Wednesday, February 23, 2011

Mudança de endereço

Prestes a completar seis aninhos de existência (cá entre nós, idade avançada para blogs), e após um longo período em coma, o Peri-Patético está migrando, a convite, para o endereço http://peri-patetico.opsblog.org.

Clique no título deste post e será encaminhado automaticamente para o novo endereço.

Desconfio que por lá não será possível publicar uma vez por ano. :-))

Bem. Endereço novo, casa nova, template novo e novo fôlego.

Não imaginava que o pateco pudesse ir tão longe, mas acho que grudei nele e vou ter de assumir. :-))

Wednesday, January 19, 2011

Assim e assim

Colotes diz contra Demócrito que ele, afirmando que cada uma das coisas não é mais assim do que assim, confunde a vida. Mas Demócrito está tão longe de pensar que cada uma das coisas não é mais assim do que assim que lutou contra Protágoras, autor de tal afirmação (...). (Demócrito, fragmento 156).

É vero...

Monday, January 17, 2011

O umbigo da terra

A terra tem umbigo, com toda certeza. É mulher, mãe, esposa. Em poucas palavras, é um ser humano divino. Logo, tem umbigo.

A pergunta é: onde está o umbigo da terra?

Demócrito de Abdera, o filósofo do átomo, responde: o umbigo da terra, o centro do mundo, está em Delfos, na Beócia, Grécia Central (fragmento 15).

Então, resumindo: o mundo é grego, e seu centro é uma região mais ou menos central no território da Grécia Continental.

Faz sentido.

Friday, January 14, 2011

Morte aos ateus

John Locke, o filósofo, viu acontecer a luta entre Carlos I e o parlamento, que resultou na ascensão ao poder de Oliver Cromwell, a guerra civil e a revolução burguesa. Em meio a isto tudo, vivenciou disputas religiosas em que a intolerância era a palavra de ordem.

Nada mais natural que escrevessse sobre a tolerância... sendo intolerante.

Locke queria vencer a intolerância religiosa com um pouco de racionalidade, mas só um pouquinho, porque defendia que todos os cristãos deviam praticar a tolerância entre si. Apenas entre si. Os ateus "não podem ser de todo tolerados", porque "negam o ser de Deus". O ateu, diz Locke, não é humano, porque nega os valores humanos. Assim, matar um ateu não é um ato desumano.

Mas, claro, um luterano deve aprender a conviver com seu irmãozinho calvinista e seu priminho católico.

Eu até tentei, mas não há como desculpá-lo alegando contexto histórico. Hobbes era contemporâneo de Locke.

Sunday, January 09, 2011

O poodle de Schopenhauer

Schopenhauer gostava de animais com a mesma paixão com que desgostava dos homens. Tinha sempre um cachorro poodle, a que dava o mesmo nome, Atma.

Certo.

A minha surpresa foi descobrir que há um livro intitulado "O poodle de Schopenhauer".

Difícil é imaginar assunto para 196 páginas.

Tuesday, January 04, 2011

Bebê a bordo

A solução para todos os problemas relacionados ao trânsito, absolutamente todos, é bem simples, segundo Paul Ramsey, teórico da ética.

Aliás, simples, fácil, rápida e 100% eficaz.

Consegue imaginar qual seja?

Aposto que não.

Ramsey diz que, para controlar o trânsito, basta amarrar um bebê no pára-choque de cada carro. Imagine todo mundo dirigindo com o máximo do máximo de cuidado para não ferir ou matar o bebê, o seu e os dos outros.

Nas palavras de Ramsey, citado por Michael Walzer, em Guerras Justas e Injustas: "Suponhamos que num feriado longo do Dia do Trabalho ninguém morresse nem ficasse mutilado por acidentes nas estradas, e que o motivo para a extraordinária moderação aplicada à irresponsabilidade de motoristas de automóveis decorresse de todos eles de repente terem descoberto que estavam dirigindo com um bebê amarrado no pára-choque dianteiro".

Ramsey quer demonstrar que não basta a eficácia quando se quer resolver um problema. A solução, além de eficaz, deve ser também humana e decente.

É vero.

Sunday, January 02, 2011

Q *roga

Acompanhei, recentemente, a entrevista de Marília Gabriela ao astrólogo Oscar Quiroga, dono da cadeira de Letras Astrológicas de um lugar qualquer. É sério.

Foi uma experiência marcante. Quiroga afirmou, entre outras coisas, que "o dinheiro é uma entidade simbólica que serve para medir as relações entre os homens e a natureza".

Assim mesmo.

