e tinha de escolher uma, optei pela mais inofensiva: sinto que estou no controle quando passo dias em dieta rigorosa, qualquer coisa assim (o que absolutamente não é o caso). Então saiu, claro, que tenho alguma desordem ligada à alimentação, 8% e 0% para o resto.
Ou seja, burlando ou não o teste, sofro de alguma desordem mental, porque sempre terei de dizer "sim" a uma situação doentia. :-)))
Melhor deixar prá lá.
Minha questão com as questões
O que considero o uso abusivo de questões tem me incomodado já há bastante tempo e pensei em escrever sobre isso, talvez como catarse; talvez, quem sabe, para convencer uma alma qualquer a ser comedida ao tratar de tantas questões e, assim, poupar ainda que modestamente meus ouvidos e meu fígado. Mas, ao começar, ocorreu-me que há tantas questões e tantos abusos em torno das questões que o melhor que eu teria a fazer, ao invés de protestar, era mesmo aderir à moda, ou seja, abusar também, e propor uma metaquestão inédita: a questão da questão.
É certo que as questões viraram questões com a preciosa ajuda de um intelectual. O habitat natural das questões é a academia, onde elas se multiplicaram e atingiram proporções inimagináveis. Fora do mundo intelectualizado, não há questões; há problemas. O desempregado não se preocupa com a questão do desemprego; via de regra, ele quer trabalhar. O esfomeado não se preocupa com a questão da fome; ele quer se alimentar. O sem-teto não se preocupa com a questão da falta de moradia; ele quer um teto. Entretanto, como os acadêmicos não são nem desempregados, nem esfomeados (salvo raras exceções), nem desabrigados, não há porque duvidar de que as questões tenham surgido no meio acadêmico, e isto é tudo que podemos dizer sobre a questão do histórico do problema.
Hoje tudo é questão. Há a questão do e-mail, a questão da internet, a questão do menor abandonado, a questão do maior abandonado, a questão do aumento da criminalidade, a questão do Lula, a questão do analfabetismo funcional, a questão do deficiente, a questão do Bin Laden, a questão do Bush, a questão da Palestina, a questão do juízo sintético a posteriori, a questão da reencarnação, a questão da saúde, a questão da doença,a questão dos animais, a questão dos E.T’s, e assim por diante. Há ainda, por incrível que pareça, a questão que se coloca a respeito da questão do imponderável, e essa é uma questão deveras importante, sobretudo para aqueles que estão envolvidos com a questão da religiosidade. Mas para estes também é importante compreender a questão do ateísmo.
Há questões fundamentais, questões relevantes, questões irrelevantes, mas é tudo uma questão de questão. É preciso, pois, que eu levante a questão de saber qual é a questão por trás da questão. Mas a pergunta fundamental, anterior a todas as outras, é: por que quero saber qual é a questão da questão?
Bem, não vou resolver a questão. Isso seria deselegante e, claro, deve-se levar em consideração a questão da prudência também, assim como a questão da boa convivência.
Em todo caso, que fique registrada a minha pequena contribuição à questão e, mais ainda, à profusão de questões, questionamentos rasos e absolutamente nenhum problema.
É certo que as questões viraram questões com a preciosa ajuda de um intelectual. O habitat natural das questões é a academia, onde elas se multiplicaram e atingiram proporções inimagináveis. Fora do mundo intelectualizado, não há questões; há problemas. O desempregado não se preocupa com a questão do desemprego; via de regra, ele quer trabalhar. O esfomeado não se preocupa com a questão da fome; ele quer se alimentar. O sem-teto não se preocupa com a questão da falta de moradia; ele quer um teto. Entretanto, como os acadêmicos não são nem desempregados, nem esfomeados (salvo raras exceções), nem desabrigados, não há porque duvidar de que as questões tenham surgido no meio acadêmico, e isto é tudo que podemos dizer sobre a questão do histórico do problema.