Disse também que no Brasil de algum tempo atrás, quando alguém era assaltado, podia negociar com o assaltante, o que não acontece mais.

Assim mesmo.

Quiroga também profetizou que o dinheiro vai desaparecer.

Assim mesmo.

Ah, disse também que quando o swing do coração tende a desaparecer, o resultado é a destruição.

Assim mesmo.

Mas nossos avatares são capazes de nos salvar.

Assim mesmo.

Tudo, claro, obra de Deus. Inclusive os avatares.

Para finalizar, uma definição: a astrologia é um modo de espionar os desígnios do Altíssimo.

Assim mesmo. Juro.

Puxa, confesso que fiquei tonta com tanta informação. O entrevistado esclarece: "É preciso aprender a pensar".

Ah, tá. E acrescento: também é bom dar uma passadinha na locadora e locar Avatar, aquele filme do James Cameron. Você vai entender tudo isso muito melhor.

Clique no título deste post e veja o vídeo. Ou quase.

Antes tarde que nunca

A quem possa interessar, após um ano e meio quase sem postar, estou retornando a este espaço. Ao menos, é esta a minha intenção.

Tuesday, August 03, 2010

Santo Patrono da Filosofia

Comecei a ler o livro "Ética", de William K. Frankena, e desisti logo nas primeiras páginas. Não posso levar a sério um livro que se refere a Sócrates como o "santo patrono da filosofia moral" (p. 13).

Sócrates é mesmo um santo. Viveu pela filosofia. Morreu pela filosofia. E defendeu a morte da vida pela vida da morte, como Cristo. Como Cristo, foi mártir.

Lindo, mas e a filosofia?

E a reflexão crítica? Parou aí, no conveniente?

Que os santos Sócrates, Platão e Hegel me perdoem, mas não tenho mais paciência para essa confusão entre filosofia e religião, seja explícita ou velada.

Sunday, August 01, 2010

A hora e a vez do History

Pelo visto, pérolas não são privilégio do Discovery Channel. Nesse quesito o History Channel também vai muito bem obrigado.

Na "Semana do Desconhecido" entrevistou-se ninguém menos que Erich von Daniken, o renomado charlatão que escreveu "Eram os deuses astronautas?". Para falar de alienígenas, claro.

Ele fez jus à fama: "Está escrito no DNA humano que extraterrestres passaram por aqui".

Ah, tá.

Pelo andar da carruagem, acho que nem o download salva.

Tuesday, July 27, 2010

Viciados em escândalos

Ainda sobre o documentário "Escândalos da Antiguidade".

Entendi quase tudo.

Entendi que a cidade de Tebas na época de Hatshepsut e Ramsés III tinha prefeito.

Entendi que havia vizir, inflação alta e desemprego no Egito Antigo.

Entendi isso tudo.

Só não entendi uma coisa.

Para provar que a rainha Hatshepsut promovia orgias reais, uma egiptóloga ou coisa que o valha mostrou uma inscrição em hieróglifo que, segundo afirmou, dizia "Navegar pelos pântanos". E conclui, brilhantemente: "Isto é claramente uma metáfora para o sexo".

Como assim, cara pálida?

Juro que não entendi, mas peço encarecidamente que ninguém me explique.

Sunday, July 18, 2010

Falta de inteligência

Definitivamente, a Discovery está se superando. Assisti recentemente ao documentário "Escândalos da Antiguidade" e fiquei sabendo, entre outras pérolas, que as múmias egípcias de 1.400 a.C. usavam cocaína.

É verdade que não exatamente as múmias, mas faz mesmo diferença?

E então, a melhor parte: como a cocaína só existia na América do Sul, é claro que os egípcios vinham buscá-la no Peru. Repito, 1.400 a 1.800 anos antes de Cristo.

Parece brincadeira, mas não é.

Claro, trata-se de teoria para justificar o fato de que uma pesquisadora alemã decidiu procurar cocaína nas múmias e aparentemente encontrou.

Bem. As múmias usavam cocaína antes de virar múmias. Conclusão lógica: havia uma rede internacional de fornecimento da droga, que incluía viagens ao Peru.

É uma completa falta de inteligência.

Por que não enviavam por sedex?

Muito mais rápido e barato.

Saturday, June 19, 2010

Tom professoral

Diz Robin Waterfield, em "The first philosophers", que não há educação sem pedagogia, e toda pedagogia é retórica.

Trocando em miúdos, não há educação, nem pedagogia. Só retórica.

Será?

Refletindo melhor, se pedagogia é retórica, há educação, porque aprende-se com a retórica alheia, mesmo que seja retórica.

Afinal, o que mais há para se aprender, quando a pedagogia é retórica?

Má retórica = má pedagogia.
Boa retórica = boa pedagogia.

Tudo isso me soa como uma visão demasiadamente simplista do problema em pauta. A questão pede uma abordagem aprofundada de seus desdobramentos possíveis, que não podem ser ignorados, sob pena de incorrermos na visão simplista e simplificadora enunciada acima. Há que se considerar o fato de que a retórica é frequentemente condição de possibilidade do engano, e não do aprendizado eficaz, que tem em vista o verdadeiro conhecimento. Este, sim, deve ser o objetivo precípuo de toda pedagogia que se quer pedagogia, e não retórica.

O que será tudo isso, senão exercício retórico?

Alguém se importa?

Friday, June 18, 2010

Auto-engano

Exercício físico não é minha praia. Na verdade, detesto. Sinto-me um robozinho repetindo séries de exercícios programados e cumprindo obedientemente com o meu dever cívico de ratificar a máxima de que envelhecer não é natural. A continuar assim, quando tiver setenta anos vou acreditar piamente que essa é a melhor idade.

Hoje, surpreendentemente, tive energia suficiente para exceder nas séries e estender o tempo de exercício em meia hora. Meia hora.

Fiquei feliz. Enfim, estou vencendo essa barreira.

Então estraguei tudo ao entender por que me senti tão disposta hoje a fazer o que detesto: deveria estar escrevendo a tese.

Na circunstância atual, qualquer coisa (qualquer outra coisa, bem entendido) tem grande potencial para me deixar feliz.

Até malhar.

Thursday, June 17, 2010

Teste vocacional

Testes vocacionais são uma farsa.

Quando cursava o segundo grau, eu sabia exatamente o que me interessava no mundo e o que queria ser. Diferentemente dos meus colegas, ou da esmagadora maioria, eu sabia que curso superior queria fazer.

No último ano do segundo grau, uma psicóloga visitou a escola e fez um teste vocacional com todos nós. O resultado, para mim, confirmou o que eu já sabia: marcante interesse por artes, literatura e ciências humanas em geral.

Errado.

Acho as meias palavras e a falta de clareza irritantes. Nunca tive a menor afinidade com poesia, ou com uma visão poética de mundo, e sabia disso. Mas o teste me pareceu exato, na ocasião. É isso mesmo, o mundo está em ordem e posso seguir placidamente o doce caminho em direção à minha grande e inegável vocação: o curso de Letras.

Erro.

Pelo menos a literatura me levou à filosofia.

No curso de filosofia, encontrei a lógica, e descobri que estava no curso errado.

De novo.

A filosofia é apaixonante quando lida com problemas teóricos de forma clara e despretensiosa, mas pode ser também um festival de lugares-comuns, obscuridades literárias, romantismos tolos e metáforas. Com frequência, não passa de uma religião disfarçada. Religião do discurso articulado, da visão de mundo percebida como correta, religião da verdade eu-fulano-de-tal-brilhante-por-entender-o-filósofo-tal-brilhante-e-dificílimo. Religião do auto-apaixonamento.

Talvez, se não tivesse começado com tantas certezas sobre minha vocação, não teria tantas dúvidas agora.

Talvez as dúvidas sejam apenas parte de um processo que não posso e não quero deter e que não me levará a lugar algum.

Só me deixará eternamente insatisfeita, o que me parece bastante satisfatório.

Tuesday, June 15, 2010

Teimosia

Noël Carroll, em A filosofia do horror, agradece aos pais por ter insistido que não perdesse tempo assistindo a filmes de terror. Parte de seu interesse pelo gênero, o autor parece sugerir, veio do fato de ignorar esse conselho.

Quando criança, assistia a filmes de terror de madrugada, para que meus pais não soubessem. O gênero era proibido, o que o tornava mais interessante. Mas, diferentemente de Carroll, confesso que não aproveitei nada da experiência. Acho mesmo que foi pura perda de tempo.

Os filmes perderam a capacidade de assustar. Ficaram ridículos. Há algo de infantil em querer assustar, e em deixar-se assombrar pelo imaginário. Por este imaginário, ao menos.

Ainda assim, insisto em assistir a filmes de terror. Ao final, sempre me pergunto que parte obscura de mim quer sentir medo, e por que me sinto tão frustrada em não me assustar mais com filmes.

Bem.

Seja como for, ainda gosto do gênero. Não dos filmes exatamente, mas do gênero.

Afinal, para quem comete o sacrilégio de preferir Green Jelly a Chico Buarque, filme de terror está de bom tamanho.