Hoje tudo é questão. Há a questão do e-mail, a questão da internet, a questão do menor abandonado, a questão do maior abandonado, a questão do aumento da criminalidade, a questão do Lula, a questão do analfabetismo funcional, a questão do deficiente, a questão do Bin Laden, a questão do Bush, a questão da Palestina, a questão do juízo sintético a posteriori, a questão da reencarnação, a questão da saúde, a questão da doença,a questão dos animais, a questão dos E.T’s, e assim por diante. Há ainda, por incrível que pareça, a questão que se coloca a respeito da questão do imponderável, e essa é uma questão deveras importante, sobretudo para aqueles que estão envolvidos com a questão da religiosidade. Mas para estes também é importante compreender a questão do ateísmo.
Há questões fundamentais, questões relevantes, questões irrelevantes, mas é tudo uma questão de questão. É preciso, pois, que eu levante a questão de saber qual é a questão por trás da questão. Mas a pergunta fundamental, anterior a todas as outras, é: por que quero saber qual é a questão da questão?
Bem, não vou resolver a questão. Isso seria deselegante e, claro, deve-se levar em consideração a questão da prudência também, assim como a questão da boa convivência.
Em todo caso, que fique registrada a minha pequena contribuição à questão e, mais ainda, à profusão de questões, questionamentos rasos e absolutamente nenhum problema.
Monday, April 11, 2005
Sunday, April 10, 2005
Estudo não é diversão
Há uma idéia generalizada de que o ensino, para ser eficiente, deve ser lúdico. Os alunos vão para a sala de aula esperando que o professor faça piadas, dê piruetas e seja engraçado. Quando isto não acontece, a aula é chata.
Essa mentalidade revela o desejo do aluno de ser “distraído” do conteúdo, como se estudo não fosse uma atividade séria, que exige muito esforço e dedicação.
Não tenho nada contra aulas divertidas. Tanto melhor que seja assim. O que não posso aceitar é que o professor tenha a obrigação de fazer rir, o que significa dizer que a responsabilidade pelo aprendizado é inteiramente de quem ensina. Dizer que o professor tem de ser engraçado é o mesmo que eximir o aluno de responsabilidade por seu próprio aprendizado, torná-lo passivo e pouco crítico.
Competência para divertir e distrair a audiência a gente exige de palhaços e apresentadores de programas de auditório, não de mestres. Essa inversão de papéis é nociva porque estudo não é entretenimento, e nem deve ser.
É claro, não estou afirmando que o estudo deva ser uma coisa chata, cansativa e monótona. Estou apenas chamando a atenção para o extremo oposto, quando a competência de quem ensina é medida por sua capacidade de agradar, divertir e entreter.
Essa mentalidade revela o desejo do aluno de ser “distraído” do conteúdo, como se estudo não fosse uma atividade séria, que exige muito esforço e dedicação.
Não tenho nada contra aulas divertidas. Tanto melhor que seja assim. O que não posso aceitar é que o professor tenha a obrigação de fazer rir, o que significa dizer que a responsabilidade pelo aprendizado é inteiramente de quem ensina. Dizer que o professor tem de ser engraçado é o mesmo que eximir o aluno de responsabilidade por seu próprio aprendizado, torná-lo passivo e pouco crítico.
Competência para divertir e distrair a audiência a gente exige de palhaços e apresentadores de programas de auditório, não de mestres. Essa inversão de papéis é nociva porque estudo não é entretenimento, e nem deve ser.
É claro, não estou afirmando que o estudo deva ser uma coisa chata, cansativa e monótona. Estou apenas chamando a atenção para o extremo oposto, quando a competência de quem ensina é medida por sua capacidade de agradar, divertir e entreter.
Saturday, April 09, 2005
Pecados no tapete da sala
Sabe aquela manchinha no tapete da sala, que não sai de jeito nenhum? Pois é, há uma explicação lógica para tudo, até para isso.
Não, não. Nada dessa história de que alguém inadvertidamente derramou algo no tapete, ele não foi lavado quando deveria, e agora a mancha não sai. Nada disso. A explicação é muito mais simples e muito mais lógica. Trata-se da mancha do pecado, que só pode ser removida pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Duvida? Então clique no título.
Ou seja, a mancha não vai ser removida nunca, porque o sangue de Jesus já secou e desapareceu há tempos. Não está disponível nas prateleiras dos supermercados, na seção "produtos de limpeza". Vá por mim, nem adianta procurar. E, depois, não somos todos pecadores? Pois é.
Só não sei como explicar os tapetes que não têm manchas.
Em todo caso, aconselho nunca levar o tapete à lavanderia. Caso se atreva, não se esqueça de avisar que a manchinha deve ficar exatamente onde está, viu?
Ou será que você já deixou de pecar?
Não, não. Nada dessa história de que alguém inadvertidamente derramou algo no tapete, ele não foi lavado quando deveria, e agora a mancha não sai. Nada disso. A explicação é muito mais simples e muito mais lógica. Trata-se da mancha do pecado, que só pode ser removida pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Duvida? Então clique no título.
Ou seja, a mancha não vai ser removida nunca, porque o sangue de Jesus já secou e desapareceu há tempos. Não está disponível nas prateleiras dos supermercados, na seção "produtos de limpeza". Vá por mim, nem adianta procurar. E, depois, não somos todos pecadores? Pois é.
Só não sei como explicar os tapetes que não têm manchas.
Em todo caso, aconselho nunca levar o tapete à lavanderia. Caso se atreva, não se esqueça de avisar que a manchinha deve ficar exatamente onde está, viu?
Ou será que você já deixou de pecar?
Thursday, April 07, 2005
Ok, você venceu. Batata frita sagrada!
Já dizia Shakespeare que “há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia”. E não é que ele tinha razão? Há uma batatinha frita.
Explico: nos Estados Unidos alguém foi abençoado com o milagre da aparição de Cristo numa batatinha frita, talvez enquanto saboreava um lanche altamente calórico em um destes MacDonald’s da vida. Certamente não era uma destas tirinhas engorduradas, as tais French Fries. Só mesmo um milagre para alguém encontrar um rosto ali. Não; deve ter sido, com certeza, uma batatinha daquelas bem redondinhas, secas e achatadas, as Potato Chips (a distinção é relevante, tá?).
Mas o que quero saber mesmo é o seguinte: diante de um milagre tão extraordinário, o que terá feito o homem agraciado? Será que comeu a batata? Afinal, para que serve uma batata frita? Mas também pode ter pensado que isto é um sinal claro de que Jesus ama as batatas, ou o MacDonald’s, ou quem sabe a gordurinha localizada, ou o colesterol, ou até os americanos, já que essas coisas só acontecem por lá. Mas ele também pode ter examinado a porção inteira, procurando os rostos de Maria, João, José, Pedro etc. Não encontrando, será que procurou também nos pratos, copos, guardanapos, talheres? Ou simplesmente guardou a preciosidade para divulgação posterior, quando se tornaria conhecido como “o homem da batata frita sagrada”?
Certo, eu nunca vi Jesus em uma batatinha, mas eu sei por que. Primeiro, não sei que rosto Jesus tinha, então como saber se é mesmo ele? Depois, não tenho olhos para ver, nem ouvidos para ouvir. E, por último, sou descuidada demais. Sempre que comer batatinha frita, devo examinar uma por uma cuidadosamente, né? Vai que é Cristo...
Explico: nos Estados Unidos alguém foi abençoado com o milagre da aparição de Cristo numa batatinha frita, talvez enquanto saboreava um lanche altamente calórico em um destes MacDonald’s da vida. Certamente não era uma destas tirinhas engorduradas, as tais French Fries. Só mesmo um milagre para alguém encontrar um rosto ali. Não; deve ter sido, com certeza, uma batatinha daquelas bem redondinhas, secas e achatadas, as Potato Chips (a distinção é relevante, tá?).
Mas o que quero saber mesmo é o seguinte: diante de um milagre tão extraordinário, o que terá feito o homem agraciado? Será que comeu a batata? Afinal, para que serve uma batata frita? Mas também pode ter pensado que isto é um sinal claro de que Jesus ama as batatas, ou o MacDonald’s, ou quem sabe a gordurinha localizada, ou o colesterol, ou até os americanos, já que essas coisas só acontecem por lá. Mas ele também pode ter examinado a porção inteira, procurando os rostos de Maria, João, José, Pedro etc. Não encontrando, será que procurou também nos pratos, copos, guardanapos, talheres? Ou simplesmente guardou a preciosidade para divulgação posterior, quando se tornaria conhecido como “o homem da batata frita sagrada”?