Monday, June 14, 2010

Mutatis mutandis

Passei por uma experiência libertadora hoje.

Trabalhei, há vários anos atrás, no serviço público federal. Saí porque tinha ambições intelectuais que o trabalho não poderia satisfazer, e que não poderia realizar plenamente se continuasse ligada a uma atividade de oito horas diárias e que me oferecia apenas tarefas burocráticas. Apesar disso, eu gostava muito do que fazia, assim como dos colegas e do local de trabalho.

Até hoje, sempre considerei esta decisão um grande erro. Por melhor que seja minha atividade atual, não me garante estabilidade. Passaram-se quase duas décadas em que lamentei a decisão, e há pouco havia decidido fazer o caminho de volta e me preparar novamente para concursos. Talvez a inconstância seja parte de minha natureza.

Bem, hoje fiz uma espécie de passeio pelo antigo local de trabalho. A primeira impressão forte que tive é que o espaço físico era menor do que me lembrava. Encontrei algumas pessoas com quem trabalhei, observei a rotina do trabalho e percebi que morreria de tristeza se ainda estivesse lá.

Tudo continua como dantes no país de abrantes. Mesmas pessoas, mesmas funções. Até os elevadores são os mesmos do tempo em que trabalhei ali. Mesma reivindicação da associação dos trabalhadores. Mesma motivação marxista-leninista de quase vinte anos atrás.

Não acho que algo deveria ter mudado. O problema é que eu mudei.

Somente hoje, depois de tanto tempo, entendi que a minha decisão foi acertada, apesar das insatisfações que possa ter com meu trabalho atual.

Felizmente abandonei um trabalho imutável, em todos os sentidos.

Por mais que a mudança seja desestabilizadora, atrever-me a me mover foi a melhor coisa que fiz na vida.

Sunday, June 13, 2010

Singer

O que mais aprecio em Peter Singer, o filósofo australiano, é sua defesa dos direitos dos animais.

Um dos argumentos mais comuns em defesa do uso de animais para alimentação humana é que eles não têm inteligência.

Singer contra-ataca: se a suposta ausência de inteligência serve de argumento, então é mais coerente deixar vivo um cavalo adulto e engordar um bebê humano de dois meses. Afinal, o cavalo adulto é muito mais inteligente que o recém-nascido humano.

Mas, bem entendido: não se trata de matar a criança. Trata-se de mostrar como o argumento é fraco.

No fim das contas, matar um ser vivo para nos alimentar dele não é moralmente correto. A única razão para agirmos assim é estética, o que é uma razão torpe, no contexto.

Saturday, June 12, 2010

Chave de cadeia

E por falar em democracia, alguém pode me explicar o que aconteceu com Oliver Stone?

Foi abduzido por um ET?

Comeu alguma coisa estragada?

Sofreu um acidente quando criança e perdeu massa encefálica?

Oliver Stone, o cineasta de The Doors, Platoon, Alexandre, Evita e outras porcarias do gênero, resolveu agora fazer um filme sobre Hugo Chávez. Para Stone, Chávez é um visionário, que devolveu a América Latina à esquerda, libertando-a do FMI. Um herói.

Herói? Chávez?

Visionário?

Libertador?

Em que século esse cidadão está vivendo?

E eu ainda escrevia, há algum tempo atrás, que perdemos a inocência.

É lindo ver um adulto assim tão cândido, tão jovial. Deve dormir abraçado a um ursinho de pelúcia.

Afinal, pagando bem, que mal tem?

Friday, June 11, 2010

Simpliciter

Participei recentemente de um juri de filosofia. O debate era sobre democracia. Os debatedores deveriam defender, de um lado, que há democracia no Brasil e, de outro, que não há.

Embora o papel da banca fosse apenas votar, foi solicitado que nos manifestássemos sobre o tema, ao final. Éramos cinco e, com exceção de uma colega, que afirmou existir democracia no Brasil em termos teóricos, mas não em termos práticos, os demais se manifestaram contra a idéia de que há democracia no Brasil.

Basicamente, o que define a democracia, hoje?

a) participação do povo no governo, de forma direta ou indireta;
b) respeito às liberdades individuais.

Se esta definição é correta, então há democracia no Brasil, o que me parece bastante óbvio. Nós votamos e qualquer um, a rigor, pode se filiar a um partido e participar ativamente da política. Há liberdades individuais: liberdade de expressão, de ir e vir, religiosa, econômica etc. etc.

Então, que bobagem é essa de achar que não vivemos numa democracia?