Certo, eu nunca vi Jesus em uma batatinha, mas eu sei por que. Primeiro, não sei que rosto Jesus tinha, então como saber se é mesmo ele? Depois, não tenho olhos para ver, nem ouvidos para ouvir. E, por último, sou descuidada demais. Sempre que comer batatinha frita, devo examinar uma por uma cuidadosamente, né? Vai que é Cristo...
Monday, April 04, 2005
Erraram no genitivo
Em 2000 foi encontrada, no Paquistão, uma múmia adornada em ouro, bem conservada, com uma inscrição cuneiforme dizendo tratar-se da filha do Grande Rei Xerxes.
A descoberta abalou o mundo científico e ameaçou mudar a história da humanidade. Os persas, até onde se sabe, não mumificavam seus mortos ilustres. Como um seguidor de Zoroastro faria algo assim? Pensou-se que o rei persa talvez tivesse contratado embalsamadores egípcios para a tarefa, já que havia contratado escultores egípcios para adornar Persépolis, mas isso também parecia absurdo. Em todo caso, descobriu-se que a mumificação não podia ser obra dos antigos egípcios. Havia diferenças significativas. Restava saber se era obra dos persas.
Lá pelas tantas, um estudioso da escrita cuneiforme percebeu um detalhezinho insignificante, mínimo, sem importância alguma, na inscrição: na construção da frase "Rhodogune, do Grande Rei Xerxes filha" FALTAVA O SUFIXO NA PALAVRA REI QUE INDICAVA O CASO GENITIVO! Isto é, a frase, como estava, dizia mais ou menos o seguinte: "Eu sou Rhodogune, Grande Rei Xerxes filha". Nada de mais, né? Mas isso mudou tudo. Nenhum escriba persa cometeria um erro de gramática tão elementar. Conclusão? A múmia é falsa! Claro, podia não ser persa, mas ainda assim ser antiga. Então fizeram o teste com carbono 14. O que descobriram? Que a mulher mumificada havia morrido em 1996. Sim, 1996! Isso mesmo, a data é essa.
Como não se tratava de antiguidade, retiraram as bandagens e fizeram uma tomografia. Alguns indícios apontaram para a possibilidade de a mulher ter sido assassinada com o propósito de tornar alguém rico (se fosse verdadeira, a múmia valeria 30 milhões de dólares). Ou seja, o caso que exigiria uma revisão nos livros de história virou assunto de polícia.
Fiquei me perguntando, após ler sobre esse episódio, se a religião pode realmente tornar os homens melhores. Claro, a religião tem uma função política, mas nisto ela não está sozinha. O argumento de que as religiões são capazes de tornar os homens moralmente melhores só serve para elas. Mas será mesmo assim? Como pode um país profundamente religioso, quase teocrático, junto com o Irã (este, sim, uma teocracia), ser o maior ‘fabricante’ de múmias falsas do mundo? Ora, para haver múmias é preciso haver mortos. Para haver mortos, é preciso haver corpos mortos que, em princípio, deviam ser respeitados. Isso, sem falar na possibilidade horrenda de que pessoas sejam mortas para virar relíquias de colecionadores.
A descoberta abalou o mundo científico e ameaçou mudar a história da humanidade. Os persas, até onde se sabe, não mumificavam seus mortos ilustres. Como um seguidor de Zoroastro faria algo assim? Pensou-se que o rei persa talvez tivesse contratado embalsamadores egípcios para a tarefa, já que havia contratado escultores egípcios para adornar Persépolis, mas isso também parecia absurdo. Em todo caso, descobriu-se que a mumificação não podia ser obra dos antigos egípcios. Havia diferenças significativas. Restava saber se era obra dos persas.
Lá pelas tantas, um estudioso da escrita cuneiforme percebeu um detalhezinho insignificante, mínimo, sem importância alguma, na inscrição: na construção da frase "Rhodogune, do Grande Rei Xerxes filha" FALTAVA O SUFIXO NA PALAVRA REI QUE INDICAVA O CASO GENITIVO! Isto é, a frase, como estava, dizia mais ou menos o seguinte: "Eu sou Rhodogune, Grande Rei Xerxes filha". Nada de mais, né? Mas isso mudou tudo. Nenhum escriba persa cometeria um erro de gramática tão elementar. Conclusão? A múmia é falsa! Claro, podia não ser persa, mas ainda assim ser antiga. Então fizeram o teste com carbono 14. O que descobriram? Que a mulher mumificada havia morrido em 1996. Sim, 1996! Isso mesmo, a data é essa.
Como não se tratava de antiguidade, retiraram as bandagens e fizeram uma tomografia. Alguns indícios apontaram para a possibilidade de a mulher ter sido assassinada com o propósito de tornar alguém rico (se fosse verdadeira, a múmia valeria 30 milhões de dólares). Ou seja, o caso que exigiria uma revisão nos livros de história virou assunto de polícia.
Fiquei me perguntando, após ler sobre esse episódio, se a religião pode realmente tornar os homens melhores. Claro, a religião tem uma função política, mas nisto ela não está sozinha. O argumento de que as religiões são capazes de tornar os homens moralmente melhores só serve para elas. Mas será mesmo assim? Como pode um país profundamente religioso, quase teocrático, junto com o Irã (este, sim, uma teocracia), ser o maior ‘fabricante’ de múmias falsas do mundo? Ora, para haver múmias é preciso haver mortos. Para haver mortos, é preciso haver corpos mortos que, em princípio, deviam ser respeitados. Isso, sem falar na possibilidade horrenda de que pessoas sejam mortas para virar relíquias de colecionadores.
Sunday, April 03, 2005
Yes, nós assistimos ao Big Brother
Como esse é mesmo o lugar do patético, vamos ao Big Brother.
Na semana passada o país assistiu e participou ativamente de um programa de quinta, com votação de quinta. Todas as vezes em que meu controle me levou ao Big Brother, o professor baiano estava chorando. É verdade que não havia uma grande decisão a tomar, nada que afetasse o destino do país, mas ainda me espanta ver nossa infinita capacidade de confundir lágrimas com sinceridade e de achar que quem chora merece colo. Lembrei dos comerciais da Bombril, com aquela figurinha franzina, falando que vai perder o emprego se a matrona que o assiste não comprar o produto que ele vende. Os anos em que o comercial ficou no ar, com o mesmo apelo emocional, prova o quanto ele é eficiente. Chore, identifique-se como minoria, mostre-se um coitadinho sofredor em um mundo cruel, e eis a vitória. Gente, o que é isso? Peste emocional às avessas?
Um viva às lágrimas! Afinal, o que mais há para se dizer? Yes, nós assistimos ao Big Brother! Yes, nós vimos o coitadinho chorar! Yes, nós vimos o coitadinho levar a bolada! Yes, nós lemos a reportagem de duas páginas da Veja! Yes, nós temos um herói nacional, que sobreviveu à sordidez com lágrimas! Yes, ele vai a Paris! Yes, ele vai escrever outro livro! Yes, ele vai vender! Yes!
Na semana passada o país assistiu e participou ativamente de um programa de quinta, com votação de quinta. Todas as vezes em que meu controle me levou ao Big Brother, o professor baiano estava chorando. É verdade que não havia uma grande decisão a tomar, nada que afetasse o destino do país, mas ainda me espanta ver nossa infinita capacidade de confundir lágrimas com sinceridade e de achar que quem chora merece colo. Lembrei dos comerciais da Bombril, com aquela figurinha franzina, falando que vai perder o emprego se a matrona que o assiste não comprar o produto que ele vende. Os anos em que o comercial ficou no ar, com o mesmo apelo emocional, prova o quanto ele é eficiente. Chore, identifique-se como minoria, mostre-se um coitadinho sofredor em um mundo cruel, e eis a vitória. Gente, o que é isso? Peste emocional às avessas?
Um viva às lágrimas! Afinal, o que mais há para se dizer? Yes, nós assistimos ao Big Brother! Yes, nós vimos o coitadinho chorar! Yes, nós vimos o coitadinho levar a bolada! Yes, nós lemos a reportagem de duas páginas da Veja! Yes, nós temos um herói nacional, que sobreviveu à sordidez com lágrimas! Yes, ele vai a Paris! Yes, ele vai escrever outro livro! Yes, ele vai vender! Yes!
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